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Cartas

MINHA SEXUALIDADE ESTÁ UM CAOS

MINHA SEXUALIDADE ESTÁ UM CAOS

-----Original Message----- From: MINHA SEXUALIDADE ESTÁ UM CAOS Sent: sexta-feira, 13 de fevereiro de 2004 08:55 To: contato@caiofabio.com Subject: FICO IMPOTENTE Mensagem: Meu pastor... O que aqui está registrado, está sob tremenda angústia. Leia com calma e não se sinta pressionado a responder de imediato. Deus sabe quando e o que deve ser feito. Sempre ouvi falar a seu respeito. Sempre. Cresci em um lar evangélico, mas confesso que embora freqüentasse a igreja sempre me mantive fora de muita coisa; tipo, as turminhas de crianças quando criança, as de adolescentes quando adolescente, razões de afinidade mesmo, uma clausura mental que vc vai entender no decorrer da carta. Até hoje quando aos trinta e cinco anos esse processo de falta de envolvimento social e outras coisas que falarei adiante me colocaram onde estou hoje, “ fora”. Mas nem por isso fui um excluído no sentido de não trabalhar dentro da igreja. Durante alguns anos eu auxiliei o dirigente da igreja, onde moro há 20 anos. Ajudava na organização e sempre que ele me pedia eu pregava nos domingos á noite. Não me considero um “aéreo” que passou superficialmente pelo evangelho e por dois motivos: primeiro eu sempre gostei de ler, leio tudo que cai em minhas mãos. Graças a Deus tenho um conhecimento sólido da palavra que não me permite viajar em muito modismos de ontem e de hoje. Toda minha família por parte de mãe é evangélica ou no mínimo evangelizada, começando pelo patriarca que é meu avô, que mora no interior do sudeste e é crente há mais de 50 anos. Lembro que quando o vi pela primeira vez foi numa entrevista sua dada num programa de televisão. Mas quando vc conversava eu sabia que havia algo de diferente, algo que comunicava com a inquietação que eu sentia diante das “ coisas” da igreja, mas que por ingenuidade ou medo nunca eram proferidas. Vc me causou simpatia imediata. Eu sabia que vc era mais “humano” como crente do que os referenciais pastorais que eu vi e ouvi durante minha vida toda. Vieram aquelas coisas com vc...mas eu nunca tirei meu interesse, nem questionei... Eu sempre soube, embora ás vezes derrape, que Deus nunca nos verá como nos vemos, nem como os outros nos vêem. Eu nunca escrevi uma carta antes. Perdoe o jeito maluco, a formalidade nervosa, os assuntos entrecortados e a extensão disso tudo. Vc não imagina o esforço que é botar tudo isso pra fora. Eu sempre tive muita fé em Deus. Essas coisa começam desde pequeno e vão desde as construções infantis do “ céu de ouro” e coisas assim até o amadurecimento , tanto meu quanto dos conceitos que me foram apresentados. Eu nunca duvidei que pertencesse a Deus. Minha leitura da palavra me instigava a vê-lo mais e mais por trás de cada coisa da natureza, da vida, sabe? Sempre balanciei isso com outras leituras, desde quadrinhos, até clássicos da literatura brasileira. Isso meu deu uma percepção “filosófica” e sólida do evangelho. Mal eu sabia que essa dedicação me custaria caro. Eu sempre fui pouco sociável. Meu pai saiu de casa quando eu era pequeno. Dos irmãos eu era o que ficava mais tempo em casa, junto de minha mãe, sem ir pra canto nenhum que não fosse a igreja, desenhando e lendo... Por essa razão tudo que eu tenho aqui dentro da cabeça não veio de fora, num certo sentido, mas foi criado aqui dentro, as idealizações, os conceitos, as vontades e principalmente as culpas. Eu comecei construir isso quando minha adolescência biológica chegou e meu raciocínio ainda nem queria saber de garotas. Você sabe que na “ igreja” pecado é sexo e vice versa, a única coisa que um adolescente, virgem, crente, inseguro e imaturo poderia fazer era tentar suprimir as “ sensações demoníacas”. Tudo em vão. Quanto mais se proíbe mais se quer, e o que é pior, se quer sem limites. Eu me via desejando desde garotinhas pré-adolescentes que mal começavam a formar os peitinhos, até mulheres solteiras ou casadas. E tome masturbação todo dia, numa explosão desenfreada, confusa, doentia e castradora da alma. Novamente tudo na cabeça. Não havia nenhuma ação efetiva, embora mesmo assim eu me sentisse culpado de tudo. Tijolos de culpa. Eu tentei sair do claustro, tentei arranjar uma namoradinha pra aliviar a pressão, mas uma das muitas percepções do evangelho que me pregaram era que: o mundo não presta. Sua cultura não presta. Seu desejos( sexo principalmente ) não prestam, suas mulheres não prestam porque são ímpias ( jugo desigual), crente é povo escolhido, é santo, é puro, em suma, deve se abster de sua humanidade. E o que acontecia? Eu não saia, criava uma M.. de uma defesa psicológica horrível contra o “ mundo” e sua experiências, estas tão necessárias naquela fase delicada de minha vida... Mas a cabeça continuava trabalhando, e tudo que eu espremia saia pelos dedos, ( desculpe o trocadilho!!) Eu orava sem cessar, pedindo a Deus que me controlasse. Aos 18 anos eu adoecia de depressão sem que ninguém soubesse em casa, porque havia me masturbado apenas dois dias depois da oração de arrependimento. Essa ciranda psicológica me acompanhou durante toda a vida até os 27 anos. Eu clamava com força na alma ( e vc nem imagina a dor na alma quando fazia isso!!) para que Deus acabasse com minha libido porque eu não agüentava mais essa montanha russa. “Se eu tiver que viver em pecado por causa disso, apaga qualquer desejo meu!!”—era minha oração... O tempo passa. Eu até tive uma namoradinha do colégio, quando tinha 15 anos, mas eu era um puto de um molecão e não gostava dela, sei lá. Ficamos um mês juntos, porque eu queria mais jogar bola do que namorar. E foi ela quem se interessou por mim, coisa de adolescente. Mas os turbilhões que eu contei acima ainda não haviam começado, não aos 15. Eram só gênese... Mas ai..? Bem, aos vinte e poucos anos eu ainda era o mesmo doente que se masturbava e se adoecia, criando expectativas agora mais sólidas por causa da idade. “ eu tenho vinte anos, Meu Deus!! será que vou brochar quando transar pela primeira vez? Será que vou acertar o buraco? ( acredite nisso!!) será que vou ser homem pra ela??. Paralelo a isso eu desenvolvi um perfil de mulher enviada por Deus. Sim porque , estávamos no auge da era do avivamento, dentes de ouro, gente caindo, missionários soprando e jogando paletó!! E as muitas profecias. Isso solidificou muita coisa dentro de mim porque junto a essa doença em minha mente eu tinha certeza que Deus me enviaria uma “ adjutora”, uma mulher que fosse perfeita, que me salvaria porque eu de fato iria amar como se fosse minha própria alma. E nesse ponto faço questão de frisar eu nunca achei que fosse exagero, porque era isso que eu queria mesmo, uma mulher que me arrebataria, me amaria e me entenderia como ninguém..., só que, o tempo passava.., as coisas se aprofundavam e o mais próximo de uma namorada que eu encontrei nessa idade foi uma crente ( a primeira) que aceitou namorar comigo mais por causa da minha “ inteligência” do que por ter causado qualquer outra coisa. Namoramos 15 dias. Nessa altura do campeonato as paranóias já tinham dado frutos terríveis, desde a insegurança comigo mesmo, por não me achar interessante, passando pelo sofrimento de segurar meu desejos e por fim a ansiedade de encontrar alguém o mais rápido possível, afinal eu era um homem de vinte anos. Eu me sentia atrasado... A parte mais negra disso tudo se desenrolou...quando comecei a entrar na internet. Vc sabe meu pastor que aquilo é uma universo de possibilidades e perdições, de luzes e trevas. Eu comecei em bate papos, conheci garotas, trocava fotos, telefones, conversava e conversava e ..conversava.?! Só. Mas não sei como nem porque em algum momento os sites eróticos apareceram ( inevitável). Eu comecei a sentir interesse até por travestis. Nasceu sem eu saber e nem entender. Como? Porque? Eram as perguntas que eu me fazia todo dia, dentro daquele processo que se iniciou na adolescência. Não sei..., pastor, diante de Deus faço uma declaração, eu nunca senti em momento algum de minha vida, atração por homens, nunca. O que posso lhe dizer é que lá pelos 18 anos, durante um período de alguns meses, não sei como, eu comecei a me masturbar e a me sodomizar om as mãos, como um meio de “expandir” as possibilidades de desejo reprimido que sentia, coisa de sensação mesmo. Na época eu não sabia porque e morria de pânico de descobrir que talvez fosse homossexual. Mas bastou alguns meses e tudo foi esquecido, como se nada tivesse acontecido. Nem eu nunca tive desejo por homens ou adolescentes, não sei o que foi isso, se vc tiver alguma explicação? Continuando, ai veio a net e os travestis. Foi aí que eu vi que precisava arranjar uma mulher, precisava descobrir, porque, apesar dessa maluquice toda eu ainda desejava mulheres. E pra isso eu teria que burlar e esquecer os conceitos da fé, de que só se pode transar no casamento e blá, blá, blá..., mas eles estavam lá dentro, estão. Foi nessa época que eu comecei a me afastar da igreja. Eu me sentia culpado. Tinha medo de errar e fazer as pessoas errarem tb. Gente pobre, pastor, “ ignorante” , eu não podia... Foi então que conheci minha mulher atual. A história dela eu vou tentar resumir. Ela é do interior do estado de Goiás. A família toda mora na divisa do estado com o Mato Grosso. São gente simples, que cuida da terra e das fazendinhas de gado e galinha. Ela é muito apegada a eles, mas quando era adolescente, acredite, foi prometida a um parente distante...pra se casar com ele. Ela não queria, mas chegaram a ficar noivos. Ela tinha 17 anos quando perdeu a virgindade com esse sujeito. No que ela me definiu mais tarde como sendo “ a força”. Ela chora ao se lembrar dessas coisas. No interior de Goiás os mais velhos tem uma autoridade estranha sobre os filhos. Não que o pai soubesse disso e consentisse, pelo contrário, o casamento foi reforçado quando ele descobriu que sua filha tinha transado antes. Ele é muito correto e gosto muito dele. Resultados: Ela foge escondida pra capital, Goiânia. Passa a morar em casa de conhecidos, pulando de lá pra cá, arranjando bicos pra pagar o aluguel e sobreviver. Passa ao longo dessa vivencia a ter relacionamentos esporádicos, não consegue se manter com alguém, a não ser um rapaz, desses crentes que só sabem ir na frente da igreja tocar e depois sair, que ficou com ela um tempinho, lhe dando esperanças e depois a descartou, deixando um estrago nela...algo que a deixou com muita culpa...até hoje...creio que daí vem a inconstância afetiva dela. Embrutecimento...creio eu. Nesse momento eu apareço. Dou em cima e estranhamente não sou rejeitado. Ela aceita. Namoramos dois meses. Eu tento realizar o que tanto queria, afinal ela é linda, finalmente depois de anos fantasiando... Broxo. Meses de tentativas. Ela , seguindo sua trilha de inconstância vai embora. Eu desmorono... Aqui agora eu te conto meu pastor a cerne de tudo. As dores que senti, a frustração, a raiva, o medo da solidão, o fracasso como homem. Pense em tudo isso explodindo de uma só vez. As sensações de prazer e afeto contidas dentro de mim e que reservei finalmente pra alguém foram todas lançadas fora. Só que desta vez as coisas eram reais e machucavam mais que as mentais. Eu me destruí nesse período, foi quando comecei a beber muito, e a querer morrer, mas paralelo a isso eu me lembrei do único que eu poderia apelar... Orei e pedi que ela voltasse, Muito!!! Confesso que aqueles foram os meses em que mais chorei..., também não podia ser diferente..., minha sensibilidade estava á flor da pele. Nesse ínterim, ela tenta namorar outro cara. Ela quer. Ele não. Tanto que ao pensar tê-la engravidado em apenas uma semana de namoro, lhe sugeriu que ela tomasse remédios pra abortar. Felizmente ela não estava grávida. Eu não sei, isso só serviu pra fechá-la ainda mais. A gente da terra dela é muito fechada, tipo, não expressa o que sente , não se abre. São passivos ao extremo. Tanto que vc vê que ela fugiu de casa e eles não fizeram nada pra trazer de volta. Não entendo como isso pode ser assim. Seja como for. Quando ela chorava sozinha, quando mais precisou de alguém eu apareci, (porque já andava como um órfão atrás dela)...eu a amava muito, pastor, tanto que a aceitei de volta, mesmo dentro de mim havendo insegurança, sentido de traição por que ela ficou com outro um mês depois de mim, medo de ser traído porque ela foi logo buscar sexo, coisa que eu não havia dado..., enfim, vc sabe o que se passa na cabeça de um inseguro. Ela é tão confusa... Ficamos juntos, eu a trouxe pra igreja porque acreditei muito que Deus estava no controle de tudo. Eu queria e quero acreditar nisso hoje. Noivamos. Casamos. Faz quatro anos. Quatro anos em que minha incerteza, ciúme e insegurança me brocham com ela...E as que acontecem minha mente está o tempo todo trabalhando, me fazendo me comparar com outros, me sentindo obrigado a ser, a provar alguma coisa. Todas as vezes é como se fosse a primeira vez. Eu me travo por completo mesmo ela tentando me acalmar, tentando criar uma situação. Só que na maioria dos casos ela não tem paciência porque nunca lidou com isso antes. Ela não sabe, então se vira, se torna grossa, e isso me assusta. Eu me sinto assustado!! E acuso. Ela se fecha, chora quando discutimos e quando jogo na cara dela as experiências traumáticas dela com outros homens, digo que ela é resultado de problemas internos que ela não quer resolver. Digo isso porque ela é bem pouco afetiva, entende? Tipo, uma carícia, um beijo, um olhar. Isso quase não acontece, é como se ou ela não gostasse realmente de mim, ou tivesse medo de se abrir pra alguém, eu acredito mais na segunda opção, porque fiz análise pra tentar tratar essas paranóias. Ele disse que eu tenho problemas relacionados com minha mãe, não sei como pois sempre me dei bem com ela. Sem mim ela nunca entraria em um consultório psicológico, tanto que só foi uma vez porque pedi insistentemente pra ela se tratar tb, mas ela começou a dizer que o trabalho não dava tempo e deixou de vez. Não toco no assunto dos traumas sexuais dela, nunca o fiz porque eu não sou maluco de lobotomizar a cabeça dela ainda mais. Mas quando ela se lembra disso sempre chora, e muito. Já houve casos em que ela se chamava de pervertida. Eu já chorei muito...sabia? mas minhas loucuras já me lavaram pra longe demais. Ela se fecha tanto que há quem diga que ela não gosta de mim. Eu mesmo já pensei isso várias vezes, penso que ela está comigo por que cansou de “ficar” e ser infeliz, cansou de estar sozinha na capital, tomando pancada e desprezo enquanto os parentes estão no interior de Goiás, como já disse. Mas das muitas vezes em que discutimos isso ela disse que não é verdade, disse que está comigo porque gosta, não por imposição pessoal , porque se quisesse sair já teria saído como da outra vez, quando ela mesmo terminou o namoro. Mas eu nunca acredito, e já a feri tanto com minhas suspeitas que ela já me disse que o sentimento que tinha por mim morreu. Eu a machuco quando a acuso de estar se interessando por outro. Mas te confesso pra minha vergonha que eu nunca vi nada disso, nenhum indício real. É alguma coisa que me faz acreditar nisso, a fantasiar, a ceder e a estourar. Ela diz que não agüenta. Eu vejo o fim. Eu joguei tudo fora!! Estou tonto. Desorientado, confuso. Choro muito quando falo essas coisas e estou chorando agora..., muito. Tenho medo de perder. Tenho medo de tudo. Eu quero morrer. Estamos a 6 meses sem relação porque a coisa piorou muito. Nossa relação está se deteriorando a passos largos. Não sei..., se ela me amasse ela seria diferente, eu acho. Não desistiria tanto e tão rápido assim...será que não me ama? O que vai ser dela sem mim por perto pra protegê-la? Vai entrar naquela ciranda maluca de novo? Se esvaindo e se diluindo? Pra depois chorar ás escondidas? E eu? Meu descontrole já me levou a ir pra cama com prostitutas pra ver se consigo ser homem, pra ver se aprendo alguma coisa.., que estupidez. Essas coisas já aconteceram, não foi uma prática contínua minha, mesmo porque eu não consegui transar com as putas nas duas vezes em que fiz isso. Eu chorei. Até com um travesti eu já fui, numa estranha “ recaída” que me encheu de culpa e dúvida sobre minha sexualidade, pra depois me fazer sentir nojo de mim, nojo de sexo. Mas não fiz nada também, estava bêbado e não rolou nada além dele tomar meu dinheiro. Eu não estava lá..., eu não funciono assim, pastor, eu tenho que confiar pra ser.., entende? Fico pensando se eu sou homem suficiente pra ela, se dentro daquele silêncio dela ela me vê como um fraco, um inútil, se me quer ver pelas costas... Já tivemos bons momentos juntos. Pouquíssimos, mas tivemos. Agora há só dor e medo. Minhas principalmente. Ela está calejada da dor, se estiver morrendo por dentro não passa pra fora. Só esse babaca aqui que chora feito um bebê..., meu Deus, eu tenho 35 anos! Quando ela tira a roupa eu tremo..., de desejo e incapacidade, de ansiedade..., é como se eu não estivesse lá. Eu não sei o que fazer. Já escrevi demais, já falei demais, mas eu precisava. Eu relutei muito te escrever com medo da resposta, meu amigo. Mas nessa altura do campeonato... Vc disse que Deus não “ acessa” pessoas que não queiram ser acessadas. É um software divino educadíssimo. Então isso quer dizer que eu não posso orar mais..? tipo, se Ele não quiser isso não se ajeita? O que vai ser de mim??? Essa carta esta muito bagunçada, tanto que se vc prestar atenção...o tom mudou do começo para o fim. Se vc tiver dúvidas com alguma coisa me peça pra resumir tudo com mais calma... Estou chorando muito... Desculpe te alugar tanto... ME AJUDE!! *************************************************** Resposta: Meu querido amigo: também chorei com você! De fato você me pegou num dia muito emotivo. Aliás, estou emotivíssimo desde a semana passada. Choro sem sentir...quando vejo está escorrendo...e nem sempre é tristeza...é puro derrame da alma. Periodicamente vivo estações de “desgelo”...os trópicos de minha terra original derretem os gelos formados pelos ventos das terras distantes...então...minha alma escorre...derrete o gelo com o calor das emoções que precisam sair... a fim de semearem a primavera em mim. Então, chorei com você! De sua narrativa tão verdadeira—das mais verdadeiras que neste site já foram escritas—ecoou mais forte em mim o seguinte: 1. Você se dar tão “bem” com sua mãe chamou minha atenção como declaração sua, uma escapada ante o comentário do terapeuta. Desde menino você vive com ela. Seu pai se foi...Sua mãe ficou. Ora, eu também me dou muito “bem” com meu pai. Tão “bem” que poderia não ter me feito bem. Creio que poucos filhos têm a profundidade de relação humana e espiritual como a que tenho com meu pai. Aleluia. Sou mais que grato. Todavia, creio que Deus nos afastou—contra a minha vontade e a dele—em 1981 a fim de que de tanto que nos dávamos “bem”, não nos fizéssemos mal. Nossa separação aprofundou o nosso amor, mas nos forçou a termos que nos amar de modo menos simbiótico, o que poderia não nos ter feito bem. 2. Sua mãe e a igreja se misturam em sua cabeça. Ambas são figuras femininas “broxantes”. Sua mãe é ou era mulher de seu pai...e seu pai se foi...ela não segurou seu pai como mulher...Já a igreja é noiva de Cristo. O interessante é que todo o seu trajeto infantil parece ter sido entre a saia da mãe (deixada pelo seu pai) e o véu da igreja (que é noiva de Cristo). Com a mãe o sexo é incesto e monstruosidade. Na igreja é pecado. 3. Você também sempre sofreu entre os pilares morais e dogmáticos da igreja, e desenvolveu um desejo essencial de discordar do instituído e não explicado, como é natural. Só que em você o grande dogma era o sexo. Tanto é que você disse que a coisa toda na igreja se resume a sexo...e é verdade...mas em você isso bateu como algo profundamente problematizante. Foi a sua resposta. Resposta essa que hoje continua a desejar ser dada como forma de auto-boicote ao seu próprio direito de experimentar o sexo como prazer, e não como angustia pecaminosa. 4. Ora, tendo o transfundo do tipo de sexualidade condicionada pela saia da mãe e o véu da igreja, e tendo a mente em estado de permanente conflito quanto a sua traição interior em relação às confissões da mãe-igreja-igreja-mãe, você iniciou um processo de formação de um abismo entre o seu consciente e o seu inconsciente. Você mesmo falou da relação estranha que você tinha que ter com o “mundo”. Ora, é nessa fenda que as neuroses e paranóias se instalam. O conceito de "mundo", mal compreendido, é uma usina de doenças para a alma...pois, em tal equivoco, a própria existência no mundo é pecado. 5. O menino cheio de fantasias...que não sabe como é o mundo...que como o Buda nunca saiu do palácio...sabendo do mundo por leituras...mergulha na subjetividade. A imersão na fantasia sexual foi o mergulho no único mundo disponível. O mundo, meu amado, é inevitável...pois ele é em nós...em nossa carne...em nossas pulsões...Daí a oração de Jesus não ter sido para que fossemos tirados do mundo, mas livres do mal; afinal, o mundo não é o mal...mas o mal está no mundo...e o mundo nasce em “nós”. Embrora "eu" não seja o mundo, ele é feito de "nós", da soma de nossas consciências e inconsciências. 6. O mergulho na fantasia foi proporcional à subjetividade de sua existência. Nada mais, nada menos. E sua indefinição sexual está de acordo com o “limbo” no qual você cresceu. A prova disso é que indo atrás de sua hoje esposa, você disse que não agüentava mais a “orfandade” na qual ela o colocara. Essa palavra me chamou muita atenção, pois abre a porta para uma terrível "projeção" das neuroses relacionadas ao sexo, condicionadas e fomentadadas na "sombra" que em seu insconsciente é bastante composta de sua mãe e da igreja; digo: não de sua mãe real, nem da igreja real, mas das figuras maternas, assexuadas, que ambas representam em você, e que em sua "orfandade" foram inconscientemente projetas sobre a sua mulher. A mulher que você deseja, existe; a que você não toma porque broxa...essa é a projeção. Você deseja a mulher real e broxa diante da projetada...que é mãe-igreja...o feminino está no caminho do proibido e do broxante. 7. O problema é que todas essas coisas têm vida própria na alma, e além disso, também têm seu próprio preço, e que sempre é cobrado. Por exemplo, sua paranóia com relação à traição vem de sua imensa capacidade de criar, associada à sua incapacidade de confiar. Sua raiva das histórias sexuais de sua esposa é proporcional a duas coisas: sua capacidade de sodomizá-la nas relações dela com os outros...nem tantos..., até porque você fantasia suas relações sexuais assim...e assim “projeta” as suas, nela; além disso, você fica com uma raiva do tipo da do “irmão mais velho do filho pródigo”: fica com ódio nunca ter ido, e com mais raiva ainda de quem foi...então você não entra em nenhuma “brincadeira”...você boicota a festa...e odeia quem está tendo prazer. 8. A impotência que você desenvolveu é totalmente paranóica. E isso você tem que saber. ( “Será que sou homem para ela?”Será que ela está lembrando agora como com os outros era melhor?”) Além disso, há uma seqüência de falas suas nas quais você transfere toda a responsabilidade para a sua mulher. Tipo: se ela gosta de mim, por que perde a paciência? Por que não ajuda? Por que não “ataca”? Por que não me “força”? Ora, sem querer você vem deslibidizando a sua relação com sua mulher. Ela já foi de outros—“...sabe Deus como?” é sua paranóia!—; ela muda de sentimento muito rapidamente; ela não gosta de mim; meus “amigos” acham que ela não gosta de mim; etc...Bem, meu amigo: Eu acho que ela é uma heroína. Olhe, a única coisa que essa menina quer é que você pare de psicologizar as suas dores e parta para coma...e a tome como um javali no cio. Só isto. 9. Se um homem vai para a cama com a sua mulher...e começa a pensar como teriam tido relações sexuais aquele (s) com quem ela já esteve na vida, antes de conhecê-lo...então, há duas possibilidades: ou ele broxa, ou ele passa a fantasiar...seja no papel do mais gostoso, seja no papel do voyer...que fica vendo os “outros” traçarem a bichinha; ou seja com raiva...maquinando o que fará com “outras” como vingança. Não se foge muito desses scripts. 10. Agora, mesmo correndo o risco de ser mal interpretado—mas eu não ligo; Deus sabe que quero ajudar a quem quer ajuda—, vou dizer a você algumas coisas que julgo serem práticas o suficiente para iniciar uma saída desse buraco. 10.1. Você tem que ir pro tudo ou nada. Ou seja: se você re-ler a sua carta você verá que tudo o que existe é uma montanha de subjetividades. Seu mundo é quase todo subjetivo. Não houve menção de quase nada objetivo. São sentimentos e interpretações—que às vezes ficam neuróticas; outras vezes completamente paranóicas. Então, aparecem as “verdades” intangíveis...e que crescem como “direitos”, “certezas”, e “realidades”. Então, do nada, vem a desconfiança...o medo...um sentimento de que se dorme com o inimigo, no caso, com a “inimiga”, a traidora em potencial... Ora, não há vida conjugal que sobreviva a tamanha subjetividade. Sua esposa deve andar apavorada...sem saber quem virá para a cama com ela. 10.2. Ir pro tudo o nada significa que você vai ter que confiar. Vai ter que deixar de interpretar. Vai ser humilde pra poder ser macho. Vai ser sincero pra poder ser homem. Vai ser bicho pra poder ter uma alma em seu favor: a sua. E terá que saber que a mulher que broxa você não é menina-mulher com quem você casou, mas as duas "viuvas" com quem você já estava casado psicológicamente: sua mãe e a igreja. 10.3. Ora, tomar atitudes nessa direção--digo: do tudo ou nada--implica em confiança. Você vai ter que confiar na sua esposa como um menino confia noutro menino. Você vai ter que aprender a “fazer sexo” com ela. Vai fazer como as crianças fazem: elas descobrem...vão vendo como é...abrem pra olhar dentro...sentem o cheiro...se excitam com a entrada naquele cantinho secreto...E, para que seja assim, vocês dois terão que aprender a brincar, a dançar...Sexo, meu amigo, feito como sexo, é muito complicado e sem graça...se não começar como brincadeira...ou como agressão de bichos famintos...que se devoram sem se destruir. 10.4. Sua mente tem que parar. Sua cabeça superior tem que ficar burra, e sua cabeça inferior tem que ser toda sentidos e mágica. Sexo é santa lascívia...quando é feito com amor e confiança...e sem uma boa dose disso não fica gostoso, apenas funcional. Sem lascívia...não dá...especialmente no casamento. Casamento sem lascívia é como taça de vinho sem vinho. Ou seja: tem que haver esse “privilégio” especial da “invasão” e da “apropriação privilegiada”...sem isso não haverá jamais sexo excitado...de guerra e guerreiro...de santo e pecador...de bicho e anjo. É aí que nasce o desejo que se renova. Ou seja: você tem que aproveitar aquele bicho desejoso que cresce em você quando você a vê tirar a roupa, e partir pra dentro, sem pedir licença...com toda volúpia. Meu amigo, não seja politicamente correto...e nem fique nesse joguinho: ...se ela quiser, eu quero também...” O jogo é outro: ...ela vai gostar de querer...e vai gostar tanto que não vai nunca mais saber passar sem ter... 10.5. Sua culpa tem que acabar. Você sabe que Jesus morreu na Cruz, também, para que seu sexo não tivesse nenhuma culpa. A Cruz também nos liberta para termos sexo bom, pleno e abundante. Agora chegou a hora da abolição do pecado na Cruz ser em seu favor na cama. Meu amigo...entrará e sairá e achará pastagem...é assim com tudo quando a gente entrou pela Porta. 10.6. E agora, um papo de homem. Cara, você vai pegar a sua mulher e vai enlouquecê-la de alegria. Com calma e com ardor. Com volúpia e paciência. E você não vai pensar em mais nada a não ser em como usufruir da melhor maneira possível essa viagem de graça e prazer no corpo e na alma de sua mulher. Você vai ensinar a ela a ser “sua mulher”. Você vai “fabricá-la” para você mesmo. Vai torná-la carne de sua carne. E chega de subjetividades. Quando você for objetivo sexualmente com ela, você verá que era tudo que ela estava querendo. Há milhões de desencontros que são resolvidos na cama, entre gemidos, prazeres, dores deliciosas, aflições adocicadas. 10.7. Quanto às demais coisas, sinceramente, elas são apenas o derrame de um inconsciente reprimido há 30 anos. Vaza mesmo. É como polução noturna acompanhada de sonho erótico: não respeita pai, mãe, irmã, tia, nem avó...o inconsciente não é moral...ele é verdadeiro. Ora, isto significa que nem tudo o que se derrama do inconsciente é a necessidade objetiva dele, mas sim a simbolização do tipo de necessidade que ele tem. Exemplo: há pessoas que já sonharam transando com a mãe, o pai ou a irmã ou irmão. Incesto! É o grito externo da moral. Infantilidade emocional e sexual! É o grito que o inconsciente está dando. Assim também, toda essa coisa sua na Internet não corresponde, necessariamente, ao seu desejo por prostitutas e travestis. Você sabe que não é. É apenas uma manifestação de uma pulsão que pede desesperadamente para você tirar a sua trava...e o modo como ela se manifesta é caricato...ou seja: levando você para o mundo das caricaturas. Mas o que de fato sua alma quer é simples: liberdade para tirar a roupa, para se deixar ver, para ver e pegar com liberdade, para possuir sem que sinta que lhe fazem um favor, etc... 10.8. Não pense que tudo se resolverá num passe de mágica. Não será assim. E não se decepcione se sua mulher ficar achando tudo meio esquisito no início. Será normal. Afinal, que homem novo é esse que chegou? Então, homem novo, seja firme, paciente, corajoso, sem pudor, aberto, conquistador, e carregue uma suprema ambição: dar, dar...sim...dar muito prazer à sua mulher. Quando um homem perde essa ambição, saiba, nada mais será bom na cama...nem que a mulher se dedique exclusivamente a tentar satisfazer a esse cacique desinteressado. No mais, meu querido irmão, me mantenha informado, e não desanime. Ah, ia esquecendo. Você perguntou se Deus iria ou não intervir e mudar a situação. Sinceramente, eu acho que nesse quesito, Ele deixou a coisa nas suas mãos...você é que tem que ser resposta à sua própria oração; ir lá e fazer cair fogo do céu. Esse poder Ele deu a você. Creia e vá. Nenhuma aventura é mais saborosa. Nele, que na Cruz nos libertou para os bons prazeres, Caio