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Cartas

SOMOS VICIADOS EM JOGOS DE DOR...

SOMOS VICIADOS EM JOGOS DE DOR...

 

 

 

 

----- Original Message -----
From: SOMOS VICIADOS EM JOGOS DE DOR...
To:
Sent: Wednesday, November 01, 2006 11:51 AM
Subject: Só você mesmo - como Deus é bom!

 


Pr. Caio,

Meu estimado amigo E irmão,

Saudações!


A minha alma está feia e acanhada! Estou com raiva do meu pai e me sinto culpada por isto! Estou há dias com fortes dores de cabeça. Não consigo me concentrar em minhas tarefas; desânimo - é o meu nome!

Eu cresci em meio aos desequilíbrios financeiros de meu pai, que sempre culpava alguém por seus fracassos (principalmente a minha mãe) — embora se orgulhasse de nunca nos ter deixado faltar "nada" e de não beber, não fumar, não jogar!

Ele sempre foi muito trabalhador (nunca tirou férias com a família). Seus insucessos eram seus, e de mais ninguém; embora os alguéns que estavam por perto sofressem as conseqüências. Nós, família,
nunca soubemos bem o que se dava com ele. Não planejava conjuntamente antes de realizar. Se as coisas dessem certo, ótimo; do contrário, ele procurava um culpado.

Presenciei, em dado momento, meu pai ameaçar suicídio e (é incômodo escrever sobre isto) chorei muito, com medo de perdê-lo. Vivia atenta a qualquer sinal de discussão, à elevação da sua voz, ou
qualquer outra situação que apresentasse ameaça — e então a "super filha" entrava em ação para chamar, tirar o foco, intervir; evitando, assim (quando possível) que meu pai se contrariasse.

O interessante e contraditório é que desde pequena ouvi que nós (filhos) éramos responsáveis pelos nossos atos e, conseqüentemente, deveríamos responder pelas conseqüências!

Meu pai está velho e lúcido — porém, mais uma vez endividado; choroso pelos cantos e ameaçando fazer uma "besteira qualquer hora dessas"...

Fiquei sabendo pela pessoa que mora com ele, pois ele não quer que eu saiba o que se passa. Ele tem certo respeito por mim, e procura sempre me poupar quando as coisas não vão bem!

Eu comecei a trabalhar aos 18 anos de idade, e me lembro que ele me recomendou a guardar o meu primeiro salário. Como uma fórmula mágica! Eu o desobedeci. Dizer para mim mesma que era jovem, não me alivia em nada.

Copiei o modelo direitinho, apesar de suas recomendações. Aliás, para ser mais sincera, penso que todos os filhos. Pois, de certa forma, estamos sempre nos sabotando. Eu, de minha parte, penso que funciona como se eu não tivesse o direito de ser bem sucedida. Quando as coisas estão caminhando bem, equilibradamente, eu me coloco em situações em que nem eu mesma (tal qual meu pai) consigo explicar!

Admitir que precisava aprender a administrar as minhas finanças foi uma das contribuições que a separação me trouxe, pois antes o "meu" dinheiro era meu! Agora, porém, é nosso (meu e de minha filha).

O fato, agravante, é olhar para o meu pai e, embora o entenda (pois, faço o mesmo), não aceite esse procedimento em mim como verdade. Não quero ser assim.

Passei muitos anos, mesmo casada, ajudando a minha família, e sempre o fiz com alegria; confesso que o fiz muitas vezes para poupar a minha mãe de passar por determinadas situações no fim de sua vida!

Nunca quis enfrentar os porquês, mas achar soluções, mesmo que paliativas. Assim, fazia compras, pagava contas, etc. — sem perguntar!

Minha mãe morreu. Dos sete filhos, apenas um deles mora com meu pai. As despesas, teoricamente, diminuíram, mas ele continua o mesmo! Hoje, um de meus irmãos me ligou, aflito; e temo por sua saúde, pois, aos 40 anos, já é diabético e hipertenso.

Meu amigo! Não sinto vontade de visitar o meu pai!

Gostaria de não me sentir como estou me sentindo em relação a ele, e, consequentemente, a mim — eu trago a sua imagem!

Raiva, tristeza, medo, culpa, vergonha, amor, desamor, respeito, obediência, desobediência... — está tudo muito misturado!

Minha garganta dói; meu estômago se comprime; meus olhos estão molhados; meu coração apertado!

Descobri que ele é viciado em jogo!

Demorou muito a aceitar. Meus irmãos costumam dizer que eu não o conheço! Que o pai que eu conheci não é o mesmo! Dói muito, muito! Quem é o meu pai? Quem eu sou? Até que ponto eu o
absorvi, ou não!

Grande também é o sentimento de impotência; ante a ele e a mim. Antes eu podia ajudar, pois meu marido era um excelente provedor; e eu recebo muito bem pelo meu trabalho. Mas até que ponto isto vai?! Digo a minha obrigação como filha? Eu sou mãe; e provedora também — e não desejo repassar esse comportamento adiante. Tenho me esforçado por isto e tem sido dolorosamente gratificante reconhecer onde errei e buscar disciplina. Tem sido um re-trabalho, penoso, de consciência, e quero acertar! Mas, ao mesmo tempo, estou sendo tentada a buscar uma forma de ajudá-lo. Não sei sinceramente como, pois a minha renda está sendo administrada de modo a atender a minha casa, em nossas necessidades.

A filha (eu) quer ajudar o pai. A mãe (eu), no entanto, quer proteger o filho, a família. A mulher (eu) está em parafuso! Tenho medo de ser inconseqüente, e, em nome de uma ajuda, simulada, me afundar neste barco também.

Desejo a sua compreensão pela forma como lhe escrevo.

De minha alma,

__________________________________________________________________________


Resposta:


Querida amiga: Graça, Paz e Bem!


Jogo tem muitas formas e caras, e nem todas são detectáveis. A moral faz jogo ser apenas “o jogo”, e não percebe como há milhões que não “jogam”, mas que vivem de apostas sem nome.

Você mesma disse tudo quando afirmou que vê em você mesma (que não “joga”) uma atitude de jogo perante a vida — a tal fantasia de que a vida irá tratar você bem.

Esses jogos sem Cassino são horríveis, pois, mascaram-se sob muitas formas.

Exemplo: Uma mulher que não joga. De fato ela odeia jogos. Entretanto, ela sempre dá até o último cheque sem saber se tem fundos. Ou, então, ela deixa o carro ir sem gasolina até parar. No primeiro caso ela crê que de um modo mágico a conta sempre terá dinheiro. Então, às cegas, aposta com a vida, a sorte e o azar, e dá o cheque em pagamento de algo. Ela não quer dar um trambique, mas dá o cheque como quem anda brincando de “cabra cega”. Já no segundo caso, embora ela tenha dinheiro para comprar gasolina, inconscientemente ela sempre diz que está com pressa e que a gasolina agüenta até o próximo posto — então, aposta, e, frequentemente, fica na rua.

O mesmo se dá em relação a amigos, namorados, relacionamentos, etc. Sempre pensando que tudo vai dar certo porque a vida tem esse compromisso de cobrir suas contas!

Eu mesmo já tive que me enfrentar nesse sentido também. Primeiro porque cresci tendo tudo muito coberto. Depois porque, meio hippie, não estava nem aí pra nada. Depois porque, convertido, andava “pela fé”. E, por último, porque, sendo bem-sucedido em tudo, vivia em um sutil surto de que tudo daria certo, pois, sempre dera.

Por essas razões, eu jogava com a vida, ainda que dizendo para mim mesmo que era “pela fé”. Entretanto, um dia, depois de muito apanhar e me perguntar por que quando tudo estava bem é que tudo ficava de repente pior, é que me dei conta de que em mim havia esse processo.

Ora, meu caso era diferente do seu. Nela havia certo “complexo de filiação especial” e que veio a ser curado pela Graça das catástrofes que me acometeram.

Assim, acabou o Cassino Invisível, e, com ele, sua Co-Sina!

Perdas são maravilhosas para curar a quem pensa e não tem medo de se encarar em verdade!

Porém, nem todo mundo tem essa vontade de se ver. Desse modo, muitos morrem sem enxergar o domador de suas vidas, o carrasco de suas existências, e o déspota que lhes designou as dores.

Sobre a situação especifica que você mencionou, no caso a sua e de seu pai, penso que você não deve fazer de sua cura um castigo a ele; e nem tampouco de sua consciência uma disciplina para a dele.

Ao mesmo tempo, também penso que você não deve puni-lo e nem acobertá-lo. Acobertar seria ir lá, pagar tudo, ou negociar as coisas, e, depois, nada dizer. Punir seria ignorar e dizer: “Chega! Ele que se vire. Que aprenda pela desgraça. Que morra pensando...”

O que acho é que você deve fazer como Deus, o Pai, faz conosco. E como e o quê Ele faz com a gente?

Ora, desde o Éden que todos nós sofremos do complexo de ‘sorte especial’ e ou de ‘desobediência acobertada’.

Com uma certeza tão grande acerca da vontade de Deus, como a que possuía Adão e sua mulher — fazer o quê e como fizeram, foi, de fato, a maior aposta da existência humana.

Os dois apostaram que a fala de Deus sobre a morte era um ‘santo blefe’. ‘Cartearam’ com a Serpente e morreram.

O Pai, porém, os enfrenta. Pergunta: “O que fizestes?” Ou: “Por que comestes?” E vai além.

Sim! Ele diz que a existência entre o Bem e o Mal tem que ser vivida com senso de realidade e de conseqüência.

Desse modo, por causa disso, a vida será suada; e a consumação do amor e da alegria acontecerá em meio a dores — como a do parto que sucede a alegria e o prazer.   

E faz mais: Ele os cobre.

Sim! Ele os pune e os perdoa. Os faz ver as conseqüências, porém, os redime. Deixa que sintam dores, mas não lhes nega o pão como resultado do trabalho responsável. Entretanto, primeiro diz como será a vida; depois dá a eles esperança; a seguir anuncia proteção; e, efetivamente, os veste.

O que acho é que você teme fazer concessões a você mesma — fazendo-as ao seu pai.

É como a síndrome do indivíduo que um dia foi viciado, e, ao ver-se livre, odeia a quem faz o que antes ele fazia.

Sim! É como o sentir, por exemplo, do ex – alcoólatra (ou seja: do alcoólatra que não bebe mais; pois, alcoólatra sempre será) — e que odeia bebida, prega que ela faz mal, e repudia a quem bebe, pois, ele mesmo, sente-se tão atraído por aquela coisa, que, a fim de ficar livre dela, a odeia.

Frequentemente a gente odeia intensamente a tudo aquilo a que apreciamos e no que temos prazer — ainda que mórbido prazer.

Desse modo, penso que você deveria conversar com seu pai, historiar todo o processo, conforme você o viu e em você mesma sentiu e sente; não o poupando de todas as conseqüências psicológicas de tal descortinamento; e nem tampouco deixando de avisar a ele (após mostrar a clareza do fenômeno e de suas conseqüências em suas vida e em toda a família) que essa será a última vez; explicando também a ele acerca da chance que ele está tendo de conhecer redenção e libertação para a co-sina de toda uma existência (dele, sua, e de toda a família).

Entretanto, não faça isto como um jogo. Portanto, não faça a parte financeira se não houver chances reais de poder honrar qualquer que seja a negociação com os credores dele.

E mais: não faça isso sozinha, antes, envolva a toda a família, a todos os irmãos — pois, não só não seria justo, como também não seria saudável para você e nem para ninguém.

Nada de ‘super filha’. Nada de ‘super irmã’. Nada de ‘super nada’.

‘Super’ é o normal da doença tanto humana quanto do diabo.

O ‘super-homem’ fez o Nietzsche enlouquecer!

Aproveite a chance de ficar curada fazendo como lhe disse.

Sim! Sem o vício de jogar financeiramente um outro jogo (o de pagar sem ter, crendo que para você não faltará); e nem tampouco sem a síndrome de abstinência raivosa dos que ficam ‘livres’, mas sempre seduzidos; e, portanto, vivem sempre hostis à coisa que desesperadamente os atrai — ainda que seja de modo inconsciente.

A verdade não deixa nada como está. Pois, somente em Deus não há nada a mudar. Mas como Ele ama, e como o amor é Vida e adaptação em Graça, então, Ele, o Imutável, muda sempre; pois, muda por amor, e por misericórdia; porém, nem por isto muda, pois, é assim que Ele é.

Eu e você, todavia, não somos assim. Somos seres do vício, da fixação, da repetição de padrões suicidas, da morbidez, do auto-boicote; e de todas as formas de jogos de morte. Assim, em nós a verdade muda tudo, e muda sempre; e transmuda outra vez aquilo que um dia já foi objeto de mudança. Isto é arrependimento. Arrependimento é vida para nós!

Portanto, vá até seu pai sem lições; porém, com confissões de auto-discernimento. E mais: ajude-o a ver como você está tendo que encontrar a você mesma hoje, em razão de amar a ele, e, como conseqüência disso, a fim de ser inconscientemente leal a ele, jogar também outros jogos; porém jogos que fazem mal a sua própria vida. É hora de encaramento e de verdade.

Dói. Mas liberta.

Receba meu carinho, minha amizade e todo meu respeito e reverencia para com a viagem de verdade que você está fazendo.

 

Nele, em Quem se faz a viagem,

 

 

Caio