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Cartas

ME EXPLIQUE O QUE NINGUÉM ME EXPLICA!

ME EXPLIQUE O QUE NINGUÉM ME EXPLICA!

-----Original Message----- From: ME EXPLIQUE O QUE NINGUÉM ME EXPLICA! Sent: quinta-feira, 30 de outubro de 2003 To: contato@caiofabio.com Subject: DIVÓRCIO E NOVO CASAMENTO Mensagem: Olá Caio Fábio! É um prazer poder estar nesse ponto de encontro, após muitas pesquisas sobre um assunto que me intriga muito! O fato é que eu tenho muitos amigos evangélicos, pastores inclusive, e nenhum deles consegue me responder a uma pergunta que a princípio acreditava ser simples: Qual a alavanca bíblica, ou quais os versículos que nela preconizam que o casamento pode ser desfeito, ou que se pode ter uma segunda união conjugal. No caso de divórcio ou separação, quero saber se o indivíduo pode unir-se novamente a alguém sem transgredir as leis divinas? (se é que pode ser chamado assim). A questão da fidelidade tem fundamento bíblico? Desculpe pelos termos, é que sou totalmente leiga nesse assunto e na minha santa ignorância, vejo que os entendidos do assunto também não conseguem me responder a isso! Todos parecem ter uma resposta padrão ou me convidam para estudos litúrgicos e teológicos. Porém, não tenho interesse em estudar Teologia para descobrir uma questão que eu julgava ser tão simples. Uma noite dessas, num encontro com amigos que não via há muito tempo, fiz essa pergunta, e um deles, mais bem informado (e brincalhão também), mencionou seu nome como última salvação para mim! Do tipo “Se o Reverendo Caio Fábio não souber, ninguém mais saberá”. Falou isso com um certo desânimo que aguçou minha curiosidade. Fiz uma busca na Internet usando como termo de pesquisa o seu nome e achei o seu site (muito interessante por sinal). Não me leve a mal, mas será que o senhor poderia me responder se existe no livro sagrado, trechos concretos sobre essa questão? Se houver, gostaria que mencionasse para que eu pudesse entender melhor essa polêmica que me acompanha há anos. Parece que todos (católicos, protestantes, espíritas, seicho-no-ie, Maharaj, Bagwan Shree Rajneesh), enfim, todos em quem busquei uma resposta, não conseguiram fornecer esclarecimentos plausíveis sobre este assunto! Agradeço muito se puder me ajudar! **************************** Resposta: Minha querida: Paz! A Bíblia fala que a união homem e mulher é uma dádiva divina: “Far-lhe-ei uma companheira que lhe seja à altura”—disse Deus em Gênesis. E acrescentou: “e os dois serão uma só carne”. Portanto, casamento tem que gerar no mínimo as seguintes realidades: 1. Tem que produzir um companheiro (a). 2. Tem que ser á altura (idôneo). 3. Tem que gerar não apenas coito, mas uma só carne—o que implica em fusão total. Sem isto não há casamento! O Divórcio foi dado como “medicina” para curar os casamentos onde essas três realidades não estão presentes. Estar casado com alguém que não é companheiro (a), que não é idôneo—ou seja: não é de confiança—, e se relacionar com alguém apenas para cumprir uma “obrigação conjugal”, é um inferno. Paulo diz em I Coríntios 7 que Deus nos tem chamado à paz, não à escravidão; e ele falou isso tendo o casamento como contexto. Quando Deus diz em Malaquias que odeia o Divórcio, o contexto tem que ser compreendido. Os homens estavam trocando de esposa “por qualquer motivo”. Casava-se e descava-se em razão da “dureza” do coração. Havia um orgia de casamentos e divórcios; e estes eram motivados pelas razões mais mesquinhas. De fato, os “religiosos” judeus, legalistas, estavam vivendo da fachada de superioridade em relação aos bígamos e polígamos que havia entre eles; e, justificavam sua “superioridade” moral em razão de não praticarem a bigamia ou a poligamia, mas a monogamia sucessiva. Nesse caso, o mandamento bíblico recai sobre a hipocrisia e sobre a tentativa maligna deles de usarem a lei sem amor. Ou seja: eles não apenas descartavam as esposas, mas as abandonavam ao descaso e à fome. Além disso, os homens poderiam exercer esse lugar de supremacia no Divórcio—repudiar e casar outra vez—, mas a mulher—a deixada—era vista para sempre como uma quase-prostituta, uma mulher que carregava a desonra de ter sido rejeitada; e quem quer que casasse com ela também levava a fama de ser adultero. Daí Jesus ter dito, tratando o tema dentro do contexto histórico—e que em nada parecia com o nosso—, que quem assim fazia “expunha” a mulher a tornar-se adultera. Nós lemos Mateus 5: 31 e 32 e pensamos nele com nossas categorias ocidentais, posteriores à predominância política do Cristianismo sobre este lado do planeta, impondo não uma nova consciência, mas apenas uma nova Moral. Todavia, quase nunca levamos em consideração o contexto no qual Jesus disse esta palavra. Naqueles dias, embora a poligamia e a bigamia—tão constantes no Antigo Testamento— ainda existissem, desde o exílio em Babilônia que ela vinha diminuindo—por questões econômicas, como é obvio! Todavia, ainda que ambas não fossem a norma para a maioria, na prática, no entanto, era ainda uma consciência prevalecente. Prova disso é que em João 8, no episódio da mulher adultera e Jesus, não se apresenta o “homem” com quem essa “adultera”, adulterara. “Ele”, o homem, estava isento das pedradas. Mas a mulher estava lá, semi-nua ou nua, exposta a todos. Portanto, quando Jesus diz que a Lei dizia que um homem poderia des-cartar a sua mulher dando-lhe uma carta de divórcio, Ele falava isto a uma assembléia machista, que praticava isto com muita alegria e facilidade. Tudo era motivo para se divorciar. Literalmente, por qualquer motivo, como vemos em Joaquim Jeremias e outros especialistas ( Mt 19:3) Isto para não falarmos na briga doutrinária que havia, nos dias de Jesus, entre as escolas de Shamai e Hillel em relação ao tema em questão. Era o reino da banalidade relacional. Nesse caso, o que Jesus diz, levando-se em consideração o “contexto historio”, é basicamente o seguinte: 1) Se, para vocês, a mulher é adúltera quando trai o seu marido, dando-se fisicamente a um homem, todavia, vocês, os homens, cometem muito mais adultério pelo modo “natural” como olham e desejam mulheres (MT 5: 28); 2) Neste mundo onde o homem “descarta” a mulher—ela sem direitos a mesadas e a patrimônio, estigmatizada pela Moral vigente e, praticamente, entregue a sobreviver como pudesse—a única clausula, de permissão ao divorcio era se a esposa traí-se o marido; ou seja: “... em caso de adultério” (5: 32b). Nessa caso, o homem poderia dar a ela carta de repudio e divorcio. Naqueles dias, mulheres não se divorciavam dos homens. Era a Lei. 3) A razão, portanto, tinha a ver com o estigma que a “repudiada”, a divorciada, carregaria, naquela sociedade, daí para frente. Ao homem era permitido—por qualquer motivo—desamparar a esposa, repudiando-a, e, então, depois disto, era-lhe “lícito” escolher outra mulher e seguir adiante com sua vida. Não era sempre bigamia, mas era sempre uma monogamia sucessiva. Ela era extremamente praticada até que Shamai, um rabino, se levantou contra aquela injustiça, discutindo os “motivos justos para dar uma carta de divorcio”, que, à semelhança de Jesus, para ele, também era o adultério. Todavia, a preocupação era com o estado de desamparo no qual ficava a mulher repudiada-divorciada, pois, para todos, ela passava a ser fadada a nunca mais amar ninguém e nem ter ninguém, apenas porque alguém não a quis mais, por qualquer motivo. Esta é a razão pela qual Jesus—após denunciar o adultério subjetivo de todos os homens—diz que a preocupação era com expor a mulher a tornar-se adultera (Mt 5: 32c), e, também com “aquele” que, porventura, à ela se ajuntasse, pois, ele também, passaria a ser visto como o marido da repudiada. Numa sociedade onde o homem tinha todos os privilégios, incluindo o de ter uma segunda esposa caso a pudesse sustentar, descartar a esposa e entrega-la ao mundo com uma letra R, de Repudiada, escrita na testa, e, ainda, esperar que ela vivesse de vento, expunha-a a tornar-se adultera—fosse pela necessidade de ser sustentada por alguém, fosse pela realidade de ter encontrado alguém. Assim, em Mt 5: 27-28, Ele iguala a todos no nível do adultério subjetivo. Já em Mt 5: 31-32, Ele nos mostra como uma vítima da dureza de coração de um homem—que descarta e não cuida da vida humana que ao seu lado esteve—pode, numa sociedade regida pela Teologia dos Fariseus, ser ainda mais des-graçada. O “repudio” do homem tornava a mulher, no mínimo, uma “repudiada” e, no caso dela prosseguir com a vida—sem ter que se entregar à mendicância—,a exporia a ser vista, para sempre, como adultera. Dessa forma, Jesus afirma duas coisas: primeira, a seriedade do vinculo entre dois seres humanos numa relação de casamento; e, a segunda, a possibilidade de que a alma humana pudesse se endurecer tanto, que usasse a do outro, e depois, simplesmente a descarta-se, sem cuidado e sem proteção. Em outras palavras: Jesus não entrou na questão da Lei—até Moisés teve mais de uma esposa—, mas na questão da misericórdia, e, sobretudo, no tema da descriminarão Moral do infeliz; e, também no tema da Teologia dos Fariseus e a sua dureza predatória— suas Leis de causa e efeito da infelicidade—, que, naquele caso, era uma Lei animal, que tratava a companheira como lixo. E por que digo isto? Por duas razões: 1) Porque é o que vejo no trato de Jesus com as mulheres de todos os tipos de vida durante os Evangelhos. Quase todas elas vinham de vidas infelizes, mas todas foram absolutamente acolhidas, a Samaritana, inclusive, com seu “companheiro”, acerca de quem Jesus disse: “...chama teu marido e vem cá...” 2) Minha leitura da Bíblia, toda ela, está irremediavelmente ligada à única chave hermenêutica que eu creio que é absoluta: “O Verbo se fez carne”—essa é a chave hermenêutica! Logo é no Verbo Encarnado, Jesus, onde vemos o Verbo virar Vida, em todos os sentidos. Ora, isto nos leva não a ler o que Jesus disse e , para melhor entender o texto, fazermos uma exegese da passagem. Ao contrário: isto nos leva a ler e ouvir o que Jesus disse, e, ver, nos evangelhos, como Ele encarnou aquele Verbo. Ora, quando fazemos isto, não temos mais o Evangelho que Jesus falou e nós “interpretamos” como bem desejamos; e o Evangelho que Jesus viveu, que nós usamos para nos inspirar na fé na fé. E esquecemos que são naqueles encontros com a vida que cada um de Seus ensinos—literalmente, cada um deles—, teve sua verdadeira interpretação. Jesus nunca ensinou aquilo que Ele não encarnou, como manifestação da Graça! A tentativa de fazer exegese das falas de Jesus, e não levar em consideração como Ele tratou as pessoas pelo caminho, é audaciosa, pois, coloca-nos como “os interpretes da Lei”: com a Chave da ciência debaixo do braço, pondo-nos numa posição na qual Jesus pode ser esquizofrenizado pelas nossas doutrinas e Teologias; ou seja: ensinando uma coisa—geralmente legalista em seus conteúdos—, conforme nós “interpretamos” as falas de Jesus; enquanto, também evangelizamos, falando do modo misericordioso como Jesus tratou com amor os pecadores. O problema é que, na maioria das vezes, o Jesus que encontra pessoas pelo caminho—gente de todo tipo—, não combina com as “interpretações” que fazemos de Suas Palavras. Quem é que está com problemas? Seria Jesus um “esquizofrênico”? Seria Ele como os fariseus, que diziam e não faziam? Ou como os “interpretes da Lei”, que punham fardos pesados sobre os homens que eles nem com o dedo queriam tocar? Ou nós é que continuamos sofrendo da doença deles? Responda-me: Crendo que Jesus é o Verbo encarnado, como você interpreta o que Ele disse? À luz dos ensinos de nossos interpretes da Lei? Ou, quem sabe, para o seu próprio bem, conforme o Verbo Encarnado em Jesus! Jesus é a Palavra sendo interpretada aos nossos olhos! Afinal, o Verbo se fez carne e habitou entre nós...e vimos a Sua Gloria...! Além de tudo isto ainda há o fato de que em Romanos 7 Paulo diz que a Lei toda morreu em Cristo a fim de que a Lei mudasse; pois a mulher estava ligada à lei ao marido enquanto este vivesse. Por isso, Cristo, fez o papel do “marido” que morreu com a Lei, para que, em havendo ressuscitado dentro os mortos, pudesse nos oferecer uma nova vida; como quem casa outra vez, sem a culpa de que o marido esteja vivo. Ou seja: na morte e ressurreição, Jesus também nos salva desse “jugo”; pois se a ilustração da “morte do marido” como liberdade para a viúva casar-se outra vez é valida como realidade que ilustra o que Cristo fez na Cruz por nós—afinal, uma viúva de fato está livre para casar outra vez—; assim também a verdade acerca dos resultados obtidos pela morte e ressurreição do Senhor realizam a viuvez da Lei e a instituição da Lei da Vida, onde as coisas antigas já passaram, pois, eis que tudo se fez novo. Inclusive a possibilidade de que infelizes encontrem a felicidade. Paulo recomenda que esse novo casamento seja feito no Senhor. Ou seja: com aquelas "três consciências" afirmadas por Deus como sendo “casamento” desde o Gênesis--conforme iniciei falando do assunto. Lembra? "Casar no Senhor" não é ter uma "benção pastoral" que supostamente une dois evangélicos ou cristãos. "Casar no Senhor" é casar com amor e com verdade—sabendo-se o que se deseja, e fazendo-se o possível para que aquele vínculo tenha chance de realizar uma conjugalidade digna e feliz. Ora eu teria milhares de coisas a dizer, mas não estou escrevendo um livro; apenas respondendo a sua carta. Leia o site. Aqui você terá todas as respostas que precisa, mas terá que ter paciência para "navegar". Nem todas as coisas estão ditas como um título, mas como conteúdo dentro de outras respostas, questões ou artigos, devocionais, reflexões e opiniões. Portanto, para você se aproveitar deste site, sem dúvida você terá que "mergulhar". Ele é como um mar: cresce para dentro e para o fundo. Um beijão, Caio