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Cartas

O QUE VOCÊ DIZ DA MARCHA DO ORGULHO GAY?

O QUE VOCÊ DIZ DA MARCHA DO ORGULHO GAY?

-----Original Message----- From: Antônio Sent: sexta-feira, 11 de junho de 2004 10:48 To: contato@caiofabio.com Subject: O QUE VOCÊ DIZ DA MARCHA DO ORGULHO GAY? Caio, neste fim de semana aqui em São Paulo vai haver a "Parada do Orgulho Gay". O que você acha que leva os gays a marcharem com orgulho? Orgulho do quê? Leio tudo o que você escreve sobre o assunto e sobre tudo. O que mais gosto é de seu equilíbrio. Você sempre diz o que pensa, mas sempre pensa em coerência com a Palavra. Isto é que eu acho maravilhoso. Vou ser honesto com você. Eu acho essa parada uma coisa muito esquisita. O que você me diz? Um beijão no seu coração, meu brother. Antônio ____________________________________________________________ Resposta: Amado amigo Antônio: Orgulho de ser é coisa de quem não é, em paz! De fato, deveria deixar minha opinião sobre a tal Marcha Gay contida na minha primeira afirmação, pois creio que ela expressa tudo o que penso. A tal Marcha, para mim, é Marcha-ré. De fato é uma “parada”. Mas você perguntou também acerca do por quê de tal Marcha. Bem, eu creio que esse tal “orgulho” é justamente o oposto do que afirma. Na realidade estamos falando de “complexo de diferença”, não de orgulho. E mais que isto: trata-se de uma necessidade de afirmação, não de convicção pacificada. Seres convictos não fazem Marchas, mas apenas são. Já imaginou se eu entrasse numa Parada dos Machos? O que de fato eu estaria dizendo acerca do significado de ser macho, para mim? Seria certeza ou mera insegurança o que me levaria a marchar? No entanto, o que habita a sua questão TAMBÉM diz respeito aos que não são gays. É impossível não pensar que só há Paradas porque há o desejo da maioria de parar as paradas. Assim, os que se sentem ameaçados, marcham em convicta insegurança e medo, e chamam a isto de orgulho. Nunca fui menino nem homem de Marchas e Paradas. Marchei duas vezes na vida. A primeira vez com os Evangélicos, em 1992. A outra com a Cidade do Rio, pela paz, em 1995. Quando, porém, acabei de participar da marcha de 92, com os Evangélicos, no movimento Celebrando Deus com o Planeta Terra, no Centro do Rio, por ocasião da Eco 92, já saí de lá com o coração pesado. Embora tenha pregado naquele ajuntamento de mais de meio milhão de pessoas—e que foi organizado por outros, não por mim—, ao final eu já estava arrependido. Não creio em marchas de hora marcada. Creio apenas em caravanas espontâneas, e que se ajuntam no caminho, conforme se vê no movimento livre daqueles que seguiam a Jesus nos Evangelhos. Enfim, é a repressão social e psicológica sobre os gays aquilo que gera as marchas de gays. Quando os seguimentos contrários aos gays e às marchas, silenciarem, os gays ficarão constrangidos, visto que não terão pelo que marchar. Portanto, é o reacionarismo do resto ou de alguns seguimentos da sociedade justamente aquilo que provoca e promove tais marchas. Um mundo feito de pessoas não reacionárias desmobilizaria todas as marchas, visto que só há “marcha de orgulho de ser” porque há a hostilidade dos que não sendo, não permitem e nem admitem que ninguém mais seja diferente. Portanto, no que concerne à “igreja”, eu digo que quanto mais reação, mas marchas haverá. Se ninguém falar nos gays, não haverá porque a insegurança deles se disfarce de orgulho e vá às ruas como se fosse celebração. O fato é que além disso a Marcha Gay virou também comercio e turismo. É por essa razão que a Prefeitura de São Paulo está ajudando a parada. Milhares de gays de todo o Brasil irão à São Paulo, e isto gera receita, tanto no comércio imediato como também pela via do turismo. Quanto ao mais, as dinâmicas das marchas são sempre o sub-produto da atenção. Quando ser gay não gerar mais reação ou atenção, os gays ficarão em casa. Assim, quem não gosta de vê-los marchando, nem tolera suas expressões de comportamento público, deveria tolerar até para não ter que ver isto se repetir para sempre, até virar um Carnaval Gay. De fato, eu não consigo entender como não se consegue entender. É tudo tão básico! Eu acho ridículo tanto quem marcha como quem luta contra a marcha. Mas são os últimos os que promovem os primeiros, conforme a seqüência que eu falei. Todo protesto contra o protesto fortalece os protestantes. Nesse caso, os protestantes são os gays. Quem não gosta, não proteste, pois se protestar estará ajudando a fomentar, não a desmontar o ato. Este não é o bom combate! Por trás disso tudo, no meio Evangélico, também há os interesses de políticos da “igreja”. Para eles sim interessa que haja Marcha a fim de que organizem, em nome da Moral e dos Bons Costumes, a contra-marcha, e que sempre é proposta como salvação para a “igreja” e a “sociedade”. Mas são os políticos que carreiam e angariam os votos. E os Evangélicos nunca aprendem e sempre caem na mesma esparrela. Nele, em Quem a marcha só acontece para dentro, Caio