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Cartas

MEU MARIDO É PSICÓLOGO: mas nosso casamento é um silêncio só

MEU MARIDO É PSICÓLOGO: mas nosso casamento é um silêncio só



Reverendo Caio, Não sei se você chegará a ler minha carta, espero em Deus que sim. Estou freqüentando uma das Estações do Caminho da Graça. Já encaminhei há alguns meses atrás uma cartinha. E o senhor me respondeu, dizendo que no caso eu deveria era conversar com o meu esposo. Na verdade, não tive coragem de dizer a ele nem o que escrevi para você e muito menos a resposta. Meu esposo é psicólogo, e como não temos dinheiro, ele atende em nossa casa, e sempre chega um ponto do tratamento que as ligações aumentam... A paciente do momento é uma moça de 18 anos que tem passado por alguns problemas. Ele liga para saber como ela está todos os dias, quase duas vezes por dia. Na última carta que escrevi, ele atendia um casal em que a esposa acabou trocando as bolas em relação a ele, meu marido. Não sei se estou certa ou errada, estou me sentindo perdida, pois quando peço conselhos a ele, sempre fica nervoso, me chama de mesquinha, egoísta. Caio, tenho ciúmes da forma como ele trata as pessoas que freqüentam nossa casa. Às vezes ele trata o povo melhor do que eu. Minha mãe vê... (ela mora conosco) e isso me incomoda. As ligações geralmente são em horários tardissimos e ainda por cima em lugares com a porta fechada para eu não ouvir. Fico revoltada! Apareceu em mim até uma úlcera de fundo nervoso! Estamos esperando ser chamados para minha mãe fazer uma cirurgia, e meu esposo, como disse anteriormente, trabalha em casa. As pessoas geralmente ajudam com o que podem. Ou seja: ele não tem salário fixo. Tenho ciúmes da forma como ele trata as pessoas, com uma atenção imensa, com carinho, tem prazer em mostrar as músicas que ele gosta...; e pra mim nunca tem tempo, sempre durão; e para variar ele não confia em mim; tem os seus problemas, mas não conversa comigo; fica em seu mundo, como se fosse solteiro, não gosta de compartilhar comigo. Estou cansada. Não agüento mais ele me tratar como se eu não existisse em sua vida.... Não sei o que fazer, não tenho com quem conversar. Sabe, ele é um rapaz bom, cuida da minha mãe, foi dele a idéia dela morar conosco depois que ela teve o derrame; mas esse silêncio tem me matado por dentro. Não sei se você irá ler minha mensagem, mas gostaria de desabafar. Um grande abraço ___________________________________________ Resposta: Minha querida amiga: Graça, Paz e Bem! Há um lado dele que eu posso entender: a insegurança de não ter como prover para a casa de modo mais amplo. Prova disso é o “atendimento psicológico” em casa; e esse desejo enorme de “agradar” os clientes, a fim de não perder a ajuda que recebe; e, pela qual, vocês comem. Isto dá pra entender! O mais, está tudo errado! 1. Como psicólogo ele deveria saber que não dá pra misturar demais as coisas. O Profissional e o Paciente precisam manter certa distancia (sem neurose, é claro!); mas devem manter. Do contrário, as coisas se misturam com muita facilidade; e, assim, não há ajuda efetiva, mas apenas a cronificação dos estados de dependência afetiva dos Pacientes. 2. Ora, nesse contexto (no qual ele liga até duas vezes por dia com pacientes, conversa pelas madrugadas, compartilha Cds e musicas, etc...), já não há um trabalho de natureza “profissional” acontecendo, mas sim de natureza “amadora”; e, por conseguinte, cheia de possibilidades de “transferência” dos Pacientes para ele; inclusive com paixão. É natural. Mas, no caso dele, fica exacerbado pela proximidade. 3. O “silencio” é que é o diabo da história. Ele tem que ter coragem de olhar para ele mesmo e ver se ama você, se quer viver com você, e se quer respeitar você como mulher e esposa. Do contrário, o “bem” que ele faz aos outros não dará para comparar com o “mal” que ele fará e está fazendo a você. 4. Ele, como Psicólogo, deve saber que manter você neste estado, vai adoece-la profundamente. Aliás, já está acontecendo isto; e a tendência é piorar. Minha sugestão é que você dê um jeito de fazer a gente conversar, sem grilo e sem queixa. Você acha que consegue? Sem espantá-lo? Seria o ideal! O sério disso tudo é que o homem bom, quando está insatisfeito, trata ainda “melhor” a esposa, só que substituindo amor e carinho afetuoso por gentilezas e favores especiais; especialmente esses de natureza social e familiar. Digo isto porque vejo toda hora isto acontecer. Ou seja: a pessoa não está bem com o cônjuge, está infeliz, mas como é bom e sério, sofre por sentir o que sente; e, então, substitui o que falta na conjugalidade, pelas gentilezas que calam a boca do cônjuge. Vejo isto acontecer com outros (aos montes), mas também vi esse “mecanismo compensatório” em operação em mim mesmo, nos dois anos que antecederam meu divórcio: muita atenção social, cuidado, bondade extrema, amizade, gentilezas e mais gentilezas...; mas... não é o bastante para a mulher; posto que para receber gentilezas ela não precisaria casar. Bons amigos fazem isto até melhor! Você já perguntou a ele se ele quer continuar casado com você? Tenha a coragem de fazê-lo. Do contrário, as coisas apenas piorarão; até o dia em que você descobrir que ele se apaixonou de verdade; e, quem sabe, poderá vir a ser pior para qualquer que seja o processo. Quanto a você, ou tenha tal conversa, ou pare de bisbilhotá-lo. Deixe-o em paz. E, para isto, chame-o e veja com ele, sem histeria, se ele ainda quer ser seu marido. Afinal, não creio que você deseje ter apenas um zumbi marital em casa. Se ele conhece os intrincamentos mínimos da alma, ele irá me dar razão! Aguardo vocês! Me procure! Um beijo carinho! Nele, em Quem a Verdade é sempre infinitamente melhor do que qualquer mentira piedosa, Caio Obs: Se ele gosta tanto de ajudar pessoas informalmente, talvez, depois de se resolver com você, ele possa até concluir que seu chamado é pastoral. Ora, nesse caso, ainda assim, até para o “pastor”, uma certa distancia mínima ajuda muito na hora de intervir sem passionalidade. Além disso, tais atendimentos seriam feitos fora de casa, com hora marcada, e sem essa invasão de privacidade que arruína qualquer casamento. Espero vocês! Mais uma vez, Caio