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Cartas

MINHA SOGRA, MINHA ANGÚSTIA

MINHA SOGRA, MINHA ANGÚSTIA

-----Original Message----- From: MINHA SOGRA, MINHA ANGUSTIA Sent: domingo, 7 de dezembro de 2003 23:05 To: contato@caiofabio.com Subject: SOGRA EVANGÉLICA... Mensagem: Deus te abençoe, Pastor Caio. Acho que deve ser alguma referência aos filmes que falam sobre a idade média, quando os cavaleiros passavam em seus cavalos, revestidos de armaduras e portavam grandes lanças e outras armas mais originais. Filmes que passavam com mais freqüência na minha adolescência, por isso marcaram as longas cabeleiras desses cavaleiros, que tinham algo de "heróis", como um símbolo de algo "heróico". Essa é mais ou menos a sensação ao ver o Reverendo passar pelo pequeno corredor central do Café, indo em direção ao lugar do pregador, invariavelmente com a cabeleira solta e molhada, como os cavaleiros medievais indo aos jogos ou às batalhas. Com certeza é um devaneio, mas é o que me passa como sensação boa. É bom tê-lo lá nas reuniões. O assunto que me traz aqui é minha sogra. Longe de ser o mesmo enredo de outras cartas com o mesmo assunto, o meu trata da minha preocupação com a exagerada, deturpada ë doentia "religião" evangélica dela e de minha incapacidade e incompetência ao tentar fazer alguma coisa. Coisas do tipo "não vou a churrasco porque a Bíblia proíbe comer carne..." ou ainda "não gosto de quem usa vermelho porque é a cor do diabo..." ou ainda mais "no sábado, procuro não fazer muito esforço, pois a Bíblia ensina a santificar o sábado..." etc. Prisões e algemas que frutificam em uma pessoa com pouca instrução, que não lê nada além da Bíblia (lê e pelo visto não entende), não vê TV, além do programa da Igreja da Graça (acho que é esse o nome), não freqüenta um estudo bíblico, tem pouco discernimento e uma boa dose de egoísmo e carência, colocando-se exclusiva no centro do que a cerca. Somando-se isso à conseqüente limitação de compreensão quando um pastor diz que não é pecado santificar o sábado ou qualquer dia, ou, pior, quando um desqualificado pastor convidado sobe ao púlpito da igreja para dizer que aquele que não consegue trazer sua família, sua casa, para o Senhor, esse não será salvo. Essa última foi motivo de uma semana de depressão, pois dos filhos, 4, apenas minha mulher é convertida. Aparentemente, uma doce velhinha, acredito que com o coração sincero, porém perdida, teimosa, orgulhosa, com uma arrogante e debochada auto-suficiência cristã, com tendência à idolatria pastoral. Minha pouca paciência natural, aliada a uma oportunidade ímpar de desabafar, um pouco que seja, me levou a contestar veemente, até subindo o tom de voz, um destes comentários infelizes, perguntando onde na Bíblia estava escrito isso ou aquilo?!?! Depois me arrependi, tanto pela forma agressiva, que acabei classificando como desrespeitosa (principalmente pelo tom), quanto pela oportunidade que desperdicei de tentar levar um pouco de entendimento àquela cabecinha duríssima. No final, imaginei ela pensando: "Tsic, tsic, Senhor, perdoai-o, ele não sabe o que diz..." Enfim, minha mulher já tentou conversar, centenas de vezes, porém já desistiu, visto a rigidez dos conceitos e preconceitos, me dizendo que não tem jeito, não adianta, é chover no molhado. Às vezes concordo, pois, na minha ignorância e inabilidade psicológica, acho que o evangelho, segundo tenho aprendido, é simples demais para ela, que não suportaria viver sem um jugo, sem uma lei, sem um sacrificiozinho qualquer, que a colocasse como vítima de algum contexto ou episódio. É mais ou menos a mesma situação se eu tivesse me convertido agora, com minha mulher, e minha sogra fosse católica, espírita, budista, ou qualquer outra coisa, e eu estivesse com problemas para "evangelizá-la". É pior do que isso, pois o fato de ela ser "evangélica" invalida a tradicional atitude nestes casos, que é dar testemunho de vida, pois vivendo diferente dela, pertencendo à mesma Igreja, eu estarei é me desviando, essas coisas loucas. Pior é que freqüentamos a mesma igreja, e lá não se pregam essas maluquices, é coisa das amigas do grupo de oração dela e da própria cabeça. (Acho esses grupos um perigo, pois a autonomia, mesmo que controlada, dá poderes que mal empregados provocam estragos enormes, às vezes irreversíveis.) Eu queria fazer algo, além de orar, mas não sei o que. Talvez seja melhor não fazer nada, pois muito ajuda quem pouco atrapalha, mas me incomoda, pois acho um desperdício a boa-vontade dela ser jogada fora. Já pensei em levá-la, como quem não quer nada, no Café, mas acho que ou ela não entenderia nada ou se escandalizaria com o que entendesse. Enfim, novamente, como posso ajudar minha sogra ou como posso ajudar-me a ajudá-la? ****************************** Resposta: Meu amado amigo: Que a Paz que excede à toda aflição de sogra encha seu coração e sua mente em Cristo Jesus, o nosso Senhor! Eis aí tua mãe! A única coisa que você pode fazer é honrá-la. Honrá-la como quem honra pai e mãe. O interessante é que “honrar”—lá do mandamento de Êxodo 20—equivale a “pesar, medir, avaliar, entender, discernir”. Ou seja: honrar pai e mãe é discerni-los a fim de “melhorá-los” em nós. Jesus não perdeu tempo com os viciados pela religião. Tratou a todos com bondade, mas estrategicamente não investiu seu tempo neles, exceto naqueles que o procuravam desejando aprender. Ele nos diz que não se deve tomar um pano de uma veste nova e cortá-lo a fim de que se faça um “remendo numa veste velha”. O tecido antigo ficaria puído e não se adequaria à textura e ao tecido novo, vindo a rebentar-se. Assim, a veste nova ficaria com um rombo, e a velha nada lucraria. Ele disse a mesma coisa acerca do vinho e do odre. Se se põe um vinho novo num odre velho, o processo de fermentação do vinho novo haverá de romper o couro viciado do odre velho, e que já havia se tornado “um” com o velho vinho que nele havia sido curtido durante anos. Assim, diz Ele, vinho novo demanda um odre igualmente novo e não viciado. Forma e conteúdo precisam corresponder um ao outro. Do contrário, é grande o desperdício. E tem mais: Jesus disse que ninguém que tenha se acostumado com o vinho velho conseguirá dizer que o novo é excelente. Eu tive uma vozinha exatamente igual à sua sogra. Uma santa em sua ignorância. Meu pai diz que provavelmente não se converteu antes porque a “Mãe Velhinha” não deixou. Os ataques de santa ignorância eram tão absurdos—e no pacote tinha tudo o que você mencionou acerca de sua sogra—, que papai se irritava tanto que não conseguia nem ouvir falar em crente. Minha sugestão é a seguinte: 1. Não discuta com ela. Deixe-a em paz em seu próprio desespero religioso. 2. Cale-a pelo grito da consistência de seu silêncio de palavras e mediante as veementes afirmações de sua vida em Cristo: cheia de bondade, misericórdia e graça. 3. Convide-a para ir ao Café, mas não a previna, nem para o bem e nem para o mal. Deixe que ela vá. Deus é soberano e pode falar com ela. Além disso, ela não vai ver e ouvir nada lá que não seja o Evangelho. E se porventura ela não gostar, não defenda o Café e nem implique com ela. Deixe que ela tenha a sua própria opinião. A analise que você fez é perfeita. Uma vez que as pessoas se acostumam com a religião e suas regras, tornam-se impossibilitadas de experimentar o Evangelho da Graça de Deus, pois, ter consciência pessoal e liberdade de consciência, é algo assustador para a maioria das pessoas. O espírito pagão—esse que cultua pastores e demanda leis e normas que garantam uma mecânica funcional para o mundo do espírito—, predomina também no meio cristão. A atitude religiosa dos cristãos não é em nada diferente da atitude religiosa dos pagãos. Onde há barganhas a fazer com a divindade, e onde quer que a Liberdade em Cristo não seja apropriada, o que aí existe, pode até ser feito em nome de Jesus, mas ainda é algo pagão. Portanto, não se aflija. Ela muito dificilmente dirá que o vinho novo é melhor! E mais: é muito mais fácil converter budistas e umbandistas ao Evangelho da Graça, do que levar um evangélico viciado na presunção do moralismo religioso a experimentar aquilo que é conquista de Jesus para nós na Cruz. Infelizmente isto é verdade! Para mim, quando se trata de evangelização, hoje em dia, não vejo no Brasil campo missionário mais difícil que a “igreja”. Isto porque a presunção da “igreja” a joga dentro daquela Síndrome de Nazaré. Quanto mais as pessoas se sentem da família, menos chance têm de enxergar o profeta. Uma das ironias de Deus é esta: “Fui achado por aqueles que não procuravam por mim”. Assim, Deus põe os da “família” em ciúmes com aqueles que são “insensatos”—leia Romanos 9-10—a fim de que ninguém se glorie. Sei que dói ver o desperdício, especialmente porque não se está falando de “salvação”, mas do usufruir da vida de um salvo ainda nesta Terra de Dores. Há um ditado português que diz assim: DOS HOMENS QUE CONHECÍ, SÓ ADÃO TEVE JUÍZO CASOU COM MULHER SEM MÃE E VIVEU NO PARAÍSO Aqui na terra—fora do Éden—,tereis sogras. Mas tende bom ânimo: eu curei a febre delas—diria o Senhor brincando com Pedro. E meu Senhor tem bom humor! Portanto, calma. A maioria de nós tem uma sogra na carne a fim de que não ficarmos soberbos com a grandeza das revelações! (rsrsrs). Vejo você no Café. Obrigado por tanto carinho e confiança. Nele, que criou Eva, a primeira sogra, Caio