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Cartas

RECONCILIAÇÃO CONJUGAL PELA CULPA

RECONCILIAÇÃO CONJUGAL PELA CULPA

Olá amado amigo pastor. Estou sem ir a nenhuma igreja, mas, ironicamente, nunca fui tão pastoreada. Aqui no site tenho recebido pastoreio. Há pouco abri o site pra ler e vi sua carta da madrugada do dia 3 de novembro. Lindo o que escreves-te sobre o teu filho Lukas. Sinto o quanto Deus tem confortado o seu coração e sei que o amor por Ele supera a enorme saudade. Louvado seja o Deus da consolação. Meu coração está feliz por saber quanto cuidado nosso Deus tem por ti, meu pastor. Vou falar um pouco de minha história. Espero que seus dias tenham 48 horas para que possa ler todas as cartas que lhe são enviadas. Há muitos que precisam ser ouvidos e eu sou uma delas. Nasci no Sul. Morei lá até 3 anos. Então vim com minha vó pra onde moro hoje, no sudeste. Minha mãe viria depois de um ano e meio, pois não tinha condições de vir comigo. Nunca conheci meu Pai. Hoje tenho 39 anos. E nunca o vi nem falei com ele. Sei que ele mora lá no Sul ainda. Vim pra cá e fui criada por parentes até que minha mãe chegou. Todas da família estavam tentando sobreviver na cidade grande. Todos estudando, inclusive minha mãe. Ficava com as primas e tias mais novas, e segui a minha vida. Estudei, freqüentava uma igreja tradicional. Sempre gostei da área musical. Sempre quis ser a certinha, tinha muito trauma por ser filha de mãe solteira, por não conhecer meu pai. Então quis ser a certinha em tudo. Hoje vejo que não sou bem assim. Namorei. Aos 24 me casei com um rapaz da igreja, achando que o amava. Três anos depois me sentia sozinha, apesar de casada. Então conheci um rapaz, e trai meu marido. Meu marido depois de cinco meses me pediu que voltasse pra ele. Fui muito pressionada pela minha família e pela igreja. Já não podia mais estar na igreja e muito menos exercer minhas funções na música, que eu amava tanto. Me senti muito mal, então achei melhor voltar pro meu marido, para que as coisas voltassem aos seu lugares. Voltamos. Um ano depois engravidei, e tivemos um tempo de tranqüilidade a espera do bebê. Só que a tranqüilidade não durou muito. Ele passou a me acusar de ter desejado o filho sozinha, e que poderia ter sido só meu, que ele foi um coadjuvante; o que não era verdade. Então passou a dizer que o filho era de outro! Muitas humilhações. Ele perdeu o emprego e perdeu tudo o que tinha. Nunca foi de me ouvir. Passamos anos muito agitados. Depois houve uma calmaria, pois eu simplesmente fugia por outros caminhos. Trabalhava demais. Não saía da igreja, sempre envolvida em atividades. E sempre cobiçava outros homens, mas nada de concreto. Me tornei líder da musica de uma igreja histórica. Vivia pra igreja, pois amo a música. Enquanto isto meu casamento ia cambaleante. Então, como líder na igreja, comecei a ver que fazíamos musica na igreja simplesmente pela musica. Deus tocou no meu coração que algo deveria mudar. De que adianta uma banda cantar bem, se as pessoas não vivem o que cantam? Comecei a ver que o que todos queriam era apenas aparecer. Bandas em briga. Corais em disputas. Um grupo musical falava mal de outro. Pessoas não se falavam, mas cantavam juntas. Comecei a não ver isso com bons olhos. Deus foi me abrindo a visão. Então resolvi reunir pessoa amigas pra estudar música e cantar. Sobretudo queríamos adorar. Juntamente com essa visão, comecei a olhar pra mim mesma, e perceber que meu casamento era uma farsa. E como poderia prestar uma verdadeira adoração se minha vida não era verdade? Foi então que pedi a separação ao meu marido. Então, com 14 anos de casados e um filho. Disseram que minha separação era fruto dessa nova visão de “reunir amigos para louvar”. Falaram que eu estava maluca, disseram que eu era sapatão porque juntamente com esses amigos, tinha uma grande amiga minha. Então disseram que eu era sapata. Milhares de humilhações, fui praticamente induzida a me ausentar da igreja e de tudo. Eu não servia divorciada. Caio misturaram tudo. Acharam que meu amor pela música e o nosso grupo de amigos, é que haviam sido os responsáveis pela minha separação. Fui despedida de tudo. Disseram que eu estava pregando falsas doutrinas. Um horror! Fiquei tão desolada com tudo que entrei em depressão. Chutei o balde. Me envolvi com homens. Em um dois fiz mais do que em toda a minha vida antes. Larguei tudo! Em alguns meses acho que transei com uns 15 homens. Pensei muitas besteiras. Pensei: Pôxa, quando quis fazer tudo certo entenderam tudo errado. Entaõ vou agora aloprar geral! Hoje estou separada. E conheci um rapaz que não tem nada haver comigo. É uma boa pessoa, mas não o amo. E meu marido quer voltar pra mim. Meu marido vive me rodeando, diz que me ama e que quer muito ficar comigo. Ele vem me visitar na cidade onde moro agora, não tão longe dele. O dilema atual é que sinto muito, muito mesmo, por não amar meu marido. Gostaria de amá-lo, mas as frustrações do casamento, as mágoas e dores, ainda soam nos meus ouvidos. De certa forma meu marido me prende não sei como. Acho que não consigo me relacionar com outra pessoa, pois temo magoá-lo. Por outro lado não consigo mais ser tocada por ele. Ele diz que quer começar tudo outra vez, mas como meu pastor? Não o amo! O amo fraternalmente! Nunca amei como homem! Aliás, nunca amei um homem. Então, com ele, seria somente como ficar com um amigo. Não dá. Não quero magoá-lo, mas ele vive me procurando. Queria que ele entendesse que não sinto nada mais. Já fui clara, já falei com ele que não o amo, mas ele diz que vai tentar até o fim de sua vida. Morro de remorso por isso. Porque não amo esse homem? Que fazer pastor? Fico triste, pois gostaria que meu casamento tivesse sido o que idealizei pra mim. Me ajude. Já tomei milhares de decisões erradas. Uma delas foi me casar. Imatura, forçada pela cobrança da igreja, por auto-afirmação, sei lá o quê... Gostaria muito de te ouvir. Obrigado. ____________________________________________________________________________ Resposta: Minha querida amiga: Paz e Bem! Senti seu coração não só por esta Carta, mas também pelas duas anteriores, quando o tema não chegou aonde o desta Carta nos levou. A pessoa errada fazendo a coisa certa tem muito mais chance de ser bem sucedida do que a pessoa certa fazendo a coisa errada. Na minha maneira de ver tudo está errado, apesar de vocês dois serem gente boa. Está errado porque um homem e uma mulher só se unem para a felicidade quando eles se amam com amor de homem e mulher. A fraternidade e a amizade casam amigos para sempre, mas não têm o poder de casar um homem e uma mulher, se, além deles—fraternidade e amizade—, também não houver o tipo de amor que corações amantes demandam. Toda insistência baseada apenas no amor conjugal de um, apenas recriará mágoas e frustrações para os dois. Isto porque seu ex-marido está crendo que a vida ensinou a você certas lições, e a ele também; e que, agora, mais maduros, vocês irão tratar as coisas de modo diferente. No entanto, se você não o ama como homem—e você deve saber a diferença—, aceitar voltar para ele será apenas gerar mais mágoas e ressentimentos; pois, é certo que alguns erros você já não cometerá contra ele, mas nem por isto você estará bem, ou ele se sentirá feliz. Ele está na esperança de conquistar você. Caso você vá com ele sem nada sentir por ele como mulher, em pouco tempo ele estará cheio de fantasmas, e o passado reviverá, alimentado pela certeza de seu não-amor conjugal por ele, e, assim, as acusações voltarão. No entanto, mesmo que ele não mais a acuse, e, mesmo que ele esteja tão inseguro que a ele apenas baste ter você em casa, junto com o filho, ainda assim, saiba: ele estará muito infeliz. Quanto a você, por mais bem tratada que seja, muito provavelmente venha a sentir repulsa todas as vezes que ele tocar você. Ora, tal “energia” não é ocultável de uma outra pessoa na casa e na cama. Assim, ele estará infeliz e humilhado como homem—na melhor das hipóteses ficando por pura insegurança—; e você estará duplamente mal: sofrendo a culpa de não gostar dele (que é um cara tão bom!), e sofrendo a obrigação de ser mulher dele, enquanto o rejeita como homem até às vísceras da alma. O horrível é isto: amar como amigo alguém que ama a você como mulher. Nele gerará infelicidade. E em você profunda asfixia. O resultado nunca é bom. Há um texto aqui no site, creio que em Cartas, cujo tema é “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas?” Gostaria que você procurasse o texto no sistema de busca do site, e que o lesse. Ele trata basicamente desse tipo de seqüestro emocional e psicológico, e que resulta da pessoa se sentir obrigada a dar a alguém “algo-amor” que essa pessoa demanda, apenas porque ele se confessa cativada por você. A frase é do Pequeno Príncipe, e é a fórmula mais bela para fazer alguém entrar num inferno de culpa e co-dependência. No fim é prisão; e os resultados são muito ruins. Ninguém deve aceitar ficar com ninguém como cônjuge apenas por causa de fraternidade e solidariedade. Assim fica-se com um amigo, e até com o inimigo, mas não se vive conjugalmente em paz se a motivação for essa, fruto de um amor que cimenta grandes amizades, mas que na vida conjugal é não apenas insuficiente, mas profundamente torturante. A questão é que você “aloprou” e hoje se sente culpada por isto. Ele, provavelmente, ficou quieto, e “provou” o amor dele por você. Agora, levanta-se dentro de você a culpa e ordena que você faça “emendas” aos seus erros; e, no caso, o reparo seria com o seu marido. Só que a proposta envolve muito mais do que reconhecer o erro no “modo” como você procedeu. O que ele quer é que o perdão que ele lhe oferece seja transformado em reconciliação conjugal, e não somente humana. Ora, perdão é a Lei da Graça, pois é Graça. Mas não se faz acompanhar de nenhum convite à escravidão. De fato, para quem está de longe, e nunca viveu na pele o seu dilema, a opinião seria: “Volte logo. Refaça o seu lar. Ele é bom. É a sua chance”. No entanto, para quem já esteve em seu lugar: amando, mas não com amor conjugal, o entendimento é outro. O seu tempo de piração não é algo incomum. Em geral, quando as pessoas acusam insistentemente um ser humano em desespero de ser o que ele não é, muito provavelmente, pela fragilidade emocional, ele acabe por fazer jus àquilo do que ele é acusado sem ter feito, posto que, até por raiva, termina por concretizar aquilo que todos o acusam de ser e praticar. Portanto, saiba, você não inaugurou uma era. A prova de que você não é como ficou durante os tempos de piração é que você não conseguiu se alimentar daquele modo de vida, e nem nele permanecer. Portanto, certo ou errado, foi algo que você viveu, e com cujas realidades você mesma se acertou, em si mesma e com Deus. Há uma culpa latente instalada em você. E a sua hesitação em relação a se volta ou não com seu ex-marido, mesmo não o amando como homem, bem revela seu estado culposo. Minha irmã, se sua mente mudou—o nome disto é arrependimento—em relação a como você deve se tratar na vida, fique em paz. Tudo está resolvido com Deus. Está Pago por Jesus! Agora é uma questão de não deixar que a culpa seja a “terapeuta” de seu futuro. Não havendo amor homem-mulher nenhum casamento se justifica. Muito menos ainda justifica uma volta ao casamento que acabou justamente pela falta de amor dessa qualidade. E muito pior: quando as causas da separação continuam as mesmas. Seria como afogar no mar aquele que se afogou num rio para ver se ele ressuscita! Limpe seu coração. Faça silêncio. Acalme a alma. Busque a Deus. Ande em serenidade. Não se apresse. Confie. Entregue cada caminho seu a Ele. E o mais, sem poesia, Ele fará. Se você não aloprar, Deus vai endireitar as suas veredas interiores, e, a partir delas, refazer os caminhos da vida, e também do lado de fora de sua existência. Mas tenha paciência, e não force o caminhar. Na dúvida, o melhor agir é agir pelo não-agir! “Aquietai-vos e sabei que eu Deus”—é a Palavra da hora. Esta é minha opinião. E é apenas a opinião de alguém que sentiu, viu, e conheceu o seu lugar, tanto em si mesmo, quanto também pela imensa observação de como a alma humana responde à vida. Receba meu carinho e minhas orações! Nele, em Quem o amor liberta, e nunca escraviza, Caio