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Cartas

POR QUE NA RELIGIÃO HÁ TANTA PERVERSÃO SEXUAL?(I e II)

POR QUE NA RELIGIÃO HÁ TANTA PERVERSÃO SEXUAL?(I e II)

 

 

 

 

 

----- Original Message -----

From: POR QUE NA RELIGIÃO HÁ TANTA PERVERSÃO SEXUAL?

To: contato@caiofabio.com

Sent: Friday, October 15, 2004 5:27 PM

Subject: Religião ou Perversão?

 

Olá Caio Fábio, Pax!

 

Você acha que existe alguma relação entre religião e perversão sexual?

 

Por que tantos religiosos descambam para a prática de crimes sexuais?

 

Exemplos não faltam...

 

- Há pouco tempo atrás um padre, professor da PUC-Minas, foi assassinado aqui em Belo Horizonte por seus garotos de programa;

 

- Também há pouco tempo um outro padre de Belo Horizonte foi processado por abusar sexualmente de crianças e adolescentes.

 

No testemunho um jovem (na época do abuso com cerca de 11 anos de idade) disse que esse padre chegou a pagar uma prostituta para manter relação sexual com ele, enquanto o padre se masturbava diante deles, o padre também fazia sexo oral nesse menino;

 

- Um pastor pentecostal de Belo Horizonte abusava sexualmente de meninas da sua igreja;

 

- Alguns monges Hare Krishna abusaram sexualmente de crianças, conforme veiculado na mídia;

 

- O livro “Isto não é Amor”, do Dr. Patrick Carnes, relata casos de pastores, padres e freiras do contexto norte-americano, com vidas sexuais totalmente desestruturadas, doentes, destruídas; como o caso de um pastor compulsivo que salta do carro e faz sexo oral com o primeiro homem que encontra pela frente; e a freira que mantinha relações sexuais com outra freira e com um homem da paróquia, e que cortou cruzes com Gillette na região da virilha para tentar se controlar da compulsão;

 

- O site de uma comunidade judaica argentina informa que oferece apoio psicológico, pois, de acordo com eles, “os casos de abuso sexual que sempre foram comuns no meio cristão, agora estão também acontecendo entre nós judeus...”

 

E para não parecer que eu estou fazendo acusações, digo que na minha própria história pós-“evangélica” (tornei-me “evangélico” em 1998), - e pré também - caí inúmeras vezes na compulsão pela pornografia e masturbação, e de tão assustado cheguei a estar visitando uma vez uma reunião do DASA (Dependentes de Amor e Sexo Anônimos), e isto já como “evangélico”!

 

Existe essa relação?

 

Por que tanta doença sexual no meio religioso?

 

E outra: por que tanta depravação no modo como as pessoas estão se vestindo e atuando, inclusive dentro da igreja?

 

Por que tantas mulheres “evangélicas” vão “cultuar a Deus” (se é que elas vão mesmo com essa intenção...) com camisas coladas e sem sutiã por baixo, mostrando a barriga, mostrando as pernas, mostrando as costas, mostrando a bunda?

 

Pra que isso? Isso tem finalidade? Isso é indiferente?

 

Um abraço,

____________________________________

 

Meu amigo querido: Sem Latim: Paz mesmo!

 

Sim, o site está cheio de relações entre religião e perversão sexual. E o fenômeno está bem explicado. Na realidade a questão não está entre religião e perversão, mas sim entre legalismo, repressão, culpa, negação das pulsões sexuais, e, conseqüentemente, a explosão das pulsões reprimidas na forma de comportamentos compulsivos.

 

A religião, quanto mais cheia de leis e estatutos de comportamento, mais tarados haverá de produzir.

 

A história do Cristianismo, incluindo a história de nossos “melhores santos”, é a história de gente sexualmente aflita, e que em razão da moral cristã, parte para o esforço da mortificação de todo instinto natural, criando um magma inconsciente de desejos sob pressão; e que, mais cedo ou mais tarde, irrompem pela crosta do consciente, deixando toda forma de auto-controle aniquilados por alguns instantes; e é justamente nesses “instantes” que o padre, o pastor, o monge, o sacerdote, o rabino, ou qualquer alma vitima de qualquer forma de “teologia moral” — acabam por assistir o derrame de lavas de desejos negados e reprimidos [alguns até “supressos” pela força de disciplinas de “mortificação”]; criando os estragos do tipo que você mencionou, e dos muitos outros tipos, e que estão abundantemente relatados aqui neste site, especialmente nas Cartas.

 

Se o que Jesus ensinou sobre o significado do Evangelho para a vida fosse o que a “igreja” diz que é, então, eu diria:

 

O evangelho não tem o poder de fazer bem a alma humana!

 

Digo isto porque não há na Terra gente mais mentalmente aflita e sexualmente adoecida que os cristãos!

 

E por quê?

 

Ora, o Evangelho de Cristo não é um corpo de doutrinas morais, mas sim um conteúdo para a pacificação do coração, reconciliando o indivíduo com Deus e consigo mesmo, dando a ele a certeza da suspensão de toda condenação e culpa, a fim de que, sem culpa, o individuo caminhe tranqüilo; e é nesse caminhar que os instintos se tornam apenas instintos, e ficam tão somente do tamanho sadio que é pertinente à sua existência em qualquer pessoa.

 

No entanto, a Teologia Moral do Cristianismo acabou por se tornar a coisa mais anti-natural da Terra, e, por conta disso, produziu os maiores neuróticos da história humana.

 

Negar a naturalidade dos instintos é como negar a natureza. Despreza-los é como repudiar a existência do ar. Lutar com ódio contra eles é como lutar contra a sede, a fome, e a necessidade de comer e beber.

 

O Cristianismo se tornou um caso de doença psicológica coletiva em razão de que sua teologia moral é a mais perversa que existe em relação ao sentido natural da vida.

 

Ora, quando falo de religião, de cristianismo e de teologia moral, estou apenas falando de algo que não passa de uma criação de homens; e que, como tal, tornou-se uma das coisas mais enfermiças para a alma que já se construiu na Terra.

 

O genuíno Evangelho de Jesus não tenta matar o instinto, mas apenas moderá-lo e colocá-lo sob o controle da consciência; não como negação, sublimação ou supressão; mas apenas como uma pulsão natural e sadia, e que pode se liberar de modo bom e sadio, mas que não deve tomar contornos maiores do que a própria consciência.

 

De fato, é a “pecaminosidade de todo instinto sexual” aquilo que faz com que a alma que existe sob tal jugo e condenação acabe por se desconstuir; e, fragilizada e negada, se revolta inconscientemente; e manifesta-se devastadora; e isto mediante as força incontroláveis da compulsão que se levantam de dentro da gente com o poder dos grande monstros.

 

A fé em Jesus não é um conjunto de doutrinas morais. Quem assim pensa nada entendeu do Evangelho e de seu espírito.

 

De fato, a fé em Jesus é o caminho da vida, e, como tal, não trata a criação de Deus, e nem tampouco o instinto humano, como coisa má, mas apenas como uma força vital necessitada de liberdade verdadeira, a fim de que não se manifeste como o levante dos oprimidos contra a tirania dos falsos governos.

 

Os seres sexualmente mais tranqüilos e sadios são aqueles para os quais o sexo é apenas parte da vida; não é o inimigo da vida; e nem é o diabo do instinto.

 

Quem se trata assim curte o sexo como bem, e um bem que faz bem; e não como um senhor maluco, e que demanda de nós toda sorte de barbárie como auto-aniquilação.

 

O caminho da negação total é a vereda do descontrole total!

 

Quanto a você, lhe digo que seu estado está complicado mesmo.

 

Veja que você terminou a sua carta falando de como as mulheres, na igreja, provocam você, com saias curtas, camisas sem sutiã, e a exposição de certas formas físicas que muito o constrangem, pois, de fato, o seduzem. Assim, na realidade, o problema não está na roupa das mulheres, mas na sua cabecinha fraca, seduzida, cheia de desejos e fantasias, perseguida pela culpa e pela santidade moral e neurótica. Isso porque o que você diz que vê na igreja eu não vejo nem aqui nas praias de Copacabana e Ipanema. Sabe por que? Porque essas visões não estão fora da gente — nas mulheres —, mas sim dentro da gente: nas tentativas neuróticas de negação do instinto, o que acaba por criar o estado de mente no qual você se encontra.

 

Romanos 1 nos fala daqueles que pela entrega ao senhorio dos instintos acabaram por desenvolver uma “condição mental reprovável”.

 

O que nós não vemos é que tanto um pólo quanto o outro geram a mesma coisa.

 

Entregar-se completamente ao instinto e de modo objético, gera essa disposição mental reprovável para cometerem coisas inconvenientes: a dissolução.

 

Do mesmo, a total negação do instinto, e o tratá-lo de modo anti-natural—ou seja: fazendo negação, supressão ou sublimação—, acaba por gerar o mesmo resultado: um estado mental reprovável, possuído por fantasias, e com o poder extremo de mergulhar o indivíduo nas torrentes das taras, fetiches e toda sorte de exacerbações.

 

Ambos os pólos, por mais diferentes que pareçam ser as suas motivações, de fato, não só são filhos da mesma fonte, como também produzem o mesmo resultado.

 

Portanto, Romanos 1, psicologicamente, serve tanto para os freqüentadores de bacanais romanos, como também serve para definir o estado no qual ficam monges, pastores e sacerdotes que tratam a natureza de modo anti-instintual.

 

O resultado é idêntico!

 

Você está carregado da mesma coisa que o preocupa nos padres e pastores tarados. E não apenas você, mas milhões de cristãos sofrem do mesmo mal. E assim será enquanto o Evangelho estiver sendo substituído pela teologia moral da igreja.

 

É nesse ambiente que o diabo mora!

 

Leia o site, pois ele está cheio de textos que bem melhor expandem cada uma das coisas que aqui lhe disse. Entre nas Cartas e as leia. Você vai entender melhor o que tentei lhe dizer aqui, rapidamente, até porque o site já tem material demais acerca do fenômeno.

 

Receba meu carinho e minhas orações!

 

Nele, que quando tinha sede bebia água, ao invés de negar a sede,

 

 

Caio

 

Copacabana

2004

2º ano do site. ________________________________________________________

 

A primeira carta está no site. Basta procurar. Foi na semana passada. ____________________________________

 

----- Original Message -----

 

From: POR QUE NA RELIGIÃO HÁ TANTA PERVERSÃO SEXUAL? -II

To: contato@caiofabio.com

Sent: Thursday, October 21, 2004 10:40 AM

Subject: Obrigado, Caio Fábio!

 

 

Olá Caio Fábio!

 

 

Obrigado pelo carinho da resposta e pelas orações.

 

Você tem razão na sua análise, e muito do que você diz tem reflexo nos tristes relatos do livro que citei: famílias religiosamente desestruturadas, gerando pessoas sexualmente compulsivas.

 

É verdade o que você falou a meu respeito. Um dos padres ali exemplificados foi o que me abusou sexualmente na minha adolescência. Esse homem tem (até onde eu sei...) uma vida infernal, não satisfeito em ter sido desligado de uma paróquia por causa dos abusos sexuais, ele prosseguiu na mesma prática, levou surras, foi ameaçado de morte, roubou dinheiro das igrejas, bebeu até se tornar alcoólatra. Uma vida destruída, um pobre coitado, desprovido da Graça de Deus. Que o Senhor o alcance.

 

O meu caso tem sido mesmo complicado. Ao me afastar da compulsão sexual por cerca de duas semanas caí numa crise de ansiedade (junto com outros problemas pessoais), que me levou por dois dias à emergência de um Hospital.

 

No primeiro dia, duas injeções de relaxante e analgésico, dois comprimidos, e prescrição de antidepressivo do tipo sonífero. No segundo dia, mais uma injeção de analgésico, e a recomendação médica pra que eu busque apoio psicoterapêutico.

 

Eu tenho 31 anos; e nesses dias eu achei que estava para morrer, as crises me tiravam o fôlego, parecia que um “demônio” estava pressionando meu pescoço e ombros, de tanta tensão muscular.

 

Tem gente que quando interrompe a compulsão sexual fica tão “maluca” que sofre acidentes de modo inconsciente, fica doente de cama, cai em depressão profunda...

 

Fatos muito entristecedores, meu irmão.

 

Discordo um pouco de você apenas quando parece dizer que o problema é unicamente meu. Sim, de um certo modo, é verdade; quando o meu coração e os meus olhos forem curados, todo esse exibicionismo feminino perderá o seu poder doentio sobre mim, porque não verei isso de um modo doentio; mas são muitas as vozes - não religiosas, não fanáticas, não legalistas - proclamando que o nosso mundo anda sexualmente deturpado e assustador, e um dos aspectos analisados é a falta de modéstia das mulheres no vestir.

 

Um forte abraço pra ti!

 

E obrigado, Caio Fábio!

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Resposta:

 

Meu amigo querido: Graça e Paz!

 

 

Interessante é que você não disse que havia sido abusado por um dos protagonistas de abusos sexuais a crianças e adolescentes, mas sua carta, em seus tons e emoções, revelavam um trauma, um dor, uma revolta, que pareciam ser de natureza pessoal.

 

Vamos começar do fim. Refiro-me às mulheres e suas roupas. E digo a você que o problema não está na roupa das mulheres; e nem na falta de roupa delas.

 

Tiago diz que cada um é tentado pela sua própria cobiça. Portanto, quando você fala das mulheres, você fala de você. Sua mente é que está perturbada.

 

Digo isto porque mesmo que as mulheres se vestissem de modo "vitoriano", quem está com o olhar contaminado, vê sensualidade em tudo.

 

Além disso, quando uma mulher deseja ser sensual, ela pode se vestir de iraniana xiita que, ainda assim, sua sensualidade aparecerá.

 

Portanto, a questão sempre está no olhar ou na intenção. Mas não na coisa em si. Sugiro que você procure terapia com urgência, e que me escreva falando o que realmente acontece com você. Até agora você foi vago na descrição de suas compulsões, e como elas se manifestam, e quais são os objetos sexuais de seu foco.

 

Além disso, peço a você que perdoe o seu "molestador", pois, enquanto você o odiar ele terá poder sobre você; mesmo que morra...

 

Sua cura virá do perdão, e de sua disposição de não ser mais uma "vitima do abuso". Enquanto você não desistir disso, isso será o senhor de sua alma, e o levará por um amargo caminho de dor e despedaçamento interior.

 

Estarei aguardando seu retorno!

 

Um abração,

 

Caio

 

Copacabana

2004

2º ano do site.