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Cartas

SERÁ QUE MEU CORAÇÃO É TÃO ENGANOSO ASSIM?

SERÁ QUE MEU CORAÇÃO É TÃO ENGANOSO ASSIM?

-----Original Message----- From: SERÁ QUE MEU CORAÇÃO É TÃO ENGANOSO ASSIM? Sent: segunda-feira, 19 de julho de 2004 17:32 To: contato@caiofabio.com Subject: TEREI QUE VIVER ASSIM PARA SEMPRE? Primeira carta: Reverendo Caio, Estou passando por uma fase muito difícil, pois estou percebendo que através da terapia estou descobrindo as mentiras escondidas no meu coração, coisas que principalmente declarei por achar que iria agradar a opinião pública, mas estava massacrando minha alma. A primeira mentira que descobri foi que a "restauração" do meu casamento não foi por vontade própria, na verdade teve sim um pouco de vontade, acho que eu estava numa fase muito ruim, e por isso precisava buscar algo que confortasse meu coração, algo que fizesse bem ao meu interior massacrado pela culpa. Eu estava seguindo simplesmente a opinião pública, nadar a favor da maré é muito confortável! O fato é que nunca deixei de gostar da pessoa que deixei para voltar para minha esposa, foi um movimento ou uma atitude externa que não representava uma decisão interna. Durante esses oito meses eu tenho sofrido muito, sinto muita falta dela e sei que poderia ter feito muitas coisas diferentes. Muita coisa aconteceu, por exemplo, eu não havia informado pra ela que havia voltado pra minha família. Ela, entretanto ficou totalmente em silencio e não me procurou em momento algum. Eu fique muito mal, até que um dia resolvi procurar por ela e por e-mail falei toda a história, mas dessa vez fiz questão de falar o quanto eu a amava. Novamente ela ficou em silêncio e me pediu apenas para ser fiel a minha esposa. Depois de três meses tivemos que nos falar, devido obrigações de trabalho, pois somos colegas de profissão, ela trabalha em outra empresa que presta serviço para a empresa que trabalho. Desse contato tivemos que continuar conversando, sempre de um modo muito profissional e nunca houve nenhuma referência ao nosso passado, até que não suportei aquela situação e disse que nunca havia deixado de amá-la, e pra minha surpresa ela disse que havia se fechado ao amor por devoção a mim e não tinha estado com mais ninguém. Isso foi uma bala no meu coração, o que tenho feito nos últimos dias é só chorar. Depois de alguns dias desse sofrimento tive noticia que ela foi transferida de cidade e hoje se encontra longe daqui. Antes de sua partida tivemos a oportunidade de sanar algumas dúvidas e por um impulso perguntei se ela me esperava no futuro. Eu tenho percebido o quanto tem sido difícil permanecer no meu casamento, por mais que façamos as coisas corretas, por mais que minha esposa se esforce, por mais que esteja sendo bom e agradável, o meu coração não esquece. Tenho lido diariamente seu site e sempre procuro referências do meu problema, tenho me sentido muito sem motivação e não sei qual caminho tomar. Permanecer ou tomar o caminho de volta para os braços da minha amada. Viver em função do coração? Seguir a razão? São questões difíceis de responder, sempre imaginando que na velhice vou deixar amansar este sentimento e ficar o resto da vida tranqüilo. Percebo que minha esposa tem sofrido com isso, pois não consigo esconder a minha situação, mesmo sem palavras a minha atitude demonstra desinteresse e apenas um esforço que beira o sacrifício. Fizemos um curso de Casamento, mas sinceramente não é a solução para um casamento como o meu, percebo que eles forçam a barra nos conceitos bíblicos e usam muitos textos fora de contexto e o conteúdo pentecostal coloca em descrédito 40% dos conceitos. Não quero imaginar que daqui uns dois anos eu esteja arrependido e muito infeliz por esta decisão de permanecer. Tenho ouvido muitas pregações e sempre tomo algumas palavras pra mim, que preciso ter fé, que preciso dar um salto no escuro e confiar que Deus vai suprir essas necessidades. Uma separação vai ser traumática pra todo mundo, permanecer vai ser ruim apenas pra mim, pelo menos é o que tenho pensado e isso pesa na balança da decisão, com certeza a opinião pública gosta desses exemplos de restauração conjugal. Estou indeciso, meu desejo é procurar minha amada e viver com meu amor. A questão dos filhos pesa muito também, mas com certeza existem diversas maneiras de ser bom e digno. Hoje estou programando as possibilidades de uma separação e buscando um meio de enfrentar tudo isso de novo. Sabendo que hoje faria muitas coisas de forma diferente. Quero fazer isso sozinho sem a influência de ninguém. Se for pra ficar ou para sair. Muitas vezes ouvi que o amor é uma decisão tomada no coração, mas hoje lendo suas cartas descobri que é uma decisão de amar os inimigos, mas quando a pessoa alvo de nosso amor não é inimigo e sim a esposa-irmã? É a excelente mãe dos seus filhos, a auxiliadora invejada por muitos, mas seu coração não consegue desenvolver nada além de respeito?! Poderia também em nome de uma causa maior, a causa familiar, permanecer por amor aos filhos? Esses são muito queridos! Mas mesmo assim não teria mais a possibilidade de ser feliz no amor, será que buscar a própria felicidade é egoísmo? Se formos pensar "matematicamente" na decisão de ficar em casa sofrem dois, eu e minha amada, na decisão de sair sofrem três, esposa e os dois filhos, SINUCA DE BICO. Não sei se minha vida vai melhorar, não sei se vale a pena, pode ser que eu quebre a cara, posso ser execrado pela sociedade, posso morrer tentando, mas continua doendo a falta dela. Gostaria tanto que fosse diferente.... Desculpe se outras vezes disse que o casamento estava bem, mas tenha certeza, eu mentia pra mim mesmo e hoje estou sem muita saída. Hoje li alguns capítulos de um livro sério sobre divórcio e percebi que o quanto o divórcio é doloroso para os filhos, mas nada é tão ruim a ponto de não haver solução alguma, com certeza temos vários exemplos ruins, que são relatados com muito prazer pelos algozes que são contrários ao ato. Você já deve ter percebido em minhas palavras uma forte intenção de realmente me divorciar e assim parece uma decisão tomada que necessita apenas de platéia favorável... Amado irmão e amigo, não tenho essa intenção, ou seja, de ouvir de você uma palavra que apóie meu ato, mas estou precisando desabafar e o tempo da terapia tem sido pouco para relatar tantas angústias. Não sei quando terei resposta, pode ser que ao ler esta carta as coisas já estejam num processo adiantado a as angústias estejam muito adiantadas, mas eu preciso desabafar. ______________________________ Segunda carta: Querido amigo, Estou mergulhado num deserto sem fim, tenho passado por momentos de terríveis angústias e indecisões. Como você mesmo sabe, estou num processo de grandes transformações e sei o quanto dói amadurecer, sei o quanto é difícil tomar de-cisões, principalmente neste momento em que as "profecias" e declarações da vontade de Deus para minha vida aumentam. Hoje estou precisando de colo e dou graças a Deus por sua vida, pois as suas palavras, mesmo que distante, mesmo sem saber, mesmo cuidando de outras vidas, mesmo atarefado, têm me consolado! Por vezes penso em ouvir a voz do coração, dar um mergulho em apnéia na certeza de que tudo será incerto, com medo das conseqüências desse mergulho ou talvez um salto em queda livre. Entretanto sei o quanto preciso estar perto de Deus, mergulhar no seu amor, saltar em direção aos seus braços, pois tenho a certeza da sua acolhida. Neste final de semana conversei com minha esposa e ela disse que tem apreciado meu desejo de viver em verdade e sinceridade, mas ela acredita que estou com a mente mudada, que acha que estou numa linha de pensamento muito liberal, e disse que apesar de respeitar, ela não gosta dos posicionamentos. Mas sei que ela disse isso sem conhecimento de causa e devido à contaminação do "evangélico-católico-romano-espírita" da origem dela. Para ela, aos "fieis" cabe obedecer cegamente as determinações do "clero", sem questionar. Definindo sempre como vontade de Deus, Deus me falou, Ele mandou uma palavra pra você, uma revelação e etc... Não desfazendo em momento algum da vida de oração e leitura da palavra que ela tem. Descrevi essa situação apenas para o irmão saber onde estou inserido, apesar de acreditar que Deus fala e que Ele tem grandes coisas para nossas vidas. O grande problema é que não consigo nem beijá-la, não consigo amá-la como ela merece, pois em meu coração habita um sentimento por outra pessoa. Mas sempre ouço por aí, “nunca siga a voz do coração, pois ele é enganoso e seus caminhos são caminhos de morte”. Aí querido, fico num buraco horrível, tenho tomado medicamentos para controle de pressão e para dormir. Por indicação da psicóloga eu fui ao psiquiatra e ele aumentou a dose, hoje 6 mg de Lexotam é minha dose diária para fazer dormir o vulcão de ansiedade que palpita no peito. Sempre sou bombardeado pelos jargões da confissão positiva, de que Ele levou sobre si as nossas enfermidades; e creio que Ele pode! Hoje li e reli a devocional que fala sobre a angústia da alma que não escolhe confiar e ao mesmo tempo sou incentivado a saltar. Primeiro eu pergunto: Posso confiar que Deus pode desenvolver em meu coração um amor por minha esposa e ao mesmo tempo me fazer esquecer alguém que amo do fundo da alma? Isso em primeira análise seria saltar nos braços Dele e praticar a fé? E em segundo eu diria que posso saltar num passo de fé e seguir meu coração e acreditar que posso vencer todas as barreiras e ser feliz no amor, e as "vítimas" da minha decisão me perdoarem o aceitarem tudo isso, tornando a existência boa e sem traumas. Agora quando estava escrevendo esta carta resolvi entrar no seu site e o que vi: Alguém pedindo ajuda e novamente me identifiquei de alguma forma; ou seja, estou no caminho adiantado do preparo para o "corte", principalmente imaginando minhas conversas com a terapeuta e senti com clareza que ela está me ajudando e muito nisso. Percebi apenas que não posso me separar buscando simplesmente um novo convívio com minha amada, pois: "provavelmente as coisas fiquem tão opressivas e aflitivas que vocês não consigam ficar juntos... Então, depois, quem sabe, vocês tenham alguma chance de ficar juntos, e buscarem ter uma vida boa e feliz.... "—você já disse antes. Meu amado, Deus tem usado sua vida para me abençoar e acho que você nem imagina o quanto....! ____________________________________________________________ Resposta: Meu amado amigo: Paz e Misericórdia de Deus sobre você! Meu amado, li tudo e pensei. É difícil mesmo, e muito! Tudo é complicado. Ficar fará você sofrer muito, sua esposa também (ela sente tudo...), seus filhos da mesma forma, pois, se já não sentem, logo sentirão. Além disso, é claro, a “sociedade eclesiástica” vai execrar você sim, especialmente se a separação for “por causa de outra mulher”. Nesse caso, não haverá perdão cristão para você. Aliás, nesse quesito, os cristãos não perdoam, apenas se acostumam com o passar do tempo, isto na melhor das hipóteses. Os cristãos que você vê lidando bem com um novo casal que eles antes conheciam como fazendo parte de um casamento anterior, em geral, são uma raridade. A maioria dos que se sentem bem e tratam bem um “novo casal” é porque não conheceram a nenhum dos dois com seus cônjuges anteriores. Para mim a igreja só será uma comunidade adulta e cheia de Graça quando um divorciado não precisar mais ter que sair de sua própria comunidade—onde freqüentam seus familiares—, apenas porque ele e o cônjuge se separaram. Quando esse dia chegar saberei que deixamos de ser crianças imbecilizadas. O que direi a você é o seguinte: 1. Se você amasse a sua esposa, como mulher, e tivesse vivendo a estação de um grande desejo por outra pessoa, eu diria que seria uma pulsão não vivida, e que o exame dela poderia ajudar você a se controlar, uma vez que o tal desejo “viesse para a luz”. 2. O problema não é o que você sente pela outra pessoa, mas sim o que você NÃO sente pela sua esposa. Digo isto porque vejo homens que amam suas esposas viverem crises de desejos e até paixões por outra mulher. Mas isto “passa” sempre que a pessoa ama a própria esposa. Neste sentido tenho visto muita gente resolver a questão e continuar casado, numa boa e bem. Mas quando não se sente nada além de amizade e pena pela situação, acaba ficando insuportável para a esposa que é a suposta beneficiária, e objeto desse “sacrifício”. Portanto, só uma mulher muito insegura e que prefira a morte lenta à separação, é que pode preferir viver com alguém que apenas sente pena dela. Do contrário, ela própria não desejará essa situação. Quem, com um mínimo de auto-estima sadia, pode desejar ter alguém ao seu lado que gostaria de estar com outra pessoa ou longe dali? 3. Viver, é sofrer. Todos sofrem, e não há como evitar todos os sofrimentos do mundo. Podemos tentar fazer tudo para não chamá-los para as nossas vidas, mas não temos controle sobre o que nos virá, “esse desígnio Deus estabeleceu sobre os filhos dos homens, para que não saibam o que lhes sucederá” (Eclesiastes). Assim, saiba, na presente situação, caso não haja um milagre, seus filhos sofrerão de um modo ou de outro. Ou pela sua separação, ou pela sua permanência congelada ao lado da mãe deles. Numa avaliação de curto prazo eu lhe diria que eles sofrerão muito com a separação. Mas olhando a longo prazo, vejo que certas coisas precisam ser feitas logo a fim de que não sejam atrasados os processos de cura. Tudo vai depender do modo como você tratar a questão antes, durante e depois. Se você não mudar como pai dos filhos (e, quem sabe, até melhorar) e for bom e amigo da mãe deles (evitando humilhá-la, e tratando-a com reverencia e amor fraterno), então, tudo irá para seu próprio lugar, e, em algum tempo, as coisas ficarão normais. 4. O que você precisa saber é que não vale a pena se separar “por causa” de outra pessoa. Misturar esses elementos é certeza de explosão. Portanto, o que você tiver que fazer, faça pela verdade e pela saúde que nasce da sinceridade. Mas não chame “nenhuma causa” concreta para o problema. A verdadeira causa de qualquer separação como a sua nunca é “outra pessoa”, mas sim o fato de que um dos cônjuges não ama o outro, ou ambos não se amam, e é isto que abre a porta para a entrada de sentimentos outros, e que jamais entram no peito de ninguém, se o coração está ocupado. 5. Desse modo, sugiro a você que pense e ore, e não faça nada em razão da outra mulher. Porém, se tiver que fazer, faço-o por você mesmo, pela sua esposa e filhos. As conseqüências de insistir num casamento-zumbi são graves não de imediato, mas para o futuro, e especialmente para o futuro dos filhos. 6. Com relação a Deus fazer um homem e uma mulher se apaixonarem, sinceramente, não creio nisto. Deus deixou esse mistério aberto no coração humano. Ninguém tem o poder de decidir desejar, gostar, querer possuir, sentir prazer no convívio, etc...se não for espontâneo. Quando vejo casais se recuperarem para a vida conjugal, em geral, é porque um dia houve algo, ou ainda há algo. Mas onde nunca houve nada, e um dos cônjuges não suporta mais esse “nada”, então, sinceramente, quando esse cônjuge permanece, o que vejo é sacrifício até que as coisas do coração vão se acalmando com a passagem do tempo...e no fim da meia idade...e no inicio da estação idosa...em geral a pessoa fica mais calma. Até lá, normalmente, o que a alma produz é gemido. Por enquanto é só o que tenho a lhe dizer. Estou orando pedindo que Deus lhe dê Graça e Sabedoria. O mais importante nesta hora é calma. Muita calma e confiança, e, sobretudo, uma consciência cheia de bondade, mas também de sinceridade. O Senhor vai lhe mostrar o caminho se você andar em confiança. Nele, em Quem todos os nossos impossíveis têm sua própria Porta, Caio