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Cartas

ESTOU APAIXONADO PELA MINHA

ESTOU APAIXONADO PELA MINHA "MÃE"



Normalmente não publico cartas como esta. Mas como o número delas está crescendo, decidi publicá-la, com os devidos cuidados, a fim de ajudar por antecipação a quem porventura também esteja vivendo angustia semelhante e não tenha coragem de escrever; e, por conseguinte, de buscar ajuda ou evitar a tragédia. _________________________________________________________ -----Original Message----- From: Estou apaixonado pela minha “mãe” Sent: sexta, 10 de outubro de 2003 To: contato@caiofabio.com Subject: Meu problema é incesto Mensagem: Querido Pastor! Estou bastante confuso e preciso de sua ajuda. Sei que você recebe muitas cartas, mas preciso de sua ajuda. Esta é a minha história. Sou órfão, meus pais morreram num desastre... Eu tinha 12 anos. Morei com alguns parentes. Um outro irmão meu ficou mais estável, com uma tia minha. Mas eu não. Fiquei de casa em casa, e sempre senti falta do carinho e da atenção que eles me davam antes de morrer. Não posso dizer que eu e meu irmão somos “família”. Ele tomou outro caminho e não nos vemos; até mesmo moramos em cidades distantes. Me converti faz alguns anos, numa viagem para fora do Brasil, na casa de uma parente distante. Foram dois meses que fiquei lá. Mas foram maravilhosos. Só que eu não podia ficar lá. Eles já têm cinco filhos. Então, voltei e continuei vivendo com parentes. Então, depois de uns quatro anos, a mulher do pastor da minha igreja me disse que eles queriam me "adotar". Hoje tenho 21 anos e vivo com eles. Faz mais ou menos um ano que descobri que minha "mãe" está apaixonada por mim. Primeiramente eu entrei em depressão. Me desesperei. O problema é que agora estou me sentindo atraído por ela, que é uma bela mulher. Não sei como é isto. Parece que agora só consigo olhar pra ela como mulher, depois que ela passou a me olhar daquele outro jeito. Não adulteramos, nem conseguiria, pois estou dentro da casa deles como filho, muito amado por ambos, mas especialmente pelo meu “pai”, que parece me ver mesmo como “filho”. Toda vez que converso com ele, com meu pai, me sinto muito mal e culpado; pois estou cada vez mais apaixonado pela mulher dele, que deveria ser só minha mãe. Não sei o que fazer. Não consigo me afastar deles. Eles são minha família. Mas não quero fazer nada errado, não quero pecar contra Deus. Mas meu coração e meu corpo querem outra coisa. Estou completamente perturbado. Será que Deus pode nos "curar" disso sem eu precisar sair da casa deles, sem eu ter que perder essa vida tão boa que eu tinha com eles antes? Pastor Caio, preciso da sua ajuda. Aqui onde moro não posso me aconselhar com ninguém. Mas peço, por favor, que me ajude. __________________________________________________________ Resposta: Meu querido irmão: Falo a você como a um filho. Aliás, você tem a idade de meu filho mais novo. Serei claro e objetivo. Mas o que lhe digo é com todo amor. Foi também por uma situação dessa que Paulo escreveu I Coríntios 5 e retomou o tema em II Coríntios 2 e 3. Estamos, portanto, falando de algo extremamente destrutivo. Você terá que sair daí! Se ela o vê como homem, é porque nunca o viu como filho, e, possivelmente, nunca o verá assim. Pelo menos não agora. Se você sente o que sente por ela como mulher, é também porque nunca a viu completamente como “mãe”, e nem a sentiu como mãe. Aliás, nem seria possível; afinal, a “energia” dela, provavelmente, nunca tenha sido materna na sua direção. Portanto, saia daí antes que isto se transforme não na perda de “sua família”, mas na desgraça de sua vida e da vida deles. E, com certeza, dessa igreja que “seu pai” pastoreia. Uma situação dessas não pode ser curada enquanto se vive no mesmo ambiente. Ficar aí será apenas decidir que algo acontecerá de fato. Na primeira oportunidade real, e quando a fragilidade se instalar de vez, vocês não resistirão. E, se por todos os meios não “acontecer” nada concreto, na prática, já está acontecendo. Por isto, até para que você e ela não adoeçam também de alma mais profundamente, saia daí e arranje um “pretexto” para passar um tempo em outro lugar. Fique, todavia, sabendo o seguinte: 1. Você não está inaugurando uma era. Tanto na longa e intensa vida pastoral que Deus me deu ter até aqui, como também aqui neste site, vi, acompanhei, e acompanho a vários casos como o seu. Inclusive com os mesmos contornos “pastorais”. Quando um casal não adota uma criança ainda criança, nem sempre ambos conseguem desenvolver a mesma forma de ver e sentir o “adotado”. Já vi muita coisa parecida com a sua situação. Conheço o princípio, o meio e o fim da história. 2. Nunca vi essa pulsão, uma vez instalada, se desinstalar sem um “corte” radical. É um daqueles casos em que a pessoa tem que “arrancar o olho, decepar o pé, cortar a mão”, a fim de não destruir a alma, conforme Jesus disse. Vai doer. Mas vai doer menos que a sua entrega e a dela a um “prazer tão adoecido”. Creia no que estou falando a você. 3. Quem “pagou pra ver” arrepende-se até hoje. Portanto, não creia que você será a exceção. 4. Conheço situações inversas também. Aliás, o mais comum é que o “pai” se apaixone pela “filha”. Mulheres tendem a ser naturalmente mais “inclusivas” na adoção psicológica. Mas acontecem casos exatamente como o seu, e a Bíblia não os oculta de nós. Aliás, tanto no Velho Testamento, quanto em Paulo, as descrições são de “filhos subindo ao leito do pai” a fim de possuir a “mãe”. 5. A situação, em si mesma, revela a sua carência imensa, e a total falta de maturidade emocional e afetiva dela. Sem falar que o casamento dela deve ser uma droga; digo: do ponto de vista sexual e afetivo. Ela está sofrendo da Síndrome das Ninfetas, e não deve ter vivido e namorado cedo na vida. Agora está projetando sobre você tanto as carências de mulher, como também a imaturidade dela. Ela precisa de ajuda também, mas você não tem que tentar fazer nada; nem orar por ela, pois, fazê-lo, significa pensar nela o dia todo; e, portanto, transformar isso numa obcessão. Talvez a coisa pratica mais importante que tenha a lhe dizer seja a seguinte: a fim de evitar mesmo que qualquer coisa aconteça, nunca "abra" o assunto com ela. Ou seja: não tente ser "sincero" e falar "sobre o que está acontecendo". Em 95% dos casos de "infidelidade" que acontecem no nível mais intimo, onde um convívio já está estabelecido--às vezes até numa amizade--, as coisas explodem para o plano do concreto quando as "partes" falam o que estão sentindo no "intimo". Muitas vezes é o "intimo", o que não se fala com a boca, aquilo que nos salva da pratica de alguma coisa. Quando se fala, rompe-se o último "inibidor"; e, em geral, a coisa vira carne e sangue; ou seja: acontece! Por isto, arranje um “curso”, um “emprego”, qualquer coisa, mas crie uma “razão” para não ficar aí. Ninguém com fogo nas vestes pode esperar não queimar os peitos, conforme diz o livro de Provérbios. O que está acontecendo com você tem também desdobramentos psicológicos muito sérios. Você precisa de acompanhamento psico-terapeutico, ou pastoral. Isto se porventura você puder encontrar gente de total confiança. Mas como você mesmo disse, parece não ser o caso por aí. Considerando o “contexto evangélico”, minha sugestão é que você procure um terapeuta que não seja evangélico. Sendo seu “pai” um pastor, não seria ético que você o expusesse para ninguém da comunidade evangélica. Até porque já vi muita coisa “vazar” do “divã cristão” para o salão da “igreja”. A maioria dos profissionais cristãos são sérios. Mas hoje em dia, com essa inundação de cursos fajutos de psicologia, e sem o real credenciamento e preparo, nem sempre dá pra confiar. De vez em quando alguém me procura porque foi tratar de um problema, e acabou se “envolvendo” com (o) ou (a) terapeuta; ou, então, porque o assunto acabou, por “fidelidade” do “profissional” ao “pastor” ou à “igreja”, em alcovas malignas e destrutivas. Creio que você ficará mais livre, e também não se sentirá expondo os “seus pais cristãos”, se seu conselheiro for “de fora”. Mas, é claro, tem que ser alguém muito sério. Também aconselho-o a ler um livreto meu, publicado pela Ed. Vida, chamado “Incesto”. Qualquer dificuldade me escreva outra vez. Com oração por você. Nele, Caio Escrito 14/10/03