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Cartas

Não o amo meu marido, até o traio, mas ele me quer assim mes

Não o amo meu marido, até o traio, mas ele me quer assim mes

-----Original Message----- From: Não o amo meu marido, até o traí, mas ele me quer assim mesmo Sent: quarta-feira, 1 de outubro de 2003 19:06 To: contato@caiofabio.com Subject: E o que fazer? Mensagem: Olá Pastor, "Quem vai querer viver a verdade se o premio para a verdade é o castigo"... É essas são palavras suas, escritas a alguns dias em parte da mensagem que me enviou. O que aconteceu é que depois de ler sua carta eu não me animei seguir com a decisão de me separar. Li algumas vezes em seus textos sobre esgotar até a última gota, antes de alguém se divorciar. Não sei se vivendo na miséria que estou, em adultério, tenho condições de dizer que ainda posso tentar ficar casada. Talvez, quem sabe, isso poderia até dar certo com meu marido. A pessoa com a qual adulterei, já decidiu não me ver mais, já que tomou uma decisão. Me parece coerente, ainda que eu esteja sofrendo dores que palavras não são capazes de expressar. Choro por minha miséria, por estar fazendo meu esposo sofrer; porque agora, ainda que eu tenha decidido ficar com ele, ele está inseguro, triste, com medo... porque eu não o amo! Eu estou buscando forças para ser conseqüente com a minha decisão: sinto que ainda não encontrei forças... mas espero encontrar. Meu esposo diz que tenho problemas, medo de construir uma família, medo de amar, de me entregar, por razoes muito difíceis que enfrentei desde minha adolescência, quando perdi pessoas que amava. Aos 17 anos comecei a namorar um homem mais velho que eu 15 anos, depois de quase 6 anos de namoro, eu não o queria mais, sentia que não o amava. Todos os relacionamentos sérios que tive, eu mesma terminei. E sempre dizendo a mesma coisa: não amava. E sempre fui infiel, mesmo depois de conhecer a Cristo. Às vezes sinto que nada mudou. Sou o mesmo lixo de antes! Me casei sem amor e agora estou vivendo o que o senhor já sabe. Pergunto: tem solução para mim? Crê que necessito tratar-me de alguma coisa? Crê que o amor é uma decisão? Ore por mim! E escreva-me... me sinto destruída. ***************************** Resposta: Minha querida irmã: O Espírito de Deus é Vivo! Hoje conversei com uma mulher digna e que estava vivendo uma situação difícil. Ela casou—em algum lugar no passado—com um homem bom, cheio do temor de Deus e muito piedoso. Ambos são cristãos. O problema é que casamento não é uma ONG sem fins lucrativos e nem tampouco um Mosteiro Tibetano, onde se vive de mantras e orações. Logo depois de um “tempo” ela começou a se dar conta de algo horrível, porém real: o casamento entre um homem e uma mulher não dá certo apenas porque na contabilidade das “virtudes” cada um dos dois é nota Mil. Dois santos que não se amam vão sofrer assim mesmo. E muito mais que dois “devassos” que não estão “nem aí pra ninguém”. É mais fácil viver mil anos com um “irmão” amado, que com um marido-irmão! A fraternidade realiza o bem dos “irmãos”, mas não tem o poder de realizar o bem de um homem e de uma mulher que dormem um ao lado do outro, sem o poder de desejarem ser homem e mulher um para o outro. Conclusão: não demorou muito tempo e a “amada irmã” estava apaixonada por um outro “amado irmão”; e ambos traindo os seus respectivos “amados irmãos” cônjuges. O “amado irmão-marido” está sendo traído por uma “amada-irmã-esposa”. Todos dois são “gente boa”. O “amado-irmão” que ficou apaixonado pela “amada-irmã” casada com o “amado-irmão-tráido”, também é casado com uma “amada-irmã-tráida”. E mais: a “amada-irmã” por quem ele, o “amado-irmão”, se apaixonou—e ela por ele—, também é sua “amada-ovelha”, pois ele é seu “amado-pastor”. Ele está louco por ela. Ela louca por ele. Ela decidiu sair da igreja, pois viu que a coisa toda vai terminar muito mal. Ele não quer que ela saia da igreja. Afinal, ela é uma amada irmã. A questão é que esses dois amados irmãos estão traindo outros dois amados irmãos. Não há nenhum canalha nessa história. Há apenas dois seres mal-casados e que mantiveram seus casamentos sobre a “base da fraternidade”. Hoje ela me disse que o “amado-irmão-pastor” disse a ela que a ama, mas não tem coragem de perder tudo o que construiu—especialmente o seu ministério—a fim de ficar com ela. Mas também não quer que ela deixe de ser sua ovelha. Ora, eu disse a ela que saia de lá, até em respeito ao seu marido e à mulher dele. Além disso, também disse a ela que a “permanência” dela na “congregação” vai fazer dela não a “ovelha” do pastor, mas a “cordeirinha-de-Urias”, a quem Davi, num acesso de lobo, comeu para o jantar, conforme o profeta Natã. Você me pergunta: o que isso tudo tem a ver comigo? Ora, na nossa primeira conversa—publicada aqui no site—, você contou de seu “relacionamento extra-conjugal” e de sua total falta de amor de mulher pelo seu “amado marido”. Eu sei como isto funciona. Uma pessoa—homem ou mulher—descobre, primeiro como pulsão inconsciente, que algo está faltando... Atribui as “insatisfações” essenciais e sem causa. Muitas vezes é isso mesmo. Apenas a uma fase, o trabalho, o stress, etc... Mas quando é assim, passa. Desvanece-se como uma “névoa”, e tudo fica bem. No entanto, quando não é o caso, a insatisfação perdura. E quando ambos—os cônjuges—são gente boa de Deus, e nenhum dos dois tem o que usar como álibi para justificar o sofrimento; então a tendência é se tratar a questão de modo “espiritual”. Então vem o tempo das “consagrações”. São encontros de casais, reuniões de oração, grande assiduidade aos “trabalhos da igreja”; e, em muitos casos, surgem alguns “ministérios” a fim de ocupar o coração que não quer se encarar. Na maioria esmagadora das vezes um dos cônjuges só admite que o problema é com o outro quando já está “apaixonado” por alguém. Mas mesmo aí ainda há “desculpas”. A pessoa diz ao “outros” que isso nunca aconteceu, que trata-se de uma “terrível atração física”, uma obra maligna. E o Diabo leva a culpa sempre o coração não tem coragem de se encarar! Os “dois envolvidos” são capazes de dizer um ao outro que amam seus respectivos cônjuges, que aquilo é uma fraqueza, que trata-se de algo inexplicável, que precisa “acabar”, pois, de fato, amam seus amados. E é verdade. Amam mesmo. Na maioria das vezes fariam qualquer coisa para vê-los bem. Poderiam até oferecer o “corpo para ser queimado” pelo outro. Mas esse “altruísmo” não resolve a questão do “desejo”, que é fruto de uma carência não confessada como verdade. E qual é a verdade? Ora, eles se casaram com as “virtudes” um do outro—ou pelo menos um deles o fez—, mas não se amam como homem e mulher—ou pelo menos um deles não ama! Então começam a tentar “parar”, mas descobrem que não conseguem. Lutam, choram, jejuam, fazem votos, etc...Mas acabam sempre caindo outra vez. É como a música: quanto mais eu fujo eu me aproximo mais... Aí começam as cogitações desesperadas. O que faremos? Ficaremos assim para sempre? Nós não suportaríamos viver assim... Eles são gente boa de Deus, como estamos fazendo isto com eles? O próximo passo é começarem a falar em separação. As mulheres sempre são mais decididas quando chega essa hora. Os desdobramentos podem ser os seguintes: 1. O lado que tem mais a “perder” inicia o processo de “pular fora”. Geralmente o homem, especialmente se há algo ministerial ligado à “escolha”. 2. Ou decidem “ir levando”, pra ver até onde agüentam. Então as “culpas” crescem, e tudo que antes, em dando errado, era normal; agora está dando errado por causa do “pecado”. 3. Em alguns casos ambos decidem “assumir” e viver com as conseqüências. Mas as conseqüências, especialmente quando a “igreja” está envolvida, são praticamente insuportáveis. 4. Poucos conseguem “sobreviver”, mas com custas emocionais e psicológicas quase impagáveis. 5. E alguns que “assumem”, não suportam a pressão: perda de vínculos, relacionamentos, e a terrível descoberta de que o “cônjuge legal”( o traído), na hora que a “comunicação” é feita, prefere destruir tudo, do que dar carta de “alforria” à parte infeliz, etc... Em suma: 90% dos “casos extraconjugais”—motivados ou não por amor—, acabam logo depois de serem “assumidos”, em razão de que um deles, ou ambos, não suportam as “pressões”. Por que estou dizendo isto? Ora, ouça a você mesma: “Li algumas vezes em seus textos sobre esgotar até a última gota, antes de alguém se divorciar. Não sei se vivendo na miséria que estou, em adultério, tenho condições de dizer que ainda posso tentar. Talvez, quem sabe, isso poderia dar certo com meu marido. A pessoa com a qual adulterei, já decidiu não me ver mais, já que tomou uma decisão. Me parece coerente, ainda que eu esteja sofrendo dores que palavras não são capazes de expressar. Choro por minha miséria, por estar fazendo meu esposo sofrer; porque agora, ainda que eu tenha decidido ficar com ele, ele está inseguro, triste, com medo... porque eu não o amo! Eu estou buscando forças para ser conseqüente com a minha decisão: sinto que ainda não as encontrei... mas espero encontrar. Meu esposo diz que tenho problemas, medo em construir família, medo de amar, de me entregar, por razoes muito difíceis que enfrentei desde minha adolescência, quando perdi pessoas que amava. Aos 17 anos comecei a namorar um homem mais velho que eu 15 anos, depois de quase 4 anos de namoro, eu não o queria mais, sentia que não o amava. Todos os relacionamentos sérios que tive, eu terminei. Sempre dizendo a mesma coisa: não amava. E sempre fui infiel, mesmo depois de conhecer a Cristo. Às vezes sinto que nada mudou?!! Sou o mesmo lixo de antes”. O que suas palavras me dizem? 1. Que você deu tanto amor fraterno e filial—afinal teve que cuidar de toda a família, e sofreu a “ausência” do pai—, que seu primeiro relacionamento não escondeu essa necessidade: um homem muito mais velho. 2. Seu esposo é um homem bom. Tão bom que “constrange” você com a bondade dele. Homens “bons” acabam sempre fazendo com que a infelicidade do outro cresça muito mais como culpa, pois, apresentam-se com o seguinte discurso: “Olhe para mim. Sou bom, fiel, amigo, honesto, trabalhador, cristão, bom pai, e perdôo você mais uma vez. Pare de bobagens, você tem que aprender a amar. Estou inseguro, mas quero que você fique”. O que o “homem bom” precisa saber é que ele pode ser amável, mas nessa dimensão do coração—na liga homem-mulher—, não há como a “bondade” segurar a mulher que reconhece as “virtudes” do marido, mas não ama o homem. Nesse caso, a “bondade” vira opressão, e um homem que sabe que sua mulher não o ama, mas quer que ela fique assim mesmo, está mais doente do que ela. 3. Sua “infidelidade será crônica” enquanto você estiver se casando com “projeções paternas” ou com “virtudes fraternas”. Pode até ser que você pare com as “práticas”, mas dificilmente as cessará como suspiros e gemidos no coração. Enquanto você não encontrar alguém em razão de ter encontrado um homem—o seu homem—, e não uma “solução” emocional temporária, ou um arrimo financeiro, ou mesmo um “amado irmão”; você continuará se tratando mal, caindo objetiva ou subjetivamente nos mesmos laços, e acusando-se do modo como você faz agora: “Sempre fui infiel, mesmo depois de conhecer a Cristo. Às vezes sinto que nada mudou. Sou o mesmo lixo de antes”. Desse modo, em razão de sua carência, sua vida em Cristo está sendo arruinada. Afinal, se Deus achasse que Ele mesmo era a solução para as carências de Adão—mesmo antes da Queda ter acontecido—, Ele não teria criado Eva. Essa dimensão da vida nem Deus planejou que fosse “preenchida” por Ele. É a pessoa que tem que dizer: “Essa é afinal carne da minha carne...” Portanto, minha querida irmã, digo-lhe que você tem apenas duas opções: 1. Ficar no seu “casamento”, com seu amado e bom esposo, e não pensar em nada mais ligado ao seu anelo emocional e afetivo como “mulher”; contentando-se com o que tem, e escolhendo a continuidade de seu casamento—e nunca mais tocar no assunto e nem suspirar por mais nada. 2. Independentemente de “ter ou não ter alguém” decidir se você realmente deseja correr o risco de se separar de seu marido—não “por causa” de ninguém—, e dar um tempo ao seu coração até que ele se acalme; e quem sabe, assim você possa um dia encontrar alguém a quem você também ame como irmão, mas não apenas como irmão. Todo marido tem que também ser irmão. Mas não há meios de fazer “apenas um irmão” ser marido para uma mulher. A menos que ela sonhe apenas com um casamento fraterno, como a acontece muita gente. Aí, então, é uma questão de “escolha”. Mas quem escolhe tem que segurar o “facho” e parar de ficar vivendo na “ponte dos suspiros”. Seja qual for sua decisão—e lembro: ela é exclusivamente sua!—, não a faça por causa de ninguém. Se for assim e não der certo, tanto você pagará uma horrível conta junto a essa Instituição de Débitos Impagáveis, que é a “igreja”, como também correrá o risco de ficar “culpando” o homem, no caso dele—por razões que são tão variáveis quanto o por do sol em sua matizes—não poder ou conseguir ficar com você. Sobre suas questões, as que você propôs no final de sua carta, eis o que penso: 1. Tem solução para mim? Sim! especialmente se você tiver coragem de ir fundo, até as entranhas da alma. 2. Crê que necessito tratar-me de alguma coisa? Sim! se você puder arranjar um “profissional” que não seja um ser “catequético”, mas alguém que esteja mais interessado em você do que em poder contar que “salvou um casamento” a qualquer preço. Se existir essa pessoa aí perto de você, então, busque a ajuda dela. 3. Crê que o amor é uma decisão? Sim! quando trata-se de amar até mesmo o inimigo. Mas, desculpe e franqueza, “tesão” não é uma decisão. Acontece ou não acontece. As outras formas de amor são decisões da consciência. Mas Deus não decidiu que a relação homem-mulher tenha que ser objeto de “levitação para a levantação”. Amor físico não é visita a Academia de Ginástica—um esforço de levantamento de peso—, e nem exercício de Grande Concentração Mental a fim de que se consiga “levitar” um pedaço do corpo—no caso do homem—, ou ter uma experiência de “sublimação” espiritual, no caso da mulher. Quanto à sua vida com Deus, tenho a dizer o seguinte: Você está vivendo de pulsões que são poderosas no “homem natural”—homo psykicos—e não das decisões do homem espiritual—homo pneumatikus—, e que são tomadas à partir da consciência e não apenas do impulso. A “nova criatura” vai subjugando o “impulso” e incentivando o domínio da “consciência” à medida em que a certeza de que a presente ordem de coisas é passageira vai se estabelecendo em nós. Quando isto acontece o “homem natural” vai perdendo poder de decisão, e o “homem espiritual” começa a crescer, visto que ele discerne que o grande bem da vida é eterno. O que estou dizendo? Que a gente tem que abrir mão de tudo e viver esperando a chegada da eternidade? É claro que não! A eternidade está logo ali, mas já está em mim! Eu, no entanto, tenho de Deus o chamado para ser feliz—mesmo com lágrimas—, aqui também. E essa felicidade passa necessariamente pelo encaramento de nós mesmos e das verdades do coração. O que não posso é me tornar um ser-pura-pulsão. Pois, se assim o fizer e assim me tornar, nunca conseguirei ter nenhum domínio sobre mim mesmo, deixarei que reine sobre mim o império dos instintos; e acabarei por me dissolver no conflito entre a consciência que busca o valor e o significado do amor, de um lado; e as pulsões e instintos que vivem apenas das tesões dos momentos. Mas você é de Cristo. Peça a Ele que a ajude a ser Dele antes de querer ser de qualquer homem. Antes de ser de qualquer homem você tem que ser de você mesma em Cristo! Somente assim você não será escrava de ninguém, nem de seus próprios instintos. Um grande e carinhoso abraço. Nele, Caio Seu irmão de caminho e de aprendizado na jornada da vida!