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Cartas

MINHA NAMORADA É ESPÍRITA:  e agora?

MINHA NAMORADA É ESPÍRITA: e agora?

 

 

 


----- Original Message -----
From: MINHA NAMORADA É ESPÍRITA:  e agora?
To: contato@caiofabio.com
Sent: Tuesday, March 21, 2006 8:08 PM
Subject: Minha namorada é espírita: e agora??


Oi Amigo Caio! Tudo bem?


Tomo a liberdade de te chamar assim porque você tem sido um verdadeiro amigo do peito, mesmo sem eu nunca ter te conhecido. Suas mensagens no site são verdadeiros bálsamos para minha alma, e têm me dado a consciência da Graça de Jesus na minha vida. Isso experimento no silêncio do coração.

Sou um jovem cheio de sonhos, filho de um pastor da igreja batista, e saí de casa por motivos profissionais há um ano e meio. Desde então muitas coisas têm acontecido.

A principal delas é o namoro com uma pessoa muito especial, cheia de vida, que conheci nesta nova cidade. Nosso namoro é bem feliz, nos sentimos muito bem juntos, falamos de tudo... Enfim, ele já dura mais de um ano.

Em função dessa nova experiência, minha cabeça conheceu novas coisas: eu era um resultado de anos e anos de religião,  de "não pode isso, cuidado com aquilo" e vivia numa espécie de casulo. Convivendo com ela pude conhecer novos mundos, novas pessoas, e tenho aprendido a experimentar tudo o que quero com equilíbrio e a traçar a minha própria história e escolhas no Caminho.

Como lhe disse, minha namorada e eu temos uma vida feliz juntos, e como todo casal de jovens, temos o sonho de passarmos nossas vida juntos, termos filhos, e tudo mais.

Só tem um problema. Ela é de família católica, mas frustrada com o Jesus que a ensinaram, tem achado refúgio para suas buscas de Deus no espiritismo. Faz aquelas rezas, acredita (não muito) que Deus existe, mas gosta mesmo das respostas que os livros e as sessões espíritas trazem. Não lhe tiro a razão de buscar preencher o vazio da alma de alguma maneira, e tento não entrar muito no assunto, pois às vezes que entrei não nos ajudou em nada.

Pastor, tenho tentado apenas viver a vida com simplicidade e a paz encontrada na Boa Nova do Evangelho, sem querer provar a "superioridade da minha fé". Quando acho que devo dar minha opinião, falo, mas tento não forçar nada.

Meu medo é o seguinte: E se ela nunca conhecer o Amor de Jesus, e a Paz de viver que há nele? Como vamos educar nossos filhos, tendo eles que andar em cima do muro, no meio a dois caminhos? O que será deles?

Às vezes penso em não decidir por uma vida a dois sem que ela tenha experimentado em seu coração o perdão e a graça encontrada no evangelho. Peço a Deus todos os dias que Ele lhe abra os olhos, mas às vezes eu desanimo, pois não noto isso acontecer.

Gostaria de saber o que fazer, alguma orientação, pois não tenho amigos cristãos chegados, aqui onde moro é pequeno, não encontrei uma boa igreja para freqüentar, e não me sinto à vontade para falar isso com meus pais.

Tenho andado bem preocupado com isso, pois nosso namoro está cada vez mais forte, sinto as coisas se encaminhando muito rapidamente para o casamento, e essa questão toda hora me vem à mente.

Amigo, não quero mais te tomar o tempo. Responda-me, se possível.


Fique com o Deus de todas as horas!

Um beijão enorme para o senhor!

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Meu amado amigo: Graça e Paz!

 

Creio que casamento é antes de tudo um encontro de afinidades ardentes. Sim, o casamento é feito de coisas em comum, mas que vêm carregadas do fogo da alegria em razão de cada um dos dois envolvidos serem como são; e, ao mesmo tempo, serem também extensão das mutuas afinidades entre eles existentes.

Ora, para quem crê em Jesus e no Evangelho — e isto com visceralidade —, fica difícil pensar em casar com alguém que não participe da parte mais essencial de nossa existência: a nossa fé.

Assim, nem sempre digo a todos o que direi a você, pois senti que você de fato vê significado real em sua questão, e não a formulou de modo “religioso”, mas prático; portanto, pensando na vida. Isto porque há casos em que vejo que a pessoa que formula a questão não tem grandes percepções acerca do Evangelho, e, em tais casos, o que importa é que haja entendimento e amor entre as partes. Entretanto, quando alguém vem e pergunta acerca do futuro, criando os filhos, e, sobretudo, acerca de como poderá ser tal casamento dividido na essência, não me constranjo quanto a dizer que eu, pessoalmente, jamais me uniria a ninguém que não visse a vida como eu, no que diz respeito ao Evangelho. Sim, porque eu não tenho como me ver ao lado de alguém que não creia também no que é mais essencial em e para mim. Ora, eu nem mesmo casaria, ainda que a pessoa cresse em Jesus, se também esse “crer” não significasse um entendimento do Evangelho que se fizesse acompanhar de consciência no nível de minha própria consciência — do contrario: que casamento eu teria?

Você mesmo disse o seguinte: “... tento não entrar muito no assunto, pois as vezes que entrei não nos ajudaram em nada” — significando dizer que ela topa casar, mas esse tema tem que ser posto de lado; do contrário, ela não gosta; e pode até haver desarmonia.

Ora, se hoje, antes de casar e de haver os milhares de desgastes que qualquer casamento trás, ela já se sente ofendida pelo que para você é essencial — como você acha que ela se sentirá e como esse sentir se manifestará depois que tudo o que hoje ainda é novo, já não for?

Jesus ensinou que se sabe como a pessoa será na “hora do que é no maior”, olhando como ela é na “hora do que é menor”; e também ensinou que quem pode o mais, esse pode o menos; e ainda que quem não é fiel no pouco, menos fiel será ainda quando o pouco virar muito; e, por último, Ele ensinou que quem chora e lamenta quando o “lenho ainda é verde”, esse mesmo chorará muito mais quando “o lenho for seco”.  Ora, esta é a simplicidade da lógica existencial de Jesus em relação à vida!

No casamento tem de haver mais do que um bom entrosamento e alguma felicidade decorrente da harmonia na média dos temas. E, pela sua narrativa, não vi nada de mais significativo e ardente a unir vocês. No seu lugar, sendo esta a sua primeira aventura fora dos portões de casa, jamais me casaria assim — sem ver bem onde estou!

Creio que você está feliz com a leveza do lado de fora da “igreja” — que é muito maior —; e que, em razão disso, está se casando com o “conforto”; e só não o faz de “olhos fechados” em razão do tema espírita na vida dela.

Entretanto, meu amigo, no casamento tem-se que ter muito mais do que um quase-conforto. De fato, se no encontro, na lua-de-mel do namoro, já há problemas, dificilmente eles se tornarão melhorados e se tornarão dês-importantes depois.

Além disso, não posso deixar de dizer que o que senti foi algo relacionado ao “ar” novo que você está respirando. Em momento algum você disse que está amando, ou que está apaixonado, ou que ela é a mulher de sua vida... Não! Você apenas disse que ela é legal, que ao lado dela você viu outros mundos e conheceu novas pessoas, e que o relacionamento com ela é tranqüilo. No casamento, entretanto, tem de haver não apenas “ar”, mas também “fogo”.

Casamentos que trazem antes de tudo “ar” são soluções para o sufoco. Mas não mantêm a vida a dois; pois, sem fogo, o casamento não mantém a pressão do ar em subida no balão da existência.    

Hoje você está aliviado em razão de que a opressão de uma vida cinza já lhe era insuportável. Você descobriu que o mundo tem outras cores. Entretanto, não é por causa disso que você tem de ficar e casar com o primeiro espectro de cor que você encontrou fora do cinza da “igreja”.

Como eu disse, sem querer ser um “estraga prazer”, se fosse comigo, jamais casaria. Mas não casaria somente em razão disso. Sim, provavelmente eu não casaria também em razão de que jamais me uniria a alguém se tudo o que tal casamento me trouxesse fosse apenas “algo tranqüilo”. Não! Eu precisaria de mais do que tranqüilidade. Precisaria de fogo, de amor, de paixão e de uma profunda visceralidade na fé. Entretanto, este sou eu. Você, todavia, está preocupado com isto; e, em seu lugar eu não estaria preocupado com isto porque eu nem mesmo conseguiria ir adiante em algo que, também espiritualmente, não me casasse com a pessoa.

Assim, como você perguntou por minha opinião, ei-la aí. É o que de todo o coração eu creio, e é o que eu pessoalmente faria. Pois, neste caso, não posso dizer a você nada que não seja apenas o que eu faria caso estivesse em seu lugar.

Receba todo meu carinho e minhas orações. E saiba: o que disse a você é o mesmo que diria a um de meus filhos e filhas.


Nele, que nos tem chamado a casamentos que nos casem em tudo,

 

 

Caio