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Cartas

NÃO SINTA SAUDADES DE MIM PORQUE EU MESMO NÃO SINTO!

NÃO SINTA SAUDADES DE MIM PORQUE EU MESMO NÃO SINTO!

-----Original Message----- From: Mauricio Sent: sábado, 25 de outubro de 2003 02:29 To: contato@caiofabio.com Subject: Contato do Site Mensagem: Olá! Visito sempre a sua página e tenho sempre uma imensa vontade de chorar. É uma vontade esquisita, dessas que não se satisfaz com o verter das lágrimas. É um choro que vem de dentro, de dor no coração pelas coisas que você passou em toda a sua vida. Vejo as fotos, as reportagens, as pessoas que escrevem para você, e fico pensando: Meu Deus, tudo nesse mundo é nada; só o Senhor é a Rocha firme para colocarmos os nossos pés! Também sou pastor, tenho pouco mais de trinta anos, e faço parte "daquela geração" que se acostumou a tê-lo como paradigma. Quantos colegas não o imitavam no seminário... Era hilário! (não você, mas eles!). Deixavam o cavanhaque crescer...que vontade de ser "Cáio Fábio"! Daí, quando todas aquelas circunstâncias tristes se deram, de repente eu via quase todo mundo julgando e condenando você! Como Pastor, entendo um pouco, pois quando erro, os meus erros se tornam maiores por causa das minhas responsabilidades...que bobagem! Eu confesso que nunca fui de "puxar o saco" de ninguém, nem o seu. Via com tristeza as pessoas que diziam com a boca cheia: "Olha, eu tenho o telefone particular do Caio Fábio". Sempre acompanhei você meio que á distância, e a única vez que vi você pregar ao "vivo" foi no cinqüentenário da Sociedade Bíblica do Brasil, em SP. Mas por todas essas coisas sinto vontade de chorar. Não sinto pena de você, mas fico triste com o que você passou. Fico irado por ver como os aduladores são desprovidos de coração, de senso crítico! Choro interiormente por pensar que se um dia eu tiver que passar pelo vale da sombra da morte, talvez não possa contar com duas ou três pessoas nesse mundão! Confesso que suas palavras no site tem me encorajado muito; elas têm sido um refresco para a minha alma. É isso aí Caio (que bom poder chamá-lo assim). Caiu aquela pompa toda ao seu redor, e sinto que você pode estar mais perto de todos os seus irmãos em Cristo, longe daquele altar que construíram... Deus você abençoe nessa nova fase da vida, e obrigado por disponibilizar esse espaço para podermos ter a "ousadia" de abrir o nosso coração, como num desabafo. Obrigadão!!! Ah, estou pedindo a Deus que essa tristeza que sinto ao visitar o seu site passe... Acho que é só não ficar vendo as coisas do passado. ************************** Resposta: Meu amado irmão: Graça e Paz sobre você! Li sua Carta com todo carinho. É madrugada. Estou sem sono. Por isso resolvi responder agora mesmo. Hoje um amigo perguntava a mim sobre “arrependimentos” na vida. Interessante. Para a maioria das pessoas arrependimento remete para o Passado. Para mim arrependimento é Hoje, e remete para o Futuro. Olho para trás e sinto apenas saudades de pessoas que já foram; ou de pessoas que amo e com as quais hoje, circunstancialmente, não posso conviver. Mas não sinto saudades do Passado. Nem tampouco arrependimento. Arrependimento de "obras mortas" faz mal e é pecado contra a Cuz! No passado não cabe arrependimento, apenas, no máximo, sentimentos que dele continuam... Arrependimento para a morte, conforme Paulo, é a tristeza que não se deixa curar:é remorso! Arrependimento para a vida, é mudança de mente Hoje, e decisão de continuar a crescer conforme a Consciência da Fé na direção do Chamado: Cristo! Por que estou dizendo isto? Bem, sinceramente, não sinto saudades. As pessoas que eu amava e partiram, deixaram-me saudades curadas—elas se foram, e logo as encontrarei. As que não partiram, porém com elas não mais convivo—são objeto de minha saudade. Mas é uma saudade sem passado. É uma saudade de Hoje, da companhia delas—mas sei que vivem. E sei que sou delas e elas são minhas. Já as pessoas que eu amava, e que ainda estão vivas, mas que me viram “morto” enquanto eu vivia, por essas senti coisas diferentes. Houve as que me fizeram sentir decepção. Houve as que me fizeram sentir tristeza. Houve as que me fizeram sentir raiva. E houve as que não me fizeram sentir nada, de tão fria e distante que foi sua saudação ao meu velório . Essas últimas eram as que me faziam “amar o amor delas por mim”. Mas talvez eu nunca as tenha “amado”, naquele sentido profundo do amor que sente romanticamente a fraternidade. Simplesmente ficaram em algum lugar—existem como referências na memória, mas não no coração. E as que me fizeram sentir alguma coisa ruim, hoje já não fazem sentir nada. No entanto, as que amava, amarei para sempre. A gente de fato só ama a quem a gente ama. A gente pode até confundir os suposto amor de outros por nós com amor da gente por eles. De fato, não passa de resposta amorosa ao amor. Existe um grande conforto no amor verdadeiro. Ele não só lança fora o medo, mas também dá segurança para a vida. Quando olho para trás não lembro de eventos, de ocasiões gloriosas, de milhões de oportunidades, de aduladores, de amigos, de festas, de dias espetaculares, de sofrimentos atrozes, de nada... Lembro de gente. E, como disse, lembro com emoção de quem não está porque já “foi”; ou de quem não está porque não pode—esses, sem dúvida, estão—; afinal, eles são! Nesse sentido muita gente deve me achar estranho também. Mas não estou tentando me fazer normal ou anormal. Estou apenas dizendo “como sou”. É assim que sou. Esqueço o que para trás fica e caminho para o que adiante de mim está. Prossigo para o alvo. Há um prêmio na perseverança. Fui conquistado para conquistar algo. Sei o que é! A estação das tristezas já passou. Houve coisas que poderiam ter sido diferentes, em tese. Mas é só em tese. Poderiam, mas não podiam, por isso não puderam ser. No Passado cabem todas as revisões apenas como utilidade para Hoje e Amanhã! Foi como foi. É como está sendo. Será! e poderá sempre ser melhor ou diferente! Nesse processo vivo o dia chamado Hoje, e faço-o com toda intensidade que a alma derrama sobre o momento. Quem é honesto com o Hoje, foi honesto com o passado e está sendo com futuro. Só existe Hoje. Por isso, o “Caio Fábio” de ontem não me dá a menor saudade. Eu sou Caio Fábio, e ontem não existe mais. Mas, pela Graça de Deus, eu estou aqui. E estou aqui Hoje buscando não temer ser transformado pela renovação da minha mente. O culto racional é a freqüente rendição da consciência pessoal à Consciência que vem de Deus como revelação que faz mudar a mente. Isso é arrependimento! Arrependimento é mudança de mente. Meta-nóia. Quando arrependimento não é isso, a “alternativa” é neurose do passado ou paranóia do presente e do futuro. Por isso, não chore por mim. Chore por quem não enxerga a Graça de Deus Hoje. Chore por quem pensa que eu sou um ser póstumo. Chore por quem não crê em ressurreição e em vida. Chore por aqueles que querem matar a Lázaro apenas porque não podem negar a ressurreição. Chore pelos que tentam assassinar o Milagre. Leia este site sem saudade. O melhor ainda está para vir. Se não for na Terra, está para vir de qualquer modo. E só mais uma coisa: se você tiver que passar pelo vale da sombra da morte, me inclua entre esses dois ou três que estarão com você. Quem já andou por lá, se sobreviveu, aprendeu a maior de todas as lições: a solidariedade com os moribundos. E lembre: no Passado não cabe mais nada. No Futuro ainda cabe tudo! Um beijo muito grande e carinhoso. Nele, Caio Ps: Quando meu pai ouviu de mim, em detalhes, as "histórias de minhas calamidades", não disse nada. Chorou em silêncio. Depois sorriu pacificadamente. E, então, me falou: "Que bom que você está de volta!"