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Cartas

NÃO SEI SE VOU OU SE FICO...: o que você diz?

NÃO SEI SE VOU OU SE FICO...: o que você diz?



 

 

 

 

----- Original Message -----
From: NÃO SEI SE VOU OU SE FICO...: o que você diz?

To: contato@caiofabio.com
Sent: Wednesday, June 14, 2006 8:43 PM
Subject: NÃO SEI SE VOU OU SE FICO...
 
 
Meu querido...


Tenho um casamento até legal. Acho que gosto de ficar casado. Mas acho que poderia ser melhor se eu conhecesse outra; ou outras situações com outras pessoas; sei lá....

Só sei que eu não estou conseguindo amar; até mesmo, sentir um sentimento mais abrasador com minha esposa. Tenho 29 e ela 28. Temos 4 filhos. Um é dela, menina;  e três são meus... São as coisas mais lindas que já fiz até hoje... E os últimos também.  Mas não sei se são eles que me fazem a ter tanto apego pela minha casa. Sei lá... Eu os amo demais! Comprei uma casa em um lugar nobre... pensando neles; e é deles.

Sou crente e acredito que se eu me separar Deus continuará a amar a mim e à minha esposa; independente das nossas escolhas...

Mas tenho um amigo que é de outra denominação e que vive repetindo... “Se separar... é só derrota!”

Então meu querido, quem pode segurar as coisas quando vem do coração? Ou é o Diabo, na sua sagacidade, tentando destruir meu casamento com todas as forças do inferno? O quê? O quê?... e os meu filhos?

Isso aí!... Me responda alguma coisa...

Abraços! Sempre te acompanhei e torço muito por você!

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Resposta:


Meu querido filho: Graça e Paz!

 

Chamei você de “filho”, porque a maioria dos meus filhos tem a sua idade; ou são mais velhos que você.

Pela sua carta, pelo nervosismo dela, e pela sinceridade frenética dela, só me veio uma coisa à cabeça:

“Esse moço está desapontado com a “igreja”; e, juntamente com a perda do romance para com a “igreja”, tomou conta do coração dele uma vontade de chutar o balde; e provavelmente porque, antes de casar, ele deixou de fazer e viver um monte de coisas em obediência àquilo que hoje ele ficou sabendo que eram apenas mandamentos de homens; e, por tal desilusão, decidiu descontar o atrasado; mas teme fazer isto e se dar mal. E como no momento ele e a mulher estão vivendo uma fase de adaptação ou de reajustes no casamento, com os desgastes naturais que isto implica; passou pela cabeça dele que se ele trocasse de mulher, ou se separasse e vivesse um tempo como solteiro e matador; até encontrar uma outra pessoa; mas já depois de ter vivido a adolescência interrompida pela “igreja” e suas regras e preceitos — ele seria, possivelmente, quem sabe, mais feliz. E, provavelmente ele tenha ‘provado algo’; ou mesmo que esteja ‘tentadíssimo’ a fazer alguma coisa...; pois já pode haver até alguém mais que na mira...; ou será ele que foi mirado, e gostou de ser presa?”

Ora, essa é uma hiper-simplificação. Pois, além das basicalidades acima mencionadas, vejo também que “alguma forma de sucesso” ou de “auto-percepção”, mexeu a sua cabeça; mas para pior. Pelo menos por enquanto.

Sim, alguém ou alguma coisa fez você se sentir superior à sua mulher; inflando você; dando-lhe aquela sensação de “rei da cocada preta”. Pense o que possa ser, por favor!

Na realidade, você até acha que gosta de ser casado. Longe de ser o ideal, pois, de fato, a única coisa que interessa não é a vida de casado e de família, mas se você ama a sua mulher e mãe de seus filhos; e se ela ama você também.

Crises conjugais acompanhadas de falta de desejo sexual, são coisas comuns; embora, em minha opinião, sexo apenas ajuda a estabelecer pontos de contato na hora da crise; e se ambos forem capazes de deixar as disputas e arengas de lado, e olhar apenas a mulher ou o homem que, em circunstancias normais já despertou tanto desejo, e, assim, na objetividade do desejo mais simples, buscarem se reconciliar pela via do carinho que sabe perdoar também na hora de fazer amor.

Ironicamente muitos casais deixam de transar quando chega o stress! —; sendo que a pergunta é: que coisa há que mais tire o stress do que fazer amor? 

É claro que bons pais são capazes de levar um casamento ruim para o resto da vida, e isto para tentarem fazer bem aos filhos. Nem sempre conseguem. Pois filhos nunca ficam bem e felizes vendo que seus pais estão juntos apenas por causa deles.

Você, todavia, me passa a idéia de que além de amar os filhos, e a filha que ela trouxe para o casamento, ama também a sua mulher; bem como ama a vida em família.

Você reclamou de uma “ardência”, a qual é boa e necessária, mas que não é amor em si — não ainda!

Acho que você está deslumbrado, de um lado; e, de outro lado, sofrendo de uma crise de adolescência retardada. E como seu casamento está passando por uma crise, fica mais simples, para um adolescente, jogar tudo para o alto e buscar outras experiências, outras mulheres, outros corpos, outros beijos, outros cheiros; até que... enfim, irá descobrir que apenas mudou seus problemas de CEP e de endereço; sendo que, na maioria das vezes, o carinha como você, dois anos depois, vê a mulher, após muita dor, se erguer, cuidar da vida, e, mesmo que com lágrimas, levando...—; enquanto ele, o carinha (no caso, você), está na casa dos pais, saindo aos sábados à noite buscando a felicidade, sentindo saudade dos filhos, ficando paranóico acerca da possibilidade de que a ex-mulher, quem sabe, conhecerá outro... Enquanto ele, o antes desejoso de se separar e de conhecer novas mulheres e novas situações... — está de fato conhecendo uma nova situação: a perda da euforia que originou a decisão, e o mergulho na depressão, ou na síndrome do pânico; diminuindo assim sua capacidade de trabalho; se cuidando cada vez pior; e verificando que muitas coisas que as vezes nos parecem essenciais, nada mais são do que as pulsões de nossos próprios caprichos — e mais: de nossa fobia da morte; que é a força que nos move na direção de tentar “descontar o tempo perdido”.

Sou a favor de que casais que não se amam, e que sofrem por estarem juntos, ou pelo menos um deles sofre — se separem.

Pois, se sem amor nada aproveita; por que, contra tal Absoluto, seria o casamento justamente o lugar-relacional onde as coisas têm sentido mesmo sem amor?

Sim, porque desse modo, teríamos que dizer: “Sem amor nada aproveitará; exceto no casamento!”

Amor, entretanto, não é paixão alucinante e louca; possessa de insensatez!

Amor é alegria de ser do outro e de ter o outro, a fim de servi-lo com os tesouros da alegria, da fidelidade e da felicidade.

No verdadeiro amor entre um homem e uma mulher, há desejo. Em toda paixão há desejo também; mas, em geral, na paixão, o desejo é maior do que a disposição de ser bom para o outro.

A primeira pulsão da paixão é possuir. Já a primeira decisão do amor é dar.

Você falou que já não está sentindo amor pela sua esposa. “Sentindo”; foi o que você disse!

Amor, entretanto, é sempre algo que só se mantém como escolha e decisão. Do contrário, qualquer paixão um dia murchará; e, sem amor, nada dela aproveitará!

Seja lá qual for o surto que lhe bateu, sugiro que você olhe para o seu coração, e busque discerni-lo. Sim, porque se você se entregar à euforia surtada, à síndrome de Peter Pan, ao estado de todo-poder, ao complexo de D. Juan, o resultado, eu garanto a você, será dor; muita dor e muita tristeza.

E quando digo isto, nada tem a ver com as “razões” de seu amigo que diz que separação gera derrota. Não! Ele assim diz porque crê que toda separação é “amaldiçoada”. Eu, todavia, creio que certas separações podem até ser abençoadas; desde que não sejam jamais buscadas ou deliberadas; e desde que a separação também seja a solução para algo insuportável. Entretanto, tudo o que tenho dito a você é apenas porque sei que se você tomar uma decisão desse nível de importância, apenas baseado nas “dores” que você expressou, e eu, consultado por você, nada dissesse, minha irresponsabilidade seria imensa. 


Vá com calma. A questão, portanto, nunca é o divórcio, mas o coração. O que vale é procurar a verdade no íntimo; pois tudo o que não é verdade, jamais subsistirá.

Por que você não me procura domingo na reunião “dos do Caminho”, lá no La Salle? Assista também, na Band, o Programa Caminho da Graça, às 10 da manha de domingo.

Aguardo seu retorno!


Nele, que nos chama à Realidade; pois, sem Realidade, não se encontra a Verdade,

 

Caio