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Cartas

SEPARAÇÃO SEM TRAIÇÃO, MAS NÃO SEM MUITA DOR...

SEPARAÇÃO SEM TRAIÇÃO, MAS NÃO SEM MUITA DOR...

-----Original Message----- From: SEPARAÇÃO SEM TRAIÇÃO, MAS NÃO SEM MUITA DOR... Sent: sábado, 13 de dezembro de 2003 17:56 To: contato@caiofabio.com Subject: SAÍ DE CASA... Mensagem: Que a Paz do nosso Deus esteja sobre a sua vida, meu querido e mui amado irmão! Não me canso de louvar ao Senhor Deus por todas as coisas que tenho visto aqui neste site, e por tudo que o Senhor tem feito em você e através de você. Tenho visto o quanto isso aqui tem crescido e tem absorvido seu tempo. Que Deus te fortaleça e te guie! Pensei em te ligar, mas me senti constrangido. Não tenho ninguém para compartilhar essas coisas, a não ser meu pai. Mas, não posso ficar colocando sobre ele uma carga maior, uma vez que as dele já são muito grandes. Talvez você nem tenha tempo de ler este, mas eu precisava compartilhar meu sofrimento com você também. O fato é que hoje está fazendo um mês e meio que saí da minha casa. Saí depois de estar casado por 18 anos. Tenho 03 filhas. Provavelmente você não se lembra, mas as três estavam comigo na última vez que nos vimos. Minha mulher não estava comigo naquele dia. Aliás, essa sempre foi a tônica de minha vida de casado. Quase sempre envolvido na “obra de Deus” e minha mulher nunca junto de mim. Mas, não vou ficar aqui sendo cansativo e contando uma história de casamento mal começado e acabado, tão igual às centenas que já vi na minha vida e também aqui no seu site. Só queria te pedir que esteja orando por mim, meu querido. Estou muito triste, mas sei que tomei a decisão certa. Eu adiei isso por muito e muito tempo. Não queria jamais que minha família se separasse assim. Tem muita gente que eu amo sofrendo em função disso. Minha igreja está chorando. Meus pais, sofrendo. Minhas filhas, que são minha parte mais doída, estão tristes também. Apesar de acreditar que tomei a decisão certa, estou me sentindo arrebentado. Parece que passou um trator por cima de mim. A única coisa que tenho feito direito nesses dias é chorar, chorar e chorar. Que o Senhor nos cubra com sua misericórdia. Ore por mim! Que Deus te abençoe, meu querido pastor! Um grande beijo, de um irmão que te ama muito. ************************** Resposta: Meu amado irmão: eu sinto muito, de todo o meu coração! De fato um divorcio é um inferno! Somente cínicos podem pensar numa separação—especialmente envolvendo filhos—como algo indolor. Pelo conteúdo serenamente doído de sua carta, e conhecendo você há tanto tempo—sobretudo sua seriedade e sobriedade na fé—, imagino o quanto tudo está sendo devastador para você—e para todos! Se não há remédio, remediado está—dizia a minha velha vó. O que resta agora são as medidas do amor. É estranho, mas tem gente que pensa que não há mais medidas de amor a serem tomadas num divórcio. Mas há...e muitas! Agora, mais do que nunca você terá que aprender a andar como um cristão. Haverá ainda muito juízo. Como conheço sua igreja e sua conduta, creio que a comunidade chorará muito, mas estará dando suporte a vocês todos. Os piores ataques virão dos “colegas”. Eles muitas vezes são impiedosos. A melhor coisa nesta hora é se afastar. No processo o homem bom fica sentindo angustia pela pessoa que ama—só não ama do jeito que a pessoa gostaria se ser amada—, e resolve ficar bem perto, a fim de suprir qualquer necessidade. Só atrapalha e adia a cura. Cubra-a à distância. No momento evite encontrar com ela. E não dê esperanças se não há esperança em você. Há muitas formas de ser bom, e agora você terá que aprender as mais estranhas. Também não se afaste da igreja. Dê um tempo nas atividades que você exerce na igreja, mas fique presente. Assim as pessoas logo se acostumarão a ver você—você, não entidade conjugal. Além disso, como você já sabe, fuja de entrar logo em qualquer outro relacionamento. Haverá chuvas de oportunidades. Não se molhe nessas águas amargas. As conseqüências poderão ser desastrosas. Este é um tempo de silêncio e luto. Cumpra o seu. Deixe que ela cumpra o dela. A grande tarefa será ajudar as crianças a saberem que há muitas formas de amar. Elas precisam ver que vocês se separaram não por falta de respeito, carinho e consideração. Seja manso. Devagar as crianças absorverão. E se você mantiver a porta do diálogo aberta com a mãe deles, tudo ficará mais fácil. Se ela tiver crises e atacar você, e tentar demonizá-lo, não compre a briga. Isso dá e passa. E logo a pessoa enxerga outra vez quem é o outro. O que posso dizer? Sinto de todo o coração! Tenho apenas mais algumas considerações a fazer sobre Deus, nós e nossas famílias! Freud mostrou como boa parte do “nó” humano se ata à sexualidade. Ora, isto já inclui a família. Sexualidade, sexo, convívio, procriação, criação, ensino, aprendizado, manifestações de vida e personalidade, crises pessoais, angustias existenciais, competições, invejas, desvios de curso na vida, medo de amar, compulsão de amores...etc...tudo isto passa pela família. O problema é a família, e a solução é em família! No entanto, gostaria de lembrar a você que a Bíblia não romantiza as dificuldades que a gente vive em família. Veja: A família é lugar de vida, esperança e alegria... A família é lugar de angustia, engano, disputas e alterações dramáticas de destinos... Tudo começa com a mulher que seduz o homem...e o homem que deseja ser seduzido pela mulher: Adão e Eva. Caim e Abel—família pode gerar invejas e ódios homicidas. Noé sobrevive ao Dilúvio, mas não sobrevive a curiosidade sexual de seu filho Cão. Abraão anda com Deus...mas não consegue andar com o sobrinho Ló: interesses econômicos determinam roteiros diferentes para eles. Abraão, Sara e Hagar—um triângulo de interesses procriativos (barriga de aluguel) e que se transforma num “caso” para o qual nenhuns dos três implicados estavam preparados. A barriga alugada se sentiu dona (Hagar), a proprietária (Sara) logo viu que ela era a dona legal, mas já não era a dona real. Abraão achou fácil “anuir” ao pedido de Sara para que engravidasse Hagar...mas sofreu quando a decisão de Sara mudou...e Hagar teve que partir. Os filhos de Abraão—Ismael e Isaque—nunca se deram bem...e suas descendências não se entendem até hoje. Raquel e Lia...que desgraça!...duas irmãs amando e disputando o mesmo homem a vida toda... Jacó e Esaú...que tragédia! José e seus irmãos: que providencial maldade! Moisés, Miriam e Arão: que invejas ridículas! Hofni e Finéias, filhos de Eli...quanta dor para o pai...Icabode: foi-se a Glória de Israel! Samuel, o homem que denunciou os filhos de Eli e que ungiu Davi...Sim!...ele não deu sorte com os próprios filhos. Elcana, pai de Samuel já soubera antes do filho que em família nem sempre se tem só o que se quer...e que freqüentemente, tem-se que carregar o que não se deseja. Davi é interpretado como os irmãos como um presunçoso, arrogante...e cuja valentia era apenas um “show de supremacia” sobre os demais. Davi e Saul... a pior história de genro e sogro de toda a Bíblia. Davi e Mical...um casamento político e acaba em política de casamento. Saul e Jonatas...separadamente juntos até a morte... Davi e Jonatas: separadamente unidos até a morte. Assim, o mais verdadeiro dos amores não podia aparecer e nem se expressar...amam-se separados para sempre. Davi e seus filhos... Amnom ama a irmã Tamar: incesto. Absalão vinga a irmã: fratricídio. Absalão se insurge contra o Pai, Davi...subversão...morte. Absalão, Absalão...meu filho Absalão!—é o eco eterno da voz do pai Davi ante o filho morto. Davi, Urias e Bateseba: desejo, paixão, prazer...e, então, engano, morte, perdas, tristezas, luto, e...a vida continua. Oséias, o profeta padeiro, teve que conhecer o casamento, por ordem divina, como vergonha: casou-se com Gomer...a mulher dele e de todos. Mateus nos faz viajar pela genealogia de Jesus—que tem toda essa moçada e suas angustias familiares como cenário—para nos dizer que a família é o problema, mas que a solução vem em família. Jesus é a solução que emerge das des-soluções familiares e de suas próprias dis-soluções. A pergunta é: o que Jesus ensina sobre família? Interessante, mas Ele fala pouco do tema. Outros temas, como dinheiro, por exemplo, aparecem muito mais. Há duas coisas que Jesus ensina sem falar acerca de família. A primeira é que a família é sempre a última a enxergar a gente. O evangelho de Marcos nos fala disso (Cap. três). Seus familiares foram “prendê-lo” porque diziam que Ele “estava fora de si”. A segunda fala vem de um ato da Cruz. “Mulher, eis aí o teu filho”—diz ele a Maria, mostrando-lhe o jovem apóstolo João. “Eis aí a tua mãe...”—conclui Ele. João a levou para casa. A família biológica e cultural freqüentemente não nos enxerga. Assim, é na Cruz que as pessoas podem se fazer família e se perceberem umas às outras. Jesus não tem muito a dizer sobre família apenas porque tudo o que Ele diz passa pelo coração da família. O Evangelho é boa nova para todo o povo. É para todas as famílias da terra. Portanto, o Evangelho é a mensagem de Deus para a família...e não apenas aqueles textos—que acabaram virando lei morta—que falam de e em família. Os princípios para a vida em família são os mesmos para a vida. O que quereis que os homens vos façam...fazei isto mesmo vós também a eles! Assim, quem quer...dá! Quantas vezes devo perdoar? Sete vezes? Em verdade eu vos digo...até 70X7: 490...por dia...se ele vier...o teu irmão...ou quem quer que viva assim, ao seu lado...e reconhecer a atitude patética...perdoa-o—diz insuportavelmente Jesus. Mas não se precisa ficar na relação adoecida. Pode-se perdoar e se separar perdoadamente. Perdão não é prisão...é libertação. Em família Jesus sabe que há invejas e mágoas. Um filho aventureiro pode produzir um sentimento de amargura num outro filho neuroticamente responsável: o pródigo e seu irmão mais velho que nos contem a história. Mas ao começar Seu ministério numa festa de casamento e ao fazer isso melhorando o vinho...Jesus apontava para a possibilidade de uma qualidade humana e relacional melhor no vinculo e na celebração do casamento. Casamento tem que ser acasalamento de corpo, alma e espírito—não um papel com firma reconhecida ou um convite para uma liturgia religiosa, apenas! Casamento que não é acasalamento...é casulo...e nesse casulo lagartas não viram borboletas, mas cascavéis. No N.T. o casamento não quer ser regido por leis, mas por amor. Eu nunca aconselhei nenhuma mulher que tenha me dito: Pastor, fale ao meu marido que cumpra o mandamento do amor conjugal, conforme Efésios Cinco! Qual a mulher que gostaria de ouvir o seu marido dizer: Ó vem, amada minha...eis que agora amar-te-ei como Cristo amou a Igreja...ofereço-me a ti em sacrifício—e apontar para a cama...? O que vejo são homens demandando que suas mulheres os obedeçam, sem que as amem. Assim, a mulher quer amor...e não o mandamento do amor. E os homens querem o mandamento da submissão, e não o amor que seduz e gera submissão e fidelidade na mulher pela via da conquista e da admiração. Portanto, até mesmo os textos neo-testamentários sobre casamento podem virar letra que mata, deixando de ser espírito que vivifica. O desejo de Paulo era que o casamento fosse algo leve. As circunstancias da vida eram difíceis (ICo 7- Leia em a Mente de Paulo, aqui no site, o texto: Casamento como Apocalipse). Assim, diz ele, “os casados sejam como se não fossem”. Desse modo, o casamento passa a ser uma experiência-vivencia-existencial. Aliás, é nessa direção que o sonho messiânico do V.T.—expresso por Malaquias—e que se cumpre no N.T. no nascimento de João Batista, nos aponta. O sonho é que os corações dos pais se convertessem aos seus filhos e vice-versa. Desse modo, somos outra vez trazidos para a essência do Evangelho: ver a vida com os olhos do outro (pai ou filho), amar não para fazer o que outro acha bom, mas para realizar aquilo que a consciência chama de Bem! Em família, não há formulas. Em família a única formula é aquilo que não nos dá forma nenhuma, pois, em si mesmo, já é a anti-forma, que é a Graça...que sendo favor imerecido, acaba cabendo em todas as formas e ganhando todas as caras...isso se houver coração de um convertido ao coração do outro. Isto dito, meu amado, quero convidar você a orar, e a escrever salmos para Deus, assim como este que segue transcrito: Como um cavalo cansado da longa viagem anseia pelas águas frescas, assim a minha alma anseia por ti, ó Deus! A minha alma tem sede de Deus, do Deus que é vivo! Quando beberei de Deus e me saciarei em Sua presença? Tenho bebido minhas próprias lágrimas e tenho comido minhas próprias dores de dia e de noite...porquanto me sinto só...enquanto sou provocado constantemente por aqueles que perversamente indagam de mim: Onde está o teu Deus? Por isso em mim derramo a minha alma como águas de saudade, ao lembrar-me de como era a minha vida com a multidão do povo que ama a Deus, e de como era bom guiá-los em procissão à casa do Louvor, com brados de alegria e com a emoção daquele que festejava entre irmãos! Então, me indago: Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? Consolo a mim mesmo dizendo à minha alma: Espera em Deus, pois ainda o louvarei pela salvação que há na Sua presença! Minha aflição solitária vai dando lugar ao encontro, percebo que enquanto falo com minha alma, Deus está onde pensei que não estivesse... Então, onde havia solidão, descubro Presença, e falo: Ó Deus meu, Tu vês que dentro de mim a minha alma está abatida! Estou agora viajando em pensamentos pelas terras do norte...no lugar onde o rio e o monte se fazem cúmplices da vida...mas isso não me basta. Posso estar diante do Rio do Jordão ou no só-pé do Monte Hermom, mas ainda assim o rio e a montanha apenas me fazem recordar de como rios e montes não me satisfazem... Lembrei-me, então, da queda que conheci nas terras do norte...Escorreguei enquanto passava pelas corredeiras do Jordão, que nasce ao pé do Hermom...e fui caindo...um abismo me remetia a outro abismo...e o ruído das águas era como o das catadupas do furor de Deus...todas as ondas e vagas do mar de Deus têm passado sobre mim... Contudo, eu sei que de dia o Senhor ordena a Sua bondade e que de noite Ele envia a Sua canção, que comigo estará. Sei que nascera em mim uma oração ao Deus da minha vida... Digo a Deus, que é a Rocha da Fundação de meu ser: Por que te esqueceste de mim? por que ando em pranto por causa da opressão do inimigo? Como com câncer nos meus ossos, assim me é a afronta dos meus adversários, que continuamente me provocam, dizendo com sarcasmo: Onde está o teu Deus? Minha alma está cansada...mas não me entrego. Provoco eu mesmo a minha alma e estimulo-a a viver e a crer. Dela indago: Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? Ela faz silencio, mas eu a incito à esperança, dizendo-lhe: Espera em Deus, minha alma...eu ainda o louvarei, pois Ele é o meu socorro, e o Deus de minha vida. Minha alma anda de luto e nada sabe responder...sente as saudades que não criam esperança. Eu, todavia, luto contra ela e recuso-me a unir-me ao seu luto... Repreendo-a outra vez e digo: Minha alma, Deus vive...eu é que estou cansado. E o eco de minha própria voz me reanima, pois sei que quem ainda luta contra si mesmo... já está no caminho da vitória, e do encontro de uma manhã que dará lugar ao frescor da brisa de Deus e que se alegrará com a luz branda do alvorecer e que prenuncia um dia alegre de esperanças renovadas. Espera em Deus, ó minha alma, ainda o louvarei; sim, louvarei a Deus, que é o meu auxílio e Deus meu! Minha alma aceita a esperança...eu prossigo...sei que vou chegar...Deus não está distante...eu sei que caminho Nele...mesmo quando todas as Suas ondas e vagas passam como torrentes sobre a minha cabeça...ou mesmo quando sou como o cavalo que cansado da viagem anseia pelas frescas águas do rio. Assim, quando me perguntam: Onde está o teu Deus? –eu mesmo respondo: Olhem para mim...não podem ver, ó cegos? Receba meu beijo, meu carinho e minhas orações por vocês todos. Um beijo no seu paizinho. Nele, que cuida de nós, e até de nossas separações, Caio