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Cartas

SOU PASTOR E NÃO SEI O QUE FAÇO ANTE UMA MULHER... (I e II)

SOU PASTOR E NÃO SEI O QUE FAÇO ANTE UMA MULHER... (I e II)

 

 


----- Original Message -----
From: SOU PASTOR E NÃO SEI O QUE FAÇO ANTE UMA MULHER...
To: contato@caiofabio.com
Sent: Monday, August 21, 2006 12:38 PM
Subject: Uma mulher-ovelha ou um abismo?

 


Rev. Caio,

Paz e Graça!


Tenho 34 anos, e atualmente sou pastor de uma comunidade que conta com uns
350 membros. Tenho procurado viver e pregar o Evangelho da Graça a partir de
Jesus e conforme Ele. Além de pregações embasadas nisto, procuro
visitar todos os irmãos/membros e congregados, sem fazer nenhum tipo de
descriminação, e sempre que acho
necessário, principalmente quando precisamos tratar alguns traumas,
conflitos entre os casais, etc. O que, na realidade, tem sido gratificante
para mim; posto que  já vi o mover de Deus em muitas ocasiões.

Contudo, há algo que tem me preocupado... É acerca de uma jovem-senhora, membro de nossa igreja (que por sinal é muito inteligente e bonita) e
que participa assiduamente dos trabalhos locais. Ela é casada com um homem
bem mais velho que ela. Ou seja, têm quase o dobro de sua idade. Porém,
aparentemente é uma pessoa bacana para ela: tranqüilo. Todavia, não é assíduo às reuniões como ela é. De alguns dias para cá, tenho observado que esta irmã tem procurado se aproximar muito da minha pessoa, é óbvio que sempre com o álibi de tratar acerca de algum assunto referente à igreja e aos trabalhos. No
entanto, percebo que é mais como uma forma de aproximação do que de fato pelos trabalhos locais, já que percebo que ela se sente bem quando está ao meu lado, e acaba sempre por tocar em muitos outros assuntos, a maioria das
vezes totalmente opostos ao primeiro assunto em pauta (o tema do qual estávamos tratando).

Sempre que converso com alguma pessoa da igreja, principalmente do sexo
feminino, costumo está acompanhado de minha esposa; seja em um
aconselhamento ou em qualquer outro assunto. Entretanto, observo também que
ela procura se aproximar sempre que minha esposa está conversando com outras pessoas, ou ocupada em alguma tarefa, ou até mesmo quando não está na igreja, como acontece algumas vezes, tendo em vista algumas necessidades cotidianas.

Pergunto: O que fazer em uma situação dessa? Já que sei que pessoas como ela, vivendo nessa situação, ficam muito sensíveis?

Tenho medo de tocar no assunto e acabar gerando uma confusão generalizada...
 
Caio, como é que fica uma mulher em momentos de insatisfação? O que faço, então, se sou pastor e tenho que dar atenção a todos e a todas?

Espero sua resposta, se possível; pois sei que és muito ocupado e que são muitas as correspondências.

Tenha-me como um amigo e uma pessoa que tem aprendido muito com você.

Um grande abraço!

Nele, o autor da Graça!

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Resposta:


Meu irmão e amigo no Senhor: Graça e Paz!


Sua questão tem a ver com o que fazer ante uma mulher bonita e inteligente (da igreja), e que anda rodeando você; e, para isso, buscando aproximação de sua esposa (seria a via mais legitima de aproximação); sendo que a suspeita acerca das intenções ou motivações dela baseiam-se no fato dela ser jovem, bela e atraente, e casada supostamente de modo insatisfatório; realidade essa que a estaria deixando com a libido no Everest; e, portanto, pondo a mulher em posição de bote de serpente ante você. Acho que foi e é isto que você disse, ou, pelo menos, foi isto que entendi. 

Assim, se entendi direito, o que você me diz é que está tentado. Tentado pela mulher bela, mal atendida, e jovem demais para ficar só ou sem a companhia adequada: um homem mais jovem e capaz de atender a jovem mulher em tudo, mas especialmente de modo sexual.

Digo isto, meu mano, em razão de que, não importando as intenções da mulher, a sua carta revela a sua tentação, não a dela. Sim, porque é você quem tem tal medo; e, portanto, é você quem se sente vulnerável. Afinal, que poder de tentar tem uma mulher sobre um homem que não esteja já em estado de tentação e cobiça?

Se eu tivesse vivido com seus medos e com suas projeções, durante décadas, o que teria eu feito da vida? Sim, considerando tais assédios, como eu teria vivido?

Sabe o quê? Meu coração nem notava, tão tranqüilo eu estava! Somente nos últimos tempos de vida como pastor foi que notei que isto existia em abundancia onde quer que eu fosse. E por que notei apenas depois de muito tempo? Ora, é que somente passei a notar depois que meu coração estava se sentindo solteiro e carente, antes de conhecer minha mulher.

Desse modo, vi com clareza que tais coisas acontecem dentro de nós; e que se elas não acontecerem dentro de nós, mesmo que aconteçam à nossa volta, tal não nos fará mal; pois sabemos quem somos, e também quais são as nossas motivações em qualquer caso.

Portanto, meu mano, o que você está me dizendo é que está tentado pela mulher; que você, por isto, se sente vulnerável; que tem medo dela por ter medo de você mesmo; que sabe o que ela quer, e não se garante; pois, de fato, se aquela mulher jovem, bela e inteligente partir pra cima, e você estiver só, seu medo é não se segurar... 

Ora, de fato estamos diante de outra questão, e não ante a questão que você propôs, a qual, simplificando, seria a seguinte: “O que faço pra atender pastoralmente a tais mulheres sem cair em tentação?”

A questão, todavia, ante a qual estamos é outra. De fato, a sua questão psicológica é a seguinte: “Como faço para me defender de mim mesmo, pois, não sei se resisto às investidas de uma mulher como aquela — o que faço?”

Não sei por que você criou essa proteção física a si mesmo, e que se traduz no fato de você não atender ninguém sem a presença de sua mulher. Sim, você não me disse a razão; mas seja qual for a razão que você me dê, saiba: sua atitude defensiva é uma declaração permanente de tentação feita por você a você mesmo, assim como também é uma declaração de fragilidade e susceptibilidade sexual e ou afetiva. Ora, a jovem mulher sabe disso; e todas as mulheres da igreja também.

Digo tudo isto apenas para afirmar que você não teria nem mesmo me escrito esta carta se você não estivesse de fato “tentado”. A tentação, portanto, segundo nos diz Tiago, é sua; é sua a cobiça; é seu o desejo; e ela, a tentação, é sua projeção... Pois, caso você não estivesse tentado, o que ocorreria é que você nem mesmo registraria tal coisa. Mas, se a registra, é porque seu coração já abriu os códigos dos desejos da mulher, e que são como os seus. Lá no fundo, quase ouvi você dizer: “Que pena!”

Então, meu mano, o que tenho a lhe dizer só poderá ser dito se antes você me responder sinceramente às seguintes perguntas:

O que você sente pelas mulheres e que é algo que o perturba tanto?

Bate em você aquele espírito pastoral que diz — “Que pena! Além de cuidar das almas delas, eu sei que poderia também satisfazer-lhes o corpo. Que desperdício ver essa mulher tão linda viver de modo tão carente. Que tristeza não poder ajudar. Que medo de não me segurar sabendo que ela me deseja”?

Já lhe passou pela cabeça alguma fantasia sobre ela e você?

Você tem algum tipo de trauma pastoral no que tange a ter visto algum pastor ser abusivo com as mulheres, e, portanto, deseja evitar isto em sua vida de qualquer modo?

Você já percebeu se quanto mais você se protege, mais tentado fica?

Sim, meu mano querido, responda a você mesmo ao que lhe perguntei, e, depois, honestamente veja se o problema está na mulher carente ou no pastor tentado!

Quando um homem está tentado, toda proteção que ele crie a fim de impedi-lo de fazer algo errado, abre ainda mais o espaço para que tal temor se transforme em tentação permanente. Digo isto porque você sabe que muitas vezes não fosse a presença de sua esposa no aconselhamento, e você teria tido liberdade para se permitir certas coisas que você tem pavor de que lhe aconteçam. Assim, você se protege não das mulheres, mas de você mesmo. Ou alguma mulher teria o poder violentar você?

Não adianta proteger o lado de fora se o que está descoberto, a presença física de sua mulher não cobre!

Assim, a questão toda é remetida para outro ponto: Como é o seu casamento? Você e sua mulher têm prazer um no outro? Você se protege tanto das mulheres que acabou por tentar-se a si mesmo pela via de tal medo?

Ou, outra questão: A sua mulher teme as outras e diz que não quer você fazendo aconselhamento sozinho?

Ora, se além de sua tentação, você ainda tem os medos de sua mulher no processo, saiba: Ela, sem o desejar, aprofunda ainda mais a sua insegurança, passando a você a permanente mensagem de que você sozinho não se segura de mulher.

Meu irmão, a melhor coisa para impedir o que você teme é a verdade. A verdade é o que nos liberta, sempre. Assim, antes de tudo, reconheça que o mal não está lá fora, longe, mas dentro de você, entre a sua boca e o seu coração.

E mais: saiba que se no coração você crê que não resiste, e com a boca você não confessar isto, então, você não será salvo disto; antes, será escravizado pelo medo, o qual apenas aumentará as suas cobiças, até ao ponto em que você, morrendo de desejo lascivo, acabará por ceder; e, o resultado será catastrófico para a “igreja local” e para as vidas de todos. 

Concluindo por hoje, apenas lhe digo o seguinte:

Seu problema não é a jovem mal assistida por um velho e cansado marido, mas sim é o problema do jovem pastor, que teme o dia todo não segurar a onda, e, por tal razão, se protege fisicamente, levando a mulher a todos os lugares e atendimentos, pois, lá no fundo, teme que algo possa acontecer a ele, e, assim, não consiga se segurar. Este é o fato; e o que passar disto, saiba: é conversa fiada!

Desse modo, olhe pro seu próprio coração e me responda honestamente!

Somente depois disto é que terei qualquer coisa útil a lhe dizer. Do contrário, que posso eu lhe dizer? “Fuja”? Mas, para onde? Ou você não se carrega aonde vai?

 

Nele, que não temeu o que pensaram os discípulos quando conversava a sós com “Samaritana”, pois, Ele não era o sedento, mas ela sim,

 

Caio
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----- Original Message -----
From: 
To: contato@caiofabio.com
Sent: Wednesday, August 23, 2006 11:09 AM
Subject: Uma mulher-ovelha ou um abismo? - RESPOSTA


Graça e Paz, Rev. Caio!


Desde já lhe agradeço pela atenção dedicada a minha pessoa; e saiba, tenho aprendido muito com tudo que já foi posto. Entretanto, como me pediu, aí vão as respostas às perguntas que achei mais coerentes responder:

Dentre as perguntas que me fizeste estão as seguinte: "O que você sente pelas mulheres e que é algo que o perturba tanto? Você tem algum tipo de trauma pastoral no que tange a ter visto algum pastor ser abusivo com as mulheres, e, portanto, deseja evitar isto em sua vida de qualquer modo?"

RESPOSTA:

Pra falar a verdade, e lhe falo com toda a sinceridade de minha alma, meu maior medo é o da queda; da transgressão contra Deus e sua Palavra. Talvez esse medo tenha tomado essas proporções em virtude de no passado, quando ainda jovem, ter presenciado a queda de um pastor, o qual eu o tinha como um cidadão bacana (ainda o tenho), bem como, o admirava pelo carinho que tinha para com todos e pelas mensagens que estavam tão arraigadas ao que de fato Cristo ensinava (a Graça), e que além de pastor, era também meu amigo (ainda é). Porém, quando tudo isto aconteceu (a queda dele), fiquei muito abalado, não porque o tivesse como um super-homem, mas, simplesmente porque não queria aquilo para ele; visto que hoje, depois de quase 15 anos, ele ainda está vivendo com as duas mulheres, em tetos diferentes; a sua e a outra. Pasme!

Sei que ele foi engodado por sua própria cobiça e concupiscência, e consequentemente pelo pecado que foi gerado em si.

Vi isto acontecer não só com ele, mas também com Davi, Salomão e tantos outros, que estão como exemplo para nós nas páginas das Escrituras. Porém Caio, sinceramente não quero isto para mim, não quero ser mais um "pastor" da nossa contemporaneidade a escandalizar o Evangelho de Cristo como muitos desses da atualidade estão fazendo ao seu bel prazer, simplesmente porque
acharam uma via fácil, a do pastorado. Não só com referencia a mulheres, adultérios, mas também, e principalmente, com relação a dinheiro, e você sabe muito bem o nome de muitos deles que fizeram das igrejas atuais o seu comércio, sua fonte de desejos carnais; os verdadeiros fariseus atuais!

Quanto à mulher bonita, de fato, aparentemente demonstra ser uma mulher muito carente, até porque seu esposo, além da idade avançada, de quebra, ainda trabalha viajando a serviço de uma determinada empresa.

A outra pergunta que fizeste foi: "Já lhe passou pela cabeça alguma fantasia sobre ela e você?"

Sinceramente, não. Apesar de achar que na dela sim. Digo isto não porque ela tenha me falado, mas por que em algumas ocasiões a vi olhando para mim como quem está com água na boca para tomar um sorvete em tempo de verão.

Quanto a minha esposa, vivemos muito bem em todas as áreas, inclusive a sexual, e ela na realidade só me acompanha nas visitas e aconselhamentos em virtude de lhe chamar, assim como, em uma boa parte das vezes ela é a conselheira, tendo em vista algumas mulheres serem um pouco recatadas para conversar determinados assuntos com nós, homens, como você sabe.

No mais Caio, sei que é muito difícil para nós que pastoreamos estarmos isentos destas e de outras coisas, pois, são muitas as mulheres carentes que estão conosco, e o pior é que na maioria das vez elas vêem em nós um escape para os seus desabafos e anseios.

Espero sua resposta como de um Timóteo para um Paulo, pois o tenho como um homem bem mais experiente que eu, e sei que és.

 

Grande abraço.


Nele,


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Resposta:

 

Meu querido irmão e amigo no Senhor: Graça e Paz!

 

Obrigado pela sua resposta, e, perdão pela demora na minha resposta. É que apenas vi sua carta agora, enquanto buscava uma outra.

Desde a primeira carta que você designa o tema dela, o que, para mim, é sempre muito sugestivo. Veja só: “Uma mulher-ovelha ou um abismo?”

Abismo. Medo de cair!

“Medo de cair” acaba se tornando sedução do “abismo”, assim como a vertigem se torna a sedução do precipício, quando se o teme.

Teme-se esse “cair” quando se tem uma queda por ele.

Assim, mesmo que se atribua tal medo ao escândalo contra o Evangelho, no entanto, o poder desse medo sobre você (a ponto de alterar sua vida), não vem do temor do escândalo, mas sim de sua propensão a tal coisa, dado ao fato de que ela o habita como forte pulsão.

Nossos medos são do tamanho de nossas fantasias com relação à coisa que se teme.

Aliás, ter a percepção de que alguém olha você como você disse que já a viu olhando pra você — “... a vi olhando para mim como quem está com água na boca... para tomar um sorvete em tempo de verão.” — o coloca nesse lugar de muito medo da tentação que o tenta como pulsão, e que em você soa como a batida de um surdo na alma.

Sei que se pode temer muito algo apenas por insegurança, e não por cobiça.

Entretanto, tal coisa acontece com naturalidade em casa, na família, quando, pela via dos laços genéticos, se teme que algo se repita em nós, em razão de ser um comportamento verificável na família.

Mas quando não é o caso, a identificação com o comportamento não é pelo medo da herança genética, mas sim em razão da identificação psicológica com aquele que pratica algo que não se quer pra nós. Porém, como a pessoa em questão nos emociona de muitas maneiras, teme-se que aquilo se repita em nós. Afinal, tememos que nosso carinho pela pessoa se torne em adesão nossa à coisa que tememos que nos sobrevenha em razão daquele carinho e de sua reciprocidade. Então, tem-se que colocar a amizade entre (“ainda é” ) parênteses, conforme você colocou o pastor que “caiu” em parênteses em sua vida.

Assim, você tem duas opções: ou teme ficar em parênteses para os outros; ou, quem sabe, teme, pela identificação, que cobice as mesmas coisas que o outro cobiça.

Desse modo, seu amor escondido por ele é seu maior sedutor. Posto que em sua cabeça, o fato de você não conseguir querer “diferente” por ele, o faz sócio dos gostos dele; o que, para você, é fonte de medo pulsante e contínuo — em razão da identificação.

O fato, meu irmão, é que a pior verdade é sempre infinitamente melhor do que o melhor auto-engano.

Veja como você disparou do tema das mulheres para heresia, dinheiro e exploração do povo. Foi uma guinada muito brusca, típica de uma alma que não quer chegar muito perto do abismo, pois teme pular nele.

Todas as demais coisas de natureza externa não são importantes em si mesmas (levar a mulher para as visitas, por exemplo), mas apenas como um sintoma do tipo de medo e preocupação que lateja em você.

Assim, não precisa se preocupar com seus hábitos, mas apenas com a razão deles. Posto que eles em si mesmos não carregam nenhuma importância. Porém, como sintoma eles possuem grande importância.     

Assim, meu amigo, o melhor a fazer é se perguntar por que aquilo que aconteceu ao seu amigo assusta tanto a você. E, somente você pode responder a tal pergunta.

Se você teme tanto cobiçar a cobiça dele, então, saiba: — é porque ela já tem sua raiz em você. Ora, se ela tem uma raiz em você, somente você, pela admissão da verdade, poderá tirá-la daí. O conhecimento da verdade nos liberta. E o seu reconhecimento também.

Afinal, o problema não habita fora, como ensinavam os fariseus, mas sim dentro, conforme ensinou Jesus!  
 

Receba meu carinho!


Nele, que não temeu quando Seus discípulos o viram conversando com a “Samaritana”, porque Ele não estava com sede dela, mas sedento por dessedentá-la com a Água da Vida,

 


Caio