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Cartas

FILHO DA FORNICAÇÃO?

FILHO DA FORNICAÇÃO?

 

 

 

----- Original Message -----
From: FILHO DA FORNICAÇÃO?
To: contato@caiofabio.com 
Sent: Thursday, August 24, 2006 6:00 AM
Subject: Ajuda! Urgente!

 

Caro Caio Fábio,
 
 

Vou tentar ser breve. Sou fruto de um ato de fornicação de meus pais. Fui rejeitado pelo meu pai terreno na minha concepção. Isto foi revelado a mim por Deus e confirmado por minha mãe. E nesse momento de rejeição, o Senhor me amou; e desde então nunca me abandonou.

Meus pais se casaram e conceberam minha irmã. Após 3,5 anos separaram-se e voltamos a morar com meus avos.

Converti-me aos sete anos e freqüento a igreja desde os quatro anos. A família de minha mãe é de origem evangélica.

Fui líder de adolescentes, co-líder de jovens, missionário, etc. Após um período no exterior, fazendo residência, voltei ao Brasil e encontrei minha igreja desmontada. Acabei não conseguindo mais freqüentá-la, e fui perambulando entre denominações. No mesmo período, por estar afastado, me envolvi com uma mulher não convertida. Oito meses de relacionamento. Ela terminou. E como nunca havia tido este tipo de relação, devido a minha formação (sem sexo), fui destruído pelo sentimento de abandono. Nesse momento conheci minha atual mulher, que também não era convertida. Após alguns dias terminamos. Como estava mal por causa da outra, acabei voltando pra ela como consolo. Acredito que aprendi a amá-la.

Devido ao tipo de relação de fornicação que tive com ela (aprendi com a outra), me envolvi mais e mais. Quando retornava a igreja me sentia culpado pela nossa relação e resolvi casar para regularizá-la. Entretanto nunca houve certeza no meu coração sobre ela ser minha escolhida. Parece que as circunstâncias foram levando a isso.

Devido a minha formação, minha consciência sempre me puniu, e o faz até hoje.

Resumindo, após oito anos de relacionamento, sendo quatro de casado, sem filhos e sem amor, me encontro em depressão, e sendo tratado por psiquiatra, psicólogo e estou no aconselhamento pastoral.

O próprio pastor me disse que se for para viver nesta angustia é melhor separar.

Já estou sem dormir a mais de quatro meses. Estou com medo de ficar mais doente. Mas também com muito medo de me separar por achar que cometo o erro dos meus pais. E pior: desobedecendo a Deus, que manda eu amar minha esposa... E eu não consigo mais.

No começo ela era um doce. Foi ficando cada vez mais amarga. Suportei muito, por isso durou tanto tempo. Hoje não suporto mais...

Um amigo me indicou o site. Li muitas cartas, mas ainda não consegui tirar minhas dúvidas. Dúvidas sobre a minha separação. Os médicos dizem que o problema da minha depressão é o casamento. E não suporto mais tomar tanto remédio. Remédios mais fortes me trazem somente algumas horas de sono e não descanso mais.

Sou uma figura política, e tenho, portanto, um cargo político. Ocupo cargo de destaque em minha cidade. O Senhor me colocou nesta posição. Tenho certeza disso. Digo quanto ao trabalho.

Tenho medo de me divorciar... e me arrepender...  por crer que Deus possa ter um milagre para minha vida. Já vi tantos acontecerem...

Uma das condições para nos casar foi que ela se convertesse. Descobri a alguns anos que isto nunca ocorreu. Hoje, parece que devido a crise ela vem buscando isso. Esta fazendo terapia.
 
Peço sua oração e intercessão. Acabei me envolvendo com uma amiga de trabalho, de fora, de outra cidade. Uma vez me arrependi profundamente. Mas esta vez foi melhor que todas as vezes com minha esposa. Culpo-me por ter sentido aquilo com outra pessoa que não minha mulher.

Tenho um amigo de infância que não aceita esta minha condição de separação. Sei que ele, perto de mim, é mega espiritual. Eu sou um verme...

Ele diz que meu casamento está demonizado, que o casamento é uma nova entidade... Por isso Deus considera “um”. Não que nós estejamos endemoninhados, mas sim demonizados na união. Não entendo isso direito. Será que toda esta culpa é do diabo?

Ela tem valores absurdamente diferentes dos meus. Sua formação é espírita. Que fria me meti.

Muitas vezes me pego repreendendo meus sentimentos. No momento melhora, mas depois volta. Passarei o resto da vida assim? Suportarei tal pressão? Não sei a resposta!
 
Minha terapeuta me aconselhou a sair logo de casa. Não temos patrimônio, nem filhos. Somente nós... E não nos entendemos mais. Cansei de lutar, desfaleci...

Escrevo como desabafo, solicitando qualquer ajuda que poder me dar. Hoje me sinto miserável, devido à minha condição no casamento. Já conversamos muito, e já cogitamos várias vezes a separação. Sete vezes em quatro anos.

Tenho medo de minha responsabilidade para com Deus, mas também tenho medo de não suportar mais...

Tenho estado na presença do Senhor todos os dias, devocional diária. Muitas vezes me desespero, mas busco sempre no Senhor.

Se  é relevante, no tempo que fiquei afastado, devido ser rejeitado sexualmente diversas vezes, supri minha necessidade sozinho. Hoje não faço mais isso. Aliás, me sinto assexuado hoje. Sem o menor desejo. Tenho 35 anos e ela 37.

Meu querido, se puder me responda. Sei que o Senhor o recompensará por isso. E Glória a Deus por sua vida!

A paz que desejo ao meu coração, desejo a ti, com amor em nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo de Nazaré.

 

†  _____________

 

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Resposta:

 

Meu amigo: Graça e Paz!

 

Sexo é coisa muito boa, e, por isto, é muito séria. Entretanto, devo dizer que sexo só faz mal nas extremidades da emoção.

O que é isto? Ora, apenas pense que se na sua cabeça seus pais são um extremo (injusto isto!), no outro extremo está você. Fornicação (quando é o caso; e não era o caso de seu pai e de sua mãe) — é algo tão danoso quanto o santaradismo.

Santaradismo? Sim, é um hibrido de santidade e tara; e que resulta de uma visão deformada da própria identidade da pessoa e do significado do sexo para ela.

Assim, vamos, em nome de Deus, e contra a opressão religiosa, botar os pingos nos “is” o quanto antes. Portanto, vejamos:


1. Seus pais não eram fornicadores, mas apenas dois jovens querendo um encontro. O que passar disso na designação de quem eles são e fizeram, saiba: é do diabo. A primeira coisa é esta: seus pais não podem ser tratados como os diabos de sua vida; e sei que no passado foi esta a instrução que lhe deram. Sim, sei que você cresceu sentindo isto. Daí seu sentimento de rejeição.

2. Você não foi rejeitado. Ao contrário. Pois, caso você de fato tivesse sido rejeitado, nem mesmo aqui estaria, visto que teria sido abortado. Mas você não o foi. Nem pelos seus pais, que eram bem jovens; e nem pelos seus avós; e nem por aqueles que criaram você. Então, chega com essa história de “fui rejeitado”. É um bom álibi pra gente não tomar resoluções simples, em nosso favor.

 
3. Pare também de ficar demonizando as coisas, à semelhança do que faz seu amigo super-mega-espiritual. Sim, porque você transfere a responsabilidade do que tem lhe acontecido para a sua “formação”. E, sem dúvida, isto apenas aumente sua dor; pois, lá no fundo, o que você queria era jogar essa “formação” pro alto, e, caso fosse possível, apenas ter paz para viver. Você é responsável pelas grandes decisões. E mais importante do que a decisão infantil de seus pais quando transaram (que você chama de fornicar) — é a sua capacidade de decidir hoje que caminho escolher para a sua consciência.


Ora, os aspectos afirmados acima, são os fundamentos a partir dos quais todas as coisas encontrarão prumo e nível, caso você considere seriamente construir para a vida, e não para a morte. Sei que você me entende.

Agora, vamos a outras coisas igualmente importantes.

Você está em profunda dor porque pra você sexo sem amor é pecado; e, além disso, porque você sabe que não ama a sua mulher. Por isto, não pela moral, mas pela sua alma e pela verdade nela — você se sente em pecado ao lado de sua mulher. Pois você não a ama. Então se culpa. E culpa-se ao ponto de pedir a Jesus que faça você amá-la, como se ela fosse o inimigo — o qual a gente ama sem emoção romântica e sem desejo. E como nada melhora com tal oração, a qual é útil em relação ao inimigo, mas é uma oração louca em relação à mulher ou àquela que deveria ser o objeto do seu amor (sua mulher) — você se desespera; pois crê que não conseguir amá-la é culpa sua. 

Meu irmão, a verdade você sabe. E a verdade não é o que a “igreja” diz nesta hora, na maioria das vezes. Sim, porque a mentalidade da igreja não leva logo a sério o que é importante. E, saiba, o que é importante você mesmo já disse, e com todo sentimento e dor:

“Resumindo, após oito anos de relacionamento, sendo quatro de casado, sem filhos e sem amor, me encontro em depressão, e sendo tratado por psiquiatra, psicólogo e estou no aconselhamento pastoral.”

Isto basta! O que mais se deve esperar?

Os médicos dizem que seu problema é seu casamento. Claro! Seu problema imediato é esse! Entretanto, este só é um problema hoje em razão das irresoluções de sempre. Sim, porque o grande problema é sua visão de Deus, e do sexo em relação a Ele. Você ficou marcado como gado pelo sentimento de rejeição decorrente da visão de sexo como fornicação — a qual (a visão) lhe foi passada de modo desastroso, especialmente em razão das associações que gerou para o seu cotidiano.

Deus não fará você amar nenhuma mulher que você não ame como homem!

Você crê nisto?

Eu creio assim! Sim, porque o amor conjugal é diferente em suas pulsões em relação a qualquer outra forma de amor.

Sim, porque em toda a Bíblia nunca vi Deus fazer um homem amar uma mulher e vice versa — a menos que não seja o cônjuge, mas o inimigo; e, portanto, com aquele tipo de amor que não funciona num casamento.

Ora, em meio a isto se pode dizer que episódio com a sua amiga foi útil a fim de mostrar que seu problema não é funcional, mas psicológico. Afinal, uma transada com ela valeu por toda a sua vida sexual com sua esposa.

O que fazer?


1. Não havendo amor entre homem e mulher (amor de homem e de mulher) — não deve haver casamento; assim como hoje, sem amor, não deveria se insistir num casamento que não casa; pois, sem amor ninguém se casa, mesmo quando assina papeis. Assim, separe-se sem culpa ou medo. Ou você ainda crê que desse mato sai coelho? Francamente nunca vi tal acontecer!

2. Separe-se antes que esse casamento mate a sua alma. O casamento, neste caso, é como a Lei do Sábado se opondo à cura do homem que está caído no buraco. Saia desse buraco, mesmo que o “dia” seja o de um Sábado na interpretação da “igreja”.


3. Digo isto porque nenhum exorcismo ou desdemonização ajudará você. Seu amigo é bem intencionado, mas a postura dele é danosa para a sua alma. Com todo respeito a ele, mas o que ele diz a você e pede de você é algo que só se explica se ele não puder se imaginar em tal situação, ou se ele mesmo vive numa situação igual — e, em tal caso, o que vale é o tal do “se eu posso, tu podes”. Mas não aceite a amizade dele como imposição para as decisões de sua vida. Afinal, quem sofre, e não dorme, e pensa que a vida é uma basta, é você e não ele. Assim, como a dor é sua, saiba: a decisão é sua também. Ninguém que não puder sentir a sua dor tem o direito de se meter. Portanto, digo eu a você: Separe-se antes que esta união que não uniu acabe com você!

4. Peça ajuda aos amigos na separação. Sei que um homem deprimido pode deixar isto se arrastar para sempre. Uma mulher, tendo liberdade, sairia dessa sem hesitação. Mas não é assim com homens. Por isto, peça ajuda aos amigos de verdade. Eles ajudarão você a sair logo dessa. Porém, é importante que você se separe logo; pois, a manutenção de seu casamento apenas casa você com a dor de sua impotência, quanto a estar casado sem amor de homem e mulher, e sem filhos para pelo menos justificarem o esforço para você mesmo.

Lamento ter que dizer estas coisas; mas creia que o faço apenas porque para mim é como escolher entre o Sábado (Lei) e o buraco, de um lado; e o homem do outro lado — conforme descreve o Evangelho. E Jesus escolheu o homem, e não o Sábado e o buraco.

Se você me der ouvidos, sei que dentro de pouco tempo você me escreverá muito bem. Pois, seu problema é  também a infelicidade de estar ao lado de quem você nunca gostou. E casamento não é quebra-galho sexual.

E mais: não deixe a terapia. Os remédios terão seu lugar ainda um tempo. Mas você ficará livre deles, e dormirá em paz. A terapia, entretanto, deverá prosseguir mais um tempo. Ao final você nem mais se reconhecerá.

Vi que você chegou faz pouco tempo aqui no site. Leia-o com atenção todos os dias, pois, eu sei que em pouco tempo você estará colhendo os frutos de alegria, libertação, e fortalecimento de sua consciência como pessoa — e que é o único caminho para o desenvolvimento de um espírito tenaz e perseverante.


Pense no que lhe disse, em cada coisa e em cada palavra, e depois me escreva.


Receba meu abraço muito carinhoso!

 

 

Nele, que não nos gerou bastardos, mas filhos de Seu amor, desde antes da fundação do mundo,

 

 

Caio