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Cartas

MEU MARIDO NÃO QUER SER PAI DOS MEUS FILHOS!

MEU MARIDO NÃO QUER SER PAI DOS MEUS FILHOS!

 

 

 

 

 

----- Original Message -----

To: MEU MARIDO NÃO QUER SER PAI DOS MEUS FILHOS!

From:

Sent: Monday, January 12, 2009 3:08 PM

Subject: Re: direção

 

 

Querido Pr. Caio Fábio

 

Graça e Paz do Senhor Jesus Cristo!

 

Depois de muita luta interior, resolvi escrever-te, pois sinto vergonha de expor essa situação em que vivencio. Antes de qualquer coisa saiba que amo a Deus mais que tudo na vida e é por isso que me dói tanto falar e comentar sobre o que se segue:

 

Moro no interior do Pará. Sou casada há nove anos e tenho dois filhos (14 e 18 anos), que não são do meu marido.

 

Confesso desde já que casei sem saber claramente se amava o meu marido. No início pensei em casar, pois, se tratava de um homem de Deus, e eu até então só tinha vivenciado “porcarias” de relacionamentos. Com pessoas não crentes.

 

Tive minha filha de um namoro de cinco anos. Tive meu filho de um relacionamento de três anos que também foi desastroso. Mas, agradeço pela vida dos meus filhos, são bênçãos na minha vida. Claro que estou ciente que todas as relações envolvem ambas as partes; e eu, naqueles relacionamentos, era uma pessoa bem menos acessível e mais imediatista do que me tornei hoje.

 

Mas voltemos ao meu marido. Pois bem, na época em que namorávamos, ele sempre demonstrou ser calado, calmo, paciente e lento em suas atitudes.

 

Tentei aceitar e conviver com essas diferenças, pois, enquanto sou mais apressada em resolver tudo, batalhar pelas coisas, ele já é mais parado, lento e não muito aberto ao dialogo.

 

Por algum tempo isso foi motivo de briguinhas, mas depois percebi que eu não poderia querer que ele fosse igual a mim; né? 

 

Muitas coisas eu tive que renunciar para conseguir viver um casamento pleno. Você nem imagina o quanto!

 

Algumas dessas renuncias se faziam necessárias pra meu crescimento como pessoa; mas outras foi pura anulação.

 

Vivíamos, no início, digamos..., bem.

 

Eu apostei tudo no meu casamento. Além disso, ele ia dar uma direção para meus filhos também, já que meu marido é um homem de Deus.

 

Entendo que, uma vez assumindo o papel de marido, ele também assumiria o papel de cabeça da família e pai responsável.

 

Desde começo, isso não foi verdade.

 

Logo de cara, ele não tinha emprego, mas conseguiu depois. Não conseguia se relacionar bem com minha filha, ainda bem menina na época. Mas achei que tudo era questão de tempo. Nem conto quantas vezes comentei com ele o quanto me machucava a distancia que ele tinha de minha filha e tem até hoje. No começo era mais disfarçado, hoje é simplesmente dolorido ver a falta de carinho, compreensão, desamor pelos meus filhos.

 

Agora o pequeno, que é adolescente, também está se afastando dele; pois, segundo as crianças, meu marido só sabe cobrar disciplina, respeito e preocupação; carinho, não sentem...

 

Como isso me doe!

 

Isso já dura anos e eu, por outro lado, tento dar tanto amor pra meus filhos que acabo errando também.

 

Se você me perguntar: e como é sua relação com o marido?

 

Eu aprendi a amá-lo do jeito que ele é; mas sem aceitar esse comportamento com as crianças.

 

Já pedi, refleti, briguei, revoltei, tentei de tudo sobre isso; pode acreditar.

 

Hoje me sinto esgotada...

 

Não aceito e nunca aceitarei esse comportamento que meu marido tem com meus filhos!

 

Mas não pára aí...

 

Desde tempos atrás ele vem se tornando um estranho em casa. Mal fala ou dialoga; dá opiniões telegráficas; dorme mais cedo que todo mundo; não me procura com tanta freqüência mais...

 

Faz uns dois anos que nove meses sem sexo, e sem dialogar sobre nada. Parecia que vivia só, eu que decidia tudo.

 

São tantas coisas que não sei se conseguirás entender como verdadeiramente me sinto.

 

Então, ele entrou também em depressão, segundo nossa avaliação. Dizia que tinha perdido a vontade de viver.

 

Fez uma viagem para um lugar que ele ama e se sente bem, e durante os dias que ficou ausente, eu me acabei emocionalmente, pois sentia que não era amada, estava só mais uma vez com meus filhos. E fui buscar direção de Deus, como de costume.

 

Busquei livros, Dvds de pregação sobre casamento; eu me via apaixonada pelo meu marido e não sentia ser correspondida. Meu Deus como doeu!

 

Quando voltou de viagem passei pra ele tudo que tinha vivenciado aqui, e ele tentou comigo restaurar nosso casamento.

 

Vivenciei essa tentativa por alguns meses. Parece que tudo que falamos, as linguagens do amor que comentamos, os papeis trocados em casa, a falta de amor pelas crianças, a responsabilidade financeira que estava sobre mim, o acomodamento dele diante das dificuldades financeiras e espirituais que estávamos passando, o amor dele pela sua família e o desdém pela minha; parece que tudo não valeu de nada.

 

Ah, esqueci de dizer: quando sondo meu marido se ele me ama e ama meus filhos a resposta sempre é a mesma: amo. Aí eu digo: Mas as atitudes não confirmam isso; e aí ele diz que enquanto não tiver bem com Deus num consegue está bem com ninguém. Isso existe?

 

 Novamente estava ele sem falar muito em casa, estranho, novamente sem me procurar, novamente sem dar atenção; se é que um dia deu...

 

Pra completar, uma pastora conhecida nossa, disse pra nós que eu tinha o espírito de Jezabel e ele de Acabe.

 

Aí morri com isso!

 

Será que não sou convertida, que não sou de Jesus, pois pelo que sei não pode um demônio possuir quem tem a marca de Cristo.

 

Meu marido aceitou essa “revelação”.

 

Mas, só porque sou decidida e tomo a frente das coisas, enquanto ele se omite, significa que tenho demônio?

 

Depois, conversando com meu marido ele me culpou de ter perdido seu ministério na igreja porque a igreja não gostava de mim.

 

Associou o fato ao espírito de Jezabel...

 

No começo eu até aceitei essa suposição.

 

Eu deveria dar tempo na igreja por ser mulher de um pastor?

 

Como faria isso se meu tempo resumia em trabalho, cuidar dos filhos, casa, etc.?

 

Sabe de uma coisa: eu detesto ser mulher de pastor!

 

Ainda me confessou que quando encontra com alguém da igreja na rua, algumas pessoas perguntam se ele ainda está comigo. Acho que me comparavam muito com sua ex-mulher, com a qual ele viveu por 20 anos; e ela o deixou...

 

Dizem que ela era aquele rato de igreja. Rsrsrs. Acho hoje sinceramente que meu marido nunca superou a separação com sua primeira esposa e com sua filha. Elas moram em Santa Catarina.

 

Bom, depois de tudo isto... Vou expor o que mais me atormenta a alma hoje.

 

Recentemente deixei-me ser levada pela minha carência e me relacionei com outra pessoa.

 

Nada justifica; sei. E o pior: não sinto vontade de querer parar, pois, ele é muito meigo, doce, amável comigo. Sinto-me no inferno já! Não sei o que fazer; aliás, sei; tenho duas opções: separar-me dos dois; ou viver só pra meu marido, e aceitar tudo do jeito que tá.

 

Se você me perguntar se tenho sentimento por essa outra pessoa, eu te digo que sim. Gosto muito de estar com ele, conversar, discutir, ter ciúmes. Tudo aquilo de apaixonados. Mas tudo não passa de fantasia minha, não é verdade?

 

Mulher mal amada, mulher sem amor próprio, mulher com demônios, sei lá o que pensar...

 

Só uma coisa eu sei: sinto-me traindo o meu Deus!

 

Se me arrependo disso? Hoje não!

 

Taí meu dilema; dói; corrói minha alma; sei que está errado; mas não quero ou não tenho coragem de dar um basta.

 

Tentei fazer isso e a falta dele foi tão grande que nem agüentei.

 

Pode surgir um verdadeiro amor nessas circunstâncias?

 

Envergonho-me de tudo isso... Mas expus pra ver se você, Pr Caio, com sua sabedoria dada por Deus, consegue me ajudar a dar um rumo pra essa história.

 

Não quero estar fadada a ser isto!

 

 

Que Deus consiga colocar palavras no teu pensamento que falem a mim diretamente!

 

Abraços.

______________________________

 

Resposta:

 

Minha querida: Graça e Paz!

 

Vamos em partes!...

 

Primeiro: sobre você, seus filhos e qualquer homem:

 

Quando a gente se casa de novo, já tendo filhos e a outra pessoa também, deve-se saber que de imediato e geralmente, isso apenas significa a união do casal, mas não a adoção dos filhos; sendo esta uma possibilidade espontânea e simples, mas não uma obrigação do pacote.

 

Para você o casamento era uma solução, não uma opção apenas sua e dele. Você via nele o redentor de sua casa. O homem que seria pai para os seus filhos. Entretanto, nem todos estão aptos para isso; e, portanto, nem sempre acontece assim.

 

Para ele que já criou filho e já foi casado, o convívio com você e seus filhos, é sempre o convívio de um estranho com um corpo que existe com suas leis e vínculos de atavismo que em muito transcendem o que ele pode sentir.

 

Assim, é simples que um homem tímido, quieto, calado, discreto, e que tenha tido uma vida cheia de opiniões e opções pessoais, de súbito possa se sentir em casa estando ainda ‘fora de casa’: em um ambiente que ele não ajudou a construir e em uma cultura familiar totalmente diferente da dele.

 

Ainda mais se ele sentiu que o maior significado dele para você era ser o pai de seus filhos, o cabeça do lar, o provedor de todas as coisas... — mas não o marido apenas.

 

Um homem não se sente bem na conjugalidade — com os filhos que ele mesmo tenha gerado — quando a esposa o trata assim, apenas como o “cabeça e provedor”.

 

Ora, como você imagina que ele se sentiria sendo cobrado desse papel, quando nem mesmo os seus filhos ele gerou?

 

Ele certamente não casou com você para ser o pai de seus filhos, mas para ser seu homem; e, o mais, seria conseqüência, conforme a intimidade, a liga ou a espontaneidade dos acontecimentos.

 

Muitas mulheres que já tiveram filhos de homens irresponsáveis se casam com essa expectativa desastrosa: a de acharem um provedor e pai para os filhos.

 

Mas nunca dá certo; a menos que o “pai” seja um carente tão grande que se sinta privilegiado pelo simples fato de não estar só.

 

Para você, é mais fácil do que para ele. Afinal, em qualquer casa, dele, sua, dos dois ou de um terceiro, você sempre estará mais em casa do que ele; pois, de fato, a confraria é sua: ele é apenas um convidado para servir e participar, mas, não dando certo, como é o caso agora, ele sabe que será descartado, e que todo investimento não terá tido sentido.

 

Em momento algum você pensou nele, na dor dele. Apenas disse que o problema dele é não ter esquecido a filha e a 1ª mulher, com quem ele não está apenas porque foi “deixado”.

 

Ele deve sentir grande dor; e tudo o que ele quereria seria que a filha dele estivesse com ele, e não os seus filhos. Sim! Ele gostaria de estar ainda casado com a 1ª esposa e tendo a própria família dele vivendo com ele. Portanto, pedir que ele faça tal substituição prática, quando ele nem a fez na subjetividade, é pedir o impossível.

 

Vocês dois estão fazendo muito mal um ao outro!

 

E mais: você nem precisava ter me escrito tudo, como quem justifica o que está acontecendo agora. Afinal, ele não gerou seus filhos e não tem a obrigação de se arrastar pela vida com você e nem você com ele.

 

Sim! Basta terminar tudo na paz!

 

Deixe-o livre. Ele poderá até sofrer um pouco, mas logo encontrará a sua paz.

 

O que você não pode é virar Jezabel, como, sem o desejar, você está se tornando: traindo-o e agindo contra a sua consciência!

 

Você nada disse do homem do caso atual, se ele é casado, solteiro, viúvo. Ora, isto me preocupou, pois, parece que importa pouco a você.

 

Minha amiga:

 

Ninguém é feliz pisando em ninguém!

 

Do “outro lado” existe vida também, sempre!

 

Quanto às suas opções, saiba:

 

1.           Você pode parar este caso e investir no seu casamento, mas sobre novas bases e sobre novo entendimento dos limites e das possibilidades de seu marido como pessoa;

 

2.           Você pode se separar dele [e pelo visto: deve], e ficar só; pensando e refletindo sobre você mesma, o que apenas lhe faria muito bem fazer por um tempo;

 

 

3.           Você deveria parar o ‘caso’; e, além disso, ver que terminar seu casamento em razão do ‘caso’ seria uma catástrofe; e mais: ver também quem é esse homem; quem ele deixa para trás e como... Ou seja: que chances esse relacionamento de fato tem, pois, em geral, quando começa errado, dificilmente se conserta.

 

O que você não deve fazer é tirar o pé dessa “prancha-marido” apenas porque você já achou uma “prancha-caso” para surfar novas ondas...

 

Esta é a dignidade mínima que fará muito bem a você, no caso de você terminar seu casamento logo.

 

Por último:

 

Jamais case de novo com um homem tendo a expectativa de que ele se torne o pai de seus filhos. Se acontecer, que seja espontâneo, pois, creia: não vem no pacote.

 

O ideal mesmo é que você viesse a ter um marido apenas quando você e ele pudessem estar à sós como casal; pois, poucos casais, em tais circunstancia, não terão nos filhos do cônjuge que os traz para casa, um problema de adaptação que, normalmente, não é fácil; e mais: nem todos estão aptos para viver e superar. 

 

Para entender pense no aposto: na filha dele, morando com ele, e, depois de um tempo, você e seus dois filhos chegando. O que você acha que você estaria sentindo sempre que você visse que a confraria pré-existente estava reunida e falando baixinho?

 

Todas essas tentativas “pós-modernas” de reengenharia familiar são quase impossíveis de serem vividas “numa boa”.

 

Aqui e ali alguns conseguem, mas, em minha experiência, vejo que a maioria sofre nos segundos casamentos mais disso que você reporta do que de qualquer outro problema ou questão.

 

Já é difícil o entendimento entre dois adultos mais velhos, com histórias e bagagens tão diferentes, quanto mais quando a isso se inclui a necessidade de que a pessoa já chegue se sentindo pai de quem já existia com outras referencias, hábitos, vícios, cultura e formação.

 

Nesses casos, muitas vezes, vejo que os casais com maior chance sempre são aqueles que ficaram tendo o seu ‘casamento pessoal’, enquanto como pai ou mãe criam os filhos em sua própria casa; e, depois que os filhos já se auto-determinam e podem cuidar de si mesmos, os dois, o casal, passa a viver na mesma casa; sendo apenas visitados pelos filhos.

 

Porém, creia: se os pais biológicos quase não assumem os filhos, como você quer obrigar qualquer namorado que você tenha a ter em seus filhos os filhos dele mesmo?

 

Deveria ser assim. Mas, infelizmente, raramente o é.

 

Vejo que você está na iminência de cometer outro grande erro. Não o de se separar de seu marido, mas o de fizer isto em razão do atual “caso”.

 

Primeiro fique livre. Depois, com muita calma, re-encaminhe a sua vida. Mas não faça assim, de supetão, como você já está fazendo.

 

Receba minha palavra com muito amor, pois, é com amor que lhe escrevo a verdade.

 

 

Nele, que nos chama a tornar simples a vida,

 

 

Caio

12 de janeiro de 2009

Lago Norte

Brasília

DF