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Cartas

MULHER pra quê?

MULHER pra quê?

 

 

 

 

 

 

  

 

  

 

----- Original Message -----

From: MULHER pra quê?

To: contato@caiofabio.com

Sent: Wednesday, June 20, 2007 6:16 AM

Subject: Mulher Pra Quê

 

 

Caio

 

 

Tenho 36 anos. Não sou gay e não quero mulher. Sou solteiro e virgem, mas nunca desejei ter mulher, nem mesmo sexo, e o que me interessa é apenas viver em paz e servir os outros.

 

Tem alguma coisa errada em mim, por eu me sentir assim?

 

Só vejo problemas. Todos se casam e não ficam bem. Por que eu tenho que passar a mesma coisa se não sinto falta?

 

 

Augusto

 

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Resposta:

 

 

 

Augusto: Graça e Paz!

 

 

Foi-se o tempo em que nunca não era bom que o homem estivesse só.

 

Os dias dessa necessidade já se foram; e os atuais não carecem de reprodução humana em massa (não agora) a fim de justificar a procriação a qualquer custo. Ora, isso do ponto de vista da necessidade instintual de reprodução.

 

O que sobra, portanto, é a vontade de encontrar o amor, ter filhos e uma família, a fim de aproveitar o que se tem como sonho relacional.

 

Entretanto, afastada a necessidade de geração e procriação, o que sobre a fim de justificar o casamento é o amor por alguém e o desejo psicológico de ter uma família. No entanto, não havendo tal desejo, não há porque casar.

 

Casamento não é mais uma necessidade como procriação da espécie, nem como sociedade familiar e financeira que garanta a sobrevivência, e nem como obrigação social-cultural.

 

Casamento se tornou apenas uma opção; e isso se for boa. Pois, não o sendo, ninguém deve se casar por qualquer que seja a obrigação.

 

Além disso, tenho que dizer que no meio cristão ou religioso em geral, as pessoas casam por causa de sexo. Casam para transar sem medo ou culpa.

 

Assim, muitos casamentos cristãos aconteceram e acontecem apenas a fim de dar autorização sexual aos que de outra sorte morreriam de culpa tendo sexo sem o vínculo do casamento.

 

É também por tal razão que milhares de cristãos são infelicíssimos em seus casamentos, pois, a permissão para transar nem sempre vem carregada pelo amor.

 

Desse modo, sem ser gay, sem desejo por mulher, por sexo, e por filhos, e não sentindo nenhuma necessidade de companhia para o cotidiano, eu penso que ninguém deveria casar.

 

Esta era a lógica de Paulo em I Coríntios 7.

 

E mais: ele, Paulo, diz que deveria ser assim porque naqueles dias (sob Roma) a perseguição poderia vir a qualquer momento (e veio); e, assim, não haveria sentido em se casar se correndo o risco da separação promovida pelas circunstancias da perseguição.

 

Nesse caso, Paulo diz que o casamento deve acontecer apenas em razão de desejo abrasado ou por circunstâncias favoráveis. No mais, diz ele: “É melhor que todo homem fique assim como eu estou” — sem casamento.

 

Ora, mesmo assim, no caso de dois se casarem, Paulo diz que eles devem ser casados como se não o fossem, a fim de que a eventual dor de uma separação patrocinada pelas circunstancias, não viesse a esbagaçar suas alminhas com o peso da dor da separação involuntária.  

 

Os casados sejam como se não fossem” — diz ele.

 

Assim, meu mano, se eu fosse você, com tudo que sei da vida e da natureza humana, sem que eu mesmo estivesse tomado por amor, nada neste mundo me faria casar nos tempos presentes; e, mais que isto: creio que nas circunstâncias atuais até mesmo filhos eu avaliaria bem se deveria ter, num mundo feio e apocalíptico como este.

 

As pessoas, no entanto, casam-se porque têm que se casar. Sim! Porque casar faz parte do pacote da prosperidade social e da maturidade. Sim! Porque parece um aleijão passar de certa idade e não cassar. Sim! Porque casar também se tornou um atestado de normalidade psicológica e relacional.   

 

Então, tendo dinheiro e idade, a maioria casa; e, logo depois, a gente os vê se desconhecendo como se nunca de fato tivessem se encontrado.

 

Assim, se você está bem, em paz, sem carências, e decidido em seu coração acerca de como você deseja viver (em paz e ajudando os outros), então, digo a você: Não procure casamento.

 

Casamento só com muito amor. E nunca deve ser a primeira opção, mas sim a decisão que se torne inevitável em razão do amor.

 

Ora, mesmo havendo amor é ainda assim a cada dia mais difícil a vida de casado.

 

As almas estão cada vez mais tomadas pelo câncer das carências, pela Aids da inquietação, e pela pneumonia generalizada da angustia e do pânico.

 

São carências e mais carências. Tudo é carência, só Deus é poder.

 

São carentes desejosos de casar porque odeiam ficar carentes. Casam-se e, depois de algum tempo, querem melhorar o casamento porque estão carentes. E, assim, brigam entre si porque os dois, ou um só, está carente. Desse modo, em razão da carência, um deles trai, ou apenas se cansa, e diz que aquele casamento não dá, pois não preenche a carência. Quem sabe um novo casamento? Um novo marido? Uma nova mulher?

 

A carência é o diabo. Carência é a TPM dos casamentos malsucedidos. Carência é o respeitoso indicativo de que alguém deseja outra coisa.

 

Desse modo, mesmo amando, ainda assim é a cada dia mais complicado estar casado, pois, as almas estão muito frágeis e em busca de álibis para suas tristezas não assumidas, o que solapa a estabilidade emocional dos vínculos.

 

Você vê gente que se ama se desentendendo por subjetividades cada vez maiores...

 

De fato, na maioria das vezes, os casamentos vão acabando por coisas que os implicados muitas vezes nem mesmo sabem o que é.

 

“Estou carente...” – “O amor acabou...” – “Ele mudou...” – “Somente agora eu vejo quem ela é...” – “O sexo não é mais o mesmo...” – “Minha mulher só reclama...” – “Meu marido não dá a mínima...” – “Estou com medo...” – “Ai, meu Deus! Ele chegou!”

 

No entanto, nesses casos, o que está acontecendo é o fim da paixão como enfatuamento que se fez presente sem o conhecimento mutuo.

 

Apenas casam-se...

 

Casam-se consigo mesmos. Casam-se com suas próprias projeções. Casam-se com as carências de suas próprias almas; e, depois, acham estranho que seja tudo muito, muito ruim mesmo.

 

Não é bom que o homem esteja só, mas é pior ainda que ele esteja com quem não quer estar, onde não deseja estar, e vivendo uma vida que ele e ela não reconhecem como sendo deles, muito menos comum.

 

Por isso, meu mano, sem um ditado do amor sobre sua alma, não invente para si mesmo dores que somente se fazem valer quando acompanhadas pela imposição do amor. Do contrário, são as piores e mais desnecessárias dores desta vida, e que podem ser evitadas sempre, pois, só vale a pena atender tais chamados quando a convocação é a do amor.

 

É o que penso, segundo o que entendo ter sido a intenção de Paulo ao escrever o que escreveu em I Coríntios 7.

 

 

Receba meu beijo!

 

 

 

Nele, que casou com a Vida e viveu para todos,

 

 

Caio

 

20/06/07

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