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Cartas

SOU EX-PASTOR NEOPENTECOSTAL. E AGORA?

SOU EX-PASTOR NEOPENTECOSTAL. E AGORA?



 

Querido amigo: Graça e Paz!

Responderei suas perguntas dentro de seu e-mail, pois são muitas. Ao final de sua carta, após responder as suas perguntas, voltarei para dizer algumas coisas que você não perguntou, mas que julgo serem importantes. Até já.

Caio

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----- Original Message -----
From:
To: contato@caiofabio.com
Sent: Wednesday, September 07, 2005 10:10 PM
Subject: ex-pastor

Caio,

Voz que clama no deserto...

Acabei de fazer uma viagem em suas respostas às cartas, e mais uma vez fiquei deslumbrado. Em seu site pouco a pouco estou me libertando da religião. Outrora fui um oprimido assembleiano legalista, doente pelas minhas fraquezas, onde cada vez que masturbava, me martirizava emocionalmente. Antes de conhecer seu site, conheci o neo-pentecostalismo, no qual ainda tenho muitas bases, e no atual momento sou (não sei se ainda sou) pastor da Igreja Internacional da Graça de Deus. Disse que não sei mais porque entreguei a igreja que pastoreei e não dei satisfação até o presente momento à minha liderança. Não suportei induzir as pessoas a pegarem os envelopes "plantados" toda semana em cada campanha intencionada a "prender" o povo na igreja. Como um jovem pastor que sou, e após ter tido um contato tão revolucionário com a graça, não me sentia bem em escravizar o povo dessa forma.

Meu primeiro contato com a graça, Caio, foi em uma faculdade não concluída com os Batistas Tradicionais. Posteriormente busquei conhecer mais sobre o assunto, descobri um fórum onde as questões giram em torno da Graça. Logo seu site foi-me indicado. Assim tenho me alimentado desde então.

Minha vida e a dos meus amigos foram, como já disse, revolucionadas. Não posso mais viver sem a graça, Caio. Não paro de pensar nela. Só falo dela, e dos novos conceitos que nela reformulei.

Admiro muito você, Caio; e antes de lançar minhas questões, quero dizer que uma multidão pelo Brasil e o mundo, nos identificamos com sua mensagem (que não é sua, mas estava lá nos evangelhos todo esse tempo), e que estamos juntos com você. Queremos beber mais dessa água que sacia verdadeiramente a nossa sede.

Bem, serei direto em meus questionamentos:

1- O que é pecado? Quanto mais eu me aprofundo na graça, mais a consciência de pecado desaparece. Mas sei que há pecado. Em Rm 14 descubro que o que é pecado para uns, pode não ser para outros. Estou meio confuso nesse assunto...

Resposta:

Na Graça a gente deixa de sofrer a neurose culposa que o pecado, visto pela Lei, gera em nós. Ou seja: apenas culpa e culpa; mas nunca perdão e paz para vencer o próprio pecado tópico que nos assalta. Quando falo de pecado tópico, estou fazendo diferença do pecado que não é tópico, porém, amplo, difuso, imiscuído em tudo o que sou e faço. Desse modo, a Graça nos põe no lugar onde o pecado é pecado; e onde ele já foi vencido por Jesus, na Cruz; porém, faz crescer em nós a consciência dele, embora, com tal consciência, venha também a certeza do perdão. No entanto, conforme a visão do Evangelho da Graça, cada ser humano que discerne o amor de Deus, só o faz porque antes discerne sua total falta de virtude para barganhar com o Santo. Desse modo, quanto mais na Graça, mais consciente de minha própria Queda e pecado. Assim, na Graça, entro num abismo de consciência acerca de minha auto-redimibilidade (afinal, aprendi e sei que sou de mim mesmo irredimível), e, pela entrega confiante à fidelidade redentora de Deus manifesta na Cruz, eu descanso em fé; pois, agora, eu sei que sou irremediavelmente “pecado em mim mesmo”, porém, já estou perdoado em Cristo a fim de poder viver dia a dia a nova vida que já é minha. Portanto, a Graça não diminui a consciência de pecado, ao contrário, a aumenta. O que ela faz é tirar “aguilhão do pecado”, cuja força vem da idéia acerca da salvação pela Lei, que é o que em geral, na pratica, existe como “verdade salvadora” no coração dos cristãos, apesar do ensino de Jesus e do Evangelho. Sim, a maioria confessa a Jesus, mas, de fato, se sente salva pela Lei, conforme julguem que estejam obedecendo as “leis do salvo”, que são os pacotes de santificação. Desse modo, não pense que “paz em Cristo” é ausência de consciência de pecado. É o oposto: quanto mais confiança em Jesus, mais consciência tenho de que sou um pecador irredimível por mim mesmo; e, paradoxalmente, mas certo fico de que tudo “Já Está Consumado” por Jesus em meu favor. Todavia, eu preciso descansar pela fé nesse Favor (Graça), a fim de poder usufruí-lo como bem da paz; pois, somente assim, livre da culpa do pecado, tendo sido justificado pela fé, é que começo o caminho na vida cheia de boas obras da Graça. Mas a este tema retornaremos mais adiante. Já aquilo de que Romanos 14 trata, não é pecado, é apenas “pecado para a consciência fraca”, mas não é em si pecado. Portanto, não sou eu quem faz ou não as coisas serem pecado. Pecado é. E só Deus sabe o que é o pecado, mesmo. Por isto bem-aventurado é o homem a quem o Senhor não atribui pecado; assim como também bem-aventurado é aquele que não se condena nas coisas que aprova. No que concerne às coisas que para uns são sentidas como pecado e por outros não, a recomendação é para que não se ofenda a consciência mais fraca, e, também, que não se faça, deliberadamente, a pessoa de consciência fraca ficar escandalizada. Além disso, eu não sou a referencia do que seja ou não pecado. Por isso se diz: “Bem-aventurado é aquele que não se condena naquilo que aprova”.
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2- O que é "morto para o pecado"? É uma questão só de consciência?

Resposta:

Estar “morto para o pecado” é consciência em fé acerca do que Jesus já fez (o pecado morreu Nele conforme as maldições da Lei; e isto para quem crê em Jesus); e é também a experiência da vida que, agora, justificada pela fé em Cristo, mesmo ainda sendo quem é, e lutando contra o que luta, já sabe, entretanto, que apesar disso, tal luta já não é o que nos salva, redime ou nos melhora para Deus, mas sim para nós mesmos. Sim, porque não há nada que eu faça que me torne melhor para Deus. O que importa, uma vez que eu creia, é ficar melhor para mim mesmo e para os outros, visto que a Boa Nova é para mim, não para Deus. Eu jamais serei a Boa Nova de Deus. No entanto, quando essa “consciência em fé” nos toma de assalto, e se instala em nós, a força do pecado vai diminuindo na pratica em nós, tanto como comportamento que atinge a nós mesmos, como também em relação ao próximo. Assim, as cobiças, as taras, as doenças do desejo narcisista, as invejas, os ciúmes, os desejos de guerra, as porfias, as disputas, e toda sorte de coisas que são o nosso pecado, vão dando lugar a uma vida pacificada e cheia de obras da Graça. Quando tal consciência em fé nos possui, o que resta são “os tremores do rabo da lagartixa”. Eu, todavia, sei que estou morto para o pecado em Cristo (morri com ele, e meu pecado também); que estou vivo para uma nova vida Nele, e que tem em Sua ressurreição dos mortos a minha própria garantia, em fé, de ser filho da ressurreição; e isto apenas e tão somente porque eu creio. No entanto, uma vez que se crê, essa fé sendo confiança, gera em nós a morte gradual das pulsões que se fazem alimentar pela culpa decorrente da transgressão da Lei. Porém, sem a Lei da Morte e da Condenação, o que fica é a Lei da Vida e do Perdão. Assim, livre da condenação, e livre de seu medo, inicia-se o processo da santificação, que já é em si uma obra feita por Cristo; posto que Aquele que nos salvou é também o mesmo que já nos santificou. Portanto, tudo está feito para mim. Agora, eu, todavia, tenho que aprender a crescer no tomar posse existencial, psicológica e comportamental de todo esse benefício; o qual também deve se mostrar como sentimentos curados (ou em cura...), e em comportamento simples e liberto; sobretudo liberto das “ordens” do pecado tópico e do pecado essencial; este último, sempre em processo de morte em nós, embora, em Cristo, já tenha morrido.
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3- Em quê as obras passam a ter valor na graça?

Respostas:

Ora, sem obras, que Graça haveria de ter se manifestado? Uma Graça que nada realize em nós, que não nos mude, que não acenda a nossa consciência, que não nos ponha no caminho das “boas obras de antemão preparadas para que andássemos nelas”, não é Graça, mas apenas uma tapeação existencial e psicológica. Uma coisa a ser dita é que a Graça e a Verdade se beijaram e se Encarnaram em Jesus. Assim, se estabelece o seguinte: A intenção intrínseca da Graça é beijar-se com a Verdade; e, o modo como ambas se manifestam é mediante a encarnação. Ou seja: na Encarnação de Jesus eu tenho o paradigma do significado da Graça e da Verdade se manifestando. Ora, tal manifestação não é a produção de uma doutrina, nem a sistematização de uma teologia, nem tampouco uma “conscientização psicológica”. Pelo contrário, tal paradigma nos põe no chão, nos chama para a vivencia integral da existência, e nos desafia a conhecermos a Deus como benefício em nós mesmos; e, o testemunho de tal benefício não é um discurso sobre as bondades de Deus, mas sim a encarnação desse Sentido, buscando, sem neurose, porém com fé, entregar-se ao espírito da Graça, que é justiça, paz e alegria no Espírito Santo. Somos salvos pela Graça, mediante a fé, sem obras de jactância. Porém, sem jactância, certos da salvação gratuita, é impossível não iniciar o caminho das boas obras “que de antemão foram preparadas para que andássemos nelas”. Toda e qualquer tentativa de produzir boas obras por nós mesmos, é idolatria da “justiça-própria”. Todavia, a vida de fé produz as obras da fé. Pois, a fé sem obras é morta. No entanto, as obras da fé são todas elas fruto do amor, que é alegria, paz, bondade, mansidão, longanimidade, benignidade, mansidão e domínio próprio; coisas essas contra as quais não argumentos legais. A grande mudança é que antes se praticava as obras conforme a Lei a fim de que se buscasse a auto-justificação, pelo menos para a santificação; e todo esse processo era fruto de nossa arrogância, justiça-própria, e falta de fé no amor de Deus e no que Cristo já fez por nós. No entanto, que ninguém pense que a Graça é anulação das obras. Ela é apenas anulação da jactância das obras da Lei, mas não é a cessação da frutuosidade humana. A diferença é que agora eu não faço para ser; e sim o oposto: porque sou, é que faço. E mais: não é um “faço” que tem a ver com moralismo ou comportamentalismo exteriores. Não! Trata-se de um “faço” que realiza apenas porque é, e não porque tenta se tornar. Justamente por essa razão todos as boas obras da fé são filhas do amor; pois é somente mediante o amor a Deus e ao próximo que qualquer coisa que eu faça “me aproveitará”.
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4- Minha fé, ousadia e confiança, estão muito (um pouco) fundamentados na doutrina da teologia RHEMA. O que você tem a me dizer sobre o RHEMA?

Resposta:

Rhema aparece algumas vezes no N.T. querendo significar a palavra carregada de fé. Ou seja: é a Palavra confessada conforme o coração que crê. Não é, e nunca foi, uma doutrina. De fato, é um momento-fato-existencial carregado de confiança. No contexto dos evangelhos e de Paulo, especialmente em Romanos, a palavra Rhema aparece sempre vinculada à fé que nasce no coração provocada pela Palavra, e que é confessada com a boca de quem crê. No entanto, de Keneth Haggen para cá, a palavra Rhema passou a ser vista como uma Neurolinguística cristã; e com poderes maiores do que o “pensamento positivo”; pois, pela palavra Rhema, se crê que se pode dar ordens a Deus. Assim, conforme a percepção na Graça, Rhema é apenas aquilo que a Graça faz gerar em nós pela Palavra da fé; posto que ninguém tenha qualquer tipo de fé que não lhe tenha sido dada gratuitamente. Portanto, tudo é Graça. Mas a palavra Rhema não é o código mágico para fazer Deus obedecer inapelavelmente os nossos “caprichos de fé”.
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5- Praticamente já abandonei o cargo dos meus sonhos para não pôr as pessoas em prisão.... Mas para onde ir agora? Aqui em minha cidade (disse onde) precisamos de uma Estação do Caminho. Tem planos para cá?

Resposta:

Se eu fosse abrir Estações do Caminho onde sou solicitado e onde grupos inteiros desejam se ligar ao que estamos realizando, a essa altura, o Caminho da Graça já seria uma denominação com algumas centenas de Estações. Todavia, no que me concerne, este não é o espírito da coisa. Prefiro que aqueles que crêem conforme o Evangelho da Graça, comecem a abrir grupos espontâneos com os amigos, conforme deveria ser o normal com discípulos. No entanto, quando vejo que os interessados já andaram o suficiente na consciência da Graça, e já internalizaram para si mesmos o benefício dela, então, me sinto mais aberto para pensar na possibilidade de abrir uma Estação do Caminho no lugar; e isto, por duas razões: não estou querendo abrir e fazer crescer uma “denominação”, como também não desejo começar coisas que só andem se eu estiver presente. Assim, minha resposta é simples: abriremos onde as pessoas já tiverem maturidade para andar conforme o espírito do Evangelho, e, além disso, sem demandas de minha presença.
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6- Meus filhos na fé conseguem desfrutar mais da graça do que eu. Ainda tenho lapsos de dúvidas devido ao meu pouco conhecimento (diante do seu) sobre a graça. Sou muito desconfiado, introvertido, pensador... Isso é devido meu temperamento? É normal? Quanto demorará para minha libertação total? Tenho feito coisas que na minha consciência não são corretas, só para combater essa barreira chamada tradicionalismo (que restou dos meus 7 anos de legalismo). Tenho enfrentado minhas dúvidas de frente, pois, racionalmente sei que a graça é cristã. Isso é aconselhável?

Resposta:

Você ainda é muito novo. Não é nem idade para ficar falando em filhos na fé. Sua fé ainda vai crescer muito; e sua experiência também. Esqueça seus filhos na fé e os veja apenas como irmãos. Seus filhos na fé podem ter muito que lhe ensinar. Isto porque ninguém é filho na fé de ninguém, e ninguém é pai na fé de ninguém. Todos somos irmãos e filhos do mesmo Pai. Somente Paulo e João chamam de vez em quando alguém de “meu filho” ou de “meus filhos”. Esta história de “meu filho na fé”, entre nós, é coisa de posse, de alguém que acha que tem direitos superiores por ter anunciado a Palavra e alguém ter crido. No entanto, também entre nós, esse tipo de coisa quase sempre faz mal. Isto porque o “pai” acha que a missão dele é ensinar os filhos, quando, no Reino de Deus, nosso grande benefício é aprender uns com os outros. Quanto às demais coisas (tempo de libertação, etc...), somente um tolo poderia dizer qualquer coisa a respeito. Primeiro porque o caminho da libertação e da liberdade não têm fim. Segundo porque é Deus quem efetua em nós tanto o querer como o realizar. Terceiro porque somente Ele sabe que caminhos da existência usará a fim de fazer com que Sua Palavra alcance ganho em nossa existência. Assim, fique tranqüilo e apenas cresça na Graça e no Conhecimento de Jesus, para você mesmo, e não para os outros. Tudo o mais decorre daí. Quando a árvore é boa e está viva, o fruto invariavelmente aparece.
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Continua a carta:

Essas são as prioritárias, espero com alegria por sua resposta. Gostaria de manter contato, visto que muitas dúvidas ainda precisam ser esclarecidas.

Caio, um forte abraço, desejo tudo de bom pra você.

Nele, que apesar de nossas dúvidas, é em Si nossas respostas mesmo que encobertas..

Charles
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Continuação da resposta:

Primeiro desejo comentar uma frase sua, a saber: “Praticamente já abandonei o cargo dos meus sonhos para não pôr as pessoas em prisão.... mas para onde ir agora?”

Qual é o “cargo dos seus sonhos”? Ser pastor de uma denominação que tem horas e horas de espaço na TV, poder, honra para os grandes, e um salário neopentecostal?

Ora, o que você precisa saber é que no caminho da Graça, conforme o Evangelho, “cargos” não têm qualquer valor. Deus não lida com cargos, mas sim com dons segundo a Graça. Portanto, fique livre desse mal religioso; e veja como privilégio deixar esse refugo, esse esterco, e usá-lo apenas como adubo para fazer florescer ainda mais a consciência da Graça em você.

Meu
irmão, nesse lugar onde cargos são vistos como importantes, eu já fui Papa. E é tudo lixo e bobagem. Na melhor das hipóteses serve como adubo para coisas melhores, e que são justamente aquelas para as quais os cargos não designam qualquer importância.


Fico preocupado com a coisa do “cargo de seus sonhos”, pois, caso você sofra dessas pequenas e medíocres ambições, dificilmente você compreenderá e viverá o significado libertador da Graça. Na Graça não há cargos, nem títulos, nem poderes humanos. Na Graça de Deus somente o espírito do Evangelho é a Lei da Vida. Tudo o mais é tolice; é vaidade das vaidades; é correr atrás do vento. E pior: é o caminho mais curto para a corrupção espiritual do ser.

Peço a você que não apenas leia as Cartas, mas também as Reflexões, as Devocionais, e tudo o mais no site. Também se credencie (é simples e gratuito) e entre nos Fóruns do site, com um monte de gente boa. Ora, isto poderá ajudar você no caminho desse entendimento espiritual.

Por último, peço a você que creia que a Palavra da Graça não nos serve como doutrina, mas apenas como caminho de vida. Ou seja: o único lugar onde a Graça pode ser praticada é dentro de nós, como confiança e paz; e, fora de nós, em relação ao próximo, como relação de perdão, misericórdia, justiça e fraternidade solidária. O mais é distração de acadêmico.

Espero que o que disse seja útil a você. Estou aqui. Pode dispor. Havendo tempo, sempre respondo a todos, conforme posso.

Receba meu carinho e minhas orações!


Nele, em Quem estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento, os quais Deus nos tem revelado pelo Espírito,


Caio

7 de setembro de 2005

Lago Norte

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