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Cartas

SOU UM INFELIZ MEMBRO DO MSI

SOU UM INFELIZ MEMBRO DO MSI

-----Original Message----- From: SOU UM INFELIZ MEMBRO DO MSI Sent: domingo, 24 de agosto de 2003 15:48 To: contato@caiofabio.com Subject: CRISE EXISTENCIAL Mensagem: Prezado pastor: Estou passando por um crise existencial profunda. Não consigo compartilhar os meus sentimentos com ninguém. Não consigo expressar falando o que estou sentindo. Vou tentar digitando. Tenho medo de escrever o que estou passando. As coisas que eu acreditava perderam o sentido para mim. A Bíblia, livro ao qual eu amava com fervor não consigo ler mais, a não ser superficialmente. Dúvidas, muitas dúvidas. Será que estou perdendo a fé em Jesus Cristo o qual considero(ava) o meu Senhor. O convívio com a "igreja" não tem sentido para mim. Tantas coisas que preferia não ter vivido. Tantas pessoas que amei, confidenciei, quantas decepções com pessoas, comigo mesmo e com Deus. Me sinto um trapo imundo. Tenho pensado e feito coisas que me levam a me afastar cada vez mais de irmãos pastores e todos com os quais convivi nestes 12 anos de "crente". Esta palavra não faz mais sentido pra mim. Sei que o problema maior sou eu. É comigo que Deus tem de tratar. Tenho pedido a Deus que derrame o seu poder e a sua graça sobre mim . No entanto, quanto mais peço mais me sinto distante afastado de Deus. Apesar de ter uma família não tenho valorizado isto. Quero apenas compartilhar com você estes sentimentos. Sonhei um dia ser um pastor. Viver integralmente para a obra de Deus, até tentei. Abandonei o meu comércio que mantinha com meu pai. Abandonei meu pai. E não deu certo. Hoje voltei e me sinto um fracassado. Aquele que pôs a mão no arado e voltou atrás... E isso aí. Procuro um sentido para minha vida e não encontro. Entre os meus irmãos carnais sou motivo de chacota. Talvez também entre os da igreja. Não sei. Estou “cheio” de tudo que se relaciona a igreja. Como todo bom brasileiro tenho procurado esconder a minha tristeza brincando quando sou indagado sobre qual a denominação que estou freqüentando. Digo que sou do MSI (Movimento do Sem-Igreja). Mas lá no fundo estou triste. Me ajude. ************************** Resposta: Meu amado amigo do MSI: Perdão pela demora na Resposta! Nem sei se o que vou lhe dizer ainda faz sentido; afinal, com as milhares de cartas que chegam, nem sempre vou respondendo na ordem de chegada. E quando viajo—como foi muito o caso nos últimos meses—, na volta encontro acúmulos de 3000 cartas a responder. Hoje resolvi fazer uma “loteria” nas respostas: decidi que pegaria uma de cada letra do alfabeto. Assim cheguei a você apenas para me entristecer comigo mesmo pela demora. É muito ruim a gente se entristecer consigo mesmo. Dá uma sensação de fracasso, de inadequação, de falta de objetividade. Seu problema não é com Deus. Você nunca a teve a chance de ter um cara-a-cara com Ele a fim de ficar decepcionado. Você está triste é com você mesmo e com a “igreja”. Aliás, eu acho que você está mesmo é frustrado. Pelo jeito você é uma daquelas pessoas tendentes à depressividade, e que ficam arrasadas quando as coisas não acontecem conforme o desejado e planejado. Meu amigo, se eu fosse assim como você, tenha certeza, você já teria sabido de meu sepultamento há muito tempo. Afinal, não me faltaram razões de decepção comigo mesmo e com meus irmãos na fé. Todavia, eu tenho que admitir que só me frustrei com meus irmãos na fé, porque me frustrei antes comigo mesmo. E por que? Ora, é que enquanto eu estava andando na minha própria segurança, o que os irmãos não faziam em meu favor, não me afetava; e o que faziam contra, também não. Foi apenas quando precisei de pequenos gestos de afago e carinho que notei que nunca, de fato, poderia ter pensado um dia que poderia ter contado incondicionalmente com alguns deles; assim como sei que eles sabiam e sabem que, em havendo necessidade, todos eles contavam e ainda contam comigo. Sua melancolia é a de alguém que deixou pai, mãe e negócios, botou a mão no arado e olhou para trás—foi como você descreveu. Pois bem, fique sabendo: você fez o que quis, e não se deu bem na escolha, e vive agora a nostalgia de ter tomado as decisões que tomou. Mas pelo amor de Deus, deixe Deus fora disso! Você fez tudo o que fez porque quis fazer, e se tivesse dado certo você estaria hoje não Grato a Deus, mas orgulhoso de si mesmo. E por que sei disso? É simples: gente com seu perfil psicológico, quando “acerta”, fica orgulhosa; e quando erra, cai em depressão. A primeira lição, meu amigo, é aprender a ser homem. É saber quem você é, e admitir que sua dor vem de sua sensação de insucesso. Se seus parentes fazem chacota é porque você deve ter feito a maior “cena” quando saiu. Aposto que você deve ter afirmado muitas supremacias sobre os pobres banais que ficavam para trás, enquanto você estava indo cuidar daquilo que de fato tem valor. E sua descrição de “rabinho entre as pernas” fala também disso. Eu, por exemplo, se tiver que ir trabalhar em alguma coisa bem simples lá na minha terra, a fim de sobreviver, jamais vou ser objeto de chacota e nem vou me sentir com o rabinho entre as pernas. Meu amado, as pessoas recebem aquilo que elas dão. Arrogância recebe o salário do escárnio. Supremacia recebe o salário da chacota. Portanto, sua crise não é espiritual, é psicológica. O problema é que é mais fácil culpar alguém pelos nossos insucessos e imaturidades. Então, serve até Deus... Se você está perdendo a fé, então é porque você nunca teve fé. Não acredito em perdas de fé. Acredito, sim, em enfraquecimento na alegria de crer. E, na maioria das vezes, isso nada tem a ver com Deus, mas apenas com nossas próprias frustrações e decepções com os “crentes” e com nós mesmos. Perder a fé na “igreja como modelo” é normal. Mas perder a fé no Senhor, é idiotice. O interessante é que sua perda de fé é relacionada ao seu sentimento de ter “caído de posto”, de ter tido que voltar para o comércio do pai... Ou seja: você está triste por que “Deus” não bancou seu projeto. E sua confusão é tão grande que na mesma medida em que você diz que perdeu a fé, também fica preocupado em ter “posto a mão no arado e olhado para trás”. Ora, as duas coisas são incompatíveis: quem perdeu a fé, não se preocupa mais com o arado; e quem se preocupa com o arado, não perdeu a fé—apenas possuiu uma fé neurótica (medo da punição) e infantil (frustração por não ter sido conforme você planejou). Estou escrevendo objetivamente, porém com todo amor. Portanto, agüente o tranco. Meu querido, pare de besteira, de criancice, e saia desse poço de auto-piedade! Você está aí adorando ter a pseudo-razão para estar decepcionado, sem ter a coragem de encarar a você mesmo. OLHE PARA VOCÊ MESMO! Quanto a não se motivar muito com os crentes, eu pergunto: e daí? Eu também não tenho lá essas motivações. No entanto, mesmo que todos os crentes se tornassem uma grande droga e um lixo insuportável, isso em nada abalaria a minha fé. Minha relação com Deus não sofre mediação de homem algum. Fico feliz quando vejo a graça de Deus em operação na vida dos irmãos. Mas se todos descrerem, saiba, eu continuarei crendo sozinho. Chega um dia na vida da gente em que ser acompanhado na fé é maravilhoso; não ser, todavia, não pára nada no seu caminho. Você disse que pede a Deus que derrame a Sua Graça sobre você. Ora, esta é uma outra armadilha, uma outra transferência de responsabilidade. É como dizer: Deus, se o Senhor quer me ver bem, então faça com que eu fique bem. Meu querido, quem faz as orações que você faz tem mais é que ser resposta às suas próprias orações. Portanto, levante-se, pegue sua Bíblia, volte a lê-la não como livro, mas como Palavra; esqueça essa “igreijada” toda que você levou na cara, e parta para viver com Deus como se você fosse Maria Madalena no domingo da ressurreição. Ou seja: ninguém o viu ressuscitado, somente eu, eles não crêem, mas eu morrerei dizendo que Ele está vivo. Pessoalmente é assim que vivo. Eu me sinto uma testemunha da ressurreição. A ressurreição aconteceu hoje bem cedinho. Estão todos tristes e dormindo. Mas eu sei que Ele já venceu a morte, e mesmo que ninguém mais creia, eu viverei por essa fé. Se você quiser ajuda, ao invés de me escrever, leia as centenas e centenas de textos que há aqui no site. Duvido que você faça a viagem toda e chegue ao final do mesmo jeito. Aliás, para cada 10 cartas que respondo aqui, sete são de pessoas que ouviram falar que “via site” poderiam falar comigo, abriram o site, não leram nada, foram direto ao Fale Comigo, e me mandaram um e-mail. Na maioria das vezes é assim que acontece. E meu trabalho fica sendo, muitas vezes, o de dizer que se lerem antes de escrever possivelmente escrevam já com outras questões, ou apenas para dar o testemunho do bem recebido. Portanto, chega de auto-piedade, e parta “pra dentro”. Leia o site, medite, ore, levante-se todas as manhãs agradecendo o fato de que esse “insucesso” foi a sua salvação. Já imaginou você “de pastor?” Garanto a você: não seria legal para a sua alma! Um beijo pra você. Nele, Caio