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Cartas

MINHA MULHER NÃO TRANSA, É BIPOLAR, E EU NÃO AGÜENTO MAIS...

MINHA MULHER NÃO TRANSA, É BIPOLAR, E EU NÃO AGÜENTO MAIS...

-----Original Message----- From: MINHA MULHER NÃO TRANSA, É BIPOLAR, E EU NÃO AGÜENTO MAIS... Sent: segunda-feira, 19 de julho de 2004 00:44 To: caiofabio@evangelicos.com Cc: revcaio@terra.com.br Subject: PRECISO DE SUA AJUDA! Amado Caio, como eu gosto de você. Me converti numa faculdade onde você já pregou algumas vezes, e adotei uma igreja que tinha a sua marca e influencia aqui na minha cidade. Foi em 81. Você já morava no Rio, mas passava por aqui pelo sul com muita regularidade. Assim, com freqüência eu me edifiquei com as suas pregações. Muito obrigado pelo muito que você construiu em mim. Muitas vezes comecei a escrever esta carta, mas sabedor do quanto você é ocupado com tantas situações tão mais graves do que a minha, desisti e apaguei tudo muitas vezes, e me recolhi, e não sei se desta vez chegarei ao fim. Me converti aos 20 anos e casei aos 23, e temos dois filhos adotivos. Neste ano completamos 21 anos de casados. Minha esposa casou virgem e possui hímen elástico, que não se rompe, e quando passa algum tempo sem atividade, ele fecha-se novamente. Ao contrário de proporcionar prazer, como muitos pensam, ele torna a relação dolorosa para ela e, embora eu me esforce muito, ela quase nunca chega ao orgasmo. O resultado disso é que as nossas relações foram rareando rapidamente ao ponto de, já no primeiro ano de casados, termos uma relação em dois meses (mais ou menos). Após uns alguns anos de casados, minha esposa manifestou um desequilíbrio mental que parecia espiritual, uma confusão explosiva estranhíssima e violenta. Irmãos, médicos e pastores, não definiam nem a que mundo aquela doença pertencia. Eu já estava pra ficar louco junto com ela. Não conseguia mais trabalhar e nem sair de casa tranqüilo, até que alguém identificou o disturbio. Procuramos um psiquiatra e identificamos tratar-se de TAB (Transtorno Afetivo Bipolar), na fase “euforia” e num estado bem agudo. Ela foi medicada, mas ficamos todos muito traumatizados. Mas, mesmo medicada, algumas vezes teve manifestações de “euforia” e de “depressão”, ambas tão traumáticas e dolorosas para todos os familiares. Se o desejo sexual dela diminuía, o meu aumentava, e embora eu amasse ao Senhor e minha esposa, acabei me envolvendo com outras mulheres. Mas depois me arrependia, chorava e ficava num imenso vazio, e sozinho sem ter com quem compartilhar, e de volta ao casamento que não me realizava. Nunca tive coragem ou mesmo vontade de me separar. Talvez por não ter uma mulher que eu amasse de verdade, mas principalmente por medo do parafuso em que minha esposa entraria caso isso acontecesse. Eu imaginava que ela entraria numa depressão sem volta ou uma loucura ou suicídio, e eu nunca me perdoaria. E tudo isso me angustiava ainda mais, porque eu vivia e vivo prisioneiro de um desse casamento. Hoje somos quase irmãos fraternos. Até nos beijamos na boca, mas na cama só tivemos uma relação em 2004, e muito sem graça. E já estamos em julho. Me esforço para que o nosso convívio seja o melhor possível, sou um bom pai, bom esposo, as amigas dela vivem me elogiando, levo-a para namorar, me empenho pra ser romântico tentando reacender o fogo.... mas parece que ela já se conformou com um casamento assim, como se isso fosse normal; mas eu não me conformo. Acho que o casamento é bem mais que isso. Sei que tenho a minha parcela de culpa nisso, mas acho que ela nem imagina que podemos nos separar um dia. Mas eu já estive algumas vezes à beira de chutar o pau-da-barraca. Uma coisa que me angustiava é que em todas as vezes que me envolvi com outras mulheres, sempre fui claro, no início, que era simplesmente uma aventura, nunca dei esperanças de um relacionamento longo, mas sou muito atencioso, e elas acabavam desenvolvendo um sentimento; e eu fiz algumas mulheres maravilhosas sofrerem muito no final. Passei a evitar qualquer envolvimento, pois aprendi que as mulheres podem até entrar numa relação como uma aventura sem compromisso, mas elas mergulham de coração aberto. E amam de verdade. E sofrem no final. Outra coisa que me perturbava muito, era que eu deveria estar pregando para essas pessoas que eu queria tanto bem, para que elas também pudessem conhecer a Jesus e ter uma vida nova a vida toda. Mas eu estava sendo o mais mesquinho dos homens, escondendo delas o reino de justiça, paz, alegria, e muito gozo, dando a elas só alguns momentos de prazer... Meu Deus! O que eu estava fazendo?... E foi assim, evitando novos relacionamentos, que conheci no meu trabalho uma mulher maravilhosa que não tive como não amar. E ela me amou tão intensamente... Mas nessa confusão de sentimentos de culpa, prisão e frustração..., não tive a percepção de que ela era o verdadeiro amor da minha vida. No início, pensei que fosse mais uma das minhas recaídas e terminei logo. Ela e eu sofremos cada um para o seu lado. Nesse momento minha esposa atravessava uma crise de depressão profunda havia meses, e isso complicava mais ainda o meu sentimento de culpa. Mas não deixei de amar essa mulher. Trabalhamos muito próximos e evitamos durante anos qualquer envolvimento e nem tocávamos no assunto. Eu a amava tanto e queria tanto o seu bem que dei conselhos para que ela reconstruísse a sua vida, falei para ela de Jesus e de como Ele me transformou e que se sou assim, é graças só a Ele, pois eu não sou ninguém, e Ele fez tudo em mim. Ela se converteu numa igreja que eu recomendei, e, assim, tornou-se uma pessoa mais linda. Casou, constituiu uma vida, e é bastante atuante na sua igreja. Mas o amor que sentimos um pelo outro não diminuiu e, sem querer, ao conversarmos um dia, tocamos no assunto, abrimos os corações um para o outro. Descobrimos que nos amamos cada vez mais. Porém agora, somos muito mais tementes ao Senhor e decidimos não nos envolvermos. Ela também vive um casamento sem amor, mas acha que não pode haver separação entre casais crentes. Mas cada dia que nos despedimos no final do trabalho, eu sinto como se um pedaço de mim partisse, e ela me confessou que sente o mesmo. Estamos assim há pelo menos dois anos. Nos amamos, mas vivemos as nossas vidas e nossos casamentos medíocres dia-a-dia, prisioneiros de relacionamentos que já morreram (ou nunca existiram) e sonhando com algo maravilhoso que poderíamos ter vivido. Gostaria de saber sua opinião sobre nós, pois pretendo mostrar sua resposta a ela também e bem sei do discernimento privilegiado que o Senhor tem lhe dado. Um forte abraço, meu irmão. ___________________________________________________________ Resposta: Meu amigo amado: Que o Senhor lhe dê sabedoria! Li sua carta com todo amor e respeito. Posso imaginar a sua dor, pois conheço os pesos que lhe pesam na alma. Sempre me assusta ver como no nosso meio as pessoas são empurradas para o precipício da alma (psicológico), no qual o coração se arrebenta todo, apenas porque a lei da conjugalidade religiosa ensina que manter o formalidade de um casamento inexistente é mais importante que a verdade da alma e do amor. Assim, a fim de manter algo que não existe, as pessoas se matam de sofrer, e os líderes apenas dizem: “Fique firme, Deus lhe dará forças!” Ou, outras vezes, quando encontram você, ‘meigamente’, perguntam: “E como vai a ‘fulana’?”Ao que você responde: “Vai indo pastor”. Então o cara lhe dá uma olhada de pena, esfrega a mão no seu ombro, e segue o seu caminho...como o Sacerdote e o Levita. Não vale a pena manter nenhum casamento quando o preço é este que você está pagando. Literalmente, o que se está recomendando é que você coe o mosquito e viva à base de dieta de camelo. Não posso dizer a você o que fazer. Não minha é competência. Todavia, compartilho com você alguns caminhos, apenas para você pensar e orar. 1ª Caminho: Você tenta se acalmar e cuidar de sua vida. Mas para isto você precisa parar de ver a pessoa a quem você ama. Do contrário, será questão de tempo e vocês irão se embolar na paixão, e desse abismo de desejos, prazeres reprimidos, e fantasias irrealizadas, vocês não sairão incólumes. Acabarão por tomar decisões apavoradas e culpadas, e com conseqüências desastrosas. 2ª Caminho: Você não tem nada com a mulher que você ama, e se separa de sua esposa como cristão. Ou seja: com todo respeito e carinho, com todo cuidado por ela, dando a ela todo apoio médico e psicológico. Seja responsável com o sustento dela, e poupe-a de informações acerca de sua vida, para que ela não sofra tanto. Se a pessoa que você ama reconhece também o equivoco do casamento dela, que ela também tome as mesmas providencias, não por sua causa, mas por ela mesma. Então, depois, quem sabe, vocês tenham alguma chance de ficar juntos, e buscarem ter uma vida boa e feliz. Porém, se vocês se separarem um por causa do outro, provavelmente as coisas fiquem tão opressivas e aflitivas que vocês não consigam ficar juntos. Afinal, dois divórcios simultâneos e uma relação nova sendo constituída “dentro” dessa recamara de agonias, é quase sempre algo insuportável. 3ª Caminho: Me dá a impressão que sua separação poderá lhe ser muito penosa. Por isto, antes de se separar fique livre dessa culpa. Você está seqüestrado por uma responsabilidade neurótica, e da qual você precisa estar livre. Você se sente o “deus de sua esposa”. De fato, para nós, cristãos, casamento virou o carma da existência. A “nova criatura” tem o direito e o dever de concertar todos os erros da vida, exceto no casamento, no qual a “nova criatura” tem que agüentar o tranco, pois, jurou que agüentaria. Aliás, eu nunca consegui entender o “juramento do casamento”, no qual o indivíduo “jura” que não apenas “tentará”, mas que “conseguirá”. A mim sempre me pareceu um juramento por demais presunçoso. Aliás, para Jesus, todo juramento é pura presunção. No entanto, percebo que você se sente muito culpado, e que experimenta a culpa como sentimento de fracasso pela incapacidade que tem tido de ser fiel a um casamento que para você é tudo—missão, parentesco, amizade, pena, responsabilidade—, menos casamento. Portanto, fique sabendo que o que lhe aconteceu pode acontecer com qualquer um. O coração é cheio de surpresas e não há ninguém que o conheça para si mesmo. Assim, se você decidir enfrentar a separação, antes de tudo, procure um bom terapeuta e inicie sua preparação psicológica para o “corte”. Pois, de fato, você precisará estar preparado e consciente das lutas que virão. Pense e ore muito. Mas, de antemão, procure um terapeuta e comece a conversar. Se não for por nada, faça isto por você mesmo. Receba meu amor e carinho, e minhas orações por TODOS vocês. Nele, em Quem a gente entra e sai e acha pastagens, Caio