Português | English

Cartas

VIVENDO ENTRE O POÇO DE JACÓ E A ÁGUA VIVA

VIVENDO ENTRE O POÇO DE JACÓ E A ÁGUA VIVA

-----Original Message-----

From: VIVENDO ENTRE O POÇO DE JACÓ E A ÁGUA VIVA

Sent: quinta-feira, 27 de maio de 2004 00:03

 To: contato@caiofabio.com

Subject: TEMPESTADE EM COPO DÁGUA...

 

Caro Pastor, o sentimento que eu tenho é de interminável busca...

Há um tempo atrás eu pensava que uma pessoa convertida realmente não precisaria tomar anti-depressivos; e hoje eu estou tomando... Assim que as crises de depressão e enxaqueca começaram, há um pouco mais de 1 ano, eu esperava que fossem passageiras, só uma fase...me enganei outra vez. Cheguei ao ponto de não agüentar mais; aí minha mãe me levou num médico de sua confiança.

Resultado: Estou finalmente melhor, mas á base de remédios...há um pouco mais de 2 meses.

Vou tentar resumir ao máximo: Quando estávamos na Igreja X, minha filha mais velha me pediu pra fazer um piercing no umbigo. Como meu marido não gostou da idéia, fomos falar com nosso pastor, que era um bispo jovem. Ele deu a maior força, mostrando na Palavra que não tinha nada de mal em fazer piercing e tatuagem, desde que fosse de bom gosto, respeitando os cuidados de higiene, escolhendo com quem e aonde fazer, etc. Então, fomos com ela; e tudo ficou numa boa. Ela ficou super feliz! Depois disso, muitas águas rolaram... Pra falar mais sério, apesar de tudo, ainda morro de saudades...de tudo e de todos de lá, todos os dias...na Igreja X. Mas, como já lhe disse na outra carta, nós saímos de lá por razões muito desagradáveis. Quando nós saímos da Igreja X, começamos a visitar outras igrejas. Afinal de contas, não queríamos "ficar sem cobertura espiritual"...Estávamos freqüentando uma comunidade, dessas internacionais brasileiras.

 

Minha filha mais velha voltou a namorar um menino que também era da Igreja X, e que por nossa influência também havia saído de lá. Ela já tinha se decepcionado com ele antes; mas resolveram voltar. Eu e meu marido demos a maior força, pois achávamos que por ele ser da "igreja", apesar de já ter aprontado com ela (havia traído-a várias vezes antes), era uma garantia de dar certo; estaríamos protegendo-a do mundo... AMARGO ENGANO!!!

Bem, então , ele vivia (maneira de falar) aqui em casa; se mostrava muito carente, pois vinha de uma família desestruturada, complicada—apesar de serem evangélicos também—, limitados, sem recursos financeiros, e muitas vezes sem comida. Meu marido, com pena dele, praticamente o adotou; o levávamos pra cima e pra baixo... Minha filha resolveu entrar para o coral da comunidade que estávamos freqüentando. Ficamos animados.

Numa bela tarde, na reunião do coral, a dirigente soltou essa na frente de todos:"Voces imaginam que entre nós aqui tem uma irmãzinha que tem um piercing no umbigo? Pois é, meus irmãos, quem tem um piercing no umbigo quer seduzir...!" Fiquei passada, sem saber o que fazer, com vontade de pular no pescoço dela; afinal, ela estava falando da minha filha; mas segurei a onda e fiquei quieta. Depois disso, minha filha não quis mais participar do coral; eu a apoiei, e também saí. Fomos até conversar com o pastor de lá, mas já estávamos desanimadas... Acabamos perdendo a vontade de ir e saímos de lá.

Nesse ínterim começamos a visitar uma outra igreja, uma mistura da primeira com a segunda igreja, e é uma igreja dessas de mídia. Enquanto isso, o namoro da minha filha foi ficando mais íntimo; nós tentávamos puxar o freio; o menino não queria NADA COM A HORA DO BRASIL; ela estava tirando notas baixas; e ele, apesar de já ter 20 anos, não queria trabalhar nem gostava de estudar... Ficava o dia inteiro na praia. Como já tinha repetido de ano várias vezes, estava fazendo um curso pré-vestibular pago com muitas dificuldades; e a contra-gosto do pai... Resolvemos impor limites; e isso gerou um desconforto; pois ele não queria" perder o terreno". Ele se fazia de vítima pra ela. Resumo da ópera: Acabaram transando escondido. Ela era virgem; ele não (isso a gente já sabia).

Demoramos alguns meses para descobrir. Não esperava que ela me escondesse; mas talvez por medo da reação do meu marido, eles preferiram nos esconder. A única coisa que ela me sinalizou foi através de uma conversa na qual me disse que o seu namorado achava que não era pecado transar antes de casar, mas que ela discordava dele. Quando descobrimos foi como uma bomba; e ele primeiro mentiu cinicamente, jurando por Deus que nem estivera com ela naquela manhã!!! Isto faz três meses. Ela acabou nos confessando...foram uns dias horríveis.

Meu marido telefonou pro bispo responsável pela igreja, e fomos lá conversar pessoalmente. O bispo já estava a par da situação, pois algumas semanas antes eu havia lhe falado sobre os “sinais”, e da minha desconfiança. Ele nos aconselhou a proibirmos o namoro e a cortarmos qualquer contato entre o menino e ela. Obedecemos. Meu marido concordou plenamente; estava com muita raiva. Após alguns dias ela tentou falar com o menino. Descobri e discutimos. No princípio ela não queria terminar, dizendo que o amava. Eu não sabia como agir. Se deixasse, estaria sendo conivente; se proibisse, ela mentiria e se encontrariam escondidos...Assim, me aconselhei com uma pastora da mesma igreja e acabei permitindo que ela voltasse com ele.

Aí...pouco tempo depois, ela mesma desistiu. Que alívio eu senti! Fomos então orientados pelo bispo a fazer uma terapia familiar, com uma irmã que é psicóloga e terapeuta familiar.Estamos fazendo. Apesar de já ter feito análise quando não era convertida, nunca vi este método de “genealogia psicológica”. Pois bem, fizeram o exame do meu marido; e então disseram que ele por ter saído de casa há 20 anos, e nunca ter visitado os pais, ele era mal resolvido; tinha fugido, e estava repetindo a história do pai, que era alcoólatra, e falido.

Então disseram que ele teria que ir na casa da mãe, em outro estado, o mais rápido possível, e pedir perdão pessoalmente; e também ir até ao cemitério aonde está sepultado o pai dele, e se despedir; já que quando o pai morreu, ele não foi lá; que ele precisa ir lá para romper o vínculo. Não senti paz. Afinal de contas, essa sangria desatada, pra quê?

Nós falamos com a mãe e as irmãs dele regularmente, por telefone; temos um relacionamento normal; realmente seria ótimo nós visitarmos lá, mas quando pudermos... Meu marido fala que saiu de lá pra fugir das drogas, que estava até se picando; até já fizemos planos para ir lá várias vezes depois que nos convertemos, mas ainda não deu.

As terapeutas da igreja disseram que ele tinha que dar um jeito de ir, mesmo se fosse sozinho. Acontece que como estamos com dificuldades financeiras; e nosso trabalho é do tipo: se não trabalharmos e vendermos não ganhamos— estávamos esperando os negócios melhorarem. Eu orei e sinceramente não concordei que fosse sensato deixar tudo aqui pra resolver isso lá. E realmente o dinheiro não pintou. Então, na próxima sessão com as duas, nós falamos que não tínhamos condições; então elas falaram que ele tinha que falar com a mãe no telefone, pedir perdão, pedir pra ela abençoar ele, e o liberar pra ser feliz. Ora, meus pais moram aqui e sou filha única; ainda estava muito ligada a eles; e tinha que lhes pedir perdão pelos meus erros, e pedir a benção?

Minha mãe falou: "Já tá tudo certo; você sempre nos deu e nos dá muitas alegrias! Não tem essa; nós já nos perdoamos; mas, se isso fizer você se sentir bem, tudo bem." Por desencargo obedeci e pedi a benção deles. Bem, quanto á minha filha mais velha, ela mudou de grupo de discipulado, pois fazia junto com o ex-namorado; e realmente já levou susto com o líder do grupo; pois rolou um papo machista que ela é que teria feito o namorado cair em tentação! Ficou arrasada; mas graças a Deus, abriu os olhos. Hoje ela está num outro grupo de discipulado, mais perto aqui de casa, e a líder é uma menina carinhosa, um pouco mais velha que ela.

Tem um amigo dela do colégio que é “a fim” dela há 2 anos. Ela me perguntou o que eu achava dela sair com ele. Se eu achava que era errado por ele não ser da "igreja". Disse que não via nada demais, desde que ela pegasse leve, e guardasse o coração.Ela tem ido com ele ao cinema; me contou que já rolaram uns beijinhos. Ela está melhorando... apesar do ressentimento com o ex- namorado e com o ex-grupo de discipulado.

É isso aí, Caio! Desculpa por ter escrito tanto! Ninguém sabe que te contei tudo isso...

Agradeço mais uma vez a sua ajuda, e peço que se você quiser publicar esta cartona, omita os detalhes, pois poderia complicar pro meu lado.

Estamos pensando em fazer uma visita ao Café. Assim que puder me responda, tá?

Fiquei super feliz quando recebi suas resposta!

Um grande abraço,

____________________________________________________________

 

Resposta: Minha querida irmã: Viva em paz!

Fiquei lendo a sua carta e pensando em como é possível fazer tempestade em copo d’água!

De fato, vocês não têm problema algum que não faça parte do cotidiano mais simples de todas as famílias da terra. E mais: seus problemas são o sonho de consumo de 90% dos pais e famílias que eu conheço.

A história de vocês apenas demonstra o poder desconstrutivo que uma “igreja” pode ter sobre a normalidade da existência. Conheço bem as três igrejas mencionadas, desde a fundação delas; e conheço seus principais líderes nacionais desde antes de sonharem em ser as pessoas nas quais hoje se tornaram.

De fato, as três igrejas vivem de criar problemas para, então, “resolverem”; pois é da “solução”—ainda que inventada—que eles sobrevivem. Vocês são uma família normal, com as dificuldades que todo mundo tem; e com um monte de coisas boas que nem todos possuem. Se vocês estivessem numa igreja que ensina o Evangelho, tudo se resolveria entre vocês, e conforme a própria consciência, sem intervenções, com simplicidade e naturalidade.

O que tenho a lhe dizer, objetivamente, é o seguinte:

 1. Não namore junto com sua filha. Nem você nem seu marido. Namoro tem que ser namoro. Esse negócio de “adotar namorado” (a) é sempre fria. Os namorados (as) dos filhos da gente têm que ganhar espaço...com o tempo. E os filhos devem nos fazer participantes de suas vidas buscando conselho; e nós, os pais, devemos olhá-los com a sabedoria que ensina a viver; não com na tentativa de poupá-los da vida.

2. As questões de seu marido já foram resolvidas na Cruz. E perdão de quem morreu, a gente assume, pela fé, em Jesus. Em Jesus sou perdoado dos erros que não podem mais ser remendados, senão na própria continuidade da vida; mostrando as mudanças através de boas ações com os que estão vivos, não com os mortos. O envio de seu marido ao Cemitério foi patético e semi-espírita, por mais que se “evoque o ato como simbolização”, não justifica, visto que trata-se de uma “macabra simbolização”, e que carrega consigo o poder de desenvolver medo, superstição, e enfraquecimento da consciência pessoal de vínculo com Deus, deixando as pessoas sempre na suspeição de que alguma “dívida antiga” pode arruinar a vida de quem já está perdoado em Cristo. O lugar onde essas coisas existem é no coração, não no cemitério; e é nele que onde as coisas são resolvidas. O que lhes foi recomendado, de acordo com a Epístola aos Hebreus, é a ressurreição das “obras mortas”; ou seja: é exumação de defuntos que foram sepultados com Cristo, e de cujas sombras e medos fantasmagóricos, já fomos libertos.

3. As igrejas por onde vocês passaram são praticamente iguais em seus conteúdos de ensino. Todas as três, a médio prazo, são fria na certa. Digo isto porque você é apenas parte de centenas e centenas de histórias que me chegam há anos...e todos os dias...praticamente. Portanto, procurem uma igreja menos complicada e freqüentem-na em paz. Vocês deveriam andar de joelhos, agradecendo que os problemas de vocês são só esses. E se tudo o que existe é isso, sinceramente, não vejo porque vocês se submeterem a qualquer terapia familiar. Tudo o que você me disse deveria ter sido tratado e resolvido na maior tranqüilidade.

 

Fiquem em paz, e sem dívida. Está tudo pago. Agora, aproveitem a libertação; e não se façam escravos de homens.

 

Com relação a você, preocupou-me muito a introdução da sua carta, e que diz o seguinte: “Caro Pastor, o sentimento que eu tenho é de interminável busca...Há um tempo atrás eu pensava que uma pessoa convertida realmente não precisaria tomar anti-depressivos; e hoje eu estou tomando...”

Ora, a sua confissão carrega a própria resposta que você busca. É só inverter a confissão que você mesma entende. Veja: Há um tempo atrás eu pensava que uma pessoa convertida realmente não precisaria tomar anti-depressivos; e hoje eu estou tomando...o sentimento que eu tenho é de interminável busca... Você está na busca ainda, e sua depressão é porque venderam a você um milagre existencial que não existe. Portanto, sua depressão não vem “da busca”, mas do desapontamento ante o que lhe prometeram como “solução”, e que sobrevive ao embate com a experiência da realidade. Ninguém precisa de anti-depressivos, mas qualquer pode precisar.

Sua depressão é frustração... De fato, Jesus prometeu a Água da Vida, e a água viva de Jesus é fé e esperança certas de vida plena. Mas não é promessa de que o poço de Jacó passaria a ter água que saciasse toda sede do espírito; e nem que a Água Viva faria com que a mulher samaritana não precisasse mais beber da água do poço de Jacó, e de ir buscá-la todos os dias. Ou seja: a Água Viva é para o espírito, não para o corpo; e seu problema é psíquico, na sua dimensão mais psicológica; portanto, pertencendo à dimensão da alma, e que sempre se expressa por meios físicos; incluindo a depressão que é psico-orgânica. Quando você admitir que religião é assim mesmo, especialmente as que vivem de fazer promessas que “suspendem a realidade para quem crê”—e que mergulham a pessoa num mundo “paralelo”, onde se é supostamente protegido das calamidades da vida porque eles prometeram que assim será, em nome de Deus—, então a sua depressão acabará.

Você está com essa busca toda porque acreditou que as águas das cisternas rotas da religião podem nos dessedentar. “Quem beber dessa água, tornará a ter sede...”—foi o que Jesus disse. Agora chegou a hora da verdade e da realidade. Agora você vai ter que aprender a diferenciar o poço cavado pelo homem da Água Viva servida por Jesus. Quando você crer não em igrejas, mas em Jesus mesmo, então, mesmo tendo que cuidar do cotidiano e experimentá-lo como sede e busca também (nas coisas que são pertinentes à existência natural), você verá jorrar de seu interior Rios de Água Viva. No entanto, nem mesmo essa “fonte que brota para a vida eterna” faz com que a realidade seja suspensa em momento algum. Todas as necessidades humanas continuam presentes em nós; e nem Deus jamais prometeu que elas seriam suspensas para quem crê. Desse modo é que Paulo, por exemplo, confessa “tristezas até a morte”, e afirma ter conhecido o “desespero da própria vida”, que é quando a pessoa quer morrer. Mas nem por isto deixou de ser lugar-fonte-existencial que jorrava esperança da vida eterna.

 

Chegou a hora de vocês amadurecerem e crescerem na fé, mesmo; a fim de não ficarem nas mãos dos homens. Digo isto porque agora vocês sabem que em nome de Deus muitas loucuras podem ser feitas. No entanto, quero dizer que há muita gente boa e querida nessas igrejas; e que também há alguns que são líderes e que são bem intencionados; embora no topo isso praticamente tenha deixado de acontecer há muito tempo atrás.

Portanto, também não confunda líderes mal intencionados com alguns que são bem intencionados, porém ignorantes no que fazem, ainda que sejam diplomados.

Então, não fique ressentida, e abençoe-os de todo o coração.

Quanto a você, agradeça a Deus a chance de aprender a andar com as próprias pernas, trilhando o Caminho.

 

Nele, em que tudo é simples,

 

Caio