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Cartas

MEDO DE DESCRER

MEDO DE DESCRER

 

 

 

---- Original Message -----

From: MEDO DE DESCRER

To: contato@caiofabio.com

Sent: Thursday, July 05, 2007 6:18 AM

Subject: Medo de mim e o perdão de Deus!!

 

 

Olá,

 

Não preciso nem dizer o quanto relutei em enviar esse e-mail. Mas no fim prevaleceu minha necessidade de ajuda. Ajuda de esclarecimentos que, procuro na Palavra, e não encontro, talvez por estar com os olhos embaçados pelo conflito.

   

Bom, às vezes tenho muito medo dos pensamentos que surgem na minha mente, da minha incredulidade.

 

Converti-me, fui batizada, freqüento, semanalmente, uma reunião de estudo bíblico, participo da comunhão com os irmãos, da ceia do Senhor, etc., mas sinto que minhas dúvidas não estão sendo esclarecidas e nem meu coração aquecido..

 

Conheci o seu site e, fiquei perplexa com a maneira que você fala e escreve, da sua intimidade com Deus, do relacionamento com Ele. Por isso estou aqui e espero que possa me ajudar.

 

Algumas vezes me pego questionando coisas que, através do estudo da Palavra, racionalmente, já entendi. Meu medo maior é que nada do que tenho ouvido de Deus esteja sendo realidade no meu coração, somente na razão, pois a "história de Jesus é fato então posso crer nisso", não é??

 

Falo disso com receio. Receio de estar dando "alimento espiritual ao diabo".

 

Realmente acho que vivo um conflito. Quando vejo testemunhos, pregações, conversas de cristãos e, principalmente, a suas pregações (para mim sua fé é tão maravilhosa que é quase visualmente perceptível), começo a questionar a minha fé.

 

Não foi sempre assim. No princípio da minha conversão tudo eram bênçãos. Parei de fumar (sem nenhum sofrimento), me tornei menos ansiosa, dentre outras mudanças. Mudanças essas que atribuo ao agir das mãos de Deus na minha vida.  Passado um tempo (acho que vendo minhas transformações), meu marido se converteu, outra benção de Deus, pois, meu marido jamais se mostrou além do que fosse racional, objetivo, etc...

 

Aí vieram as provações.

 

Meu mundo caiu. Eu e marido começamos a enfrentar a maior crise financeira. Somos casados há 22 anos e desde 2003 trabalho com ele. Há um ano as vendas despencaram e nos vimos com uma dívida grande. Estamos sendo forçados as desfazer de algumas coisas (aliás, até hoje não conseguimos vender), para nos restabelecermos.

 

Hoje, com a luz de Cristo, entendemos e não queremos nos restabelecer para adquirir, guardar, deixar para filhos... patrimônios. Queremos o suficiente para sobreviver com dignidade.  .

   

Sabendo que Deus tem um plano para nós e que tudo que nos aconteceu será para restauração de nossas vidas, agora para Cristo, mesmo ACREDITANDO nisso, é que vem meu conflito. Pego-me triste, desanimada, cansada. Não consigo "descansar no Senhor". Não consigo me entregar, vendo que as contas têm data de vencimento e não termos como pagar. Nem o que colocamos à venda estamos conseguindo vender.

 

Penso: será que Ele quer experimentar minha fé?

 

Quando falo sobre essas coisas com irmãos mais próximos eles me falam da vida de Jó, de como foi e tudo mais. Aí fico danada da vida. Penso: "Ah, é por que você tá tranqüilo; bem financeiramente, magra, bonita, e mais um monte de besteiras...”.

 

-Ufa!!

 

Tive coragem de colocar pra fora...

 

Bom, continuando dentro da razão: parece que a vida de Jó tá longe da minha realidade, entende? Cadê ajuda prática?

 

Sei que não estou agradando a Deus e essa consciência me deixa mais perturbada. A partir disso comecei a comer vorazmente, nem preciso falar o quanto engordei (tenho problemas com isso). Também nem preciso comentar do meu relacionamento conjugal. Já dá pra imaginar que não tá nada bom. Entrei num círculo vicioso.

 

Oro, suplico e até me envergonho de Deus de tanto que peço por Sua misericórdia. Chego a pensar que por causa da minha pouca fé, Ele não está me ouvindo. Que por colocar Sua Palavra em "xeque", Ele não está me ouvindo. Que por ter atitudes contrárias aos Seus mandamentos, Ele não está me ouvindo.

 

Por essas dúvidas tenho a impressão de não ser merecedora de Sua Graça.

 

Por favor, você que está no Caminho a mais tempo, que já experimentou a fé no Senhor, me ajude a me encontrar; e assim poder verdadeiramente encontrá-Lo.

 

Abraços em Cristo (será que posso dizer assim?).

 

 

 

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Resposta:

 

 

Querida amiga no Senhor: Graça e Paz!

 

 

 

“Senhor, se podes, cura o meu filho!” — disse o pai.

 

“Se podes? Tudo é possível ao que crê!” — disse Jesus.

 

“Senhor, me ajuda na minha falta de fé!” — suplicou o pai.

 

E o Senhor curou o menino!

 

 

Você disse que por não se sentir com fé, não sabe se é “merecedora de Sua Graça”. Pois, se é pela Graça mediante a fé, e sendo a própria fé um fruto da Graça, como pode alguém receber Graça sem ter fé?

 

Esta me pareceu ser a sua questão final!

 

Voltarei a ela no final.

 

Vamos lá:

 

1.       Todo aquele que ama o Senhor com verdade e coragem, sem a satisfação da religião como pretexto para a mornidão, sempre passa por crises. Sim! Porque como pode alguém crescer sem crise? Crise, crisol, crisálida, fazem parte do processo de dor e fogo; de contorções e angustias; de casulo e asas abertas; de torrão ou lama onde há algum ouro, ao ouro em pó; de oportunidade de metamorfose; e de oportunidade de virar algo novo, sem as cascas de ontem, e sem o passado como prisão para o hoje. E em cada um desses processos a gente sente dor, a gente tem perdas, a gente larga carcaças. Todas as “passagens” são assim: a gente deixa o ventre, a mãe, e sente dor e desamparo, mas é para crescer. A gente vira adolescente e sente dor; e também sente raiva de quem ama, e uma horrível vontade de ir para longe, apenas para poder dizer que sua casa é a sua casa... na volta. A gente casa e tem filhos, e sente culpa de não sermos melhores, de não provermos mais, e de não podermos muito, mesmo quando se tem muitos bens; mas isso é para que se aprenda que na terra todo jardim tem serpentes, e todas as cachoeiras têm pedras cortantes, e todos os mares lindos têm águas-vivas e tubarões. A gente entra na meia-idade e sente dor. Dor pelo que não fez; pelo que fez mal; pelo que fez pouco; pelo que menosprezou; pelo que tratou com desdém; pelo que era essencial e não foi abraçado com amor e reverencia. Então, a gente fica velho. E descobre que tudo faz parte; que tudo é Graça; e que toda estação tem sua dor e sua alegria; sua perda e seu ganho; sua guerra e sua própria paz. Assim, saiba: esta é apenas uma crise para a vida, e, logo, logo, você terá certeza disso, tão somente creia que é assim. É assim para não ficar assim; e, assim, podermos ir de assim em assim, até o Sim Final.     

 

2.       Sua crise se agrava em razão de seus falsos paradigmas. Veja que você recorre a Deus como Aquele que pode, e, se Ele não faz o que você pede, deve ser em razão de pecado, de falta de fé, ou mesmo de virtude pessoal. Até Jó entra na história apenas depois da restituição em dobro; pois, o Jó das calamidades (enquanto as vivia), não agrada a você.  Veja que você introduz o problema apresentando sua lista de deveres cumpridos e de responsabilidades assumidas com a “igreja”. Ora, o que isto quer dizer se não que, lá no fundo, você ainda acredita que serviço e a presença na “igreja” são amuletos bons a fim de impedirem a calamidade, ou os contra-tempos que são contra todo tempo o tempo todo. É ou não? Sim! Lá no fundo é desse modo que você sente! Assim (como boa herdeira evangélica), você não rejeita o legado da Teologia Moral de Causa e Efeito dos “amigos de Jó”; e, por isso, sofre a Síndrome de Jó sem a paciência dele, e sem a certeza dele de que com Deus a gente pode falar tudo, especialmente as nossas mais verdadeiras bobagens.

 

 

3.       Você também sofre e aumenta a dor em razão de crer que algo está errado. E algo pode estar errado mesmo. Porém, o lugar onde você deve procurar o errado, provavelmente seja outro, e não esse do “certo e do errado”. Sim! Pare e pense no volume de energia que você e seu marido estão gastando e doando à tentativa de descobrir o que está errado, a tal ponto que vocês não têm tido qualidade emocional para investir tempo tanto no negócio como também em vocês mesmos. Pare de ter medo de quebrar, pois, quem teme falir vem a falir mesmo, e ainda mais rápido do que se imagina; pois, uma mente em concordata de esperança, acaba ficando tão impressionada que, por vezes, já não consegue produzir nada prático. Já estive em tal estado e sei que a pessoa tende a correr atrás do próprio rabo, sem sair do lugar, à semelhança de um cachorro com coceira no traseiro. Assim, saiba: sua mente tem muito poder, para o bem e para o mal. Portanto, encher a mente dos temas da falência apenas induzirá tudo e todos a sentirem vocês já falidos; e como a quem se lhe dará e a quem não tem, até o que tem lhe é tirado, então, não tendo esperança, o que sobra é nada; e, à nada, nada se acrescenta por sinergia. Entretanto, se vocês mudarem a freqüência mental, e passarem a dar graças por tudo, e a crerem que o melhor é o que os aguarda, então, sutilmente as coisas irão começar a mudar. Todavia, isso só acontecerá se você não ficar tentando fazer da “fé” um instrumento de trabalho, e também se deixar de tentar fazer de Deus o seu “sócio oculto”. Não! Não é assim. Faça o que lhe vier à mão com todo o seu coração, mas não procure afirmações divinas na flutuação do mercado, pois, o Senhor não é Mamom.

 

 

Ora, isto dito, antes de voltar ao “principio deixado para o final”, quero apenas dizer que se os critérios de Deus fossem os seus, teríamos que dizer que a Máfia é uma das organizações mais felizes da terra, e que o Bill Gates é o Abraão do mundo pós-moderno.

 

Embora você tenha dito que o que deseja é ficar apenas bem, podendo viver com modéstia e moderação, ainda assim, as emoções de vocês ainda se regulam pelos paradigmas anteriores.

 

Sim! Porque uma coisa é o processo mental, e outro é o processo emocional da fé.

 

Com a mente se diz o que você disse: “É verdade! Ele ressuscitou!”. Ora, esse é apenas um assentimento intelectual-doutrinário e de caráter cultural e religioso, mas nada tem a ver com a experiência da confiança.

 

Confiança é a fusão da mente com a emoção, tendo a fé como vinculo entre ambos.

 

Ou seja: porque creio com a mente e com o coração, então, posso alinhar meus pensamentos sobre a bondade e o cuidado de Deus com meus sentimentos e necessidades.  

 

Ora, quando isto acontece, eu não creio porque é lógico, e nem amo a Deus porque é o melhor a fazer, mas, muito ao contrário: creio Nele porque o conheço em mim mesmo, pela fé; e porque o conheço pela fé e creio em Sua Palavra, acalmo minha alma na certeza do cuidado Dele, e, assim, descanso.

 

Por que você e seu marido não trabalham e fazem o que tem de ser feito, sem, todavia, deixarem-se fabricar pela calamidade, tornando-se pessoas hostis uma a outra?

 

Eu já fali. Fali feio. Quebrei. E quebrei da maneira mais sórdida possível. Todavia, estou aqui; livre e leve; e sem achar que perdi nada, pois, o que ganhei não se ganha se não se perder tudo, ou quase tudo.

 

Assim...

 

Você disse que por não se sentir com fé, não sabe se é “merecedora de Sua Graça”. Pois, se é pela Graça mediante a fé, e sendo a própria fé um fruto da Graça, como pode alguém receber Graça sem ter fé?

 

Ora, leia outra vez o diálogo de Jesus com um pai aflito:

 

 

“Senhor, se podes, cura o meu filho!” — disse o pai.

 

“Se podes? Tudo é possível ao que crê!” — disse Jesus.

 

“Senhor, me ajuda na minha falta de fé!” — suplicou o pai.

 

E o Senhor curou o menino!

 

 

Jesus ajuda a quem não crê e confessa isso; ou àquele que crê apenas para dizer que não crê; pois, toda confissão de fé, até a confissão diante de Deus de que se está sem fé Nele, é fé; posto que até a confissão da falta de fé feita a Deus, é Graça de Deus, visto que sem fé não se tem fé nem mesmo para se dizer que se está sem fé. Entendeu?

 

Portanto, saiba:

 

A Graça é tudo de Deus para nós, até mesmo este tempo de estio que vocês estão vivendo.

 

Assim, abrace a Graça de Deus mesmo que você ache que com sua fé não dá pra abraçar nada. Mas faça isto, pois, Deus é Aquele que estava em Jesus, e que diz: “Se podes? Tudo é possível ao que crê!”.

 

Desse modo, faça a experiência da bondade de Deus, e veja que Ele é bom, tão somente você descanse!

 

Aos Seus amados Ele o dá enquanto dormem” — mas eles dormem. Dormir em tal estado não é irresponsabilidade, mas manifestação simples da fé. Portanto, durma; e creia que Ele poderá estar fazendo aquilo que vocês não podem e nem sabem.

 

Além disso, pare de comer ansiedade. Ansiedade engorda mais que leite moça. Cuide de seu corpo. Faça o melhor por você; e não espere nada melhorar para começar a se distrair. Não deixe que nada disso ocupe suas noites, fins de semana e feridos. Você lembra do tempo em que você e seu marido nada tinham, mas curtiam as ‘maiores ondas’, sem dinheiro algum?  Por que vocês não redescobrem os lazeres dos duros, do tempo em que como meninos vocês só queriam estar juntos?

 

Pense em tudo o que lhe disse. Mas, se puder, compre meu livro sobre Jó — O Enigma da Graça. Sei que por ele vocês terão grande libertação, pois, o que ali digo cai como uma luva sobre a situação de vocês.

 

 

Estou aqui!

 

 

Recebam meu beijo, você e seu marido!

 

 

Nele, em Quem nosso tesouro não conhece nem roubo nem falência,

 

 

Caio

 

05/07/07

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