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Cartas

DOENÇA PSICOSSOMÁTICA E O CIÚME

DOENÇA PSICOSSOMÁTICA E O CIÚME

-----Original Message----- From: Ronaldo To: contato@caiofabio.com Subject: Doença Psicossomática e Ciúmes Mensagem: Caríssimo Pastor Caio Fábio: Tenho lido várias de suas reflexões e o acompanho há longos anos em leituras de seus inúmeros livros. Deus o abençoe sempre! Li, neste site, o artigo “Doença Psicossomática e Ciúmes”. O senhor me provocou, no bom sentido. Tenho lido a Bíblia algumas vezes. Este é um dos textos que tenho grande dificuldade em entender, pois, embora se diga que tudo aquilo foi estabelecido por Deus, não consigo compatibilizar ou vislumbrar qualquer graça que me lembre ali um Deus gracioso. Para a mulher, uma situação complicada. Para o homem, absolutamente nada. Digo que o senhor me provocou, pois fez algumas aplicações (a questão psicossomática); todavia, não adentrou no significado maior do texto. Trata-se de uma questão cultural? Devemos entender como mandado de Deus literalmente? Por mais que tentemos, há textos no A.T. difíceis de compatibilizar com um Deus amoroso (acho que é uma questão de muitos!). Obrigado, desde já pela resposta, seja em que tempo for. Mais uma vez, Deus o abençoe e a sua família! Ronaldo *************************** Resposta: Meu amado Ronaldo: Paz! O texto de Números 5: 11-31 que você leu em Devocionais fala de algo que não pertence apenas à Bíblia. Muitas outras culturas do mundo praticavam coisas semelhantes. Vamos re-ler o texto. De fato é chocante. ************************************* Disse mais o Senhor a Moisés: Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Se a mulher de alguém se desviar pecando contra ele, e algum homem se deitar com ela, sendo isso oculto aos olhos de seu marido e conservado encoberto, se ela se tiver contaminado, e contra ela não houver testemunha, por não ter sido apanhada em flagrante; se o espírito de ciúmes vier sobre ele, e de sua mulher tiver ciúmes, por ela se haver contaminado, ou se sobre ele vier o espírito de ciúmes, e de sua mulher tiver ciúmes, mesmo que ela não se tenha contaminado; o homem trará sua mulher perante o sacerdote, e juntamente trará a sua oferta por ela, a décima parte de uma efa de farinha de cevada, sobre a qual não deitará azeite nem porá incenso; porquanto é oferta de cereais por ciúmes, oferta memorativa, que traz a iniqüidade à memória. O sacerdote fará a mulher chegar, e a porá perante o Senhor. E o sacerdote tomará num vaso de barro água sagrada; também tomará do pó que houver no chão do tabernáculo, e o deitará na água. Então apresentará a mulher perante o Senhor, e descobrirá a cabeça da mulher, e lhe porá na mão a oferta de cereais memorativa, que é a oferta de cereais por ciúmes; e o sacerdote terá na mão a água de amargura, que traz consigo a maldição; e a fará jurar, e dir-lhe-á: Se nenhum homem se deitou contigo, e se não te desviaste para a imundícia, violando o voto conjugal, sejas tu livre desta água de amargura, que traz consigo a maldição; mas se te desviaste, violando o voto conjugal, e te contaminaste, e algum homem que não é teu marido se deitou contigo. Então o sacerdote, fazendo que a mulher tome o juramento de maldição, lhe dirá: - O Senhor te ponha por maldição e praga no meio do teu povo, fazendo-te o Senhor consumir-se a tua coxa e inchar o teu ventre; e esta água que traz consigo a maldição entrará nas tuas entranhas, para te fazer inchar o ventre, e te fazer consumir-se a coxa. Então a mulher dirá: Amém, amém. Então o sacerdote escreverá estas maldições num livro, e na água de amargura as apagará; e fará que a mulher beba a água de amargura, que traz consigo a maldição; e a água que traz consigo a maldição entrará nela para se tornar amarga. E o sacerdote tomará da mão da mulher a oferta de cereais por ciúmes, e moverá a oferta de cereais perante o Senhor, e a trará ao altar; também tomará um punhado da oferta de cereais como memorial da oferta, e o queimará sobre o altar, e depois fará que a mulher beba a água. Quando ele tiver feito que ela beba a água, sucederá que, se ela se tiver contaminado, e tiver pecado contra seu marido, a água, que traz consigo a maldição, entrará nela, tornando-se amarga; inchar-lhe-á o ventre e a coxa se lhe consumirá; e a mulher será por maldição no meio do seu povo. E, se a mulher não se tiver contaminado, mas for inocente, então será livre, e conceberá filhos. Esta é a lei dos ciúmes, no tocante à mulher que, violando o voto conjugal, se desviar e for contaminada; ou no tocante ao homem sobre quem vier o espírito de ciúmes, e se enciumar de sua mulher; ele apresentará a mulher perante o Senhor, e o sacerdote cumprirá para com ela toda esta lei. Esse homem será livre da iniqüidade; a mulher, porém, levará sobre si a sua iniqüidade. ************************************* Assim é a Lei. E ainda há cristãos que querem viver por ela. Paulo disse que quem desejar viver pela Lei terá que fazer duas coisas: renunciar a Cristo; e cumprir toda a Lei, pois quem transgride um só de seus mandamentos é réu dela toda. Alguém se canditada? Eu não! Bem, sobre o texto em questão em penso o seguinte: Na minha maneira de ver o texto fala de duas coisas imediatas: a necessidade de se “por fim” à tortura dos ciúmes—viver com suspeita no coração deve ser um inferno!—, e também acerca do fato que a culpa gera manifestações psicofísicas. Obviamente que no Mundo Antigo a mulher sempre era a que levava a carga maior de tudo. Sua infidelidade não era vista como a dos homens. Todavia, no regime da Lei havia também “penalidades” pesadas para o homem, mas nunca comparadas “na prática” ao que se fazia com as mulheres. Ou seja: a Lei previa, mas como os executores eram “homens”, a confraria sempre protege os “iguais”—ou que sacerdote não sabia o que ele mesmo fazia ou sentia? No N. Testamento vê-se a mesma coisa presente na “cultura judaica”. Em João 8 uma mulher é levada nua para ser apedrejada. Mas seu “companheiro” de adultério não é mencionado. É sempre assim. É assim até hoje. Um homem adultera e é visto como um “cara que pulou a cerca”. Uma mulher adultera e é vista como uma “porta aberta”. Os homens que ouvem a história dizem: Quero também! As mulheres que ouvem a história dizem: Sem vergonha! E todos olham para o marido dela—ainda que ele também seja um “pulador de cercas”—, e dizem: Coitado! O texto não serve para hoje! A Lei morreu na Cruz de Cristo! O que dali serve para hoje é de natureza psicológica nos seus aplicativos, e pertence ao reino da subjetividade. 1. O ciúme é uma droga. Quem se acostuma a ele fica doente. Casais que vivem dele acabaram ficando enfermos de alma. E os casamentos que se “viciam” nos conflitos decorrentes do ciúme irão de mal a pior. 2. A culpa da traição, na maioria das vezes, deixará suas marcas no ser—e o corpo não está divorciado do todo do ser. Assim, o corpo contará a “história”. Mesmo que não seja mediante uma manifestação física imediata; será, todavia, através de manifestações de natureza psicológica. Ninguém trai para sempre sem pagar algum tipo de preço. Ainda que seja na mente. Normalmente a alma daquele (a) que trai acaba por se tornar vítima de sua própria traição. Daí os seres que traem serem sempre almas atormentadas. Os tipos de tormento que daí derivam são muitos. Mereceria um livro só sobre o assunto. Faz anos que venho observando essas variáveis. E por experiência própria também sei como o coração fica. Os “efeitos” da culpa podem ir de manifestações físicas até grandes descontroles de natureza emocional, podendo chegar a graves casos de paranóia. Essa é a razão porque quase todos os que traem sentirem imensa insegurança em seus relacionamentos. Quanto mais alguém trai, mais tal pessoa será vitima de sua própria traição, experimentando-a como insegurança profunda. O destino dessa pessoa será contar a história, seja mediante o corpo ou através de desordens de natureza emocional, afetiva, descontrole comportamental, etc... Ou seja: a água amarga sempre fará alguma coisa “descair”—conforme o texto de Números. Quanto à Graça de Deus não estar presente, quero dizer duas coisas: 1. É uma benção quando a disciplina de Deus nos mostra o que é mal em nós. Isso nos salva. É Graça! 2. Textos como Números 5 devem nos lembrar duas coisas: nossa libertação da Lei, em Cristo; e nossa responsabilidade quanto a cuidarmos de nossas próprias consciências. As “conseqüências” não são obra de Deus. Deus não tem que fazer nada. É o mecanismo interior do ser humano que deflagra o processo como “auto-juízo”. Portanto, deixe Deus de “fora” desse assunto. Ele está apenas mostrando o que nós fazemos conosco mesmos quando transgredimos sistematicamente a própria consciência. Vale observar que o texto é claro—trata-se de algo sistemático e feito sem a anuência do cônjuge. Daí subir os “espírito” de ciúmes. Portanto, trata-se daquilo que se faz como “traição”. Se o marido soubesse e consentisse, as conseqüências seriam outras. Ninguém sabe o que acontece numa hora dessas. Sabe-se, todavia, que a traição cobra um altíssimo preço, e sua sistematização faz do traído um atormentado, e do traidor um ser a caminho da decadência—especialmente quando isso se transforma numa conduta permanente. Receba meu abraço. Nele, Caio