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Cartas

O QUE VEM PRIMEIRO: o ovo do homem ou a galinha de Deus?

O QUE VEM PRIMEIRO: o ovo do homem ou a galinha de Deus?

 

 

 

  

----- Original Message -----

From: O QUE VEM PRIMEIRO: o ovo do homem ou a galinha de Deus?

To: contato@caiofabio.com

Sent: Monday, April 23, 2007 7:49 AM

Subject: Endendes o que lês?

 

Caio,

Estive ontem no Caminho, mas infelizmente não deu para falar contigo.

A mensagem de ontem me deixou com uma questão na mente.

 

 

 

 

Segundo o que entendi, você defendeu a tese de que o não entendimento ou compreensão da Palavra seria fruto de uma indisposição interna de compreendê-la e principalmente vivê-la em suas implicações mais profundas.

No entanto, no episódio do etíope de Felipe (At 8) esse parece não ser o caso. Havia interesse e disposição para abraçar o evangelho, tanto que em resposta a explicação de Felipe o etíope se dispôs imediatamente para ser batizado. A sua falta de compreensão do livro de Isaias poderia ser atribuída então ao não conhecimento de Cristo. Uma vez que foi apresentado a Cristo tudo se esclareceu na sua mente e coração.

De tudo isso, encontrei três respostas para a razão pela qual as pessoas não entendem o evangelho:

a) Elas o recebem muito misturado com outras mensagens que nada tem a ver o próprio evangelho e dessa forma não o entendem ou entendem errado!

b) Elas precisam do discernimento de Cristo para entenderem o real significado do evangelho.

c) Elas estão cegas no seu discernimento por Satanás, ou por seus próprios desejos de auto-gratificação tornando a terra dos seus corações árida à semeadura da palavra.

Abração!

Ido.

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Resposta:

 

Amigo Ido: Graça e Paz!

O texto em questão era Mateus 13: a parábola do Semeador. Na conclusão Jesus diz que eles não quiseram ver o que viam, nem ouvir o que ouviam, nem crer no que sabiam, pois, temiam a conversão. Por isso ouviam de mal grado.

Assim, Jesus está falando de gente que pode, sabe, discerne, compreende, mas que se fecha para não admitir que sabe o que sabe no fundo do coração.

É bom não esquecer que Isaías foi citado tanto no texto de Mateus como também no de Atos 8, que você mencionou.

Ora, no caso de Mateus 13 Jesus está dizendo que Isaías profetizara acerca daquele estado de espírito mediante o qual o povo de Israel (para quem Jesus primeiramente endereçou a parábola) ouvia e via tudo o que Jesus fazia e ensinava.

Bem profetizou Isaías acerca deste povo...” — é o que se diz.

Já em Atos 8, no texto mencionado por você, conquanto se fale da salvação trazida pelo Servo Sofredor (Is 53), o texto em questão carrega em si mesmo uma promessa de vida que segue a rejeição do Servo Sofredor.

Assim Isaías, conforme citado em Mateus 13, fala de como o coração responde em suas inclinações, especialmente quando se está saturado de revelação divina, mas sem a disposição de atendê-la (como era o caso de Israel).

Já o texto de Atos 8, concernente ao Eunuco etíope, quando cita Isaías 53, diz também que o homem vinha lendo, e que tinha seu coração aberto, sendo piedoso...

Portanto, o que se descreve ali não é o fenômeno de aceitação da Palavra, mas sim o fenômeno de explicação da informação histórica do Evangelho para um homem que já carregava a decisão (sem informação acurada) de ser quem era; o que fez com que a informação do significado profético de Isaías apenas trouxesse a ele o que em seu coração já existia de modo simples, na forma de um interesse “intuitivo” (na falta de uma palavra para descrever o mistério divino no coração humano).

A meu ver o texto de Atos 8 nos fala justamente da ironia de que os de Israel viam e não enxergavam, enquanto o distante, da Etiópia, mesmo sem saber a informação, carregava no interior a pergunta para a qual apenas lhe faltava a resposta histórica. Até porque quem faz tal pergunta já carrega no coração um sim para o que ouvirá.    

Percebo que sempre que se está diante da resposta humana ao Evangelho a tendência é quase sempre desejar saber o porquê da rejeição das pessoas à Palavra pregada.

Ora, a meu ver esse é um tema que não nos concerne, posto que ele acontece, fenomenologicamente, num ambiente que não alcançamos, por tratar-se (conforme diz Jesus em Mateus 13, citando Isaías) de algo que diz respeito aos “mistérios ocultos desde de a fundação do mundo”.

Assim, quando Jesus diz que estava abrindo a boca em parábolas a fim de expor o que estava posto desde o início, Ele está tratando da resposta humana à verdade (positiva e negativamente falando). Entretanto, não diz o porquê intimo relacionado a Deus e o homem em tal situação. E a meu ver jamais trataria de tal questão se de fato entendesse o que Ele mesmo estava tratando.

Em minha percepção, quem tenta “explicar” tais coisas, nunca as alcançou como entendimento que excede a todo entendimento.

Desse modo, Jesus apenas revela as razões concernentes ao homem no que tange ao Evangelho, mas não discute a liberdade do homem, a cegueira do homem, ou a falta de instrução de quem ouve (de qualquer um).

Ao contrário, Jesus assume que a Palavra é a mesma, mas que o chão interior de cada um é diferente. E mais: que cada um é responsável pela resposta que dá ao que sabe; não ao que não sabe.

Sim, o texto não denuncia quem não sabe, mas apenas quem sabe e não quer o que ficou sabendo — e isto conforme as razões expostas por Jesus na parábola.

Portanto, não nos cabe discutir, mas apenas olhar para o próprio coração.

Essa “discussão teológica” só é sadia se acontecer como debate interior do homem com ele mesmo.

Ou seja: é apenas uma possibilidade para o discernimento pessoal, mas não para se criar categorias e departamentos de natureza existencial como pacote teológico global.

Desse modo, quando as terras interiores dos corações são descritas por Jesus na Parábola do Semeador, o que se tem que ouvir não é: “Será que ele é assim?” Ao contrário, o que se deve ouvir é apenas a nossa própria voz interior nos perguntando: “Será que eu sou assim?”.

A Palavra não é nunca para os outros antes de o ser apenas para mim!

Também a meu ver o processo que tenta entender qual é a parte do homem, a parte da informação que receba, e a parte da decisão que ele, o homem, tome em relação à informação do Evangelho que ele obtenha — é parte de um processo sutil que em nós foi posto pela racionalização teológica; e que pergunta apenas para adiar a resposta que prescinde de explicações; posto que a explicação só vem com a resposta do coração à Palavra.  

Quando eu creio, eu vejo. Quando eu digo sim, eu entendo. Quando eu desejo, eu encontro. Quando eu busco, eu acho. Assim vai...

O mais é sexo dos anjos adiando a geração de um novo homem!

Tudo o mais que se diga na Escritura sobre a ação de Deus elegendo, escolhendo, ou apenas alcançando pessoas, só nos diz respeito no que tange a nós mesmos, mas não para usarmos isso a fim de entender outros. Portanto, o que vale é a resposta de cada um.

A resposta ao Evangelho estabelece (pela decisão tomada) quem a própria pessoa é.

Simples assim. E isso não me serve para estudar casos de pessoas em relação ao Evangelho, mas apenas o meu caso em relação a ele.

Quanto ao mais, saiba:

Creio que há pessoas cegadas completamente pelo diabo (semente à beira do caminho); creio que há pessoas que entendem, mas que não desejam as implicações do que compreendem; e que há pessoas que precisam apenas ouvir, posto que a semente já pré-existe em seus corações como desejo de encontro com a verdade.

Ora, quem está cego hoje pode ver amanhã. Nada é fatalista. Porém, o dia a ser sempre considerado é o Dia Chamado Hoje. Portanto, o Evangelho não trata de nenhum futuro alternativo à oportunidade de Hoje.

Desse modo, pode-se dizer que a “teologia” de tal situação é definida pela decisão de cada um; não sendo, portanto, algo a ser observado e entendido como um pacote que possa explicar um fenômeno universal; já que o que é universal em tal caso, é a responsabilidade que cada um tem diante do que sabe de verdade; não do que não sabe ou não soube.

A discussão sobre o que acontece quando se ouve a Palavra apenas distrai a mente e o coração para a única coisa que importa: minha decisão diante dela.

Assim, amado amigo, a única “teologia” que o Evangelho conhece na prática, e com finalidades simples e objetivas, é a “teologia” de minha decisão ante o que me chegou como revelação ao coração. O resto é escolasticismo ressuscitado, e com a finalidade de distrair sem converter ninguém.

Um beijão meu mano!

Vejo você no domingo!

Nele, em Quem somos, e em Quem temos o amém para o nosso amém; e em Quem dizemos amém por Ele ter antes dito amém a nós,

 

Caio

28/04/07

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