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Cartas

ODEIO O MUNDO E TODAS AS PESSOAS...

ODEIO O MUNDO E TODAS AS PESSOAS...



Olá Caio, Quero pedir sua ajuda, para me ajudar a constatar um problema de carência que eu tenho, para descobrir se ele é o que está me impedindo de me alegrar e receber a Graça do Senhor Deus Criador e Pai. Muito bom foi para mim conhecer, quando crente, o lado rebelde e intelectual cristão. Me converti na S. N. T., quando percebi que minha arte era vazia, e que chance nenhuma tinha de sobrevivência contra o terrível e poderoso sistema, senão com o Deus que detém as coisas. Porém quando entrei no esquema de discipulado com o meu “líder”, nós fizemos uma daquelas orações onde o líder fala e todos os outros repetem, em que juramos obediência a igreja e ao bispo. Isso foi uma surpresa para mim, não sabia que iríamos fazer isso, mas também acabei por não me manifestar. Com o tempo, fui conhecendo as hipocrisias, entre várias outras coisas que não me interessa citar agora. Cursava a escola de líderes da igreja, e quase dois anos depois de convertido, matei a última aula, a única aula que realmente me interessava durante todo o curso e a qual ansiava ver. A aula sobre guerra espiritual. Mas cito este início na igreja para dizer como é bom ouvir este lado rebelde intelectual que diz “você não precisa fazer isso”. Neste ano decidi dar o dedo e sair da igreja de uma vez por todas. Me irritei, quando meu “líder” disse, em um e-mail, em saudação “de seu eterno amigo e líder(...)”. Isso me enoja. Eu é quem sempre fui o líder da garotada, pelo menos na infância. E agora tenho de receber um novo pai espiritual, ora vá pro ... pra casa do chapéu. Acompanhada de minha justiça própria, está um pacto de ódio contra todos. Uma frase me acompanha na vida “todos são os meus inimigos”. Assim sou, tenho poucos amigos. Tenho 22 anos e sou... tecnicamente virgem. Nunca usei minha espada para penetrar em alguma coisa, senão em experiências orais com animais, mas penetração nunca. Só consigo beijar uma menina quando estou embriagado, e só fiz isso, deixe me contar... umas 7 ou 8 vezes na vida, com 5 meninas diferentes. Minha verdadeira experiência sexual aconteceu com homens. Tanto na S.N. como na vida, me é muito difícil lidar com outras pessoas. Não tenho vivido feliz com Deus. Meu ódio contra a sociedade existe, pois eu me justifico no ódio dizendo que odeio aqueles que fazem o que é errado. Eu odeio os crentes, os que saem com mulheres, os que detém o poder nos sistemas da vida, as sociedades! Odeio os grupos de amigos, aqueles que sempre tem uma hierarquia. Todos são os meus inimigos. Muitos amigos me deixaram para seguirem seus caminhos. Tentei fazer uma experiência que deu certo: bebi um copo de vodka com limão (muito bom) e fui para a célula de uma igreja próxima a minha casa. Embriagado, consegui viver sem rancores no meio daquele povo! Mas umas 3 horas depois, isso mudou. Um ex-membro da S.N.T. falava sobre o dízimo, e eu entrei em oposição ao que ele dizia. Ele lembrava uma passagem do velho testamento, sobre “o templo” e eu disse que o templo foi quebrado (eu não tinha lido até então sua opinião sobre o dízimo), mas este crente insistiu que estava certo, dizendo “está escrito na minha Bíblia assim, se quiser depois eu te mostro”. Maldito crente playboy! Algum dia desses eu vou colocar uma bomba no carro dele! Minha ira sobe para a cabeça, e todos são, mais uma vez, os meus inimigos. Eu vou para a célula tentar matar minha justificação própria, e suprir minha carência. E quando falo em carência, sempre lembro de dar o rabo. Nunca mais dei, depois de crente. Deus falou através de um amigo, 3 coisas. Uma delas era para eu me posicionar como homem, que não sou mocinha. Mas também, oportunidades para dar não tem aparecido. Mas eu não sou nenhum maníaco sexual, falo de coração aberto conhecendo que não sou apto para obedecer ao que é certo. Mas tenho ficado pior... felizmente, tenho conhecido ao que você prega, Caio; e também conto com um apoio, meio sacaneado, mas um apoio, de um amigo sábio, um cara legal. Ele conversa comigo, e nisso posso ver meus erros, e ter mais uma esperança. Mas não é um amigo que me respeite na frente dos outros, ele é do tipo covarde (que novidade, falando de humanos...). Fui na célula novamente, a convite de meu amigo. Teria uma festinha depois. Decidi ir, seria uma boa oportunidade para matar meu ódio contra a sociedade. Mas na célula... de início veio uma gorda, que trouxe consigo a tirania do louvor tradicional... “vamos louvar ao Senhor”... que droga maldita. E eu falo gorda por que crente gorda é uma coisa, carregam mais doutrinas do que banha. Mas me desculpe o palavreado. É como resumo meu pensamento. Acabou que a célula foi uma droga, com os fariseus falando alto, eu falando nada, ódio, e é isso. Não adianta falar com meu amigo por que quanto está na frente dos outros, mas ele vira um zumbi sociável, finge que não me ouve e tal. Ok ok... a história que eu conto é meio feia, mas não posso dizer que todas essas coisas não me foram boas em algo... Acontece de, nessas minhas saídas para ver o mundo social, eu acabar fugindo. Já fugi em uma célula, quando todos fecharam seus olhinhos para orar. Agora eu coloco minha verdadeira questão: Eu fico muito feliz de ouvir você, Caio, em suas palavras. Minha Mãe sabe disso. Quando volto para casa ela vê a alegria. Fico forte, alegre e disposto. Mas durante a semana isso pode mudar, basta somente alguém daqui de casa me aborrecer, ou com apenas um telefonema de um amigo... e bum! Te pergunto: será que este meu estado de carência impede algo entre eu e Deus? Eu não me sinto feliz! Minha alegria é muitas vezes sentir a dor da solidão, aquela que é certa de que não me abandona; minha alegria é pegar um parafuso e cortar meu peitoral durante o banho no banheiro; minha alegria é jogar videogame novo do sonic, ou fazer uma nova e grande obra. Detenho uma genialidade, é o que diz minha Mãe. . Eu acabei de ouvir sua palavra, que estava disponível para download, “Muita Vista e Pouca Visão”. Que coisa boa! Me sinto feliz novamente. Mas a verdade é que eu não me alegro com os que se alegram. Minha Mãe, que segue uma religião, orou como nunca vi, não com toda a sobriedade e disciplina de sempre, mas como uma mulher pedindo ajuda, mas dentro daquela religião chata dela. E ela se alegrou com a família e meus irmãos, que participaram da “antenagem”: a oração de minha Mãe. Eu não fiquei feliz com isso. Que horrível essa vida, esse bate-bate! Eu nunca tenho certeza se conheço a Deus ou não! Paulo desabafou como era horrível viver na carne, em Romanos, mas suspirou lembrando o sacrifício de Cristo. Eu não posso fazer o mesmo... Mesmo pronunciando as mesmas palavras, como posso viver com todo este rancor e tristeza! Não, algo está errado. Eu não conheço o perdão de Deus, pois se o conhecesse, não seria como eu sou. Não me entenda como alguém que não valoriza a sua atenção. Eu sou assim mesmo, tenho uma tendência suicida e de fato é assim que eu vivo. Não sou uma pessoa muito comum, minha educação aconteceu em um projeto que ensina as crianças ao lado da natureza e tal... até que encontrei esse sistema maldito, o qual eu odeio... Até Caio, ________________________________________________________________________________ Resposta: Meu amado amigo: Graça e Paz sejam sobre sua alma! Leia Mateus 5 e você entenderá melhor o que lhe direi de início. É inegável que o desejo mais profundo de todo ser humano é ser feliz. O problema é que o interior do homem é completamente confuso, e o ambiente que ele mesmo constrói a fim de ser a sua moradia relacional é um mero reprodutor daquilo que o coração carrega. Assim, o mundo é a nossa cara, e se faz perceber não como o lugar onde furacões acontecem, enchentes caotízam regiões, e terremotos sacodem o chão, mas sim como o lugar onde existe o homem, um ser que reproduz na Terra os desertos, os rios envenenados, o ar poluído, as carências de vida, os desequilíbrios, os lixões, os paredões de execução,os presídios, as chacinas, o câncer que come o corpo inteiro à semelhança da corrupção social que existe em seu interior. E mais: esse ser faz isto mediante muitas caras e faces, pois aparecem como verdades religiosas, padrões morais, convenções, muros do qual o da China é mera maquete, e mísseis tão velozes para matar quanto a sua própria língua. Assim, o homem que ser feliz, porém, ele mesmo, cria o mundo que impossibilita a sua própria felicidade. Foi por isto que Jesus ensinou que neste mundo caído a bem-aventurança está em não contribuir com a infelicidade do mundo, e resistir no contentamento e na exultação, sem jamais chorar lágrimas que já não tragam em si mesmas o consolo, nem ter nenhuma causa que não seja pacificação e justiça, e não carregar em si nada além de um coração ensinável e uma consciência firme no que é o Bem de toda Aventurança nesta vida. Somente assim alguém pode ser feliz nesta terra de desencontros, e onde a busca da felicidade acontece como um desejo que é assassinado pelo próprio homem, tanto em razão dele ser como é, como também em razão do ambiente que ele cria a fim de procurar encontrar a tal felicidade. Ora, o problema não é Terra. A Terra é boa. Com boa consciência e entendimento em respeito e reverencia—não precisa nem falar em amor—, todos os humanos poderiam ser muito felizes neste planeta, apesar de todos os seus acidentes e incidentes. O que nos impede de sermos felizes é nosso coração incapaz de se abrir para o entendimento de que a vida será tanto mais fácil e boa quanto menos peso nós pusermos uns sobre os outros. Quando deixarmos de policiar a felicidade nossa e alheia, então, lentamente, a bem-aventurança começará a brotar bem de leve e bem úmida na terra do nosso coração. E quem sabe, daí, do coração, ela se espalhe para fora...e entre em outros? Deus perdoou o mundo, pois, em Cristo, o reconciliou consigo mesmo. A questão é: Você também já perdoou o mundo? A gente fica sempre falando em perdoar o irmão. Mas, para perdoar o irmão, eu tenho que antes perdoar o mundo. Boa parte de nossas raivas e ressentimentos vêm daquilo que a gente chama de “perversidades da vida”; ou também de “injustiças do mundo”; ou ainda de “catástrofes malignas”. O fato é que nossos ressentimentos são mais profundos que sabemos. As pessoas têm raiva de onde nasceram, da família que tiveram, da condição econômica na qual viveram, das lutas e durezas da sobrevivência, de defeitos físicos, ou de malignidades que caem na forma de tragédias... Há também quem apesar de rico preferisse ter nascido pobre, se na troca viessem pais amorosos, e não os distantes e indiferentes que possuem. Então, alguns culpam o Estado, outros a História, outros as Religiões, outros o país, a raça, o continente, a nação, o povo, os pais, os irmãos, os vizinhos, e quem passar por perto. Mas a raiva é raiva do mundo, e das injustiças que nele nos acontecem. O mundo que eu tenho que amar é a criação. O mundo que eu tenho que não-amar é o sistema de injustiças e iniqüidades. E o mundo que eu tenho que perdoar é o meu mundo; feito de humanos como eu; e que deliberada ou inconscientemente pratica o que eu pratico. Eu tenho que perdoar a humanidade a fim de poder me perdoar, e entender o meu irmão. Quando todo ressentimento do mundo é tirado de nós, o coração começa a não ter mais reclamações a fazer. Aqui acaba a raiz de toda auto-piedade, que é também o fundamento de todo ressentimento, e o gerador de todas as invejas. Todo invejoso é um ser ressentido com o mundo, com as oportunidades que acha que não teve, enquanto outros tiveram; com os dons e talentos que outros possuem, enquanto a mesma coisa não lhe acontece nem com muito esforço; com qualquer coisa que aconteça ao outro e que a pessoa julgue que não era para o outro... ou por você se achar melhor que o outro; ou por se julgar bom demais, e ainda assim, não a ter o que deseja, de tal modo que quem quer que tenha é objeto do desejo de tal pessoas, passará a ser objeto de inveja; que é, de fato, ressentimento com o mundo, e, no fim da linha, raiva de Deus. Deus não me deve nada. Ele me deu vida; que mais desejo? Ele me redimiu antes de me criar; que mais desejo? Ele me dá fé quando não há razão nenhuma para confiar; que mais desejo? Eu sou uma orgia de Graça divina; sou a migalha do eterno banquete; sou...nada, e, ao mesmo tempo, sou parte do significado de tudo o que existe. Meu Deus! Que posso eu mais querer? O Senhor é a minha Porção e o meu Cálice. O Senhor é o meu Pastor e de nada me ressentirei, e de ninguém terei inveja. Deus se reconciliou com o mundo em Cristo? Se assim é, a fim de que eu possa ser Seu embaixador, preciso também ter perdoado o mundo todo. Só assim chego reconciliado a fim de anunciar a reconciliação. Somente gente reconciliada com Deus, e com a Humanidade, pode levar Boa Nova na vida e na boca; do contrário, até a fala sobre Amor tem cheiro de ódio disfarçado de bondade. O que lhe disse acima é algo de natureza geral, e quem não compreender essa perspectiva mais ampla, não fará nenhum progresso em sua vida pessoal. Agora, portanto, quero falar de você. Primeiramente quero dizer que conquanto a sua igreja seja meio problemática em várias coisas, no entanto, no seu caso, ela está longe de ser o problema. De fato, no estado em que você está, mesmo que você fosse para a Jerusalém Celestial, lá você também teria problemas e geraria dificuldades. Seu “amigo cristão” fica evitando “ouvir o que você fala em público” apenas para ser delicado com ambos os grupos: o pessoal da igreja e você. Isto porque, usando do pretexto de que “você é assim mesmo”, certamente você usa e abusa das inconveniências. É ou não é? A discrição que você fez ressaltou uma figura materna, sempre mencionada com “M” maiúsculo, e designada como Mãe. Não ouvi falar de pai, mas apenas de Mãe, e com contornos de Ave Maria. Uma boa ajuda de natureza psico-terapêutica o ajudará a entender melhor o significado dessa “Mãe” maiúscula na sua vida. E saiba: para você será muito importante discernir isso, visto que, estou certo, boa parte de seus problemas vêm daí. Talvez a ausência do “pai” tenha feito você escolher o caminho do ódio à vida, e à tudo o que signifique ajuda e paternidade... de qualquer que seja a natureza. Mais do que com a sua sexualidade—que está toda esfrangalhada—, me preocupo com o estado de sua mente, que, no momento, necessita também de amparo psiquiátrico. Ou seja: além de terapia, a fim de entender seus próprios processos, você precisa de médico, de remédio, de química que o ajude a equilibrar esse estado mental beirando a sérios distúrbios. Um remédio adequado e receitado com propriedade poderá aclamar você, e estancar alguns fluxos mentais que são claramente afetados por alguns distúrbios também de natureza química em seu cérebro. Portanto, não hesite: procure um terapeuta e um psiquiatra, com urgência. Falar da sua aparente tendência homossexual neste momento é tolice, visto que estamos lidando com coisas muito mais graves, e que precisam ser tratadas antes de tudo. Digo isto até porque o seu estado de perturbação mental é tão grande, que tentar lidar com sua sexualidade agora seria como privilegiar uma ferida na pele quando o paciente está desenvolvendo um câncer de fígado. Por isso, procure os dois profissionais que sugeri com toda urgência. Além disso, sendo você ainda tão jovem, é fundamental que a sua “Mãe” faça parte desse processo, posto que ela poderá ter um papel fundamental no processo de sua cura ou equilíbrio. Espero que você entenda que tudo o que aqui disse com total objetividade tem apenas a finalidade de ajuda-lo. Aconselho-o também a ler mais o site. Vi que você já andou por aqui, mas ainda de modo muito superficial. Vá fundo! Ficarei no aguardo de uma resposta sua. Ah! Se você morar perto de Brasília, apareça no “Caminho da Graça”. Um beijo carinhoso! Nele, que nos ama, e que pode nos curar, Caio