Português | English

Cartas

GOSTARIA DE UMA BASE BÍBLICA PARA ME SUCIDAR

GOSTARIA DE UMA BASE BÍBLICA PARA ME SUCIDAR



----- Original Message ----- From: GOSTARIA DE UMA BASE BÍBLICA PARA ME SUCIDAR To: contato@caiofabio.com Sent: Thursday, January 20, 2005 2:26 PM Subject: falo do meu suicídio... Olá Pastor! Hoje eu estou muito mal, nem sei se devo escrever, ou se adianta escrever. Desde a minha adolescência eu sempre desejei me suicidar. Tive uma infância e adolescência cheia de problemas familiares sérios. Por incrível que pareça, sou casada, tenho 03 filhos e me encontro do mesmo jeito. Parece que fui predestinada para sofrer. Deixa para lá, isto é detalhe... De julho do ano passado para cá as minhas tentativas de suicídio aumentaram consideravelmente. Mas na hora "h" interrompo, fico com medo de ir para o inferno, apesar de acreditar que já estou nele. Ultimamente tenho imaginado como poderia fazer de uma forma que não chamasse a atenção para suicídio, pois não quero que meus filhos levem isso para o resto da vida deles, mas apenas pensem que morri. Conheci o meio evangélico com 23 anos, estava no último ano da faculdade e aceitei Jesus como Senhor e Salvador. Mas as lutas, as dificuldades, os problemas, continuam os mesmos. Tenho apenas a salvação e a vida eterna como promessa para quando partisse deste mundo desgraçado. Mas as pessoas que já me aconselharam na Igreja disseram que se eu me suicidar vou perder esta benção, pois estaria interrompendo a vontade de Deus para minha vida; o tal plano que tantos falam que Ele tem, o tal propósito, a tal história que Ele não deixa a gente sofrer mais do que podemos suportar... etc. Eu creio que estarei apenas interrompendo minha vida, e isso não é errado para Deus, Ele autoriza, e me entende; e poderei estar lá no Céu; cheia de paz, alegria, aproveitar de tudo que Ele preparou para mim.... Estou chorando compulsivamente, não estou conseguindo escrever direito. Sabe pastor a coisa que mais quero é parar de sofrer, acabar com esta solidão... É sim! Eu sou uma pessoa só, desde o ventre da minha mãe. Minha mãe sempre me disse que por causa de problemas com meu pai ela tentou me abortar, e que ela acreditava que eu lutei para sobreviver, pois ela tomou um abortivo fortíssimo. Quando penso nessa hipótese eu fico com ódio de mim mesma... Por que não acabei com a minha vida no ventre de minha mãe? Deixa pra lá... Vou terminar dizendo apenas que desejo terminar essa vida sem sentido, e que posso agir sem medo de ir para o inferno... Será que posso interromper esta vida desgraçada e confusa? Gostaria apenas de ler algum versículo na Bíblia que me certificasse disso. Aguardo ansiosamente seu retorno. Um beijo no seu coração, amado pastor. __________________________________________________________________________________ Resposta: Minha querida irmã no Senhor da Vida: Graça e Paz! “A gente não veio porque quis, então não tem que ir porque quer”—Adriana D’Araújo. Na minha Bíblia não há um único versículo que autorize alguém a se suicidar. Encontro na Bíblia um constante chamado à vida e à esperança, pois, quando se diz que o homem só vive se o faz pela fé, também se diz com isso que não existe lugar para a ambição da morte na fé, posto que a fé gera vida. É verdade que Paulo diz que se desesperou da própria vida, mas não tentou se matar. No máximo ele desejou morrer em razão das angustias que experimentou. A Escritura diz que a opressão faz ter vontade de morrer. Mas apenas constata isso, sem, todavia, recomendar a morte. Paulo também disse que preferia “partir e estar com Cristo”, o que para ele “era incomparavelmente melhor”. Porém, há um “no entanto” na seqüência do que ele diz, pois afirma que “por causa dos irmãos” ele preferia continuar a sua existência no corpo físico. Paulo também diz que “enquanto vivemos neste tabernáculo, gememos angustiados, aspirando ser revestidos de nossa habitação celestial”. Ele também diz que mesmo aqueles que têm “as primícias do Espírito” ainda assim “gemem aguardando o dia da redenção”. Jesus disse que neste mundo se tem aflição, e recomenda que se mantenha “o bom ânimo”, pois, Ele “venceu o mundo”. Ora, em razão do que lhe disse acima, devo concluir que a Palavra de Deus ensina que viver é difícil, e que ninguém, nem mesmo aqueles que andam em fé, estão livres de aflições, angustias e desesperos. Ao contrário, o estimulo é para que “nos gloriemos nas próprias tribulações”, sabendo que as adversidades e angustias desta vida são as portas de acesso à consciência do que seja uma vida madura. Isto porque a tribulação produz perseverança, a perseverança produz experiência, e a experiência gera esperança no coração. E o resultado desse processo desemboca em segurança, posto que a esperança não confunde. Problemas, angustias, gemidos e dificuldades são comuns à existência de todos os homens, e é pura ingenuidade cristã julgar que os crentes estão livres de ter que enfrentar a vida, com todas as suas conseqüências e implicações. Aliás, é esse romantismo cristão uma das coisas que mais impedem os crentes de se tornarem pessoas maduras e livres. Digo isto porque quem sabe que no mundo se tem aflições, e sabe que não há exceções, esse mesmo não busca dificuldades para si, todavia, não foge delas quando elas aparecem. Pelo contrário, a pessoa madura na sua consciência sabe que terá aflições, e também sabe que é justamente por tais dificuldades que ela própria cresce como ser humano, sendo impossível crescer nesta vida sem que se passe pela tribulação. A diferença entre os amadurecidos e os eternamente aflitos e entregues à aflição—como se estivessem sendo sabotados por Deus e pela vida—, é que os amadurecidos sabem que a tribulação faz parte, é natural, é inevitável, e pode vir por quaisquer meios e modos, não havendo, portanto, da parte deles—dos amadurecidos—nenhum tipo de crise e de questão acerca do fato de que nesta vida se sofre mesmo. No entanto, os “eternamente aflitos” são aqueles que não querem crescer, que preferem pensar que a vida é um porcaria, e que eles são impotentes para viver. Nesse caso, entregam-se às aflições e existem como vitimas perenes desta existência. O que se precisa saber é que o estado perene de angustia é uma droga. É uma droga porque é uma “droga”, e, também, porque de fato tem o poder de uma droga. Sim, tal sentir mexe com o nosso cérebro quando se faz um estado psicológico. E, nesse caso, a infantilidade da alma que não quer encarar a realidade de que a vida é dura mesmo, faz com que a perenização desse estado acabe por provocar mudanças no próprio cérebro, o qual se condiciona e se predispõe a existir sob as influencias de uma atitude negativa, a qual, quase sempre, determina uma mudança nos estímulos do cérebro, fazendo com que ele termine por se entregar àquela disposição mental, fazendo, daí em diante, “coro” com a dor; e faz isto liberando substancias químicas que reforçam aquele estado depressivo ou angustiado. Há aqueles que enfrentam a dificuldades e vêem nelas oportunidades de crescimento, por isso se gloriam nas próprias tribulações e amadurecem a cada dia; e há aqueles que fogem das dificuldades inevitáveis ou que se fazem “pobres coitadas e vitimas” de tais realidades da existência. O processo que acabou por gerar o SENTIR que hoje parece habitar você diuturnamente precisa ser devidamente pesquisado. Daí ser importante para você buscar ajuda profissional. Nesse caso recomendo-lhe um psico-terapeuta—a fim de ajudar você a enxergar o histórico dessa angustia (e até o seu vício nela); e também recomendo-lhe um psiquiatra; pois, no estado atual, você precisa re-equilibrar o seu organismo, e ajuda química será muito importante a fim de aliviar paliativamente o presente estado de aflição. Todavia, no fim de tudo, o que está em questão, saiba, é a sua coragem ou não para crescer, para aceitar a vida como ela é—com seus sustos e dores inevitáveis—, a fim de poder ver nas dificuldades, que são comuns a todos os homens, não uma conspiração, mas a simples realidade, e, sobretudo, a oportunidade para crescer e amadurecer. Portanto, sem jamais questionar as agonias que a visitam e perturbam, devo dizer que muito provavelmente seu problema seja medo de crescer, e infantilismo psicológico, coisas essas que a paralisam sob o pretexto de que a vida é uma desgraça. Já sofri muito nesta vida e provavelmente ainda sofrerei. Mas seja como for, pela Graça de Deus, eu sei que faz parte... Ora, quanto mais você sente assim, menos você sente contra você. Ao contrario: estranhamente toma conta de você um sentimento de privilégio, de coragem, de vontade de vencer, de encarar e de se gloriar nas próprias tribulações. A gente começa a crescer quando aceita que aflições fazem parte desta existência. Então isso fortalece você com bom animo para enfrentar as coisas, pois, você sabe que Jesus venceu o mundo. Ora, o fim dessa jornada é fazer você se gloriar nas próprias tribulações. No entanto, nada disso tem valor enquanto a pessoa não se enxerga e vê que ela está viciada em suas próprias dores; o que a impede de enxergar qualquer beleza na existência à volta de si, posto que só tem olhos para a escuridade criada pelo estado de lamuria e amargura existencial que se tornaram seu cenário interior. Egoísmo combinado com covardia também estão sempre presentes nesse estado. Digo isto porque é o egoísmo que faz com que tais pessoas pensem que são únicas em suas dores; ou seja: que suas dores são especiais. A covardia, todavia, é o que impede a pessoa de sair de si e olhar a realidade, posto que se fizer isso, ela sabe, não poderá mais pensar que suas dores são peculiares e especiais; antes verá, conforme diz o apóstolo Pedro, que tais angustias se cumprem em toda a nossa irmandade espalhada pela terra. Com tudo o que estou escrevendo aqui provavelmente você esteja pensando que não estou ajudando você a se consolar de suas dores. E é verdade. Não quero consolar você. Quero sim é ajudar você a parar de viver de consolo; e, com coragem, abrir os olhos, romper com seu vício de agonias, encarar a realidade, buscar crescer em Deus, e, dedicar-se à vida sem medo; com toda vontade de vencer esse estado vicioso que se instalou em sua alma. Não se esqueça que segundo Jesus os bem-aventurados também choram. Portanto, não existe felicidade sem lágrimas na terra. O segredo é aprender a felicidade apesar das lágrimas, pois, no fim de tudo, se aprende que é justamente nas lagrimas que nasce a verdadeira felicidade. A pessoa feliz é aquela que aprendeu a lidar com a inevitabilidade do sofrimento! Tais pessoas não mergulham na resignação passiva. Ao contrário, elas aceitam que sofrer é parte do viver, e que o sofrer acaba, ironicamente, por ser parte da alegria de existir. Tais pessoas não são resignadas passivas, mas pessoas ativas, e que transformam o vale de lágrimas num manancial, conforme o Salmo 84. Mas quero repetir: você precisa de um psico-terapeuta e de um psiquiatra. O primeiro para ajudar você a descobrir quais são as fontes psicológicas do seu vício. Já o psiquiatra será indispensável para receitar a você uma medicação anti-depressiva que ajude você a ter um alivio sintomático. Sugiro também a você que pesquise acerca de seu estado físico como um todo, buscando por alguns desequilíbrios de natureza química. Você não pode imaginar como a ausência de certas substancias químicas podem levar uma pessoa a se sentir terrivelmente deprimida. No mais, como dever de casa, recomendo-lhe a Natureza. Sim, água, mar, piscina, sol, passeio ao ar livre, almoços, jantares, amigos, busca de prazer nos filhos, amor ao marido (com todas as implicações físicas de tal realidade), e uma devoção sem lamuria e sem perguntas. Comece a praticar essas coisas e elas a ajudarão imensamente. No mais, aguardo novas notícias. Mas não me escreva dizendo que não fez nada, pois, não se pode ajudar quem não quer nada. Eu sei que você quer viver e quer deixar de se sentir permanentemente angustiada e aflita. E eu creio que você pode amadurecer a fim de deixar de viver assim... Mas isso só acontecerá se você crer que na vida se tem aflições, e que se deve ter bom animo, pois Jesus venceu o mundo. Receba todo meu carinho e vontade de ver você bem. Pare de chocar a sua aflição! Deus é com você! Nele, que conhece as nossas angustias, Caio