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Cartas

SERÁ QUE ME FALTA VERGONHA NA CARA?

SERÁ QUE ME FALTA VERGONHA NA CARA?

-----Original Message----- From: SERÁ QUE FALTA VERGONHA NA CARA? Sent: segunda-feira, 8 de dezembro de 2003 19:14 To: Contato@caiofabio.com Subject: Dor da Promessa não cumprida Pr. Caio.. Me ajude a entender e a superar um problema que sozinho não estou conseguindo. Tenho o péssimo hábito de prometer as coisas e não cumprir; seja uma visita; seja um varal para colocar a roupa; seja um trabalho que não sai no prazo...etc. Não sei o que acontece, só sei que estou começando a prejudicar as pessoas que contam comigo de alguma maneira, e não faço o que prometi... Por exemplo, tenho dois projetos para terminar e não consigo.Estou aqui digitando este texto e tentando resolver a dor que carrego de não conseguir ser mais respeitado. Desculpe trazer este assunto ao seu conhecimento, sei que está sobrecarregado, mas Deus fala comigo através de você. Estou precisando de uma luz.. Será que meu problema é só falta de vergonha na cara? Não sei...só sei que estou assim...e preciso fazer alguma coisa... Um forte abraço de quem o estima e o respeita por tudo... Que Deus te abençoe, muito e te fortaleça cada dia mais... ************************** Resposta: Meu amado irmão: Hoje é o Dia sobremodo oportuno! Meu amado, falta de vergonha na cara não é o seu caso. Um sem-vergonha não sofre sua dor. De saída, fique logo sabendo disto! Existem razões diferentes em função das quais uma pessoa “procrastina”. 1. Há aqueles que a Bíblia chama de “o preguiçoso”. Pela leitura bíblica você verá que o preguiçoso é aquele indivíduo que aumenta todas as dificuldades da vida a fim de não realizar seus compromissos. “Há um leão solto na rua”—diz o preguiçoso a fim de não ter que sair de casa. “Todos os caminhos estão cercados de espinhos”—afirma ele a fim de justificar sua total falta de vontade de sair para trabalhar. E há várias outras afirmações feitas por ele, todas, no entanto, indicam a mesma direção: ele inventa álibis que justifiquem sua total inapetência quanto a produzir, trabalhar, realizar e tornar efetivas as coisas em volta dele. O preguiçoso, todavia, sofre de um mal para o qual a preguiça dá apenas o estereotipo e a caricatura. O mal do preguiçoso é a Insegurança. De fato, ele teme não conseguir realizar o que está proposto como obrigação e dever, e, em razão disso, inventa o “leão ou o espinheiro”, apelando para uma explicação que diminua a culpa que é filha de sua própria improdutividade. 2. Há o desorganizado, e que não tem noção de tempo e do que cabe dentro do fenômeno “tempo-espaço”. Tais pessoas existem, e não são preguiçosas, apenas não conseguem ordenar a mente na perspectiva da linearidade do que se pode fazer; organizando o cotidiano em prioridades; e caminhando de uma coisa para a outra, vindo a realizá-las em seqüência. Para tais pessoas as coisas não existem como itens, mas apenas como volume e massa—e todas as “coisas” tornam-se sempre um pacote só, de tal modo que pela impossibilidade de suas mentes quanto a isolar as coisas como itens, tais pessoas acabam não realizando coisa nenhuma porque sufocam-se com o volumoso pacote. 3. Há também os perfeicionistas inseguros. Ora, esses são os que não fazem porque crêem que não ficará bom; e quando começam a fazer, sempre é depois de tanta “ponderação”—nesse caso a própria ponderação já é uma manobra inconsciente a fim de inviabilizar o projeto pela ausência de tempo hábil—, que jamais conseguirão chegar ao fim de nada. Assim, a culpa sempre será da complexidade do projeto, e nunca do medo de não alcançar a perfeição imposta pelo próprio indivíduo. 4. Há também os seres viciados em ritos de atraso. Esses são aqueles em quem a palavra procrastinar cabe muito bem. Quem são esses? Ora, eles são os que sofrem de um mal parecido com o do personagem do Jack Nickolson em “Melhor é impossível”—As good as it gets—, só que sem a caricatura do personagem do filme, que só andava sobre determinados padrões de marcas no chão, e estabelecia um caminho predeterminado pelo seu mundo interior, e que não estava disponível como via perceptível para os observadores externos. Normalmente as coisas não acontecem de modo tão caricato como no filme mencionado. Mas eu conheço gente que dá cheque sem fundo como ritual, e que deixa a gasolina do carro ir até ao fim do tanque, sempre inconscientemente, até que o carro pára...e elas dizem: “Puxa, quase consegui chegar.” Para essas pessoas há “marcas invisíveis” que somente elas enxergam no caminho, bem como há acertos tácitos—delas com elas mesmas—, e que são cumpridos de modo auto-destrutivo. 5. Há ainda aquele cara que sofre de insegurança, e que deseja agradar a todos, pegando muito mais compromissos do que pode dar conta, e acaba sempre desmoralizado com o passar do tempo onde quer que chegue. Esse indivíduo chega muito bem, promete muito, toma para si todas as coisas, causa uma profunda impressão, mas...é apenas por um tempo, pois, lentamente, ele vai perdendo a confiança das pessoas pelos buracos que ele vai deixando por onde quer que passe. Você não foi especifico, apenas mencionou seu problema, sua tristeza e sua vergonha ante as demais pessoas. Ora, sua reação não é a do preguiçoso. O preguiçoso não se sente culpado. Há, segundo ele, uma conspiração de leões e espinheiros contra ele em toda a terra. O problema que foi “vivido” por Nickolson no filme, também não parece ser o seu—pelo menos de onde eu estou, não me dá essa impressão. Sobram as outras três alternativas: 1. O desorganizado, e que não tem noção de tempo e do que cabe dentro do dado “tempo-espaço”. 2. O perfeicionista inseguro. 3. O cara que sofre de insegurança, e que deseja agradar a todos, pegando muito mais compromissos do que pode dar conta, e acaba sempre desmoralizado. Veja você mesmo, com toda honestidade, qual é o seu problema. Problema a gente não resolve com sofrimento, mas com auto-descobrimento e ação que corresponda ao encaramento da dificuldade. O salmo 84 nos diz que aqueles que conseguem realizar todo o caminho, passando pelo vale árido, até se apresentarem diante de Deus em Sião—era o salmo dos peregrinos—são justamente aqueles que fazem duas coisas: a) caminhavam juntos, não andam sós...(vão indo de força em força); b) vencem as dificuldades exteriores pela simplicidade interior na qual fazem a jornada (...em cujos corações há caminhos aplanados...) Ora, quem vive o que você vive, precisa dessas duas coisas: companhia (com cobrança, pelo menos até você aprender a andar por conta própria), e um projeto interior simples (...em cujos corações há caminhos aplanados). Olhe em volta e você verá que as pessoas mais produtivas dessa vida são aquelas que pensam a vida, interiormente, com simplicidade. Eu já realizei muitas coisas nesta vida. Houve tempo em que eu não tinha nem mesmo coragem de narrar aos amigos como era minha vida, meu dia e minha agenda, pois me dava a impressão de que eles se sentiam esmagados pela seguinte questão: “Como no dia dele cabe tanta coisa, e no meu tão pouco?” Então, parei de dizer de onde vinha e para onde estava indo; e menos ainda eu falava do que estava realizando. Por que estou dizendo isto? Bem, é que aprendi que tanto a menor coisa como a maior de todas, ambas, começam sempre do mesmo modo: com uma decisão simples. Erguer um muro demanda muito menos planejamento que erguer uma torre, mas ambas as coisas sempre começarão e terminarão do mesmo modo: com um primeiro tijolo e com uma última pedra. Depois que eu entendi isto, tudo ficou muito mais simples. Passei a tratar tudo como feito, embora eu estivesse apenas começando. E passei a tratar tudo como estando apenas começando, mesmo que eu já tivesse praticamente acabado. No entanto, essa decisão tem que ter ação completa, como diz Tiago. Não pode haver “ânimo dobre”, pois, se assim for, a pessoa fica como as “ondas do mar”: vivendo de fluxo e refluxo, mas não concluindo nada. De qualquer modo, seja qual for a variável que melhor descreva você, esse é um problema sério, pois cria uma profunda disfunção na vida, e pode prejudicar demais a pessoa—especialmente no convívio social; do casamento ao trabalho; das amizades à vida comunitária, na igreja. Tal pessoa acaba sendo deixada para trás, e isto dói muito. Minhas sugestões a você são as seguinte: 1. Veja honestamente onde você se enquadra—ou até se você vive um “composer” de alguns daqueles aspectos descritos por mim. 2. Inicie um processo de simplificação e disciplina de sua vida. Pegue coisas pequenas para fazer, estabeleça metas para você mesmo, e busque cumpri-las sem mágica. Também não faça mais promessas. Há um mecanismo masturbatório em certas promessas: o indivíduo crê que em razão de ter prometido, a coisa aconteceu como resultado de sua boa intenção. Até Deus, a fim de cumprir promessas, tem que “ralar”, não com a enxada na mão, mas com cravos pregados contra a Cruz. 3. Procure um psico-terapeuta e exponha-lhe seu caso. Conte tudo. E busque com a ajuda de alguém que olhe você de fora, a ajuda objetiva e sistemática que você vai precisar até aprender a realizar como um adulto: sem cobrança de ninguém. Se você tiver um amigo ou amiga de confiança, então, exponha-lhe seu plano de ação e autorize essa pessoas a lhe encher o saco, ajudando você a voltar ao mundo de Cronos, onde tempo e espaço existem como únicos lugares onde as coisas acontecem. 4. Faça um check-up geral. Veja como você anda organicamente. Muitas vezes a pessoas sofre uma dor psicológica—como está sendo o seu caso—enquanto o problema é físico. Falta lithium, zinco, ferro, vitamina, e um monte de outros energéticos essenciais à vida e à produtividade. Você também é corpo. E, meu amigo, um “bode orgânico” pode desencadear disfunções horríveis; enquanto isto o cara fica se perguntando: “Será que me falta vergonha na cara?”. Às vezes, o que falta é vitamina. Espero ter sido de algum modo útil a você, embora eu tenha lamentado que sua Carta disse muito pouco além de sua tristeza e vergonha por estar perdendo o respeito daqueles aos quais você ama. Faça o que lhe disse, e me escreva contando as vitórias! Deus o abençoe! Nele, que faz tudo na hora certa, Caio