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Histórias

REFLEXÕES E MEMÓRIAS DO FUTEBOL

REFLEXÕES E MEMÓRIAS DO FUTEBOL

 

REFLEXÕES E MEMÓRIAS DO FUTEBOL

 

Quando eu era menino, amava futebol com todas as minhas forças. Era como se na infância o futebol fosse o evangelho para mim.

Papai não jogava em razão de seu aleijão na perna. Mas amava ver um bom jogo de futebol. Entretanto, não posso dizer que foi por causa dele que me apaixonei pela bola. Aliás, na minha família extensiva, fora meu tio Carlos, excelente marcador, e o meu primo José Fábio, que não era craque, mas era tinhoso, os demais homens da família serviam apenas para compor o time, mas não eram de nada com a bichinha no pé.

Creio que amei a bola por ela mesma. Pela sua redondice. Pela sua mobilidade semi-quântica. Pelo seu poder de escolha... Pela sua liberdade... Pela sua demanda de intimidade... Pela sua entrega sincera apenas aos que a ela se dessem com amor e talento servil... Pelo desafio da conquista... Pela magia e ludicidade de sua brincadeira...   

Então, você diz: Mas você, criança pensava isso?... rsrsrs.

É claro que não. Mas era isso que eu sentia como criança; posto que essas coisas ditas por mim acima, são ditas com palavras apenas depois que elas se perderam como gênio de alegria em você...

Nesse quesito do ambiente mágico, quântico, ilimitado, capaz de tudo, criança sabe tudo intuitivamente; depois esquece; e, bem depois, explica com palavras; pelo menos se a pessoa gostar de viajar em si mesmas, como eu amo, a fim de ir me entendendo de frente para trás, tanto quanto de trás para frente; ou seja: do presente para o passado, se lendo...; e do passado para o presente, se relendo.

O fato é que o Boi e o Zé Maria, meus amigos da Rua Apurinã, no Alto de Nazaré, na antiga Manaus, foram os meus maiores estímulos no futebol.

O Boi era uns quatro anos mais velho do que eu, e era muito habilidoso e safado com a bola no pé. Aí pelos 5/6 anos era com ele que eu jogava o dia inteiro, até não me deixarem mais, até ter que apanhar de minha avó, a Mãe Velhinha.

Aos domingos papai mandava que alguém me levasse ao Estádio Municipal ou no Estádio do São Raimundo, para que eu visse o Rio Negro, meu time, jogar.

O Rio Negro era preto e branco. O Botafogo do Rio também. E o Garrincha era do Botafogo. Assim como haviam um caboclo habilidoso no Rio Negro. Na minha mente de criança as duas coisas eram uma só.

Quando mudei para o Rio aos 10 anos, já era um fanático de bola. Andava com uma bola não mão até para aniversários noturnos...

Já nos primeiros dias na cidade houve um Santos e Botafogo no Maracanã, com Pelé de um lado e Garrincha do outro. Sem falar em todos os de-mais, que eram jogadores artistas, em um tempo de tanta beleza e ludicidade no jogar, que os Botafoguenses aplaudiam o Santos, e os Santistas os Botafoguenses...

Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Coutinho, entre outros, de ambos os lados, eram mais que representantes de times, eram símbolos de uma grandeza, de uma arte, e de um amor comum...

Então, a praia... Futebol de praia em Copacabana no auge da grandeza da pratica na areia, com a presença de craques por vezes melhores do que os que jogavam nos times, e não eram ex-jogadores, eram apenas jogadores que apenas amavam jogar bola. Por isso, bastava-lhes a bola...

Uma vez, conversando com o Junior do Flamengo, na casa do Baltazar, disse a ele que um dos mais belos jogadores de futebol que eu já vira jogar havia sido um negro, sem um braço, e que era armador do Lá Vai Bola, nos campeonatos de areia maravilhosos que havia em Copacabana todos os sábados e domingos à tarde, e, muitas vezes, no meio da semana, ao cair da tarde ou à noite, com a praia lotada para ver...

Ele me disse que concordava comigo, e que apenas o Pelé, na opinião dele, era melhor e mais artista do que o homem sem braço do Lá Vai Bola.

Era assim... Uma paixão pela bola. Não pelo que ela poderia dar. Mas apenas pelo que se poderia dar à bola.

Dali em diante eu sabia que seria um jogador de futebol... Apenas pela bola, pela alegria, pela paixão, pela invenção ilimitada que ela me proporcionava.

Creio que eu jogava umas seis horas por dia, com outros; e mais umas seis horas sozinho, entrando pela noite; e, depois que era gritado para que eu entrasse, entrava e continuava a fazer pé-pé no quarto...

Então, aos 13 anos veio o futebol de salão e depois o de campo oficial, no mesmo ano. Passei a jogar de chuteira várias vezes na semana, sem deixar o salão e nem a praia, e, sobretudo, os “rachas” de calçada, com o ônibus e os carros passando na sua cara, com a bola rolando para o meio da rua, e você driblando adversários, transeuntes e os carros...

Para piorar a minha paixão pelo Botafogo somente aumentava...

E mais desgraçadamente ainda: o Gérson, meu ídolo maior no Botafogo, e no Brasil, vindo acima dele apenas a unanimidade absoluta imposta pela genialidade multifacetada do Pelé, veio a casar com uma menina de minha rua em Niterói, e, ficava por lá muito tempo.

Eu já ía aos treinos do Botafogo durante a semana. Agora eu ia com o Gerson e o Roberto Furacão, ambos do Botafogo — e atravessa as barcas ao lado deles, apenas ouvindo os papos deles até o outro lado da Baía de Guanabara.  

Aos 14 eu já era um ótimo jogador. Jogava em vários times chamados “dente de leite”, à época, e participava de tudo o que rolasse para a minha idade. Fazia parte de jogos preliminares para times maiores no interior do Estado e me preparava para entrar no Botafogo, no tempo do Neca, treinador na “Escolinha”.

Fui, e fui aprovado... Ia entrar... Então, disputando um jogo pelo Ingá Futebol Clube, do meu bairro, fui acidentado feio no joelho esquerdo, e, levado pelo meu pai ao Dr. Lídio Toledo, maior autoridade na época, fui aconselhado a parar por uns tempos, enquanto curtia um gesso que me parecia infindável...

Foi nessa espera que tudo mudou...

Papai, convertido, decidiu voltar para Manaus no ano seguinte, acabando com meus sonhos...

Me enchi de raiva... Então, o que fazia às vezes, que era fumar um baseado, ou tomar umas anfetaminas, passei a fazer todos os dias, e, com isso, foi morrendo a minha paixão, na mesma medida em que mudavam as minhas amizades.

Então comecei a achar “careta” a idéia de ser jogador de futebol... Dizia que entrava nas peladas, quando entrava, apenas para alegrar a moçada. Já em Manaus, passei a jogar no time dos Maconheiros, o Ponte Preta, e que jogava contra o time dos alcoolizados, os Biriteiros.

Então, sem que eu pudesse explicar, entre meninas e muitas mulheres, sem tempo para esportes que não fossem apenas “aquele”, me vi apaixonado outra vez. Agora pelo Jiu-Jitsu.

Não o Jiu-Jitsu de pano, de quimono, mas o Jiu-Jitsu do vale tudo, que era o que acontecia nos treinos da Academia Gracie de Copacabana depois que o pessoal do Jiu-Jitsu esportivo ia para casa. Mas tudo começou em Manaus, quando o Arthur Virgilio Neto, hoje Senador, sendo meu amigo e já faixa-preta dos Gracie, começou a me ensinar em Manaus, antes de haver qualquer Jiu-Jitsu na cidade.

De lá voltei com ele para o Rio e fui direto para a Academia, com o Rolls [já falecido, gente boa e grande amigo], o Reyson [meu amigo até hoje], o Carlson [em Niterói; hoje já falecido], e muitos outros amigos queridos.   

Então, no auge da paixão pelo Jiu-Jitsu e pela segurança que ele dava, entrei em desespero gerado por Deus em mim, e, sem alternativa existencial, comecei querer morrer...

Então chegou o Evangelho!

Ora, tudo o que a bola me dera e tudo o que o Jiu-Jitsu me havia dado, se súbito se me tornaram brincadeiras de paixão, ante o que agora me chegara...

Interessante. Olho para trás, e apesar de ver que as meninas e as mulheres eram em fartura em minha vida, nunca me apaixonei por uma mulher na vida juvenil, e, da bola e do Jiu-Jitsu passei para a paixão do Evangelho.

Eu tinha uma paixão pelo gênero feminino, mas nunca por uma mulher.

Hoje o Evangelho não é a minha bola. Mas não posso negar que ele seja todas as minhas paixões.

Foi somente já quase mais para cá do que para lá, já meio cansado de guerra, que vim a me apaixonar por uma mulher.

Ela não é a minha bola. Mas é a minha paixão.

O tempo que eu passava com a bola na infância, nos últimos 10 anos eu passei com a minha mulher, Adriana. Só que não tem comparação... Pé-Pé, nesse caso, é bom mesmo é fazer no quarto.

São apenas reflexões de ir ver Botafogo e Flamengo, enquanto também torço pelo Ronaldo no Corinthians.

Espero que o Botafogo ganhe.

Um abraço para você Ney Franco.

Da próxima vez que nos virmos quero que você já seja Campeão pelo Botafogo.

 

Caio

26 de abril de 2009

 

Copacabana

RJ