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Histórias

LUK-LUK, VOLTOU PARA CASA--em seqüência (textos novos)

LUK-LUK, VOLTOU PARA CASA--em seqüência (textos novos)

LUKAS, MEU FILHO MAIS QUE AMADO, PARTIU ESTA MADRUGADA

(Madrugada de sábado, cinco da manhã. O Davi havia me dito em prantos. Liguei para o Ciro)
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Não sei que horas são.
Orem por mim e minha família.
Meu filho Lukas acabou de morrer atropelado.
Estava com os irmãos.
Foi à padaria e aconteceu.
Está com o Senhor.
Meu coração clama a dor que eu não conhecia, meus pais sim.
Louvo o teu nome, meu Deus!
Obrigado por ter sido pai do Lukas.
O Senhor SABE como ele era meu prazer.
Obrigado por tê-lo levado quando ele estava bem.
Obrigado!
E ajuda as nossas almas.


Caio

O SEPULTAMENTO SERÁ AS 16:00HS NO CEMITÉRIO PARQUE DA COLINA, PENDOTIBA - NITERÓI - RJ.
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MEU LUKLUK PARTIU PARA O PARAÍSO


Agora são onze e meia da noite do dia 27 de março de 2004.

Às quatro horas da tarde, sepultei meu filho amado, Lukas, minha alegria, minha dor, meu adversário, meu melhor amigo, minha maior preocupação, minha mais certa presença no cotidiano.

Ele estava com os irmãos num show de um amigo da igreja. Na volta para casa, numa parada em frente a uma padaria, em Piratininga—bem perto da casa onde ele cresceu toda a infância—, ao atravessar a rua, foi atingido por um BMW, que vinha em alta velocidade.

Ele nem sentiu que morreu.

Já abriu os olhos na Luz da Glória.

À semelhança de Sansão, mais foram os seus feitos na morte, do que durante toda a vida.

É inegável o que a mão de Deus criou de Graça, encontros, reencontros, reconciliações, pedidos de perdão, confissões de amor, quebrantamento pela vida, avaliação acerca da banalidade de causas que ultimamente separavam amigos, e de amor por ele, Lukas, não apenas por seus pais e irmãos—foi algo absolutamente maravilhoso.

Deus estava ali!

Sua Graça e Paz nos inundaram.

Eu mesmo preside toda a cerimônia, do jeito que eu sei que Lukas iria querer.

Ele e eu tínhamos essências muito semelhantes, em muitas coisas.

Lukas sabia que eu o amava incondicionalmente. E teve centenas de provas disso.

No peito consolo e saudade; alegria por ele, e tristeza por nós; alma rasgada e ferida, sangrando sarada.

Eu amei o Lukas com todas as minhas forças de homem e pai.

Ele sabia disso.

Nós todos da família estamos consolados no Senhor.

Hoje é só o que consigo dizer.

Mas há muito a contar.


Senhor, a Tua Graça é melhor que a vida.

Obrigado porque meu filho está feito todo Graça em Ti.

Amém.


Caio
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LUKAS: UMA BREVE HISTÓRIA...UMA HISTÓRIA INTENSA...UMA HISTÓRIA DE AMOR


Hoje, segunda-feira, mais de 50 horas após a partida de meu filhote para a Glória do Pai, quero agradecer o amor, as orações, as lágrimas, as milhares de expressão de solidariedade, e a presença dos amigos—direta e indiretamente.

AGRADEÇO a todos em meu nome, em nome de Alda, e de Ciro, Davi, Juliana, e do Luk-Luk...

Sentimos os abraços e os beijos de vocês todos. O amor de vocês nos tem consolado. O amor de Deus é consolo.


Lukas tem uma longa-curta história. Linda e dolorida. Um dia haverei de escrevê-la. Quero que todos saibam quem ele era, como viveu, sentiu, interpretou, foi amado até a morte, e, sobretudo, como me forçou a crescer como homem, em todas as direções.

Lukas era minha companhia mais presente entre os filhos nos últimos cinco anos.

Não em razão de qualquer ausência dos irmãos—eles todos são maravilhosos e cheios de amor por mim e pela mãe—, mas em razão dele ter adoecido, e de eu ter cuidado dele boa parte do tempo.

Isto sem falar que nos últimos meses ele morava com o Ciro, o irmão mais velho, aqui ao lado de minha casa. Ciro e Davi sempre estiveram presentes, como irmãos mais velhos, em todas as horas. A Jú era-é a “irmã-igual” que ele tinha, e com quem travou pelejas de amor; embora fossem apaixonados um pelo outro, e tenham sido sempre muito "cúmplices".

Como dizia, a presença dele ao meu lado era também cotidiana. Praticamente tomávamos café, almoçávamos, e jantávamos juntos quase todos os dias.

No último mês, maravilhosamente, ele foi ficar uns tempos na casa da Alda, em Niterói. Juliana, a caçula, mora com a Aldinha.

Já fazia um ano que ele estava bem!

Nos últimos seis meses, entretanto, acelerou-se um processo de alegria em sua alma...que estivera deprimida.

Desde criança que ele foi sempre muito perceptivo. E como toda pessoa excessivamente sensível, ele sofreu até encontrar o amor do Pai.

Nos últimos dois meses seu coraçãozinho estava enternurado pelo amor do Pai.

No último mês ele estava desabrochando para muitas alegrias e conquistas pessoais. Sobretudo, ele estava empolgado com o amor e Graça de nosso Deus.

Estava lendo o livro do Henri Nouwen, sobre o filho pródigo. Livro que eu li há muitos anos, um clássico devocional do amor de Deus por Seus filhos.

Todos os dias ele falava comigo sobre a leitura. Lia rápido. Mas me disse que estava lendo aquele livro bem devagar, porque o que estava acontecendo nele era tão doce, que ele não queria que acabasse...

Não acabou...voltou para a casa do Pai...e entrou na festa!

Os irmãos mais velhos não sofriam do mal do “irmão mais velho da parábola” que Jesus contou no Evangelho de Lucas. Todos torciam por ele. Todos oravam por ele. Todos o amavam, e deram as vísceras por ele.

Ele sabia que era muito amado!

O filme a Paixão de Cristo tocou muito nele. Nem tanto a produção, mas a “interpretação” que o Lukas fez sobre a Cruz, atrás da Crucificação.

Ele voltou impactado do cinema. Me disse várias coisas, e aos amigos também. Dentre as muitas coisas que falou, afirmou que vira a vitória de Jesus sobre a morte e o inferno, e que agora ele sabia o que a Cruz tinha realizado.

Dois dias antes de sua partida eu recebi o Diploma e a Carteira de Psicanalista Clínico. Lukas ficou orgulhoso. Me disse: “Legal. Demorou. Foi o que você fez a vida toda”. Alda me disse que ele chegou em casa celebrando o fato.

Falou muito com a mãe também, sobre muitas coisas, e, sobretudo, sobre as alegrias que estava experimentando.

No dia de sua partida ele também celebrou alegremente o fato de ter sido aprovado como professor de inglês do Wizard. Além disso, ele estava “amando” a quarta faculdade superior que iniciava, agora Letras. E, diferentemente das outras vezes—cinema, desenho insdustrial e psicologia—, ele estava amando tudo...em letras.

Até pai ele queria se tornar! Enternurado pela sobrinha, Hellena, e pelo “sobrinho adototado”, Mô; ele andava dizendo que iria ser pai...que gostaria de experimentar aquele amor na Terra.

Nas horas anteriores à sua partida, ele estava com os irmãos, amigos e muita gente da infância dele, garotada da Igreja Betânia, participando do show do Vitinho, também amigo de infância, e que conosco havia também passado o último carnaval, num sítio no interior do estado do Rio.

As conversas dele com os irmãos e amigos durante a noite, todas elas, falavam desse nova alegria que o invadira.

Saíram juntos, em vários carros. O carro dele parou. Ele foi comprar algo do outro lado da rua. Não havia carro nenhum na estrada.

De súbito um carro veio do nada...

Quem viu disse que o Lukas estava pulando de felicidade, de um jeito todo dele, e que acontecia quando ele ficava feliz...

Ele estava atravessando a mesma estrada velha de Itaipu, onde cresceu...e que também foi o "lugar físico" de onde partiu para a eternidade...

Foi literalmente uma volta ao lar!

Partiu como o pródigo da parábola de Jesus, sendo que, mais feliz ainda...

Estava na festa do amor...

E todos os seus irmãos estavam juntos, comemorando o fato de que aquele seu irmão esteve na região da sombra da morte, em longa depressão; porém, revivera; nunca estivera “perdido”, mas havia acabado de se achar...no amor do Pai.

Alda e eu temos toda gratidão que o coração pode produzir e sentir pela vida de um filho.

Quanto a mim, nunca sofri tanto, nunca amei tanto, nunca fui tão testado, nunca fui tão provocado, nunca tive que amar tanto contra os meus instintos paternos...

O Lukas me ensinou muito. Seus insights eram extraordinários.

Ele havia me dito dois dias antes que pedia a Deus para morrer antes de mim e da mãe.

“Pai, eu não quero ficar em nenhum mundo onde você não esteja presente como meu pai; e onde mamãe não seja minha mãe”.

O Senhor ouviu as orações dele!

E ouviu as minhas também, pois, eu disse, milhares de vezes, ao Pai, que não queria partir sem ver o Lukas muito bem...sobretudo, com muita alegria de viver na Graça.

Ele sempre teve o temor do Senhor no coração. Nem mesmo em relação a algumas coisas da “igreja” ele tinha queixas. Via calado. Sofria. E passava por cima...

Jesus era Aquele que Ele sabia que o amava mais do que eu...e ele sabia que eu os amava mais que a vida.

E, acerca disso, ele mesmo me disse:

“Agora eu sei porque tem tanta gente que não confia em Deus como Pai. É que eles nunca conheceram um amor de pai, na Terra. Eu tenho muita sorte. Você me faz ver como Deus ama, incondicionalmente.”

Me beijou, me abraçou...

Desde criança ele tinha muito medo de ver os homens se destruírem. Temia pela destruição da Terra.

O mundo não acabou para ele...Foi-se da Terra em dia de alegria!

Dentro da Bíblia da Alda estavam duas fotos dele, recém tiradas. Ela abriu a Bíblia, de manhã cedo, tão logo cheguei à casa dela, e pegou as fotos para me mostrar. Nós tínhamos acabado de saber a notícia...

As fotos o mostravam como ele estava: cheio de uma nova alegria. Mas o maravilhoso é que, coincidentemente, elas estavam dentro do texto do Evangelho de Lucas, nas páginas da Crucificação, exatamente no lugar onde havia o grifo feito com caneta..."Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso".

Só o vi de novo no caixão...

Os irmãos mais velhos e os amigos cuidaram de tudo!

Eu quase nem vi o tal caixão...

Meus olhos estavam na festa de amor, reconciliação, reencontros, perdão, e muita Graça que a partida dele havia promovido.

Depois eu falo e explico isto. Mas o fato é que sua vida e sua morte carregaram para mim significados que não posso agora compartilhar...nem emoções eu tenho para fazer agora.

Meu filho, Luk-Luk, entrou no gozo de Seu Senhor e Pai.

Em breve estaremos todos juntos; e lá, todos os que se amam não serão proibidos de dar as mãos e andarem juntos pela Praça da Cidade, comer do fruto da Árvore da Vida, e beber do Rio da Vida, com águas cristalinas.

Estou louco é pra saber qual é o novo nome dele. Eu o chamei de Lukas. Quero saber como o Pai o está chamando. Minha sugestão, com temor e tremor, é Luk, Lukinhas, Luk-Luk, Kinhas, ou até Lukosinho.

Mas Deus sempre tem as melhores sugestões.

Eu confio Nele!


Caio
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DE HELLENA PARA O TIO LUKAS

Hellena disse que tio Lukas está muito bem.

“Tio Luk foi morar com Jesus”—disse a vó Lú, mãe de Tatiana, esposa do Davi.

“Ah, então ele está muito bem com Jesus”—disse a loirinha de quatro anos.

No carnaval ela e Lukas se divertiram muito...

Naquele mesmo período ela e eu tivemos uma conversa chocante. Eu estava ensinando ela a nadar sem bóia e a mergulhar de olho aberto.

Ela aprendeu bem rápido. Então a gente mergulhava e ficava se olhando com os olhos arregalados em baixo dágua. Ela adorou!

Na quinta-feira, após o carnaval, ainda no mesmo sítio, bem cedinho de manhã, ela e eu nos encontramos na piscina.

“Vô, vem nadar comigo!”—disse a princesinha.

Fui...e ela e eu nos curtimos muito.

Depois saí da água e deitei numa espreguiçadeira. Ela veio e deitou sobre mim; então eu criei uma "colinho" e ela ficou dentro, entre as minhas pernas.

“Vô, eu vi Jesus fazer todas as coisas. Eu estava lá quando Ele fez as estrelas, o sol, a lua, e a terra.”—afirmou ela, olhando para o céu e para a terra.

E prosseguiu me falando de como Jesus havia feito tudo e todos.

Então passou uma vaca bem ao nosso lado.

“Eu estava lá quando Ele fez as vacas, as galinhas, os cavalos, os passarinhos...tudo...vô!”—completou ela.

“Mas como, Hellena? Você está exagerando”—foi a provocação.

“É que eu estava Nele, vô!”—afirmou aquele anjinho loiro.

Eu fiquei pensando nos teólogos. Aquela afirmação seria imediatamente repreendida como blasfêmia.

Depois pensei como teria sido quando Jesus era menino, e de como as pessoas devem ter atribuído Sua comunhão com o Pai ao mundo da fantasia infantil.

Aliás, Jesus só foi razoavelmente bem tratado pelas autoridades do templo enquanto falou como criança.

Na boca das crianças tudo vira imaginação e fantasia...e até a teologia faz suas concessões.

Estou escrevendo isto porque há dez minutos o Davi me disse que a Hellena já sabia que o tio Luk estava com Jesus.

“Ah, pai! Então ele está muito bem...”—repetiu ela.

Está sim, Helleninha!

Tio Luk está Nele!


Caio
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O dia já nasceu, e hoje eu sei que estar no céu é ver a vida como Jesus a via, e é ser em Deus como Jesus é-era-é.

“Eu e o Pai somos um” é a vocação de todo ser humano; e isto é estar em Cristo.

A tomada dessa consciência começa em alguma forma de conversão—instantânea ou gradual; abrupta ou sutil—; e a saúde é consentir com sua progressão em nós.

Somente o Filho, Jesus, viu o mundo com os olhos do Pai.

Minha vocação em Cristo é buscar ver com os olhos de meu Pai.

Meu Pai é amor!

Aquele que ama, conhece a Deus, e é Seu filho.

Todo aquele que do Pai é nascido, ama a seu irmão.

E o amor ao irmão deve ser como o amor de um pai por um filho, ou como amor do Filho pelos pais-filhos-seus-irmãos; pois esta é a visão que nos ilumina cada vez mais os olhos e o entendimento para começarmos a ver desde o céu.

Pensar nas coisas lá do alto, e não nas que são aqui de baixo, deve ser nosso enxergar-pensar; e buscar tais coisas deve ser nosso viver-existir.

O amor do Pai é o amor do Filho, e como vínculo nos vocaciona a todos, como filhos e irmãos, a abrimos os olhos dos nossos corações para vermos a vida com esse olhar de amor e graça.

Esse novo olhar é um ver na Graça, pois o Pai é amor.

Esse novo olhar nos desvenda os olhos para ver para além das cortinas dos tempos, das morais, das religiões, das classes sociais, das raças, das cores, das dores, dos males, dos enganos, dos bem-feitos-feitos-bem, dos mal-feitos que não foram por maus-feitos; a discernir as limitações das prisões do olhar dos outros; e os grilhões que acorrentam à distancia aqueles que se amam e não se aproximam na verdade; a discernir as tiranias dos valores que impedem gente que se ama de simplesmente se aceitar, se entender, se perdoar, se acolher, se reanimar, se enxergar sem medo, se encarar em amor, e andar de mãos dadas para a vergonha das trevas.

Sim, hoje eu sei que estar no céu é ver a vida como Jesus a via, e é ser em Deus como Jesus é-era-é.

Quero não me acovardar de minha vocação para esse ver-sentir-agir neste mundo. Do contrário, estarei atrasando em muito a chegada da vida eterna como o entendimento de meu existir terreno.

Por que quem já passou da morte para a vida tem que se sujeitar tanto à escravidão do olhar desse mundo?

Manter a mente crescendo em Cristo é não aceitar essa conformação, que é o grilhão que acorrenta nossa liberdade na cadeia dos juízos e dos sentimentos escravizados pela tirania de deveres que existem contra o amor.

Caio, segunda madrugada depois da morte de meu filho Lukas.
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Terça-feira...

A coisa mais estranha de se “perder” alguém a quem se ama como nós amávamos e amamos o Luk, é que de fato a pessoa real dele fica cada vez mais vívida na alma, na mesma medida em que o tempo passa.

Há uma depuração de tudo...e, à SEMELHANÇA, do ouro no crisol, queima-se a matéria espúria, e fica o que é precioso.

Assim é que, eu sei, a cada dia ele ficará mais real para nós.

Do dia dez de janeiro de 1982 até o dia 27 de março de 2004, eu não tive nenhum instante de vida que não estivesse permeado pela presença do Lukas. Eu levava sustos quando o esquecia por alguns minutos...

Ciro e Davi eram e são tesouros maravilhosos. Me enchiam e enchem-me a vida de prazer. Deus sabe a paixão paterna que me acometeu e acomete por eles. Eles são irmãos mais “velhos”, mas sempre entenderam o “pródigo”.

Jú era-é a princesinha amada, a boneca do pai, pura doçura. Chegou quase morta, e reviveu; aos três meses de idade. Ela sabe a loucura do coração do pai por ela. Ela sabe que a verdade da adoção do Pai me foi infiltrada psicologicamente pelo adocicamento que a adoção dela me causou; e nos causou a todos!

Mas o Lukas chegou num berço de dores profundas. Essa será uma história que só pode ser escrita a duas mãos—a minha e a da Alda.

Alda caiu doente assim que ele nasceu. E eu tive que cuidar dele durante pelo menos três meses, sem saber como fazer. Além disso, Ciro e Davi tinham 6 e 5 anos respectivamente...e ainda faziam muitas demandas infantis, como era próprio.

Nossos pais estavam longe. E na igreja eu não queria pedir ajuda, temendo que houvesse ajuda demais, e que a Alda não tivesse o descanso que ela precisava.

Quando a Jú chegou, dois anos depois, Lukas foi atingido em cheio. Essa também é uma longa história, rica, bela, e angustiante; e que um dia também será contada, escrita a duas mãos, de pai e mãe.

A chegada da Jú mobilizou a todos nós para a sobrevivência dela. Ela chegou e foi direto para o hospital; estava morrendo...

Essas circunstâncias forçaram o Ciro e o Davi a amadurecerem muito rapidamente; e eles ajudaram demais a cuidar dos irmãos mais novos; especialmente o Davi, que já nasceu pai.

O fato é que o Lukas não queria crescer. Ele queria voltar para casa desde que nasceu. E a vida toda dele foi uma tentativa forçada de andar para frente, porque o desejo dele era voltar ao útero, ao lar.

Forcei-o a tudo. De engatinhar à falar. Ele simplesmente se negava.
Só passou de uma etapa para outra quando quis, e não obedeceu aos critérios da normalidade etária.

Odiou a escola. Chorava para não ir. Cancelei mais da metade de minha agenda em 85 e 86 pra poder ficar mais tempo em casa; especialmente em razão dele, pois os outros estavam bem.

Forcei o quanto pude a ida dele para a escola. Muitas vezes tinha que ficar dentro da classe com ele, e ir saindo bem devagar...

Davi fez isto também muitas vezes; mais do que eu e Alda.

Lukas era muito belo. Formoso aos olhos. E foi um menino muito lindo. Gostoso.


Em 1988 fomos para a Califórnia. Ficamos quase dois anos por lá. Foi lá que o Luk gostou pela primeira vez de ir a escola...

Também! era bem na frente da nossa casa!

Nunca esquecerei a cena dele de mãos dadas com Davi, atravessando da calçada de nossa casa para a escola, do outro lado da rua. Ele estava saltitante!

Os anos na Califórnia foram os mais felizes da infância deles!

Longe do Brasil, dos assédios, da falta de privacidade, e livres da sombra do “Reverendo”, que nos perseguia onde fôssemos no Brasil, todos nós respiramos aliviados.

Quando voltamos, a adolescência dele explodiu em flores, e ele se encheu de vida!

Davi era o herói dele. E Davi pagou o preço desse heroísmo tendo que levá-lo à tiracolo para todos os lugares.

Ainda assim, era uma adolescência infantil, pois ele queria fazer parte do mundo dos maiores, mas não queria ser um deles.

Dançava maravilhosamente e empolgava onde ia. E tinha extremo bom gosto; e amava coisas finas e sutis. Especialmente roupas boas, sapatos de grife, bons perfumes, muita música, cinema e artes em geral.

Foi na volta aos Estados Unidos para residir, em 1996, que ele se sentiu outra vez “fora de casa”. Mas esse era um sentimento que existia em níveis quase imperceptíveis dentro dele, pois o que ele afirmava é que gostaria de voltar a morar lá.

Só que dessa vez a família já não poderia ir toda pra lá. Davi trabalhava comigo, Ciro já estava se preparando para morar fora, no R.G. do Sul, trabalhando com música. E eu tinha um mundo de coisas para tocar.

De fato, durante mais de três anos, eu fui toda sexta-feira à noite para a Flórida, pra ficar com eles; e voltava toda segunda-feira à noite.

Foi na Florida que o Luk começou a dar sinais de estar tomando um caminho que nos afligia. Alda me falou e eu o trouxe de volta para casa, no Brasil.

Mas ele já estava envolvido com drogas pesadas, e pagou um alto preço por isto. O pior deles foi a depressão.

O mundo desabou sobre as nossas cabeças no ano de 1998. Então, tudo ficou infinitamente mais difícil.

Do final de 98 em diante, a depressão chegou de vez para a alminha dele. Não queria mais ir a escola, e foi ficando cada vez menos sociável.

Os tumultos, angustias e opressões daqueles dias foram inimagináveis. E eu os pus fora de tudo aquilo como pude; mas minha angustia ficou pior quando fui ameaçado com as palavras finas de quem dizia que sabia onde era minha casa, quem eram os meus filhos, e onde eles estudavam. Essa também é uma longa história.

Na segunda metade de 99, todos nós voltamos ao Brasil. Alda já estava aqui desde 98, indo lá à cada 15 ou vinte dias.

A Hellena nasceu no dia em que eu cheguei!

Dali para frente as angustias com o Luk foram as mais profundas de toda a minha vida. Foram alguns anos de muita luta, amor, dor, e perseverança.


Durante a vidinha dele houve muitas situações de morte. Eu mesmo o arranquei de dentro de uma fossa, onde caíra aos quatro anos, e por pouco não morreu. Do mar, tirei-o duas vezes. Mas foi no 2000 que tive que tirá-lo de alto parapeitos de morte, de um prédio de 14 andares, em duas madrugadas de angustias indizíveis.

Quando vimos que havia passado de nossos recursos familiares, decidimos interná-lo. O tratamento na melhor clínica do Rio seria longo e muito caro. Vendi a casa que estávamos construindo e, assim, pude financiar o tratamento dele.

Foi um dos períodos nos quais eu mais aprendi em toda a minha vida. Tinha que ir lá—e era muito longe—quatro vezes na semana, participar de todos os tipos de grupos. Aprendi muito com a dor de tantos pais...e me senti humano, e completamente igual a todos eles. Entrei em todos os programas. Fui à reuniões do N.A. com o Luk. Vi como o programa carregava na sua essência princípios profundamente bíblicos. E cresci em humanidade.

Ele voltou para casa. Deu algumas “derrapadas”, mas devagar se pôs no prumo, tomou consciência, e começou a tentar voltar à vida, como todo mundo.

Esse processo de rompimento de “cordões umbilicais” vinha sendo incitado por mim, especialmente durante o período de sua internação.

Quando ele saiu e deu uma assentada, logo veio o desejo dele de morar sozinho nos Estados Unidos.

Li a Parábola do Filho Pródigo—eu mesmo fora um pródigo, literalmente—, e decidi que ele tinha que ir para a “terra distante”.

Falávamos três, quatro vezes por semana ao telefone; e ele hora dizia que queria voltar, hora dizia que queria permanecer.

Foram meses de “uma gestação”, os que ele passou na “terra distante”: nove meses!

Um dia ele ligou dizendo que voltaria em uma semana. Dois dias depois eu estava no computador, escrevendo, quando olhei para trás, e vi, pelo vidraça da porta de entrada, o vulto de meu filho.

Levei aquele susto que mata de alegria!

Então ele contou que não agüentou e que decidiu voltar logo. O problema é que ele chegara em Miami—aeroporto de onde embarcaria para o Rio—, e quando procurou o passaporte, verificou que o perdera.

Entrou em pânico. A mulher que o atendia disse que não tinha jeito dele viajar.

“Mas moça, eu só quero voltar para casa!”—disse ele, súplice.

A mulher o tomou pela mão e o levou até o avião. Puro milagre. Mas ele queria “voltar para casa”.

Ele tinha o dom de voltar para casa, e de convencer a todos de que era verdade; pois verdade era.

Quando ele voltou sozinho da América, olhei nos olhos dele e vi que havia uma luz diferente.

Me vi nele. E cri que ele estava começando uma jornada de volta para a casa do Pai.

Centenas foram as vezes em que ele saía daqui a noite, pra “night”, e eu ficava da janela da Barata Ribeiro, em Copacabana, com as mãos estendidas, abençoando-o pelo caminho, e pedindo ao Pai que o guardasse.

Minha oração era uma só:

“Pai, eu daria a minha alma pelo meu filho, eternamente; e eu sei que eu não o amo, pois amor é só o Teu. Cuida dele, e ficarei em descanso; pois se sei o que eu daria por ele, sei também o que já deste por ele. É porque eu confio no meu amor por ele que posso confiar que o Teu é infinitamente maior.”

Foi o Lukas quem me ensinou a confiar e a descansar no amor de Deus. Foi sendo provocado pelas angustias que ele me acusava que tive que aprender, não para as grandes causas da fé, mas para a essência de minha existência, que eu tinha que simplesmente confiar no amor e no cuidado do Pai.

Confiei de todo o coração, e valeu a pena!

Nós, toda a família, estamos reunindo as coisas dele, as que gravou, escreveu e falou; e as que foram escritas para ele, em amor a ele, enquanto ele estava aqui; e faremos uma publicação.

Nessa ocasião desejarei, sobretudo, compartilhar com todos uma saga intensa de dor e amor, e, sobretudo, de muita Graça e misericórdia de Deus por nós.

O texto que segue transcrito eu escrevi assim que ele voltou da Califórnia, há não mais que uns dois anos. Foi quando vi a “luz de casa”, nos olhos dele!

Quem já leu as demais coisas que nós da família escrevemos neste site, sabe que ele voltou para a casa do Pai, e que o fez do jeito dele, que o Pai conhecia muito bem.
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Ora, chegavam-se a Jesus todos os cobradores de impostos e os considerados pecadores para o ouvir.
E os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo:
Este recebe pecadores, e come com eles.
Então Jesus lhes propôs esta parábola:
Certo homem tinha dois filhos.
O mais moço deles disse ao pai:
Pai, dá-me a parte dos bens que me toca. Repartiu-lhes, pois, os seus haveres.
Poucos dias depois, o filho mais moço ajuntando tudo, partiu para um país distante, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente.
E, havendo ele dissipado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a passar necessidades.
Então foi encontrar-se a um dos cidadãos daquele país, o qual o mandou para os seus campos a apascentar porcos.
E desejava encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam; e ninguém lhe dava nada.
Caindo, porém, em si, disse:
Quantos empregados de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome!
Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus empregados.
Levantou-se, pois, e foi para seu pai.
Vinha ele ainda longe, seu pai o viu, encheu-se de compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou.
Disse-lhe o filho:
Pai, pequei conta o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.
Mas o pai disse aos seus servos:
Trazei depressa a melhor roupa, e vesti-o com ela, e ponde-lhe um anel no dedo e sapatos nos pés; trazei também o bezerro, cevado, e matai-o; comamos, e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado.
E começaram a regozijar-se.
Ora, o seu filho mais velho estava no campo; e quando voltava, ao aproximar-se de casa, ouviu a música e as danças; e chegando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo.
Respondeu-lhe este:
Chegou teu irmão; e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo.

Mas ele se indignou e não queria entrar. Saiu então o pai e instava com ele.
Ele, porém, respondeu ao pai:
Eis que há tantos anos te sirvo, e nunca transgredi um mandamento teu; contudo nunca me deste um cabrito para eu me alegrar com meus amigos; vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado.

Replicou-lhe o pai:

Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu; era justo, porém, regozijarmo-nos e alegramo-nos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado.
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A parábola do Filho Pródigo todos conhecemos.

Já preguei sobre ela centenas de vezes.

Olhei-a sob inúmeros aspectos.

É minha história.

É a história da humanidade.

É a história de quem foi, e nunca deixou de ser.

É também a história de quem nunca foi, mas nunca chegou a estar.

Sobretudo, é a história do amor de Deus, e do modo como Ele age como Pai.

Pai para quem foi, e nunca deixou de ser.

Pai para quem nunca foi, mas nunca chegou a estar.

Hoje, no entanto, eu estava quase dormindo quando ouvi essa voz, que dizia:

“Vinha ele ainda longe, e, seu pai o avistou; e correndo, o abraçou...”

O Pai não somente deixou ir, e aguardou a volta...

Ele viu de longe, e fez o caminho de volta com o filho.

Entre o olhar do Pai e a volta para casa, existe um “ainda longe”.

O Pai foi buscar o filho “ainda longe”.

Longe de ida, longe de volta!

Em casa é que o problema começou: quem nunca foi, mas nunca chegou a estar, não gostou que aquele que foi, e nunca deixou de ser, tivesse voltado!

O Pai, todavia, só participa disso porque é Pai, mas não se deixa seqüestrar por nada e nem por ninguém. Nem pelos demais filhos a quem também e igualmente ama.

Quem não gostar, que não goste. O Pai, no entanto, vai longe buscar a seu filho.

E há um caminho que o Pai e o filho precisam fazer só os dois. Sem mais ninguém entre eles...

Em casa, há muito ciúme, muita competição, muita doença.

Que bom que antes de ver os irmãos magoados, a gente pode ver o rosto do Pai.

Que bom que Ele vai encontrar com a gente ainda longe de casa, antes que as impressões do ciúme e da inveja tentem estragar o encontro que vale: o encontro do Pai com o seu filho.

Que bom que quando quem nunca foi, mas nunca chegou a estar, só aparece depois que o filho quebrado havia se entendido com o Pai feliz.

Que bom que há esse “ainda longe”, assim, tem-se tempo para chegar em casa tão cheio do amor do Pai, que não se tem mais tempo e nem coração para ficar doente com o ciúme dos irmãos.

Vinha ele ainda longe...

O Pai o avistou; e, correndo, o abraçou e o beijou!


Caio

Posteriormente publiquei este texto no site, porém esta é a história do dia em que o escrevi, há quase dois anos.
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HOMENS COMEM PÃO—para o Lukas

“Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer; fica ele só; mas se morrer, produz muito fruto.”


Quando Jesus disse isto, falava de si mesmo, e, provavelmente, também estivesse resistindo a sedução dos gregos, que traziam-lhe agradável proposta de vida longa em Edessa.

Grãos vivos estão mortos. Grãos mortos estão vivos. Pois a morte do grão é não morrer. E a vida do grão é morrer, para poder dá vida.

Grão vivo está morto pela improdutividade. Grão morto está vivo pela frutuosidade.

Por isso o grão vivo fica só; visto não gerar de si mesmo nenhuma espiga ou sementes, o que lhe poderia garantir a multiplicação da vida.

A vida do grão não é viver, é dar vida!

Em se tratando de “grão de trigo”, o caminho de sua morte põe pão em todas as mesas dos humanos.

Jesus disse que Sua “sobrevivência” seria a Sua real morte; e que a Sua morte, seria a verdadeira vida para o mundo.

Ele é o Grão de Trigo que morreu para dar o Pão da Vida a todos nós!

Jesus também chamou os seus filhos de “trigo”.

Mas, para nós, a “Parábola do Joio e do Trigo” parece só ter nos deixado com medo do joio, mas sem a alegria de ser trigo.

Assim, o “joio” virou neurose, medo, angustia, e “suposto” objeto de perverso julgamento para muitos.

Procurar o joio no chão da terra gera neurose e espírito de juízo para fora, e falta de auto-percepção para dentro.

Já o trigo, em nossa pobre percepção, passou a ser apenas o que a gente pensa que é; mas que a maioria não se sabe nem o que é; pois que todos querem é “achar o joio”, ao invés de viver a vida do trigo.

Quem vive para não ser joio, nunca morrerá para ser trigo; e, assim, ficará só.

A maior solidão do trigo é não morrer, é tentar sobreviver como grão, e não como espiga e novos grãos.

Grãos de trigo que não morrem existem em profunda solidão.

Apenas uma semente...

Todos as sementes de trigos do campo do mundo precisam morrer para enche