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Cartas

QUE DOCE AMIZADE! (I)

QUE DOCE AMIZADE! (I)

-----Mensagem original----- De: Eurípedes da Conceição Enviada em: segunda-feira, 24 de maio de 2004 19:10 Para: cafecomgraca@caiofabio.com Assunto: QUE DOCE AMIZADE! Mensagem: Prezado amigo Caio, Nos conhecemos há pouco tempo, mas foi amor à primeira vista. Anteriormente, eu não o conhecia. Apenas via a sua imagem “projetada” na tela ou nas idealizações construídas a seu respeito. Cheguei a ler alguns dos seus textos e ouvir alguns dos seus sermões, mas o meu senso acadêmico investigativo me impedia de traçar um perfil objetivo a seu respeito somente a partir apenas do que lia ou ouvia. Mas os contatos pastorais que tivemos nos últimos dois anos, embora pouquíssimos, foram suficientes para conhecer você um pouco mais. O interessante é que nunca trocamos muitas palavras. Esta é a primeira vez que estou lhe escrevendo algo mais direto! Todas as vezes que tivemos algum contato o que falou mais alto foi a linguagem do silêncio recíproco entre nós; brotou do nada um código espontâneo de comunicação não verbal que suprimiu as palavras. Que legal! Você tinha notado isso? Mas, ontem, na Igreja presbiteriana da Tijuca foi uma experiência “sui generis”. Eu fui tomado por uma “sagrada intuição” de que o "Caio exterior" diminui, e o "Caio interior" cresce todos os dias. Como foram preciosos os momentos que ali passamos. Foram momentos de santificada alegria. Não é sem razão que nos últimos anos a Graça se tornou o seu tema predileto. Você é testemunha ocular do que a Graça é capaz de fazer. Não é? Você experimentou "in loco" o “poder mágico” da Graça Divina. É bem verdade que a “Dona Graça”, eventualmente, nos prega algumas peças! Você mesmo disse isso no seu sermão. Lembra? Você mesmo tomou uma “patada” do Leão de Judá. O interessante é como esses “golpes” da Graça revelam de forma sintomática a sua natureza curativa! Meu Deus! Como eu sou “pequeno” diante da força gravitacional desta Graça que ora me levanta e ora me derruba, somente para conduzir-me ao epicentro da Vontade do Pai! Vibrei com o seu estilo retórico “psicanalítico-existencialista”, híbrido, mas contextualizado; e capaz de alternar entre o ser e o não-ser com tanta maestria e encantamento de linguagem. A poética de suas palavras brilha mais que as suas elucubrações. Sua figura cênica fala além das suas intenções verbais. Suas construções frasais são tão belas que inibem o nosso criticismo hermenêutico ácido! O bom é que mesmo quando a gente não concorda com o que você diz, ainda assim admira e se apaixona pela forma como você diz e, principalmente, pelo cara verdadeiro que você é! Certo ou errado, você tem o cérebro no coração, e o coração no cérebro. E como isto faz diferença, meu irmão! O melhor em tudo isso é que eu sempre aprendo com você. A gente vai se ver de novo na Semana da Juventude da Igreja Presbiteriana da Tijuca, em julho. Um abraço na alma, amigo do coração! Eurípedes ____________________________________________________________ Resposta: Meu amado Eurípedes: Bom e amigo é seu coração! Sua carta é carta de amigo. Dessas que poucos recebem na vida, e que precisa ser guardada no coração, com muita reverência e devoção fraterna. Hoje, mais do que jamais, não busco acordos mentais, mas vínculos espirituais. Já tive muitos amigos que concordavam comigo em tudo—até no que discordavam—, e foi desses que levei os piores sustos na hora da calamidade. Hoje, meus melhores amigos são apenas amigos, não filhos do consenso. De fato, o que mais aprendi sobre amizade nos últimos sete anos, é que ela só acontece se todas as nossas linhas demarcatórias forem apagadas pela Graça. Até para se ter um amigo, tem-se que tê-lo na Graça. As amizades cristãs, todavia, são quase sempre pagãs em sua constituição. Isso porque os pagãos é que amam aqueles com quem têm acordos totais, ou cumplicidades geradas por interesse ou proteção. Entre os “cristãos”, amizade significa uniformidade, não vínculo. Portanto, em nosso meio, somos amigos daqueles que andam sobre as linhas teológicas, doutrinárias, e morais que estão demarcadas. Assim, não é nada além de territorialismo fraterno; e no dia que alguém se expressa diferente, a coisa vira terrorismo fraterno. Isto porque quem é visto como diferente, fica fora; ou, em um dia tendo feito parte do confraria, é expulso na hora que dela se diferencia pela sua própria natureza, compreensão ou acidentes de percurso. Tenho dito a muitos que sua amizade—exatamente nos termos e modos que você descreveu—tem me feito muito bem. Sinto seu espírito. Aliás, tudo se resume ao espírito. Jesus perguntou aos Seus discípulos não sobre formas e doutrinas, nem tampouco deu importância ao problema que eles levantavam acerca de quem tinha ou não tinha autorização para falar em Seu nome, e expelir demônios. E, de fato, não foi uma pergunta, foi uma afirmação-questão que Ele propôs: “Vós não sabeis de que espírito sois”. De fato, a Graça não é meu tema predileto; ela é meu único tema; até porque não a vejo como parte de nada; vejo sim tudo como derivado dela, em Cristo: o Cordeiro imolado antes da fundação do mundo. Quando amizade deixa de ser uniformidade, e passa a ser prazer na multiformidade, então, dá-se atenção não mais aos credos, às palavras, e às formas; mas sim ao espírito do outro. As formas são muitas, porém, o espírito é um só. “Pois o Filho do Homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las”. É esse o mote do espírito do Evangelho; e é também nesse mesmo espírito que temos que ter todas as nossas relações na vida. Portanto, em Cristo, amizade é uma Graça do dom de discernimento de espíritos. Daí ser algo que acontece num plano mais profundo que os acordos externos podem propiciar, visto que trata-se de uma comunhão de espírito. E, graças a Deus, o espírito não conhece doutrinas, mas apenas a verdade. Assim, para o espírito, o que é, é. Receba meu beijo amigo, e a certeza de que tem sido pura e cristalina alegria a comunhão que tenho com você. Nele, em quem Seus amigos se tornam amigos entre si, Caio