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Cartas

ELE ME QUER. DEVO CASAR COM ELE?

ELE ME QUER. DEVO CASAR COM ELE?

 

 

 

 

----- Original Message -----
From: ELE ME QUER. DEVO CASAR COM ELE?
To: contato@caiofabio.com 
Friday, September 16, 2005 12:18 PM
Subject: Olá pastor, por favor!

 

Boa tarde pastor!


Vou te contar uma história longa, toda a minha vida, como o faço quando falo
com o Pai. Sem mentiras, vergonha ou medo de recriminações; e espero que um
dia possa lê-la e me dar uma mãozinha.

Sou paulista, tenho 24 anos, universitária e moro com minha mãe. Vou começar
te contando a história de minhas raízes familiares.

Minha mãe, tia e avó vieram do Nordeste muito cedo para SP, e quando aqui
chegaram, começaram a tocar suas vidas.
Minha mãe envolveu-se com meu pai quando tinha uns 19 anos. Ele era mais
velho que ela, casado pela segunda vez, e pai de quatro filhos. Por inexperiência, paixão ou amor, minha mãe saiu de casa e foi casar-se com ele.

Alguns anos depois eu nasci. Já antes de meu nascimento minha mãe pôde
constatar que meu pai era alcoólatra, e pelo que algumas pessoas me contaram
(pouco recordo-me), ela inclusive apanhava dele. Vivia num clima tenso, pois, a ex-esposa de meu pai era macumbeira e perturbou a vida dos dois por muito tempo. Mas, ele que tinha poucos elos familiares simplesmente esqueceu-se que era pai e nunca mais deu bola para meus irmãos; que hoje, depois que os procurei, ficaram muito amigos meus, inclusive sua mãe.

Bom, o fato é que segundo me contam, minha mãe arrumou um namorado e este
lhe deu força moral para criar coragem e ir embora de casa. Fomos embora
quando eu tinha mais ou menos uns 5 anos. E alguns anos depois com a vida
totalmente atribulada, freqüentando terreiros de macumba, meu pai se matou.
Acho que isso não me criou traumas. Não fui ao seu enterro e tive pouco
contato com ele antes do acontecido. Só fiquei com vergonha do fato, pois,
meus coleguinhas de escola, não tinham tantos problemas familiares, aparentemente, quanto eu. Me sentia isolada e diferente. Não tinha pai; só
uma mãe ausente, que além de ser super durona, vivia pra trabalhar, para
garantir sozinha meu sustento.

Algum tempo moramos com minha avó e tia, que nunca casou; mas depois elas
foram embora e ficamos sozinhas. Minha mãe ganhava pouco e vivíamos com
dificuldades. Me lembro que quando eu era pequenininha ela dizia: - Vá pra
escola direitinho, volte direto pra casa, almoce e fique o assistindo TV ou
brincando com o cachorro até que eu volte; não abra as portas de casa
pra ninguém; e não traga amiguinhos aqui; fique direitinho que à noite eu
chego."

E assim eu fazia. Era muito tímida e obediente à minha mãe. Até que um dia cresci e comecei a trabalhar, estudar e namorar, com uns 17 anos. Minha mãe odiava o rapaz. Dizia que ele era novinho demais, que o namoro era muito sério, que seria traída, que ele não tinha futuro...; enfim, uma luta.

Até que um dia minha mãe apaixonou-se por um cara que apareceu do nada em seu trabalho e em menos de uma semana o sujeito instalou-se na minha casa. Não
se sabia de onde vinha ou pra onde ia. Chegava, jantava, tinha suas roupas
lavadas e eu que morava lá passei a ser totalmente ignorada. Iam dormir
juntos e ás vezes eu até ouvia algum “barulho”. Achei que ia ficar louca;
quando alguns dias depois do surgimento daquela figura, minha mãe pediu-me
para ir pra casa da minha avó, no Nordeste. Pedi as cotas do serviço e fui tentar fazer faculdade por lá.

Quase morri de tristeza, deixei meu namoradinho de uns 2 anos, meu emprego e fui. Sem dinheiro, sem emprego garantido, sem intimidade suficiente com avó e tia e com uma saudade danada de meus poucos amigos.

Ao chegar tratei logo de trabalhar em uma joalheira e fazer cursinho pré vestibular.

Não vou te contar todo o sofrimento que levei para chegar nisso porque me
alongaria muito... Quando minha vida estava triste e sem graça fui a primeira
vez em uma igreja evangélica e minha família encantou-se por um pastor
solteiro que havia chegado à pouco tempo na comunidade.

Pronto, estava aí a solução para os problemas de todos. Minha avó e tia não
ficariam mais sozinhas; e eu teria um lar para me abrigar e um marido super
sério, fiel e bom. Casei com o pastor!

Ledo engano! Assim que casamos (eu era virgem) este homem só queria saber de internet a noite inteira; dormíamos com lençóis separados porque, segundo ele, eu me mexia muito; e só tínhamos relações sexuais de vez em quando; isso quando ele não falhava.

Dá para contar nas mãos as doloridas vezes que ficamos juntos porque, talvez pela rara freqüência, aquilo me causava dor; e ás vezes eu nem conseguia.

Depois de nove meses de tortura, me achando a pior das mulheres, mal amada e pouco desejável, depois do convite de minha mãe voltei, pra casa; e quando
fui embora ainda ouvi dele que eu não tinha nada naquela casa, e que tudo era
dele; tirou o maior sarro de mim dizendo que ninguém iria me querer e que eu
ficaria sozinha; engoli tudo e voltei.

Ele só ficava assim quando brigávamos, mas mesmo com tudo isto, sou agradecida a ele, que, quando precisei,
me deu apoio; e ajudou em muitas coisas.

Voltar pra casa foi pior que antes. Agora tinha saudades da minha casa, do cuidado que ele tinha comigo, de ter alguém para me ajudar, orientar, me acompanhar e cuidar de mim. Sentia-me muito só; e depois de quase um ano resolvi voltar pra tentar de novo.

Vivíamos como irmãos. A igreja era legal; e me sentia em família: segura e protegida.

Foi quando soube que o concurso da Prefeitura de minha cidade, que eu havia prestado, havia convocado os aprovados; e apesar de um pouco de relutância (minha vida estava tranqüila), voltei para lá, para garantir a vaga e esperar que ele
tentasse transferência também.

Tudo mudou! Tinha meu emprego, que me assegurava que nada iria me acontecer, que nunca mais ficaria desamparada, que ninguém iria me mandar embora — e comecei a
fazer faculdade! De repente, comecei a me sentir segura, querer descobrir
como era namorar, passear, estudar, ter amigos, independência financeira...

Continuei bem na igreja: fazia parte do evangelismo e do grupo da limpeza... Dizia a todos que aguardava meu "marido" voltar.

Quando comecei a estudar, fiz amizades e comecei a conhecer os garotos. Tive
vontade de ser feliz de verdade e não quis mais voltar para meu marido.

Na igreja um pastor nojento, que havia chegado a pouco na congregação, além
de me paquerar, rejeitou-me como divorciada; alguns irmãos também; mas para mim estava sendo legal tentar ser feliz por mim mesma. Ignorei a idiotice deles e continuei indo à igreja feliz, tentando encontrar a minha paz.

Continuei como era antes de casar. Não namorava com nenhum garoto mantendo
relações. Já avisava de antemão que era cristã e por isso não bebia, não iria
para baladas ou teria namoros fora do propósito de Deus. Perdi alguns
garotos porque não queriam namorar assim. Namorei algumas pessoas que
gostaram de mim, me desejavam de verdade. Conheci bastante gente e por fim conheci o F; e vou te contar a nossa história.

Minha mãe é conhecida da mãe dele, que assim que me conheceu, disse que
queria apresentá-lo a mim. O que ouvi falar dele é que era lindo; tudo de
bom; e assim que ele ouviu falar de mim quis logo conhecer-me.

Vou te contar um pouco de seu histórico:

Ele 29 anos, é professor de jiu-jitsu, a noite trabalha em outra coisa
durante o dia. Tem, de uma de suas inúmeras namoradas, um filho de 8 anos.

O namoro deles foi uma loucura: ele a engravidou; terminaram; o filho nasceu; ele namorou e engravidou outra; e a 1ª acabou tendo um filho de outro cara também.

Depois dos episódios, começaram a namorar outra vez. Segundo o que me dizem ele a traía com freqüência e depois de algum tempo conheceu outra garota; noiva de um cara; e depois de sete meses, pouco depois de terminar com a “namorada”; casou-se com essa outra.

Viveram juntos dois anos. Segundo ele infernais. Ele me diz que casou-se
porque achou que amor era algo que acontecia com o tempo; e que não a
amava; era somente um gostar forte. Ele achou que o amor viria com o tempo e
se enganou. Segundo o que dizem ela acabou o traindo; não sei se é verdade,
mas pelo que ele conta, ele sofreu muito. Ela decidiu ir embora e ele ficou
sozinho em sua casa. Abri/2004. Ele disse pra sua mãe que a partir daquilo
nunca mais seria sério com ninguém, porque segundo comentam, ele mudou tudo para ficar com ela: não saía para baladas, não a traía e vivia para ela; e
que agora só queria bagunçar e pronto. Foi quando conheceu-me.

Segundo ele, logo apaixonou-se; e, resumidamente te conto que voltou para casa da mãe. Sua família toda converteu-se na igreja, até ele já batizou, vai
todo final de semana pra igreja comigo.
Ele não sai mais com amigos, diz que seus passeios e papos não combinam mais com a vida nova que tem comigo, não bebe como fazia antes, socialmente; não quer mais dar aula em academia; antes prefere fazer faculdade pra ter um
emprego melhor, quer comprar uma casa e casar-se comigo. Faz quase 8 meses
de tantas mudanças. Minha mãe é sua inimiga mortal; e prevê simplesmente um futuro de traições e desgraças pra mim ao seu lado. Ele, apesar de ser
terrivelmente assediado e de ter tido cinco mulheres antes de me conhecer, parece mudado. Não vejo nem ligações em seu celular, que hoje é totalmente mudo. Ele disse que reformulou totalmente sua vida para ficar comigo; e alguns meses depois, apesar de ser pecado, mantive relações com ele e fui muito feliz. Ele está sempre comigo o dia inteiro; e seu prazer é reunir-se comigo e sua família para assistirmos filmes, batermos papo. Faz todas as minhas vontades; não há nada que insinue pra ele, que mesmo não concordando, não faça.

Agora estou dividida. Ele é lindo, pastor; e super assediado e será pra sempre; tem um passado de galinhagem; e sempre foi muito impetuoso. Sou super-desconfiada.

Não sei o que fazer. Três meses depois que me conheceu, me ofereceu uma
aliança de noivado; e não a tira do dedo.

Eu já terminei mais de 20 vezes; e ele, além de chorar muito, me diz que encontrou em mim o seu primeiro amor e que comigo quer fazer nova vida. Me liga o dia inteiro, me acompanha em tudo, é super-carinhoso e bom; não dá nem pra creditar; acho que no fundo a gente tem medo de ser feliz, né?

Sei lá, não sei o que pensar. O que o senhor acha que devo fazer? Preciso da opinião de um pai. O que tenho no céu pode usar o senhor para me orientar, e se o senhor puder fazer isso por mim, só poderei te retribuir com carinho e oração pra sempre.

Me dá uma mãozinha pastor?

Beijos carinhos pro senhor e sua família!
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Resposta:


Minha querida filha: Graça e Paz!

 

Deixando a totalidade da narrativa para trás, pois ela não acrescenta muito, nos detalhes, à presente situação, eu diria que do passado narrado, o que sobra, é uma jovem-mulher, evangélica, cheia de vontade de ser feliz, que nunca foi amada a contento, e que, depois de frustrações e tristezas diversas — hoje está se sentindo refém do amor de um homem.

Ora, para simplificar, direi a você que se a gente seguir o conselho do “Pequeno Príncipe” e se deixar cativar eternamente por aquilo que nós cativamos antes, ainda que involuntariamente, o que restaria para a vida é que teremos que nos dar a todo aquele que nos ama, ou se sente desesperadamente atraído por nós, ou nos deseja, ou nos admira, ou nos quer, ou qualquer coisa que seja a vontade do outro de nos ter para si.

Em momento algum você falou de amor por ele. Apenas disse que ele, que antes era galinha e mulherengo, que já tem filhos dessa relações prévias, hoje, está “crente”, que mudou, que vai a igreja, que ninguém acredita na transformação, e que ele insiste em ter você, dando-lhe aliança, implorando, enquanto você “pondera”; sim, pondera sobre como poderia ser bom; especialmente em razão do novo comportamento dele—mas, em momento algum, você fala de amor; somente do dele por você, mas jamais de seu amor por ele. Ou seja: o que sinto é que você está quase casando com a possibilidade da segurança, de um lar, de uma vida tranqüila, que é o que você sempre quis.

O problema é que alguém nos amar, pode até massagear o nosso ego, e nos dar aquela vontade de manter a pessoa em Stand By; sempre nos aguardando — porém, nada tem a ver com amor; mas somente com insegurança sua.

Você gostaria que alguém ficasse com você apenas porque você é legal e poderia oferecer uma vida tranqüila?

Isso satisfaria você?

E mais: quanto tempo você acha que dura um casamento feito apenas de conforto relacionado ao fato de que o outro ama a gente, ainda que a gente apenas ame que o outro nos ame?

Em algum tempo ambos descobrem que isso é “jugo desigual afetivo”. Sim, um ama, mas o outro só gosta de ser amado! E, em pouco tempo, a parte que ama e é correspondida apenas com gratidão (no caso por você), acaba por não mais se satisfazer em ter ganho o Nobel da Confiança de uma mulher que ele ama, mas que a ele se dá sem se entregar; posto que só o amor sabe o caminho da entrega que satisfaz.

Assim, se tudo o que você sente por ele é esperança de que ele não volte a ser galinha, de um lado; e, de outro, a consideração de que poderia dar certo,embora não haja, de sua parte, amor—o resultado disso, em não muito tempo, caso vocês se casem, será, a tristeza; pois, a menos que você o ame, você apenas o fará infeliz. E, aí sim: ele voltará a trair você; e será outra vez chamado de galinha; só que dessa vez a galinhagem terá sido sua, que teria aceito casar com ele como quem considera entre cenários e escolhe o melhor.

Casamento não é uma escolha entre “possibilidade”, mas a escolha da “única” possibilidade para o coração; pois, quem ama, não tem mais alternativas!

Assim, se apenas ele diz amar você; e se você apenas “pondera”, minha sugestão é que você não aceite nenhum casamento e que deixe o moço livre.

Do contrário, sendo assim, você terá apenas mais uma tristeza em seu histórico afetivo!

Pense no que lhe disse, e me escreva!


Com amor paterno, falando a você como falaria com minhas filhas Juliana e Bruna, oro para que minha carta lhe seja de alguma utilidade.

 

Nele, que só casa a dois que se casaram pelo amor,


Caio