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Cartas

FRANCIS SCHAEFFER versus KIERKEGAARD: o que você diz?

FRANCIS SCHAEFFER versus KIERKEGAARD: o que você diz?

 

 

 

 

 

 

 

----- Original Message -----

From: FRANCIS SCHAEFFER versus KIERKEGAARD: o que você diz?

To: contato@caiofabio.com

Sent: Saturday, August 04, 2007 8:54 PM

Subject: Francis Schaeffer e Soren Kierkegaard.

 

Paz Caio!

 

Acabei de ler no site ''FILO-SOFIA quase nunca é META-NÓIA!'', e fiquei com uma grande dúvida.

 

Li o livro de Francis Schaeffer ''O Deus que Intervém'', o próprio Schaeffer critica Kiekergaard por ser ele o pai do pensamento existencial moderno de ''salto de fé'' e total separação de entre a Fé e a Razão.

 

Em relação à Fé é realmente possível conciliá-la com a filosofia racional (com vistas a buscar fatos e acontecimentos confiáveis que provem a existência de Deus) como propõe Schaeffer ou devemos concordar com Kierkegaard que toda filosofia morria em Deus, e que qualquer outra tentava não só era louca como também blasfema, como você mesmo diz no site concordando com Kierkegaard?

 

Tire esta dúvida, por favor!

 

Abraços.

 

Thiago.

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Resposta:

 

 

Meu irmão: Graça e Paz!

 

 

Francis Schaeffer foi um teólogo reformado fazendo uma tentativa fundamentalista de soar compreensível para o mundo europeu das décadas de 60 e início de 70.

 

O conheci como autor de livros tão logo me converti em 1973; e, no meio no qual eu começava a viver a fé, Francis Schaeffer me chegou como um conforto de linguagem e de comunicação. 

 

O que me fez bem lendo Francis Schaeffer nos primeiros anos foi a base na qual ele erigia sua fé — o Jesus histórico (que ressuscitou no tempo e no espaço), a Queda humana no tempo e no espaço (com implicações em todas as dimensões da vida) e a centralidade do Evangelho como confissão de fé e prática.

 

Ora, nesse sentido tanto ele quanto Kierkegaard criam as mesmas coisas!

 

No início, todavia, minha visão dele (Francis Schaeffer) não era critica. O lia e o aceitava no que ele dizia; até porque meu conhecimento sobre filosofia era ainda muito escasso e limitado. Entretanto, quando em 1978 eu li “Temor e Tremor” de Kierkegaard, minha visão acerca do que Francis Schaeffer dizia ficou profundamente relativizada e circunscrita ao fundamento das coisas.

 

Sim! Porque no que tangia a essência, logo vi que tanto Francis Schaeffer quanto Kierkegaard diziam a mesma coisa — com profundidade imensamente maior na percepção de Kierkegaard.

 

Infelizmente logo vi que Francis Schaeffer caía no malogro teológico-filosófico dos mestres da “igreja” ao buscar desesperadamente tornar o “Cristianismo” atual (racional) para o mundo pós-hippie.

 

Francis Schaeffer cria que o “Cristianismo” era de Deus e salvável; já Kierkegaard cria que o “Cristianismo” era uma perversão do Evangelho; assim como também veio a crer e pensar outro homem que dele muito aprendeu: Jacques Ellul.

 

Francis Schaeffer buscou ser  (inconscientemente) um remendo de pano novo em veste velha!

 

Sendo muito cartesiano e não-aberto a muitas outras percepções da vida, Francis Schaeffer cavou um poço semi-artesiano ao lado do Oceano. Kierkegaard, todavia, pulou de cabeça no mar e descobriu que pela fé andava-se sobre as águas.

 

Quase...

 

Sim! Francis Schaeffer quase passa..., mas acabou vitima de seu fundamentalismo latente; assim cada vez mais no fim da vida foi se tornando um ser insuportável pela sua agressividade beirando a burrice.

 

Para mim Francis Schaeffer não entendeu muita coisa para além do fundamento (e não estava apto a ir onde pretendeu); daí ter proposto coisas que, do ponto de vista da filosofia, eram bobas e insipientes na argumentação na forma de “razão”.

 

Não dá para comparar Francis Schaeffer com Kierkegaard, assim como não dá para comparar um poço semi-artesiano com o mar.

 

Ou seja: Francis Schaeffer estudou filosofia com uma mente predeterminada a organizar um pacote apologético que fosse um instrumento do “Cristianismo” contra a “secularização” crescente que já havia na Europa, a qual trazia o germe da chegada da Era Pós-Cristã.

 

Francis Schaeffer era um homem da “igreja” mais do que do Evangelho simples. E como homem da “igreja” ele só leu Kierkegaard a partir da incorporação dele ao mundo da filosofia; e isto já no contexto acadêmico do existencialismo; o qual atribui a Kierkegaard a origem do “salto da fé” na perspectiva do existencialista. O que não é verdade; posto que o que há em Kierkegaard é fé; e o que há, por exemplo, em Sartre, é total descrença. Para Kierkegaard o salto não era para o Nada, mas para Deus (e Sua Palavra); já para Sartre o salto deveria ser no Nada, pois, para ele, nada havia além de Nada.

 

Ou seja: o que Francis Schaeffer leu não foi Kierkegaard, mas sim os defensores idiotas do existencialismo francês, os quais fizeram de “kierkegaard” na filosofia a mesma coisa que o “Cristianismo” fez de “Jesus” em relação ao Evangelho original — uma criação da conveniência do pensamento; especialmente num mundo que precisava de algum pensador anti-pensamento na forma do que Kierkegaard propôs.

 

Entretanto, o próprio Kierkegaard não via a fé como morte da razão, mas sim como submissão da razão à fé que transcende a razão com base na Revelação.

 

Mas Francis Schaeffer não compreendeu isso; assim como não compreendeu muitas outras coisas.

 

Na realidade o que Kierkegaard propôs nada mais é que a volta à fé que anda fundada na simplicidade do Evangelho, e não nas complexidades do “Cristianismo”.

 

Francis Schaeffer me ajudou no inicio da caminhada; porém, logo, logo me ficou claro que o teto de compreensão dele era muito baixo, além de ser profundamente condicionado às sistematizações da teologia reformada e sua obsessão apologética por provar a existência de Deus pela demonstração racional — loucura total; prova disso é que o que Francis Schaeffer deixou não sobreviveu ao embate da realidade no tempo e no espaço. 

 

A Razão não morreu, mas “A Morte da Razão” de Francis Schaeffer está morta como idéia a ser buscada como auxilio a fé; enquanto Kierkegaard fica a cada dia mais atual, conforme o espírito do Evangelho.

 

A “razão” não ajuda em relação a Deus; ajuda sim em relação ao homem: à História, à sociologia, à antropologia, à pesquisa arqueológica, etc.

 

Ora, pela sua colocação na carta vi que você também, à semelhança de Francis Schaeffer, ainda não aprendeu a fazer a diferença.

 

 

Leia com calma o meu site e você verá que o que digo não apenas aqui, mas em relação ao todo, está bem fundado da Razão-Logos do Evangelho, embora não carregue qualquer compromisso com nenhuma sistematização que pretenda existir como facilitadora de minha relação com Deus.

 

 

Receba meu carinho e minhas orações!

 

 

 

Nele, em Quem Francis Schaeffer e Kierkegaard são apenas servos com percepções relativas, e que só são verdadeiras quando são conforme o espírito do Evangelho,

 

 

 

Caio

 

05/08/07

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