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Cartas

NÃO CONSIGO SENTIR O INCONDICIONAL AMOR DE DEUS

NÃO CONSIGO SENTIR O INCONDICIONAL AMOR DE DEUS



 

----- Original Message -----

From: NÃO CONSIGO SENTIR O INCONDICIONAL AMOR DE DEUS

To: contato@caiofabio.com

Sent: Wednesday, March 30, 2005 12:48 PM

 

Subject:

 

Vomitando dores, sabe, pouco tempo atrás eu descobri que era como muitos outros crentes, projetava meu pai terreno no meu pai celestial. Foi uma descoberta dolorosa, mas importante. 


O problema é o que fazer com essa descoberta. Eu sempre me senti meio deixada de lado, até porque meu pai já me falou com todas as letras que eu não sou nada do que o que ele sonhou que eu fosse, mas que ele parou de tentar me mudar, porque, pelo visto, não ia adiantar.


Isso foi um alívio e uma facada, ao mesmo tempo. Finalmente ele assumiu, porém... que filha não queria ser o sonho do pai.


Pensando e meditando muito sobre essas coisas, descobri que essa também é a razão por eu ser medrosa desde criança... Eu sempre achei que eu tinha que dar meu jeito de suprir minhas necessidades de carinho e amor, antes que qualquer pessoa me decepcionasse ou pisasse em mim; sei lá... Eu tinha que me preparar, porque tantas vezes eu esperava uma resposta dele e recebia outra.


Outra coisa que eu descobri...eu tinha essa mesma postura com Deus. Eu sempre queria fazer por onde Ele me amar, e sofria; porque eu achava que nunca era o suficiente; por que ele amaria alguém como eu?


Depois, quando eu e meu pai brigávamos (quase sempre), por que Deus deixava ele dizer tantas coisas que me machucavam? Onde estava Ele pra me defender? Descobri que tinha me decepcionado com Deus. 


O negócio é que eu sei muita coisa de Deus, mas não tenho sentido.... isso é apavorante! Eu quero sentir o amor de Pai incondicional, mas não consigo achar que Ele pudesse me amar...; tipo: no dia da volta Dele... e se Ele me rejeitar? Esses sentimentos são esmagadores e aterradores. 


Eu sei que isso tudo tá tão forte porque eu tô passando por um momento muito novo na minha vida... Casei e tudo agora é diferente... mas continuo tendo as minhas lutas com a rejeição que sinto... Eu fiz de tudo pra que o meu cérebro entendesse que eu não queria ficar deprimida, até porque tudo isso é motivo de felicidade (casei!), mas o sentimento de que eu não faço parte da minha nova igreja, e não faço parte da minha antiga igreja... como lidar com a minha família? Como não me sentir esmagada? 


Ontem eu chorei muito... Meu marido ficou comigo orando e me abraçando até de madrugada, até que eu me sentisse calma... foi muito especial...mas eu me sinto envergonhada e frustrada... de novo depressão? de novo a ansiedade? Será que já não era hora de eu me livrar dessas coisas? 


Eu tenho orado muito... eu quero crescer pra fora desse caixinha...já chega... tô cansada! Bem... eu creio que Deus providencia coisas e pessoas pra nos abençoar e esclarecer e interceder por nós...


Obrigada por , pelo menos, ler esse longo e-mail...

Um abraço...


 

Resposta:

 

Minha querida filha: Graça, Paz e Descanso!

 

Tenho certeza que seu pai é um bom cristão, que ama você, e que tentou cuidar da melhor maneira; mas sim que era apenas o modo como ele sabia, como foi ensinado a fazer, e como lhe foi possível fazer, com as luzes que tinha; e, também com os próprios traumas dele, possivelmente com o próprio pai, com a família dele... enquanto crescia como menino, e com a igreja dele; à qual, ele ama; mas, possivelmente, também rejeite, nas muitas opressões que ela tem.

 

A ação de seu pai sobre você me parece ser de cuidado, embora seja um cuidado traumatizado e chateado. Digo isto porque tudo o que ele disse a você deve ser ligado ao que ele acha que uma ‘menina da igreja’, e, sobretudo, ‘filha dele’, deveria ser... isso a fim de que ele mesmo não se sinta aquém do padrão eclesiástico estabelecido. O mal que seu pai lhe fez é o mal dos pais que tentam fazer o que é bom sem saber que estão fazendo mal. É o mal que vem das boas intenções que caminham junto com inseguranças pessoais—as dele; e, muito provavelmente, relacionadas a duas coisas: aos ‘padrões’ da ‘igreja’, e, também, ao medo que ele tem de ver em você as mesmas realizações de comportamento que ele vê em outras moças, ou, ainda mais profundamente, que ele viu nas moças em relação a ele, quando namorava... Assim, hoje, ele tenta fazer a filha ficar livre e longe de meninos ‘como ele um dia foi’; e ele nem deve ter aprontado muito, mas como cresceu na igreja, considera o que fez um absurdo; e como ele deve se dedicar à igreja, tanto não quer ver em você tal comportamento, como também deve temer ser objeto do escrutínio dos outros acerca da educação de seus próprios filhos.

 

O que me parece é que a igreja dele é muito careta e opressiva nessa área, e que ele, mesmo sendo mais aberto, teme ser enquadrado na categoria dos que não criaram bem os filhos. Estou dizendo tudo isto porque conheço esse padrão, especialmente quando é vivido por um pai-bom e que serve a uma igreja que cobra... e que é careta em sua visão. Compreender seu pai é sua tarefa agora. Aliás, ‘honrar pai e mãe’... é entender, medir, pesar, compreender... e, por conta disso, melhorá-los em nós... não permitindo com que as doenças deles nos fiquem por herança. Assim, compreende-lo será a sua própria libertação.

Deus não tem nada a ver com o modo como seu pai trata você, embora a religião o tenha. Mas como Deus e religião nada têm a ver entre si, não misture as coisas também neste nível. Por que você acha que Deus haveria de defender você fazendo uma intervenção numa briga entre pai e filha? Não! Não é assim que a vida é! Se assim fosse, saiba: ainda assim Deus teria outras prioridades num mundo de calamidades tão grandes, e que fazem as suas pequenas desavenças com um pai-bom, embora aflito, se tornarem coisas tão pequenas..., que os grandes angustiados da Terra pediriam para trocar de lugar com você; posto que ficariam morrendo de inveja de que sua vida seja tão legal e tranqüila.

 

Não leve seu pai para a sua cama. Você está casada; e, hoje, seu marido abraça você a noite toda, esperando sua angústia passar. Mas pode ser que se você continuar a fazer assim —deprimindo-se de seu passado, que é feito apenas de trocas de palavras que a magoaram, e que foram impróprias, porém faladas com amor e cuidado—, pode ser que em algum tempo seu marido esteja se cansando. Afinal, ninguém casa para ficar consolando a esposa em relação ao pai para sempre. Há vários cordões umbilicais sendo cortados em você! O cordão dos pais, da família, da igreja, etc. Para o seu bem e para que você se torne madura, é assim que tem que ser. Além disso, não deposite esperanças infantis em nenhuma ‘igreja’. Faça parte, mas não espere a salvação. Igreja não salva nada e nem ninguém. Muitas vezes apenas complica. Sua vida agora é sua e de seu marido. Abrace-a com coragem e viva-a com alegria. Na casa de seu pai, agora, você faz visitas... E não vá lá para chorar e nem para se queixar. Sim, você e seu pai, os dois, precisam amadurecer; posto que ele, em amor, lhe oprime; e, você, em amor, se sente rejeitada por ele. Nada além disso!

 

Com relação a Deus, saiba: Ele é maior! E o amor Dele é Incondicional, a gente creia ou não! Portanto, tudo o que você narrou sobre Deus, nada tem a ver com Deus mesmo, mas apenas com sua pessoal ‘construção de Deus’.... Sim, tem a ver com o Deus de sua confecção psicológica. Esse ‘Deus’ sim, está atrelado ao seu pai. Aliás, ‘Ele’ e seu pai, são ‘um’. Se pai deve ser um homem de Deus—sei que ele é—; mas ele é ele, e Deus é Deus. Assim, uma das tarefas de sua maturidade será separar seu pai de Deus, a fim de que seu pai não faça mal a ‘Deus’ e, também, ‘Deus’ não faça mal ao seu pai ‘em você’. Quando ambas as coisas estiverem emocionalmente separadas em você, então, nesse dia, a maturidade terá dado seus passos mais significativos em você.

 

Além disso... esse negocio de ficar se perguntando por que Deus amaria você... é muito perigosos. Afinal de contas, por que Deus amaria a qualquer um de nós? Somos salvos pela nossa importância diante de Deus, a qual é estabelecida pelo nosso senso de justiça própria? Se formos socialmente ‘os bonzinhos’ Deus nos amará mais? O que posso lhe dizer, sem teologia, mas apenas usando os seus próprios critérios, é que Deus me ama—e disso eu sei até à morte. Ora, se Deus me ama, saiba: ele adora você; pois, a usarmos os seus critérios acerca do que e de quem Deus ama, você está na minha frente em todos os quesitos.

 

Não ponha jamais limites ao amor de Deus! E saiba: o amor de Deus por nós é pura Graça; e, portanto, é inexplicável. A gente apenas aceita pela fé e não discute; e, muito menos, tenta fazer algo que prove que Deus nos ama com ‘razão de ser’.

 

Quanto ao mais, aproveite seu casamento novinho, ame seu marido, curta sua lua-de-mel com muito mel, alegre-se com as novas possibilidades de vida, e não se sinta exilada de igreja alguma, pois, Igreja é a comunhão dos que se amam, e nada além disso.

 

Receba meu beijo e minhas orações!

 

Nele, que é Aquele em Quem sabemos como o Pai nos ama,

 

Caio