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Cartas

SUICÍDIO: UM LUTO SEM FIM...(I a IV)

SUICÍDIO: UM LUTO SEM FIM...(I a IV)

-----Original Message----- From: SUICÍDIO: UM LUTO SEM FIM... Sent: quarta-feira, 30 de junho de 2004 10:18 To: contato Subject: Dia difícil Querido Pastor, Não sei quando você irá ler esse e-mail, pois sei que seu tempo é curto, e você tem tantos outros problemas, e situações para resolver. Mas eu queria mesmo era desabafar, nem que fosse escrevendo para alguém que nem sei quando irá ler o que escrevi. O fato é que hoje estou arrasada... estou tremendamente triste... tenho saudades da minha filha que se foi... De fato, mais do que a saudade é a revolta que estou sentindo dentro de mim, por isso ter acontecido comigo, com ela... Aceito, mas não entendo. Por que eu? Será que tenho mais pecados do que os outros? E se cometi ou tenho tantos pecados, onde está a misericórdia de Deus? Será que não funciona para mim? Não entendo porque tenho que passar por tantas perdas. Tenho certeza que depois de perder a saúde, a dor de perder um filho é talvez imensuravelmente maior... Sei que a vida pertence a Deus. Mas porque minha filha tinha que ir dessa forma? Ela poderia ter ido de doença, atropelada, cair bater a cabeça e morrer da mesma forma... Iria doer muito, tanto quanto dói hoje, mas pelo menos eu compreenderia como e porque ela se foi... Talvez eu esteja é pecando mais com esses questionamentos. Mas é o que está hoje no meu interior. Tenho pedido a Deus que me mostre o que houve. O que aconteceu... Peço que Ele me dê uma luz que pelo menos alivie minha dor... Mesmo que Ele me mostre que ela se matou por minha causa. Mas pelo menos eu iria saber a causa!!!!! Sei que estou viva e quero viver, mas uma parte de mim se foi com ela... Jamais serei a mesma mulher... Detesto ter esse passado. Não posso esquecê-lo, nem apagá-lo. Ele existe. Está aí. Eu sou uma mulher rejeitada pelo homem que amei, e para quem dediquei minha vida durante anos; e agora arrancaram a minha filha de mim, de maneira absurda, cruel e sem explicação. Isto é fato. Nada muda o fato. Mas eu queria pelo menos saber o por quê. Sou tão mau assim? O que tem de errado comigo? Dentre tantos milhões de habitantes nesta cidade, crentes e descrentes; crentes fiéis e infiéis; e fui eu a escolhida para passar por essas dores? Por que? Para que? O que isso quer irá me ensinar? Que Deus possa me perdoar por questionar, mas como filha tenho direitos, e esse eu considero um deles. Se você puder, ore por mim; ore para que Deus tenha misericórdia de mim, e me responda um dia; ore para essa dor passar. Procurei hoje uma pessoa para chorar no ombro, e não encontrei. Nestas horas até isso nos falta. Mas talvez até seja bom. Assim sentimos menos pena de nós. Se Deus mandar, me dê uma palavra; se não der, não responda, eu entendo. Beijos, ____________________________________________________________ Resposta: Querida amiga, O que posso lhe dizer como pai enlutado, eu já disse antes. E não tenho a pretensão de que a minha fé seja a sua, e nem a sua a minha. Mas gostaria muito de poder ajudá-la. Portanto, não tendo o que lhe dizer, apenas oro. Sei, no entanto, que quando a gente crê e confia no amor de Deus, todas as coisas passam a ser interpretadas em nosso favor. Até mesmo o suicídio passa a ser outra coisa quando a gente crê no amor de Deus. Não sei detalhes do suicídio de sua filha, mas sei o que leva uma pessoa a tirar a vida. É desespero. E, muitas vezes, é desespero de existir. As causas por trás do ato podem ser muitas. Pode ir de desequilíbrio mental e até hormonal à causas de natureza psicológica graves, em razão do sentimento de des-significação do existir. O que vale, entretanto, é que Deus entende tudo! Boa parte de sua dor é culpa. Culpa de agora não conseguir não pensar que você tem alguma coisa a ver com o “ato” dela. E não tem, minha querida. Você não teria esse poder sobre ela, nem que por maldade desejasse ter. Você pensa com categorias religiosas, e sente com categorias morais. Daí você querer saber qual o pecado que você está pagando com os males que lhe vieram. Se você cresse que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, você não teria perguntas, mas apenas sinceras e doídas ações de graças. Além disso, você saberia no coração que tais perdas não lhe tiraram...mas lhe acrescentaram a possibilidade de viver olhando para frente. O que também devo lhe dizer é que hoje mesmo, apenas na sua cidade, há centenas de mães legais e boas, e que sofrem dores como a sua, e outras até piores. Portanto, pensar que tragédias nos acometem por causa de pecados—Teologia Moral de Causa e Efeito—, é o desgraçado efeito de se ter crença, mas sem a Graça. Acolha o amor de Deus, e ame a soberania Dele, e você verá essa dor ir ficando calma e mansa, até virar felizsaudades. E não se culpe acerca de nada em relação à vida dela, e às de-cisões que ela tomou. Você não tem todo esse poder de determinar o destino de ninguém, mesmo de um filho. Todavia, eu sei que tudo o que aqui lhe digo de nada aproveitará se você não acolher com fé. Não havendo fé, há somente desespero. E você tem que escolher se vai viver para sentir pena de você, ou se vai viver sem pena de existir. Receba meu beijo e minhas orações! Nele, em Quem a esperança não confunde, Caio ____________________________________________________________ Minha querida amiga Erô: Deus é contigo! Depois que respondi a sua carta meu coração estava tão doído por você que fui orar, conforme lhe havia prometido. O suicídio de um filho—como foi o caso de sua filha—é o pior estado de seqüestro que se pode infligir a um pai ou mãe. Se você olhar com os olhos das questões, elas jamais cessarão. Isto porque nós, pais, somos pessoas muito culpadas. E são muitas as causas de nossas culpas, e quase todas são irreais, ou melhor, praticamente todas elas. Pais sentem-se culpados em relação aos filhos em razão de pensarem que são os responsáveis pela felicidade deles, e que se eles não forem felizes, tal infelicidade é um testemunho contra a paternidade ou a maternidade, ou ambos. Além disso, existe a necessidade dos pais se verem projetados para melhor nos filhos, e quando esta não é a visão—digo: entre o projetado e o real—, então a tendência é perguntar: “Onde eu falhei?” Ora, tal pergunta é pretensiosa demais. Pressupõe o impossível. Pois se assim fora, o primeiro a ter que se perguntar algo do gênero seria o próprio Deus. Afinal, Seus filhos não lhe repetem o ser...manifestando tal semelhança apenas de vez em quando. E nem por isto Deus está fracassado. Aliás, se Deus se visse como Pai, como a gente se vê como pai e mãe em relação aos filhos, eu lhe digo: Deus se auto-extinguiria! Imagine Deus se perguntando: “Onde eu errei?” Minha querida, ninguém errou...e todos erraram...menos Deus. No entanto, nenhum dos nossos erros é final, pois nosso Pai é Deus. Nossos erros são apenas aquilo que nos posiciona o ser no início do Caminho. Ou seja: a gente acerta o Caminho apenas quando admite que erra. Os filhos da gente são seres independentes, e cada um deles tem o seu caminho. Maria não podia impedir o caminho de Jesus, tanto quanto nenhuma mãe da Terra poderia fazê-lo. Ou como você acha que Maria deve também ter sentido aquela “decisão de partir” que acometeu o ser de seu filho Jesus? Jesus decidiu morrer! Então você diz: “Mas Ele era Deus! Era uma missão!” No entanto, minha querida, sem a ressurreição tudo seria apenas a mais terrível das tragédias. Um moço de 33 anos se entregou para morrer. E um de seus amigos se matou. Quem olha de fora não vê nada! Quero também que você saiba que nós e os nossos filhos, trazemos duas naturezas em nós. Somos gente de Adão e de Jesus. Ora, assim como trazemos em nós as heranças de Adão, assim também trazemos a herança em Cristo. Mas a herança em Adão é morte, e ficou para trás; a herança, porém, em Cristo, é vida, e está ainda toda adiante de nós. Quando você mencionou os males de Deus em sua vida sempre relacionados ao amor—o marido a quem você amou, e que não ficou; e a filha, que também partiu pelas próprias mãos—, deu pra imaginar como esses fatos deixaram sua auto-estima arruinada. E tão arruinada ficou, que nem de auto-estima dá para ser chamada, pois fica até parecendo brincadeira. Mas o fato é que a gente não deixa de ter auto-estima apenas porque a tragédia torna tudo pequeno, até a auto-estima. Você perguntou: “Por que” Deus fez isto? Qual a razão? Qual o propósito?” Bem, não é preciso dizer que EU NÃO SEI. Aliás, qualquer um que pretender saber está brincando com o que há de mais sagrado e misterioso na existência. Todavia, eu digo a você apenas o que creio que você pode fazer nessa hora. Aliás, é a única coisa que você pode fazer, e sei que se o fizer sua vida nunca mais será a mesma, pois você mergulhará em paz e em confiança, e isto vai mudar completamente a sua existência na Terra. Você pode “pular de cabeça”. Você pode confiar tanto, e crer tanto, e imprensar tanto a Deus contra si mesmo—declarando Deus seu advogado contra Deus, como fez Jô—; e, simplesmente, não tocar mais no assunto, e deixar que Deus se entenda com Deus a seu respeito. Ora, eu sei que para fazer isto a pessoa tem que estar disposta a ir para o tudo ou nada. É como a luta de Jacó com o Anjo. É como o caminho de Abraão com Isaque, em silencio, até o monte Moriá. No entanto, o que procederá daí será uma paz impensável e impossível, além de uma fé que não se abala, mas permanece firme para sempre. As bases para esse salto se fazem exprimir como uma só coisa: fé no amor de Deus! Sem fé no fato de que Deus ama a cada criatura humana da Terra com amor único e especial—mesmo aqueles que experimentam calamidades e dores inexprimíveis—, não se chega a poder dar esse salto de fé, e encontrar o descanso de quem não tem mais o que perguntar, até porque as respostas a tais questões jamais nos serão dadas em plenitude no tempo—até mesmo a nossa compreensão, hoje, não alcançaria—, visto que pela própria natureza delas, elas pertencem à eternidade. No entanto, mesmo sem saber, o justo vive pela fé. Visto que a fé não explica nada, mas pacifica tudo. Minha oração por você é nos sentido de que você possa dar esse salto, mergulhar de cabeça, confiar, aceitar o bem oculto atrás desse mal, e celebrar, mesmo sem saber, o bem que está preservado para todos vocês, e, sobretudo, para a sua filha. Mas eu sei que quando a questão é suicídio, então, ergue-se em nós a neurose católica em relação ao tema, e o inconsciente logo posiciona o suicida no mínimo no purgatório. Entretanto, minha querida, tudo isto é invenção da religião. Como eu lhe disse, “Deus entende os suicidas”, e não os vê de modo diferente do modo como vê todos os outros humanos. Por que alguém se mata?—é a questão. Ora, quando a pior coisa que se conhece na vida é morte, a gente quer viver. Mas quando a pior coisa que se conhece na existência é a vida, então, nesse dia, se quer morrer! É possível, como disse Paulo, alguém desesperar da própria vida! O livro de Eclesiastes diz que a opressão faz até o sábio enlouquecer. No entanto, Deus também tem um Caminho para o Louco, conforme nos disse o profeta Isaías. E nesse Caminho, nem o louco errará. Os cristãos ficaram com essa mania horrível de dizer até onde a Graça de Deus vai...e até onde ela alcança. Para mim, é simples, visto que se é Graça e se é de Deus, então alcança a quem Deus quiser alcançar e até onde Ele achar que deve ir. Não se deve confundir a tragédia que acontece a algum ser humano, com uma decisão acerca da eternidade daquela pessoa. Uma coisa é o que acontece com a gente na Terra. Outra a que acontece com a gente na eternidade. O Rico estava bem na Terra, e mal na eternidade. O Lázaro estava mal na Terra, e muito bem na eternidade. Mas se Jesus não nos tivesse contado a história-parabólica, quem poderia supor aqueles “finais” e aqueles “destinos”? Por isso, não se julgue e nem se impressione. O diabo quer levar você à culpa e ao seqüestro. Mas Jesus vai libertar você pela fé, e você ainda olhará para trás e verá a bondade de Deus em tudo, até naquilo que hoje lhe é a mais insuportável das dores. Receba mais uma vez o meu carinho e orações! Nele, em Quem todas as coisas servem a um Bem Maior, Caio ____________________________________________________________ -----Original Message----- From: Erô Sent: quinta-feira, 1 de julho de 2004 10:29 Subject: Dia difícil... Querido Pastor, obrigada... Neste momento difícil tenho vivido dias tranqüilos e outros tremendamente angustiantes. Ontem esta angustia superou todas as outras, pois tenho que admitir, tive a consciência que realmente me projetava na minha filha, e sonhava os meus sonhos não realizados para ela; e no entanto, ela talvez tenha se sentido tão infeliz quanto eu fui em algumas áreas; e com toda certeza sem muita consciência, passei essas neuroses para ela; que resolveu acabar com a vida. Existem muitas controvérsias acerca da morte dela, a maneira como foi encontrada, como o corpo estava, incomum para quem se enforca... Várias versões de quem a encontrou; e até mesmo a polícia não sente segurança em afirmar que houve suicido, mesmo porque ela nunca demonstrou nenhum tipo de depressão... Na escola tanto as professoras quanto a diretora não observaram nenhum comportamento anormal nela. Eu também não observei nada anormal, exceto que ela, quando chegava da escola, não estava abrindo as janelas da casa, e quando eu a questionava ela dizia que tinha preguiça de abri-las. Várias vezes cheguei de surpresa e ela estava apenas estudando ou lendo a Bíblia. Nada que me chamasse a atenção. No entanto, há a possibilidade dela ter “feito”. O ser humano é parecido com um vulcão, muitas vezes não expressa o que sente, e quando esse vulcão resolve soltar as lavas, tudo pode acontecer... Fora a idade dela, que, pelo que ouvi dizer, é mais propícia a esse tipo de atitude. Qualquer dia desses vou escanear a foto dela e te mandar, pra você ver o quanto ela era linda e leve. As fotos que olhamos não condizem com esse comportamento. Pastor, estou muito chata...não tenho muito saco de ficar ouvindo as pessoas falarem, de conversar... Estou tomando um anti-depressivo, mas sei que a única coisa que vai me fazer bem é a oração.... porém não tenho consigo orar...apenas chorar e lamentar ao Senhor... Sei que tudo isso vai passar, porque resolvi viver... Se não tivesse tomado essa posição certamente já teria me matado. Vontade não faltou. Cheguei a passar uma noite inteira orando em línguas para afastar tal pensamento. Mas, tenho estado muito chata, reconheço. Meu humor está péssimo, mas continuo tentando reverter essa situação no meu ser, seguindo seu conselho de não ficar em casa. Tenho ido à igreja, às programações, à casa de uma irmã que tem me ajudado em oração.... Tenho tentado trilhar o caminho da oportunidade, mas tenho meus momentos maus! Muito maus. Não sei se com você acontece isso, mas todas as manhãs eu acordo como se tudo não passasse de um sonho... Aí me deparo com a realidade, não é sonho. Caro amigo, obrigada pelo apoio, muito mesmo. Em outra oportunidade nos falaremos. Um abraço. Erô ____________________________________________________________ Resposta: Erô, querida: esse é o caminho no Caminho! A chave da questão toda é esta que você aceitou: "...tive a consciência que realmente me projetava na minha filha, e sonhava os meus sonhos não realizados para ela..." Uma vez que isto se estabelece como verdade em nós, as demais coisas vão se acalmando. O perigo ainda é a continuidade de sua frase:"... ela talvez tenha se sentido tão infeliz quanto eu fui em algumas áreas, e com toda certeza sem muita consciência passei essas neuroses para ela, que resolveu acabar com a vida..." Não é verdade, minha querida. Essa sua cogitação ainda é culpa neurótica. Sua filha sofreu as próprias dores dela, não as suas; afinal, ela nunca poderia ter sofrido as suas. Ora, assim como você não SABE ainda HOJE das dores dela, assim também ela tinha apenas vaga idéia das suas. Numa cidade como a nossa tudo pode acontecer. E, facilmente, o ser “caído na estrada” pode ser acusado de suicídio. Suicídio é a melhor desculpa para todos, exceto para os pais. Mas serve para todos os demais... Também não vale a pena tentar descobrir como foi ou o que foi. O que foi...é que ela já não está aqui. Mas você está, e deve viver o resto de seus dias na Terra de modo a experimentar a Deus como fé e vida Nele. Quando os dias ficarem muito negros, saia de casa, vá até a praia, ande com os pés no chão, mergulhe numa água gelada, sinta seu corpo se arrepiar de frio, e se abrace. Além disso, não tente reunir forças para fazer de conta que o que aconteceu não foi forte. Permita-se chorar quando o choro reclamar presença. No entanto, não deixe que suas lágrimas se tornem o seu alimento de dia e de noite. Procure desenvolver uma atividade física. Ginástica, atividade de respiração, e outras formas de estímulo ao seu corpo. O bem estar do corpo, numa hora como essa, tem um papel importante na cura das dores da alma. E saiba, minha querida, em pouco tempo você vai estar com ela. A dor agora é sua, não dela. Ela está livre de toda dor. E nada deve ser melhor para um pai ou mãe que a certeza de poderem afirmar que seus filhos estão Bem. Descanse no amor de Deus e tudo vai ganhar o sentido que é comunicado pela paz. É a paz que excede a todo entendimento aquilo que vence o poder do absurdo em nós! Receba meu carinho e orações. Nele, Caio