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Cartas

Um Encontro Com Amigos & Velhas Amizades

Um Encontro Com Amigos & Velhas Amizades

Bem, antes de tudo desejo dizer que a situação de meu pai é estável. Temos passado os dias conversando. Ele não muda nunca. O que mais me impressiona é a paciência dele. Parece que há uma fonte inesgotável de misericórdia e amor que emanam dele. É fácil se perceber isto pela tentativa que as pessoas fazem de passar no quarto dele a fim de “vista-lo”. De fato, o que querem é um sorriso! As enfermeiras gostam do “paciente”. Elogiam a paciência dele. Já faz dias que estamos aguardando a intervenção que ele terá que sofrer. Agora as coisas emperraram na burocracia do plano de saúde. Fiz dezenas de ligações... Amanhã, em fim, chegarão as “válvulas” que serão postos em três artérias dele. Duas estão com 95% de obstrução. Uma delas tem 55% de impedimento para o fluir do sangue. Hoje, enquanto o acompanhava num ultra-som vi que ele também precisa urgentemente de cuidados nos rins. Mas ele não se queixa de nada. De fato esse processo se deflagrou agora por excesso de trabalho. Fazia dias que ele se dedicava à construção de algumas acomodações para o Acampamento da igreja. Estava dormindo muito pouco, levantando bem cedinho—alguns dias às 5 da matina—e dormindo depois de 2 da manhã. O coração de 77 anos pediu “um tempo”. Eu estou mais forte que meu coração. Não sinto cansaço. Meu coração é que não agüenta—me disse ele outro dia. Hoje a noite voltei para casa mais cedo. Mamãe ficou com ele no hospital. A esposa de um amigo estava fazendo aniversário, e saímos para jantar. Fomos a um restaurante de uma amiga deles, a Margô. Massa e frutos do mar, em plena floresta amazônica. Eu queria peixe, mas queria ainda mais a companhia dos amigos. Estávamos lá há pelo menos umas duas horas quando uma mulher e o marido vieram à nossa mesa. Tive a sensação de conhecê-la. Percebi que ela me conhecia não como pessoa “pública”, mas como “menino”. De súbito ela perguntou se eu não lembrava dela. Existe familiaridade em você—eu disse. Bem, foi o suficiente para que eu descobrisse que estava sentado nas proximidades de um monte de gente que eu conhecia, e não via há mais de trinta anos. Eram amigos de amigos, e parente de velhos conhecidos. Foi uma festa. Depois de um tempo de “recordações”—e as memórias que eles tinham de minha juventude não eram exatamente “ortodoxas”—, o assunto foi para a minha “chocante” conversão, em 1973. Falei um pouco daquele tempo e de alguns amigos que, à época, descreram que o que havia acontecido comigo fosse verdade. Era demais para a cabeça de alguns deles que eu pudesse ter mudado tanto! Demorou pelo menos uns dois anos para que eles admitissem que fora pra valer. A conversa fluiu leve, solta, engraçada, e cheia de gosto. Um pouco antes de sairmos uma jovem senhora que estava por lá, falou: Eu queria fazer parte do seu rebanho! Todos rimos muito! Quando entramos no carro dos meus amigos, ela, a aniversariante, me disse que há um tempo atrás essa mesmas pessoa havia pedido a ela que a levasse até a igreja. Foram lá num dia em que o pastor estava falando de sexo, de saias curtas, de sensualidade, de meninas exageradas, de gente que gosta de roupa de grife, de mulheres que passeiam em shopping center, etc... Enfim, sobre assunto de imensa “relevância” para o Reino de Deus! A mulher ficou escandalizada... Esse pastor tá sofrendo de outro mal; ele é que não sabe; o doente é ele; é um “mal-resolvido”—disse ela ao sair daquela sessão de frustração sexual pastoral transformada em “pregação e doutrina”. Também fiquei sabendo que cada pessoa que estava naquele restaurante doou alguma coisa para a dona dele, a Margô. Ela tinha um outro restaurante, mas o sócio “deu um cano” nela. Perdeu tudo. Os amigos se reuniram e arranjaram um lugarzinho pra ela, doaram tudo: coisas tiradas de suas próprias casas; e fizeram um novo restaurante. Meu amigo João Bird fez layout e doou também. A “casa” vive cheia dos mesmos amigos que doaram tudo pra ela; e todos pagam a conta! Fico olhando essas coisas que acontecem “no mundo” e me dá muita tristeza. Ninguém ali é “crente”, mas agem com muito mais solidariedade que a maioria dos “irmãos”. Não era o caso, mas não pude deixar de pensar no que Jesus disse aos religiosos de Seus dias: Muitos publicanos e meretrizes vos precedem no Reino de Deus! Me pergunto há trinta anos o por quê de muitas pessoas ficarem “piores” depois que se convertem. Tenho muitas respostas, mas nenhuma delas me motiva à dissertação nesta hora. Até mesmo aqueles que deixaram drogas e vícios—graças a Deus—, muitas vezes parecem esquecer de onde vieram em muito pouco tempo. Logo estão arrogantes e sem misericórdia! A maior tristeza é quando você vê “filhos na fé” ficarem assim, desse jeito feio. Aqui em Manaus encontro muitos “filhos” que permaneceram fiéis ao Espírito da Graça. Mas encontro outros, até pastores, que parecem que não entenderam nada até hoje. Choro por dentro! Todo mundo esconde bem as doenças sob as máscaras da “piedade”. No entanto, para quem não é completamente cego, fica impossível não enxergar as muitas e disfarçadas enfermidades que sutilmente lhes invadiram a alma. Minha grande alegria, no entanto, é encontrar gente como o Haroldo, que hoje de manhã estava lá no hospital. Não mudou e não nega suas origens na Graça de Deus! Bem-aventurado seja! Hoje papai me disse que ligaram para ele oferecendo uma visita de uma “equipe de americanos especialistas em cura divina”, e que andam por aqui. Papai agradeceu o gesto de carinho. Depois me disse: Se eles soubessem quantas “equipes” dessas eu já vi na vida! Se soubessem, saberiam o que eu penso! Creio em cura divina, mas para mim é tão divina que a cura não anda em “equipe”. Ele tem razão: formou equipe, virou negócio! É duro, mas é verdade. Quando vira equipe, logo fica des-equipado na Graça! Desculpem a “falação” desconexa. Estou cansado e já são duas da manhã aqui—três horas da manhã no resto do Brasil! Amanhã escrevo mais. Hoje vou ficar por aqui. Ah! A cirurgia de meu pai ficou adiada para sexta-feira. Orem por ele. Antes de terminar quero agradecer a todos os que tornaram este site uma benção para milhares de outros irmãos. Praticamente chegamos a 1 milhão de hits no mês de agosto! Que Deus nos abençoe e nos use para que o Corpo de Cristo encontre um lugar de refrigério. Um beijão, Caio