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Cartas

SERÁ QUE SÓ DESTRUO E NADA CONSTRUO?

SERÁ QUE SÓ DESTRUO E NADA CONSTRUO?



Oi, Caio! Fico muito feliz por estar escrevendo este e-mail... Que bom poder compartilhar um pouco com você... Você lembra da minha história: dos sonhos que aconteciam, vida fora da realidade, casamento que nunca tinha vingado, etc? E então, o que aconteceu depois daquele e-mail foi uma verdadeira revolução em minha vida. Suas palavras ecoavam na minha mente como se tivessem vida. Decidi me afastar do meu amigo-pastor definitivamente e definir minha vida conjugal. Mas, antes de concretizar essa decisão, meu marido—que vasculhava até minha sombra—conseguiu descobrir e-mails no meu computador, pois escrevia no WORD e achei que deletava tudo... mas esqueci... Foi horrível! Dias depois da descoberta ele me chamou para uma conversa e me confessou tudo. Disse que tinha procurado meu amigo-pastor, esperando dele uma confissão. Ele negou tudo (ou nada) e disse que tinha sido confusão da minha cabeça. E na verdade foi; não foi? Não sei o que me doeu mais naquela hora, mas, confirmei essa hipótese e limpei a barra do meu amigo-pastor, dizendo que ele nada tinha haver com aquilo. Meu marido fez ameaças do tipo mostrar aqueles e-mails aos líderes da denominação na cidade, etc. Mas, como não queria prejudicar a família do pastor, resolveu não fazê-lo. Quanto a mim, disse-me que pensou em matar meus dois filhos e o pastor para que eu remoesse de remorsos. Caio, não consigo definir ao certo o que senti na hora. Foi algo muito terrível. Entrei em pânico. Mas, deixei que ele falasse tudo. Pedi perdão por meu coração, mas que eu não podia mandar em meus sentimentos... No entanto, ele disse que me perdoava e me dava outra chance, pois me amava muito. Passei alguns dias tentando sentir algo por ele, mas foi inútil. Afastei-me da Igreja e isso até hoje me tirou os pés do chão. Tentei freqüentar outra Igreja, mas algo estranho acontecia dentro de mim. Existia um oco em meu peito. Daí entendi, novamente, o que você tinha me dito; e que é que qualquer realidade por pior que fosse, seria melhor do que o sonho mais bonito e irreal. Minha fantasia tinha se quebrado e minha realidade me assustava. Mas, tentei. E não consegui. Com pouco tempo, mesmo sem ver meu amigo, me esqueci dele (de certa forma), mas não consegui amar meu marido. A crise financeira não bateu na minha porta, mas sim a derrubou... Imagine a situação: sem amor, sem admiração, sem dinheiro... Só a obrigação de se amar. Foi angustiante. Aliás tem sido... Se não fossem os meus sonhos, e agora falo a nível de projetos e trabalho, não existiria alegria em meu rosto. Montei um escritório com um sócio, pois já tinha trabalhado com ele antes. O escritório é muito legal, em um prédio muito legal, também. Devagar o dinheiro está entrando! Nas outras áreas vou bem, especialmente na área acadêmica e artística. Creio que tenho boas chances em ambas as coisas também. Caio, passou o tempo e tudo volta a acontecer de outra forma: Meu sócio passou a ganhar minha admiração. Lembra quando eu te falei que eu não conseguia admirar meu marido. E então... Meu sócio tem todas as características que me atraem: dinâmico, sabe o quer e quando quer, muito positivo, forte, etc. E além de tudo, me incentiva e me joga pra cima. Como sempre, só vim perceber isso quando já estava emocionalmente envolvida. E ele, que sempre tinha se mostrado interessado por mim, percebeu esse momento. Novamente, lá vai essa Atrapalhada, se meter em outra enrascada!... Tenho o controle de não cair no adultério, no que se diz respeito à coisa física, mas a cabeça viaja... Viaja a nível romântico, censurando aquele lado da sensualidade... Descobri que ele adorava poesias e comecei a escrever poesias para ele. Adivinha o que aconteceu? Meu marido conseguiu abrir meu e-mail outra vez... Novamente, um caos. Resolvi me antecipar e conversei com ele. Dessa vez, ele não poupou as ofensas, e quando eu quis terminar tudo... ele disse que me perdoava e que me amava, e que Deus não queria mais um casamento desfeito. Senti-me péssima. Crente nota 0. Cheguei a pensar até que não tinha nascido de novo. Mais uma vez, naquela noite, tentando fazer meu papel de “esposa”, onde deveriam existir lágrimas de prazer, rolaram de meus olhos lágrimas de tristeza, e senti um oco em meu peito. Sabe Caio, procurei um pastor que tem o dom de libertação, achando que poderia até estar com demônios em meu corpo—quem sabe até a pomba-gira? Ele olhou prá mim, e com ternura disse que Deus queria mais intimidade comigo. Quando contei minha história, disse-me que Deus me usa e me usará como usou a José. E falou tanta coisa: que me via assentada em uma cadeira lá em Brasília, em um cargo de importância; e que Deus iria me usar no meio onde eu estou: dos intelectuais e artistas... Caio, eu sei que Deus me ama. E sei que quer mais intimidade, mas estou sentindo um vazio em meu peito. Não sei te explicar direito... Estou muito confusa... Mas, não consigo mais sobreviver a essa farsa. O problema não é o pastor nem meu sócio. O problema sou eu! Tomei uma decisão: amanhã vou conversar com meu marido e pedir a separação. Há três dias ele me procurou com uma Bíblia na mão e me disse que eu deveria me afastar do escritório e acabar a sociedade: "se teu olho te faz pecar, arranca-no..." Às vezes, sinto que ele está usando versículos-chave como tábua de salvação. E ainda falou que me daria só essa chance, que não agüentava mais essa minha indecisão. Que estava em minhas mãos destruir ou não mais uma família. Puxa, Caio, me senti terrível, culpada, a pior das miseráveis. Será que só tenho o poder de destruir? Por que não tenho o poder de restaurar? Meu querido amigo, só temo a mão de Deus, caso minha decisão tiver sido a errada. Sei que vêm os desdobramentos dessa minha decisão. Mas, preciso tomá-la por mim, por ele e pelas crianças, que durante todo esse tempo, nunca tiveram a atenção do pai; e agora, como será? Temo me sentir responsável por seu suposto afastamento das crianças. Mas, durante todo esse tempo, nunca consegui suprir essa ausência presente. Ore, por mim. Por que eu me sinto tão vazia nesse momento? Será que estou com medo de entrar na presença de Deus? Será que vou conseguir superar tudo isso? Já estou com minha saúde tão abalada, e sei que vou ter que agüentar um tranco daqueles... Tudo nas minhas costas, aliás, como sempre foi. Caio, mais uma vez lhe digo que não espero que você resolva meus problemas, mas estou me sentindo abandonada, sozinha, sem pastor, sem amigo... Sei que você é muito ocupado, logo não vou cobrar de você atenção. Mas, ore por mim. E se puder me escreva algo que encha meu coração de esperança. Daquela cujo coração nem tudo sente, mas tudo sofre, ________________________________________________________________________________ Resposta: Minha querida amiga: Graça e Paz! “Demorou”, como diz a moçada. Deve-se tentar salvar a todo preço casamentos salváveis, e casamentos são feitos de material esperançoso, que é admiração, consideração, respeito, carinho, e pelo menos um mínimo de desejo. Deve-se tentar salvar tal casamento especialmente quando há filhos envolvidos. No entanto, esse não parece ser o seu caso. Excetuando os filhos, nada mais há que caracterize essa relação nem mesmo como um potencial casamento. Não me parece haver esperança dentro dessa câmara de angustias e tentações. Aliás, sua carência é enorme, e sua vulnerabilidade é imensa, justamente em razão da inexistência de seu casamento. É “oco” o que você sente quando está com ele porque é nada o que você sente por ele. No entanto, enquanto você estiver casada, grande será o seu tormento sexual. Isso porque um casamento infeliz suscita muito mais desejos sexuais “extra-oficiais” até mesmo do que a vida de solteiro, quando se está livre da raiva de estar com quem não se quer estar, posto essa raiva muitas vezes incita a alma a certas formas de rebelião, e que no caso se manifesta como “desejo” fora do casamento. Me perdoe a franqueza, mas no estado em que seu coração se encontra—um poço de carência—, ninguém precisa seduzir você, pois, você já anda seduzida. E saiba: a pomba-gira nada tem a ver com isso. O nome desse bicho é carência mesmo. E não adianta botar a culpa no diabo, pois, não se resolve o problema assim. Esse oco pede amor! No entanto, no momento, você está tão carente que nem tem condições de discernir o que seja amor por alguém, pois, na sua aflição de alma todo amargo lhe parece doce. Assim, essa é a pior hora para achar que gosta de alguém, pois, com um pouco de convívio, carinho e atenção, quase qualquer um entra na lista dos possíveis objetos de tentação. Não adianta coar os mosquitos e engolir tão grandes camelos! Divorcie-se com dignidade. Ou seja: sem ser por causa de ninguém. E não fique culpada, pois, insistir em tal descasamento será ainda muito pior nos resultados que gerará. De fato, isso pode acabar muito mal. Outra situação pode vir a enlouquecer o seu marido. E mais: se você não o ama, então, deixe-o, mas não o exponha a maiores desconfortos e angustias. Pare de ficar sonhando acordada. Agora é hora de andar de olhos bem abertos, e de não despender energia com qualquer outra coisa que não seja a reorganização de sua vida familiar, após o divórcio. Quem vive sonhando nunca encontra quem de fato pela vida “encontra”, pois, não encontra quase nada da pessoa real, mas apenas da idealização com a qual a fantasia veste a pessoa, a qual, muitas vezes, nada tem a ver com a fantasia, mas o estado de cegueira no qual o sonho condiciona o sonhador faz com que o sonhador abrace, muitas vezes, uma pessoa que um dia se verá que não existe... pois, nunca existiu. Era apenas um holograma da fantasia... Tente enxergar quem você encontrar de verdade. Não fantasie. Prova de que você fantasia demais está na declaração de um sentimento pelo “amigo-pastor”, o qual, logo depois, foi encoberto por uma súbita paixão pelo sócio. Na realidade você está de caso com sua própria alma, amando o amor, e apaixonada pela paixão. A sensação que me dá é que você está naquela fase em que o espírito some em nós, e tudo o que se sente é alma, alma, alma... Ora, viver apenas sob o comando da alma é muito perigoso. Isso porque a alma é muito volúvel, e nem sempre sabe amar consistentemente, posto que há uma dimensão do amor que só se sustenta como escolha e como valor do espírito. Nenhuma alma fica muito tempo romântica ante os embates do cotidiano das pequenas e chatas coisas que fazem um dia a dia conjugal. Logo os amantes terão que aprender a se amar. Do contrário, a alma preguiçosa e fantasiosa logo desejará escolher outra novidade. E, assim, segue a existência daquele que é só alma, e que desiste de fazer escolhas mais serenas. Separe-se e fique quieta. Na quietude busque encontrar segurança espiritual, não religiosa. Além disso, quem está tão carente como você—e não é de sexo, mas de namoro—, deve se dar um tempo; e isto até para poder ter a chance de amar de modo menos “à revelia”, como parece ser o seu caso ultimamente. Quando se está do jeito que você está, parece que amor só é amor quando está completamente fora de controle. Muitas vezes o amor chega assim, mas essa não deve ser a expectativa sempre, posto que muitas vezes tais arrebatamentos não são amor, mas apenas carência incendiada. Não se impressione com o que o “profeta” disse. Em geral eles dizem isso para quase todo mundo. Ande na Palavra. Pare para ler o Evangelho. Ore. Respire fundo. Tente ficar calma. Leia o site e busque discernir a Graça de nosso Deus. Não se entregue às pulsões do coração, pois ele pode ser muito enganoso. Portanto, diminua seu excitamento exterior e tente acalmar seu coração. O muito excitamento exterior em geral faz sumir a serenidade e a reflexão. É apenas isto que tenho a lhe dizer. No mais, estarei pedindo a Deus que lhe dê sabedoria e paz. E saiba: a vida pode ser melhor e muito mais calma e pacificada. Ora, muito disso dependerá das escolhas que você fizer. Nele, que nos chamou à paz, Caio