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Cartas

UMA ENTREVISTA SOBRE DISCIPULADO

UMA ENTREVISTA SOBRE DISCIPULADO



----- Original Message -----

From: UMA ENTREVISTA SOBRE DISCIPULADO

To: contato@caiofabio.com

Sent: Thursday, June 09, 2005 9:17 PM

Subject: Caio, onde estás que não me respondes???


 

Querido Caio,

 

Antes de mais nada, venho já me desculpar pela insistência deste 3º e-mail.


No dia 16/05 você me respondeu pedindo para que eu lhe mandasse minhas questões em forma de entrevista. Formulei as questões e receosamente lhe mandei, mas ainda não tive o prazer de abrir minha caixa de e-mail e ver sua opinião a respeito do assunto proposto, estampado em minha tela do computador. Seguem abaixo minhas questões:


1) Qual é a idéia de "discípulo" na visão de Jesus?

2) A visão de Paulo sobre "discípulo" ou "discipulado" diverge em algum aspecto da de Jesus? Paulo daria um enfoque mais legalista?

3) Ser discípulo pressupõe obediência incondicional?

4) Principalmente em redutos cristãos, onde a submissão é conquistada pelo medo ou pela proposta do poder compensatório e condigno (Anatomia do Poder - Galbrait), como um indivíduo, cristão, membro "comum", alguém que não está revestido de "autoridade eclesiástica", pode se manifestar se utilizando do princípio do contraditório, sem de fato cair no pecado da rebeldia? Biblicamente, o "discípulo" pode discordar, e inclusive agir em divergência com o seu "pastor ou discipulador"?

5) A visão de "discipulado" nascida na Argentina na década de 70, e também nos Estados Unidos, de cuja impregnação o Brasil sofreu grande influxo, praticamente se fragmentou, à exceção de alguns meios que permanecem fiéis àqueles ditames. Você entendeu a visão como um avivamento, ou, algo de Deus? Se foi, por que ruiu? Se não, quais foram os pontos conflitantes?

6) Caio, você acredita em discipulado?


Seja qual for a resposta, será mister situá-la num contexto particular, a fim de que a possível ambigüidade, não furte a verdadeira intenção da pergunta, que necessariamente será remetida para um contexto ainda maior.


Beijos,


Luciane

(Sou do interior do Paraná, e estou fazendo Mestrado na área teológica; não sou pastora, nem qualquer coisa semelhante, simplesmente estudo para poder aquietar ou confrontar as muitas questões latentes dentro de mim em relação à "Igreja" e o "Reino". Por isso a insistência, pois quero realmente ouvir uma pessoa como você, que não tem medo de responder o que realmente pensa.)

 



Resposta:

 

Querida Luciane: Graça e Paz!

 

É um prazer responder. Todavia, terei que ser simples e objetivo, porque, cada uma das questões sugere um livro. E por falar em livro, muitos de meus livros falam do tema, entre eles o “Seguir Jesus, o mais fascinante projeto de vida”. Além disso, aqui no site, há vários textos, tanto em Reflexões como também em Cartas, nos quais eu digo o que creio ser o discípulo de Jesus.

 

Vamos então às suas perguntas:

 

1) Qual é a idéia de "discípulo" na visão de Jesus?

 

Resposta: Discípulo, para Jesus, é alguém que desiste de sua justiça própria (que Ele chama de “si mesmo”), toma a sua cruz como caminho de obediência ao Evangelho, e segue a Jesus na vida, tomando o Seu jugo (que é suave), e aprendendo com Ele, enquanto anda sob Jesus (tomando o Seu jugo), e por cujo caminhar em harmonia com Jesus — dando sempre razão ao Evangelho —, a pessoa encontra descanso no amor de Deus. Assim, tendo conhecido o significado do Evangelho em si mesma, a pessoa se torna uma anunciadora da mensagem de Jesus com a vida e com palavras. O discípulo é alguém que aceita viver sob a disciplina de Jesus. No entanto, tal disciplina não é como uma força coercitiva que vem de fora, mas como poder, fruto do amor, e que brota de dentro. O discípulo é um apaixonado por Jesus e Seu Reino. Quem ama a Jesus se torna discípulo sem sentir.

 

2) A visão de Paulo sobre "discípulo" ou "discipulado" diverge em algum aspecto da de Jesus? Paulo daria um enfoque mais legalista?

 

Resposta: Não! Paulo era, ele mesmo, um discípulo conforme a melhor perspectiva dos evangelhos. Aliás, Paulo foi dos apóstolos o mais discípulo, inclusive no que diz respeito ao viver hebreu, andarilho, desinstalado, e levado pelo vento. O que encontramos em Paulo é a vivencia do discipulado num outro conjunto histórico. Ele andava de cidade em cidade. Porém, os discípulos de Jesus que ele fazia, ficavam nas cidades onde residiam, e viviam, daí para frente, a experiência da igreja local, enquanto mantinham o testemunho da fé na sociedade. Ora, a descoberta de Paulo é que aquele modelo precisava de uma organização mínima, mas que fosse fruto de organicidade carismática, conforme I Co 12 e 14. Daí ele ter organizado, depois de alguns anos, os grupos de discípulos que fazia, na forma de comunidade com presbíteros (ou bispos), pastores e mestres, conforme se vê em Atos, e em suas cartas a Timóteo e Tito. Mas isso era apenas a forma. Para Paulo, todavia, ser discípulo de Jesus era algo tão radical quanto tinha sido para aqueles que haviam seguido a Jesus durante aqueles três anos de Caravana de Graça, conforme os evangelhos. Portanto, para Paulo, tratava-se apenas de fazer um aplicativo prático e circunstacializado de algo cujo conteúdo não tinha que ser alterado por nenhuma forma.

 

3) Ser discípulo pressupõe obediência incondicional?

 

Resposta: Até hoje eu só fui discípulo de Jesus. Portanto, quando falo em ser discípulo, falo apenas de ser discípulo de Cristo. Ora, ser discípulo de Jesus pressupõe obediência absoluta a Ele. Ele é o Senhor. Todavia, percebi em sua pergunta que você provavelmente estivesse falando daqueles que se dizem “mestres de alguns pobres discípulos”, os quais —“os discípulos”—, historicamente são convocados a obedecer esses líderes; os quais, em geral, são seres despóticos, visto que ninguém que seja bom e manso de coração deseja que os outros o obedeçam incondicionalmente. Somente líderes de seita têm tais ambições.

 

4) Principalmente em redutos cristãos, onde a submissão é conquistada pelo medo ou pela proposta do poder compensatório e condigno (Anatomia do Poder - Galbrait), como um indivíduo, cristão, membro "comum", alguém que não está revestido de "autoridade eclesiástica", pode se manifestar se utilizando do princípio do contraditório, sem de fato cair no pecado da rebeldia? Biblicamente, o "discípulo" pode discordar, e inclusive agir em divergência com o seu "pastor ou discipulador"?

 

Resposta: Então eu estava certo na questão anterior. Quando você fala em discípulo, basicamente, você também pressupõe a existência do “discípulo do pastor evangélico”, ou o “discípulo de líderes de células”. Ora, já vi toda sorte de movimentos de discipulado no mundo cristão. Já desde aqueles sistemas baseados em conselhos de Paulo a Timotéo, e que foi interpretado como um mandamento para se criar uma pirâmide de pessoas, umas ensinando às outras; também vi o surgimento do discipulado “argentino” do tempo de Ortiz & Cia; cruzei com o discipulado dos Walker, de Rubiataba (70-80); observei o discipulado da Cruzada Estudantil, da ABU, da Sepal, da igreja na Coreia, do movimento de crescimento da igreja (Peter Wagner); e, por último, os discipulados do tipo G12, e seus muitos aplicativos e disfarces, como “grupos familiares”, especialmente em igrejas históricas que não querem comprar a briga gêdoziana. Sinceramente, em todos esses métodos, nunca vi o essencial acontecer, que é espontaneidade, promoção da individualidade, estimulo aos dons naturais e espirituais de cada um, liberdade para deixar a pessoa andar, e até errar, sem ser abandona; e também nunca vi isso durar muito tempo, pois, as pessoas cansam do trabalho formal, militar, e homogeneizante que tais projetos propõe. Todo discipulado sadio que vejo não é fruto de nenhum método, mas de relacionamento simples e não industrial, eclesiasticamente falando. Ou seja: é obra de manufatura, amor, paciência, amizade e carinho; e não um encontro de hora marcada. Assim, voltando ao principio, digo o seguinte: obediência incondicional somente à Palavra de Jesus, e uma das maiores violações dela é alguém pretender ser objeto de obediência incondicional. Os tais “discipuladores” eu chamo de “manipuladores”. Há também muita tara e desejo de controle disfarçado de discipulado na “igreja”.

 

5) A visão de "discipulado" nascida na Argentina na década de 70, e também nos Estados Unidos, de cuja impregnação o Brasil sofreu grande influxo, praticamente se fragmentou, à exceção de alguns meios que permanecem fiéis àqueles ditames. Você entendeu a visão como um avivamento, ou, algo de Deus? Se foi, por que ruiu? Se não, quais foram os pontos conflitantes?

 

Resposta: Não! Entendi como moda, desde que tinha 18 anos, logo que comecei a pregar. Daí nunca ter adotado nada disso em tudo o que fiz. Sempre pastoreie estimulando amizade e relacionamento. Quanto a isto estar fragmentado, saiba: Não vejo assim! Ao contrário, com a conversão dos discípulos dos Walker de Rubiataba em discípulos do Macedo mais a adesão que fizeram do G12, coisa cresceu e piorou muito; e também com a adesão dos da Teologia da Prosperidade ao método do G12, a coisa tomou proporções de profunda loucura; e, definitivamente se fez psicologia de seita, pois cria uma profunda dissolvência da individualidade humana. Nesses grupos todos são clones de alguns líderes, sem falar que todos são líderes. Ora, nesses grupos, a individualidade humana está sendo comida pela volúpia de poder dos discipuladores, que sofrem do surto de crerem que receberam de Deus a missão de serem controladores dos homens.

 

6) Caio: Você acredita em discipulado? Seja qual for a resposta, será mister situá-la num contexto particular, a fim de que a possível ambigüidade, não furte a verdadeira intenção da pergunta, que necessariamente será remetida para um contexto ainda maior.

 

Resposta: Creio em fazer discípulos de Jesus, andando com eles, vivendo com eles, ensinado-os com naturalidade, compartilhando de suas dores e esperanças, vitórias e derrotas, alegrias e lutos, e em cujo processo ninguém manda em ninguém. Ao contrário, todos os que se amam com sinceridade, gentileza e bondade, admoestam-se mutuamente, conforme os mandamentos da mutualidade encontrados sobejamente em Paulo. Tudo isto, porém, sem tirania.

 

Agora uma palavra minha você:

 

1o Se você faz teologia para resolver alguns conflitos e questões; saiba: a meu ver esse não é necessariamente o lugar; nem tampouco eu creio que nele a solução poderá ser encontrada. Sugiro que você leia livros sobre História da Igreja ou do Cristianismo, e que você se interesse pala espiritualidade dos “Pais da Igreja”. Leia também livros como “A vida diária nos dias de Jesus”; ou ainda: “A Poesia e o Camponês”—livros que a ajudarão a entender os “contextos”, o que a ajudará muito no entendimento dos textos dos evangelhos.

 

2o Se seu objetivo é mergulhar no Conhecimento de Deus para você, não como informação, mas como experiência Dele, então, tome os evangelhos como se você nunca os tivesse lido, e faça o mesmo com as cartas de Paulo; e leia tudo outra vez, sem estudar, em voz alta, e com oração. Eu não creio que assim fazendo você chegue ao final da leitura sem estar profundamente afetada e resolvida em relação ao que você busca.

 

3o Leia também o site. Muitos que fizeram mestrado, doutorado, e outras coisas, me confessam todos os dias que têm aprendido mais do Evangelho para eles mesmos aqui do que nos cursos que fizeram.

 

Receba todo carinho!

 

Que Deus a abençoe e guarde!

 

Nele, que nos ensina pela Palavra, mediante o Espírito, e no caminho da vida,

 

Caio

COPACABANA

June 09, 2005 9:17 PM