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Cartas

PASTOR, A MACONHA PRECISA SER DISCUTIDA

PASTOR, A MACONHA PRECISA SER DISCUTIDA

-----Original Message----- From: eduardosouza To: Caio Fabio Subject: Maconha Querido pastor Caio Fábio. Agradeço a Deus por sua vida. Suas pregações e livros ajudaram muito meu crescimento espiritual em Cristo. Sou grato a Deus pelo pastor estar novamente ministrando sobre nossas vidas através deste site. Sou um ex-dependente químico (maconha, cocaína, álcool, etc), recuperado e transformado pelo poder de Deus há 19 anos. Pela graça de Deus há 13 anos sou diretor do ministério Projeto Vida Urgente, instituição filantrópica evangélica totalmente voltada para o trabalho de ajuda e evangelização de dependentes químicos e co-dependentes, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, Rio de Janeiro. Faço parte também do Conselho Municipal Anti-drogas do Município de Duque de Caxias. Acredito que, pela misericórdia de Deus, nestes últimos anos, aprendi na teoria e na prática sobre o assunto. Mas não tenho dúvidas que preciso ainda aprender muito mais. Gostaria de comentar e acrescentar algumas informações sobre sua resposta à carta “Meu filho tem uma plantinha de maconha” da “Mãe aflita com a maconha do filho”. A Organização Mundial de Saúde em 1993 convocou os melhores especialistas do mundo e durante cinco anos incumbiu-os de examinar o resultado de centenas de pesquisas sobre os efeitos da maconha. O resultado foi o mais completo relatório produzido nos últimos quinze anos, derrubando mentiras e confirmando verdades já conhecidas sobre esta droga. Relacionarei abaixo as principais conclusões: 1- Quem usa maconha pode partir para outras drogas mais pesadas: O relatório diz que “Nota-se que a experiência com a canabis precede o interesse por outras substâncias”. Os especialistas também escrevem que, “quanto mais cedo se começa a fumar, maior é o envolvimento com a maconha”. E concluem que, entre os jovens nessa situação, é maior a possibilidade de contato com coisas mais perigosas. Eu, particularmente, nos últimos 13 anos, no ministério Projeto Vida Urgente, constatei que 90% dos dependentes de cocaína que procuraram ajuda começaram usando maconha e ainda a consumiam regularmente. Por outro lado o relatório da OMS afirma que “a imensa maioria dos usuários de maconha não usa a cocaína e a heroína”, onde concluímos que a maconha não é a única culpada por levar os usuários às drogas mais fortes, mas pode servir como porta de entrada. 2- Quem fuma muito tempo pode acabar caindo na dependência: Grande parte dos usuários pesados, desses que fumam diariamente durante meses, acaba se tornando dependente. As estatísticas indicam que até metade dos fumantes desse tipo perdem o controle sobre o hábito e precisam de tratamento para se recuperar. De acordo com dados do relatório, cerca de 10% de todos os que experimentam a droga se tornam fumantes pesados. 3- A capacidade de aprender e de raciocinar e a memória diminuem: Quem fuma regularmente por muitos anos tem dificuldade para organizar grandes quantidades de informações complicadas. Segundo o relatório, agora se tem provas de que a droga afeta as atividades cerebrais mais refinadas, as chamadas funções cognativas, ligadas ao processo de conhecimento. 4- A fumaça traz danos ao pulmão e está associada ao apareciemento da bronquite: Aparecem lesões na traquéia, nos brônquios e, em menor intensidade, em algumas células de defesa do organismo chamadas macrófagos alveolares. Os usuários, então, ficam mais vulneráveis à bronquite obstrutiva crônica. Através do relatório da OMS, chegou-se à conclusão de que o consumo constante da maconha, ao contrário do que muitos pensam e defendem, causam males sim. E não são poucos. E que o seu uso deve trazer preocupações, sim, a todos os pais. Dentro da minha pouca experiência, a dependência química é uma doença progressiva, incurável (para a medicina) e fatal. Quem usa maconha ou outro tipo de droga (inclusive a bebida alcoólica e o cigarro de tabaco), não pode ter a certeza que não se tornará um dependente. Mesmo que as estatísticas sejam pequenas (de cada 10 usuários de maconha, 1 se torna dependente), é quase impossível prever ou garantir quem fará parte desta futura parcela de doentes. Penso que a prevenção começa dentro da família, através do amor, convivência, diálogo franco e troca de informações honestas sobre os verdadeiros males provocados pelo consumo de drogas. Pastor Caio, espero sinceramente que estas poucas informações que aqui coloco venham a se somar aos muitos conselhos preciosos produzidos neste site. E que possam provocar, quem sabe, um maior debate sobre o assunto junto ao nosso povo cristão. Para terminar, escrevo aqui um dado assustador: em nosso grupo de ajuda, 90% dos familiares de dependentes químicos (pai, mãe, esposa, marido, filho, filha) fazem parte das chamadas igrejas evangélicas. ******************************** Resposta: Meu amado irmão: muita paz e amor sobre a sua vida! Deus não nos fez para nada disso. Nem para a maconha, nem para as demais coisas que hoje se tornaram parte degradante de nossas vidas..incluindo as cidades, o sistema econômico, as desigualdades sociais, a religião, as armas, os alteradores químicos de consciência, etc... A questão é que este mundo agora não é mais o Jardim do Éden. Agora existem cardos e espinhos por toda parte. A sabedoria de Deus, hoje, se manifesta como um saber que lida com as relatividades dessa existência. Nossas escolhas, a maioria das vezes, não acontecem entre o bom e o ótimo, mas sim entre o horrível e o pavoroso. Usei maconha durante quase sete anos, dos doze aos dezenove. E usava em abundancia. Eram cerca de 15 “tarugos” de maconha por dia...tão grandes e grossos eram que nem de “baseado”, ou “fino” se os chamava, mas de tarugos...pareciam charutos menores um pouco. Conheci na adolescência todos os sintomas dos quais você falou...especialmente a perda da memória imediata, e a lezeira, a lombreira, e o bode improdutivo. Sei os males que o uso sistemático de maconha pode causar a qualquer um, especialmente aos mais jovens, e aos que a usam em horário no qual precisam estar alertas e produtivos. Outro dia um rapaz cristão me falou que tinha parado de fumar “um bagulhinho” porque na atividade dele—mexe com números—, ele não podia se dar ao luxo de ficar meio lerdo. Então, eu vi que ele estava meio barrigudinho. Perguntei: E essa barriguinha aí? De onde está vindo? “Da cerveja. Estou tomando muita cerveja!”—respondeu. Eu disse a ele que se havia parado com a maconha, deveria, então, parar também com o excesso de cerveja. Afinal, sinceramente, vejo muito mais males no uso sistemático de bebidas alcoólicas do que na maconha. O fato é simples: Há pessoas com propensão a toda sorte de dependências. Quem tem essa pulsão instalada em si, fará a viagem por qualquer que seja a porta de entrada. Dizer que a maconha, todavia, leva às outras drogas, é infantilidade. Explico o por quê. 1. A pesquisa foi feita com usuários de drogas. É claro que todo aquele que deseja um alterador de consciência, procura, como noviço, o que há de mais fraco: a maconha. 2. Quem não tem uma pulsão forte na direção da dependência, fica aí; e, em muitos casos, pára logo depois; ou usa de vez em quando...”pra tirar uma onda”. 3. Quem prossegue no uso e parte para outras drogas, em geral o faz por não ter achado a maconha forte o suficiente. Mas como a porta de entrada foi a maconha, ela leva a culpa toda a viagem. Acho injusto. 4. Não se verifica que há uma quantidade enorme de usuários de cocaína, por exemplo, que detestam a maconha, e gostam muito mais de associar seu vício ao álcool. O fato é que maconha e cocaína não combinam. A primeira chama para a quietude e para a meditação (os hippies que o digam), e a outra clama por excitamento e ação. São antagônicas entre si. 5. À semelhança da relação com o álcool, há pessoas que carregam propensão para desenvolver dependência por quase qualquer coisa. Nesse caso, trata-se de um mal congênito, uma inclinação orgânica semelhante a muitas outras...como o diabetis, por exemplo. Há organismos que são incompatíveis com certas químicas. E sábio é todo aquele que ou não procura saber quais são tais incompatibilidades, ou, em sabendo, “cai fora” o quanto antes. 6. No aconselhamento cristão não há nenhum outro poder mais forte que o da consciência e da sabedoria. Nesse caso, por experiência própria, e com centenas e centenas de outros casos vistos e assistidos, alguns de importância visceral para mim, aprendi que a Lei não ajuda em nada. Ao contrário, a Lei aumenta o desejo da experiência como transgressão. E se houver culpa, a Lei aprofunda o desejo como compulsão. Daí, a melhor coisa seja ajudar a pessoa a enxerga tudo como uma questão de saúde; e nunca como uma questão de caráter ou de correção moral. Quem transforma a maconha em erva do diabo, está dando ao diabo um poder que a planta, em si, nunca deu a ele...nem Deus, o Criador, a fez para o diabo usar contra os homens. 7. Como você já deve ter percebido, meus aconselhamentos contemplam o mundo real, não o mundo ideal, visto que este não está disponível a nenhum de nós. Fomos expulsos do Jardim, e vivemos na terra...e com as maldições de nossas doenças e escolhas equivocadas. Ora, sendo assim, meu conselho para os pais que me reportam que seus filhos estão usando maconha, são quase sempre parecidos com aquele que dei à mãe cujo filho estava tendo uma “plantinha” em casa (Quem lê entenderá o “espírito da coisa”). 8. Tenho amigos de adolescência com quem convivo até hoje. Alguns ainda hoje me dizem que fumam um baseado na hora de dormir, pra relaxar. Outros não usam nada. O fato é que se você não souber quem usa e quem não usa, não dá pra saber quem é quem apenas pelas performances funcionais na sociedade. Há aqueles que nunca usaram nada, mas estão tão lerdos que parece que foram eles que usaram a erva nos últimos 35 anos. E há aqueles que nunca pararam de usar, e não parece que usam. São pais responsáveis, trabalhadores, bem casados, felizes, e muito amigos dos filhos. Enfim...não dá pra criar uma “lei do carma” baseado no uso da maconha. 9. De fato, ninguém precisa de nada disso, assim como também ninguém precisa de uma "boneca de plásticco" para ter prazer, nem de vibradores, nem de "gravata no pescoço". Mas eu jamais fui a favor das leis que estão aí. Para mim elas apenas aumentam o problema, por todos os ângulos em que se estude a questão: da criação de um senso de transgressão utilíssimo para o desenvolvimento de desejos compulsivos, passando pelo aparato do tráfico e das organizações para-militares; e caindo no veio mor do sistema, gerando toda sorte de corrupções: tanto da polícia quanto das demais autoridades...chegando ao Congresso e ao Judiciário. Um dia esse país entenderá o que estou dizendo, e espero que já não seja tarde demais... 10. Sem falar na grande hipocrisia. Conheço um monte de gente da mídia, do mundo político e das autoridades de repressão, que usam maconha todos os dias. As pessoas me contam as coisas. Eu não preciso perguntar. Parece que sou um confessionário ambulante. Fico com raiva quando vejo uma dessas figuras públicas, ante a tragédia de alguém relacionado às drogas, expressarem comentários legalistas, fazendo afirmações criminalizadoras, e que em seus lábios são completamente farisaicas. 11. A “igreja” está cheia de meninos, meninas, homens e mulheres, que fumam maconha. Recebo aqui, por e-mail, um monte de confissões...até de pastores...até de líderes de clinicas para dependentes químicos...que largaram a cocaína, ajudam a outros, mas não se sentem mal fumando maconha, e, escondido o fazem, mas ficam se sentindo um lixo. Ajudo esses irmão a se acalmarem e a tratarem a coisa como uma questão de ética de saúde humana...nada além disso. 12. Enquanto parar de fumar maconha, ou cheirar pó, ou qualquer outra coisa for “sinal de conversão”, mais gente haverá se pondo no inferno pelo fato de já ter crido, mas ainda não saber como lidar com a questão. 13. E como no meio evangélico essa coisa toda é do diabo, não é de admirar que tantos filhos de cristão acabem se viciando a fim de enfrentar a outra droga: aquela que entorpece os pais e os torna seres fanáticos, ignorantes, obscurantistas e idiotados: a religião! 14. Ora, quando um adolescente me procura dizendo que está fumando, eu faço tudo para ele tomar consciência de que aquilo pode fazer mal; e, dependendo do organismo e da condição psicológica, pode ter conseqüências piores. Mas se vejo que o moço não está com a consciência de parar, prefiro ajudá-lo a ter consciência para usar. É a tal da sabedoria que ensina a escolher um mal menor. E o melhor disso é que sempre funciona, e depois de um tempo a obra é completa, e acontece sem neurose... 15. Todavia, é preciso, em nome da verdade, acabar com as ilusões. Assim como aprender a engatinhar e andar pode me por de pé, não significa que andarei até a beira do precipício para de lá me atirar. Nem todo mundo que anda vai ao telhado de um prédio e pula. Mas todos os que pulam têm que andar até lá. A melhor coisa que se faz com a maconha é desdemonizá-la, pois demonizada ela é muito mais poderosa! E aqui convido todos os pastores e líderes a fazerem uma experiência comigo: 1. Tire a gravidade do inferno de sobre o tema. 2. Mostre-se honesta e sinceramente aberto para ouvir, e não jogar o cara no purgatório das disciplinas. 3. Trate a questão como se fosse sexo. Quando a questão é sexual, e os envolvidos são jovens, eu os aconselho a não saírem transando por aí—aliás, não importa a idade! Mas se sei que vão transar, e sei que não há nada a fazer, honestamente eu faço uma doação de camisinhas. Afinal, com quem é meu compromisso? Com minha “moral”, ou com o bem da pessoa? Se for com minha moral, então eu tenho que agir como o faz a igreja católica: não dar e não deixar nem mesmo que se use a camisinha. Desse modo, pela moral, se não for o ideal, que seja o pior. Mas quando o compromisso da gente está com as pessoas, então, tem-se que escolher um mal menor; afinal, essa pode não ser uma decisão moral, mas com certeza é ética. Gosto muito, muito mesmo, do trabalho do AA e do NA. São maravilhosos. Eu creio que na hora em que tirarmos a platéia para esse espetáculo, as coisas se acalmarão bastante. Quem busca algo nas drogas, busca ou foge de algo em si mesmo. Nesse caso, ou tal pessoa é alcançada antes pela Graça (e esse é departamento ao qual não temos acesso), ou tem-se que ter amor, sabedoria, calma, leveza, e muita paciência para tratar da questão sem torná-la maior ou pior. Por último, concordo com você: o assunto tem que ser entendido e discutido, pois a verdade sobre as coisas também liberta a consciência da ignorância. Acedem-se as luzes...fogem os vampiros! Receba meu carinho, Caio