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Cartas

SOU MULHER DE UM HOMEM SÓ, MAS DÓI

SOU MULHER DE UM HOMEM SÓ, MAS DÓI

-----Original Message----- From: SOU MULHER DE UM AMOR SÓ, MAS DÓI Sent: segunda-feira, 20 de outubro de 2003 14:54 To: contato@caiofabio.com Subject: O QUE FAÇO? Mensagem: Querido Caio, Sou uma admiradora do grande ser que você é, não sei por que, mas sinto muita segurança de falar dos meu conflitos com você. Tenho 33 anos, fui casada por três anos com o homem que tenho certeza que foi o único que amei, ou amo não sei mais; antes de nos casarmos namoramos por oito anos... Mas eu fui tão ferida por traições e mentiras que não agüentei mais, ele me deixou. Estou divorciada há quatro anos, e embora eu tente me enganar que superei, eu ainda sofro muito por tudo. não tive filhos, me sinto muito só, minha vida com Deus é cheia de altos e baixos, mas sei que sua misericórdia é o que me fortalece a cada dia. Quero viver uma vida plena com o Senhor, sei que Ele é maior que todas as dificuldades, mas as vezes penso que vou enlouquecer e não agüentar. Ás vezes, me acho egoísta por ter outras pessoas com problemas maiores que os meus e que precisam de mim. Você sempre teve um papel importante em minha vida, cresci ouvindo falar de você e assistindo seus estudos quando vinha à Manaus, em nenhuma circunstância da vida duvidei ou me decepcionei com você, sempre tive certeza que você é um instrumento nas mãos de Deus. UM GRANDE ABRAÇO ******************************************* Resposta: Querida AMIGA: Paz! Desculpe a demora na resposta. Tem sido difícil dar conta de tantas cartas, aos milhares. A Bíblia diz que ninguém deve “acordar o amor até que este o queira”. E, sabe por que ela diz isto? Porque um vez que ele acorde, de fato, ele é mais forte do que a morte, e o seu ciúme é implacável como a sepultura. Acho que quem já teve muitos amores na vida é porque nunca teve nenhum. A cada diz mais eu creio que pode-se ter muitos sentimentos bons e prazerosos por pessoas, mas só se ama, de fato, uma vez. Quando vejo pessoas que vão mudando de amor como quem muda de roupa, sempre creio que só é assim porque nunca foram afetadas pelo mal-do-amor. Tenho medo de falar do amor dos outros. Os conselhos são muito perigosos. 1. É psicológicamente correto dizer que amor "de-mais", é adoecidor. Mas nem sempre é verdadeiro. Há muita tirania sobre o tema. 2. É teologicamente correto dizer que só Deus ama de modo incondicional. Mas nem sempre isto é absoluto, pois, já vi pessoas que amam incondicionalmente--nos limites de sua própria relatividade--até o fim. É facíl opinar sobre o amor dos outros. Eu, todavia, tenho temor e tremor. É terra santa. Trato com extrema reverência o amor! Uma mulher que um dia conheceu o amor—por mais trágico que tenha sido—dificilmente conseguirá sobreviver nos braços de quem quer que seja. Morreria vomitando... Na minha opinião o que você deve buscar é pacificar seu coração em Deus, e não num homem. O conselho dos amigos quase sempre são do tipo: “pegue outro pra esquecer”. Há, aqui no site, um texto que transcreverei para você. É a palavra de uma mulher que amou de verdade. *************************************************** Uma Tentativa de Agradar ao Coração Ouvi de uma mulher uma história de dor. Uma das mais doloridas que já ouvi. Não porque tenha sido sangrenta ou mirabolantemente escandalosa. Foi uma das piores de todas porque me foi contada pela alma de um ser aprisionado a uma incurável forma de amor. É uma história de uma dor maior que a própria dor pode explicar. Recebi por e-mail. Eis aqui a saga de um coração de mulher: Ela amava loucamente um homem. Dera-se completamente a ele: corpo—todo e tudo—, alma e espírito, para além do que a palavra “entrega” pode exprimir, nem espremendo. Amava-o a tal ponto que “o amor caiu doente”—como diz o poeta. O homem também a amava e a desejava loucamente. Mas era menos corajoso do que ela. Seu sentido de auto-preservação era maior que o dela. Ambos eram casados mas não tinham filhos de seus casamentos. Seus cônjuges, todavia, eram amigos de infância. Daí o sofrimento do “casal das sombras” ser horrível. O sentimento de amor proibido e pecado eram indescritíveis. O homem desse amor acabou não suportando as pressões que se levantavam contra seu amor proibido, dentro e fora de seu ser. Então, a deixou. Largou tudo e foi-se rasgado, infeliz e amargurado. Mas partiu. Ela ficou com os ossos daquela des-conjunção. Não tinha para onde ir. Fez de tudo para não morrer. Tentou des-trair-se, mas traía-se em cada distração. Rolou e revolveu-se sobre aquele amor maior que o mar e mais profundo que o abismo. Não suportava a ausência de seu homem. Ela sabia que ele era de fato um homem. Coisa rara entre os machos! Ele, até onde ela soube, sofria de agonias e náuseas. Sua alma vivia de batalha em batalha para conseguir existir. As guerras nunca cessavam em seu ser. Não havia remédio também para sua dor. Um dia ela ficou sabendo que ele mudara-se para uma terra muito mais distante ainda e que de lá, provavelmente, jamais voltaria. Exilara-se de tanta dor onde ninguém pudesse falar com ele. Ela sofreu por antecipação todos os dias de saudades do passado, do presente e do futuro, sem saber que isso não existe. Basta à cada dia a sua própria saudade. Assim, ela morreu antes da morte chegar. Sua beleza feminina, todavia, nunca murchava. Tornara-se ainda mais bela. A dor lhe emprestara, estranhamente, ainda mais formosura. Por isso, os homens a assediavam e os amigos e amigas sugeriam-lhe o caminho da porta mais larga: um outro amor! Surgiu um médico em sua vida: belo, inteligente, agradável. Todos os que viam a beleza da mulher não ser usufruída, alegraram-se com a chegada do doutor. Era como se ele pudesse usufruí-la por eles. Essas coisas acontecem. Por isso é que pouco gente sofre quando a mulher feia fica só. As belas, no entanto, são assediadas até pelas amigas. Ela tentou enganar-se quanto ao peso e a força do amor que nela havia. Imaginava, como todo mundo, que uma outra pessoa seria o seu “resgata-dor” de sua alma. Afinal, ela olhava-se no espelho e via-se linda! Assim, ela mesma dizia todos dias aos reflexos de beleza que do espelho a seduziam aos seus próprios olhos, que era um desperdício amar tão loucamente quem não voltaria nunca mais—pelo menos era essa a história que o horizonte do mundo real contava! Depois de um tempo decidiu entregar-se ao doutor. Sofreu aquela dor horrível de despir-se sem jamais tirar a roupa. Cometeu esse crime contra sua alma, contra seu amor. E, assim, tentou amar sem amor. Enganava-se como podia. Deu-se, mas jamais conseguiu entregar-se. Recebeu carinhos que causavam-lhe repugnância e buscou prazeres que lhe chegavam com o triste sabor de desgosto. O problema é que todos em volta estavam felizes com a chegada do doutor. Suas amigas o achavam maravilhoso. Ele era um cara legal, aberto, culto, rico e engraçado. Sua gentileza encantava as mulheres e não provocava os homens. Ele era ideal para todo o mundo, mas não para ela! À cada gesto dele, ela via o outro. À cada beijo, ela sentia o gosto do outro. À cada tentativa de fazer amor, ela se contorcia de agonia: sua alma não atendia aos apelos unânimes que vinham de fora! Amar sem amor é mais difícil do que enterrar-se vivo! O fato é que casaram-se assim mesmo! Dois anos depois ela estava em estado de miséria absoluta. Agora nem mais a beleza estética ela via nele. O doutor se transmudara num gari cheirando a lixo em sua alma. Para o médico sobrara o lixo de um coração de mulher que não se deixou vencer pela média e nem se fez cidadã da comunidade dos que pensando que um dia amaram, apenas trocam de amor como quem muda de meia. O coração da mulher era vítima de um amor que nunca morreu, nem morreria e que se “rendera” apenas porque importava agradar a todos, e era essencial buscar a normalidade. Cinco anos depois ela sentia dores maiores que as saudades que um dia a matavam pela ausência do seu amor que partira para uma terra distante. A combinação da saudade do outro com a presença do doutor—que dela demandava amor e sinceridade—, haviam se tornado piores que qualquer inferno de antes. E agora? Casara-se com um “ideal” e vivera para atender a demandas de “normalidade” que a obrigavam a casar sem paixão, a amar sem amor, e a esquecer aquele que nela vivia. Não sabia o que fazer. Entrara num mundo onde tudo ficara feio e onde todas as belezas ofendiam. Preferia morrer. Aquele casamento também não gerara filhos. Filhos ela teve não do ventre, mas do homem-amor que se foi adoecido, mas que nunca saíra de seu ser. O amor era o “filho” que nunca tiveram para o mundo e que nunca os deixou em paz a seus ventres da alma. Na anatomia do amor homem e mulher possuem ventre. Bem, como já disse, essa mulher me escreveu um e-mail. Implorou que ninguém soubesse quem ela era. Daí este texto não ter nem nome e nem endereço. É claro que eu jamais diria. Não precisava nem ter pedido. Todavia, como sua carta era de quinze paginas, pedi-lhe a autorização para fazer aqui uma “síntese”. Tive sua anuência. Por isto escrevo. Doeu em mim também o ato de escrever sua história inacabada. Amores assim deixam todas as histórias inacabadas. Viram épicos psicológicos, tragédias a serem lembradas para sempre. Sugeri-lhe que deixasse o doutor prosseguir na jornada. À menos que ele desejasse sepultar-se com ela, em vida, na tumba de um outro—o que o adoeceria também. Afinal, está decretado pelo próprio coração que é proibido amar sem amor. E ninguém consegue essa façanha se a cama está envolvida. Pode-se amar o inimigo, mas não se pode fazer amor com ele e nem beija-se a sua boca com sabor e desejo. Ou mesmo pode-se fazer isto se o coração ainda não tiver conhecido o amor. Há muitas formas de amar, mas este amor do qual a mulher me falou não tem em I Coríntios 13 sua expressão. Não de é de Coríntios que vem sua fonte, mas de Cantares. O fato de ambos os textos começarem com “C” é mera coincidência de nomes, pois, entre eles as designações de amor são diferentes! O conselho do livro de Cantares é para que não se tente acordar o amor “até que este o queira”. Isto porque, uma vez acordado, o amor torna-se “mais forte que a morte e as muitas águas não podem apagá-lo.” Nesse caso, uma horrível saudade dói muito menos que a melhor companhia. O doutor e ela que o digam. E aqui só posso falar dos dois, pois o homem que partiu, obviamente, não me escreveu. Talvez nunca nem fique sabendo desse meu texto em honra de seu doído amor. Sei, entretanto, que se o que ela me contou dele é realidade, seu coração também não encontrará descanso em nenhum braço que não seja o do amor de Deus. Para a mulher foi a morte ter que dar-se a quem não queria. Para o doutor, certamente, foi uma tortura saber que sua presença era infinitamente menos forte que a ausência de quem foi, mas jamais deixou de ser ou estar. À medida que vivo aprendo coisas simples. Histórias como esta me ensinam muito. Entre essas coisas que essa tragédia me ensinou há uma em especial: A alma nem sempre ama assim, mas quando assim ama, nem a morte a curara dessa doença. O que lhe resta é descansar no amor de Deus, e não no dos homens—e aqui falo de homens e mulheres, pois em nenhuma outra substituição haveria paz ou conforto. Eu disse muitas coisas mais a essa mulher tão diferente de suas amigas e amigos. Mas entre tantas, falei-lhe também que era melhor que ela se desobrigasse dessa normalidade de amar sem amor, do que estuprar-se todos os dias a fim de agradar a seus “amigos normais”. Gente como essa mulher não cai de árvores! São frutos raros e são proibidos! Quem comê-los, sofrerá a morte! E quem—em sendo como ela e em sendo assim—deixar-se levar pelos apelos da normalidade, sofrerá uma curra psicológica sem tamanho. Se o amor não chegar por conta própria nunca tente inventá-lo, não nesse nível e muito menos como substituição. Ninguém pode servir a dois amores! A história aqui narrada acontece mais com as mulheres que com os homens. Homens, todavia, podem sofrer dessa incurável doença também. No caso das mulheres é porque a “maldição” está se cumprindo em seu estado mais puro e absoluto: “o teu desejo será para o teu marido”. No caso de homens amarem assim, pode-se ter certeza: é porque foram irremediavelmente atingidos pelo amor, do contrário, não suportariam entregar-se tanto. Homens são fracos nesse tipo de amor. Sua cura tão rápida é sinal de sua fraqueza. Homens dissimulam ausência de amor melhor do que as mulheres, mas podem sofrer o que nenhum macho entenderá completamente: quando se ama assim, a alma casa. E só se casa uma vez, e a instalação de tal amor inviabiliza o coração para qualquer outra coisa que não seja apenas a fugacidade de momentos que não se transformam em nada! Ora, esse tipo de paixão que perpassa os anos e que não envelhece, é rara. Mas quando acontece, nem a distância consegue criar rugas nele. É mais forte do que a morte. Nenhum homem pode “separar” tais seres. Muito menos a distância ou a calamidade. Mesmo que nunca mais se vejam jamais deixarão de se encontrar nos aposentos do coração todas as horas do dia e da noite. Visitar-se-ão em sonhos e terão pesadelos acordados e também de olhos abertos. Quando é assim, o melhor a fazer é buscar paz e satisfação no privilégio de ter conhecido o amor. O próximo passo é mergulhar de cabeça no consolo da presença de Deus. Se o coração mudar seus afetos de endereço, então, foi porque Deus lhe mudou os caminhos interiores. A tentativa de substituí-lo por conta própria é pior que um câncer para a alma. Aliás, paga-se com a própria alma. Se não virmos tais pares juntos na terra, tenhamos, no entanto, uma certeza: os veremos juntos na eternidade. Ou, quem sabe, como disse o poeta, “no tempo da delicadeza”. Enquanto isto, sugeri que ela deite ao lado Daquele que é o Único que consegue dormir quando o barquinho está fazendo água, não olhar para a fúria das ondas da alma, e dizer: "Vou ficar quietinha aqui contigo Senhor. Acalma o mar de meu ser, pois, em Ti me refugio". Parece conselho de criança, mas honestamente é a única coisa que posso dizer para uma alma que vive as conturbações de um amor maior que o coração pode suportar. *************************************************** Minha querida, se seu amor é assim; o que eu disse a ela, é o que também digo a você. Deixe Deus aquietar seu coração. Não se console com homens, pois não consola, apenas desola. Mas do que nunca leia Isaías 54, e saiba: O Senhor é o seu marido. Se as coisas mudarem, deixe que elas mudem. Mas não tente você mesma arrancar no peito e na raça, pois, o que acontecerá é que você arrancará um pedaço de sua alma, e ninguém vai enxertar nada no lugar. O papel mais difícil para a alma é ser fiel ao próprio amor não correspondido. Não nutra esperanças. Mas não se torne neurótica tentando tirar isso de dentro, pois, quanto mais você mexer, mais vai entrar. Entregue, viva, e descanse. Foque no todo da vida. Ande em sua dignidade. Se isto não "sair" de você, irá, no entanto, deixar de doer, e se transformará num "bem", numa herança de sua alma. Deixe nas mãos de Deus, pois somente Ele sabe mexer no coração. Um beijão, Caio