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Cartas

DEUS CRIOU EM SEIS DIAS OU EM SEIS ERAS?

DEUS CRIOU EM SEIS DIAS OU EM SEIS ERAS?

 

 

 

----- Original Message -----
From: DEUS CRIOU EM SEIS DIAS OU EM SEIS ERAS?
To: contato@caiofabio.com
Sent: Monday, September 04, 2006 2:55 PM
Subject: A criação e o complô...


Caro Caio,


Reescrevo uma carta enviada a você há algumas semanas.
 
Alguns anos atrás impensável seria dizer que o relato do Gênesis acerca da criação do que chamamos de Universo, mundo, biomassa, não era literal, e que qualquer outra interpretação não passava de um "complô" da satânica ciência.

Digo isto mesmo sabendo que em séculos passados, o que se chamava de ciência, cometeu erros crassos, e que hoje não passariam de alegorias sob o olhar da mais colegial avaliação.

Porém sob pressão social e comprovação inconteste, os outrora paladinos de Deus, viram-se obrigados a reconhecer que os textos que falam de "dias" na verdade referem-se a "eras" e que o planeta não fora construído em literais seis dias.

Meu questionamento surge deste fato. Por que textos incluídos na mesma narrativa, podem ser interpretados de tão dispare forma?

Quando leio que "Deus do pó da terra formou o Homem"; ou seja: de algo sem vida, inanimado... — fico a pensar. A partir do momento em que neste ser sem consciência de si e de Deus, soprou-se o fôlego de vida, este passou a relacionar-se com Deus e com a criação numa outra dimensão.

Aos irmãos de Éfeso não escreveu Paulo que estávamos inanimados pela ausência da consciência de Deus; em outras palavras: "mortos"; e que em Cristo, o qual fora crucificado antes mesmo de sermos criados - recebemos o espírito vivificador, passando a ser almas viventes?

A primeira alma a receber este sopro, que também é palavra, uma vez que esta também  é um sopro melódico, e que na plenitude dos tempos tornar-se-ia a encarnação do verbo, foi Adão.

Ora, por certo afirmo que Deus usou do barro para fazer Adão, uma vez que o homem sem o conhecimento de Deus não passa de um boneco de barro levado pelo vento do pecado.

Pr Caio, esta dúvida me acompanha há anos, mesmo antes da faculdade (medicina); e por não ter minha fé abalada por crer desta forma, e para não "escandalizar" e ser tomado por herege evolucionista (só o que me faltava), nunca debati abertamente este assunto. Além do mais tenho receio de que por algo que desconheça ou por erros de hermenêutica, venha a comprometer e servir de pedra de tropeço para os mais fracos.

Quem sabe se ao invés do curso e profissão que abracei por influência do meu pai, tivesse ido cursar algum seminário, que era meu sonho juvenil, já teria tais respostas.
 
Caro Caio um abraço.
 
Oliver Kleim
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Resposta:

 


Meu querido Oliver: Graça e Paz!


Você é Kleim, e eu tentarei responder seu Claim-clamor!

Primeiramente vamos começar daquilo sobre o que não paira qualquer dúvida.

Você fez alusão ao fato de Paulo dizer que sem Cristo éramos “mortos”, inferindo que tal afirmação daria respaldo à idéia de que o homem, antes do sopro, seria como o homem antes de receber o Espírito de Cristo. Como comparação é uma excelente imagem. Todavia, se com isto você quis dizer que se trata da mesma coisa, você está equivocado. Afinal, você está falando de um ente (símio) que teria ganhado consciência. Já Paulo fala do Homo-Sapiens, morto em pecado, ganhando vida em Cristo. São coisas completamente diferentes.

Você também disse, perguntando: “... em Cristo, o qual fora crucificado antes mesmo de sermos criados - recebemos o espírito vivificador, passando a ser almas viventes?” — Ora, Adão era alma vivente. Já o segundo Adão é “espírito vivificante”. Assim, Adão é alma em processo de crescimento e aprendizado inteligente, embora fosse instintualmente pleno. O Segundo Adão, todavia, é mais que alma vivente (passiva e receptiva na vivência) — pois é espírito que vivifica. O primeiro Adão é almal, é Homo-Psíquicos. Já o Segundo Adão é Homo-Pneumáticos. O primeiro é terreno. O segundo é celestial. Portanto, o Adão original não era como o Adão Eterno: Cristo. E nem tampouco era paradigma do Verbo Encarnado pelo fato de em seu estado inanimado ter recebido o sopro de alma “melódica” que o pôs em estado de consciência embrionária. Paulo, tanto em Romanos seis quanto em I Coríntios quinze, nos fala desse assunto. Leia e você entenderá.   

Este tema tem sido instrumento do “diabo” para tirar o foco do que é e do que vale na vida e na fé. Até hoje os cristãos lutam contra a teoria da Evolução como se ela tivesse algum poder de desfazer o que nem a morte pôde deter: o Cristo Ressuscitado!

Sim, porque para os “cristãos” o fundamento da fé não é Jesus, mas a inerrância letrista da Bíblia. De fato, são mais crentes no Livro do que na Palavra da Vida. São mais filhos do Primeiro Adão do que do Segundo: Jesus. Daí tanta discussão ridícula até hoje.

Sobre sua questão inicial acerca dos “dias” serem “eras”, e não lapsos de tempo de vinte e quatro horas, o que tenho a dizer é que, particularmente, é assim que creio; porém, tal crença é menos que secundaria, posto que nada muda nos fatos da Graça e da Redenção — que é só o que me interessa.

Na realidade o próprio Gênesis descreve um outro conceito de “dia”. Primeiro trata-se de um dia com “D” maiúsculo. Segundo, trata-se de um dia que não é como nenhum outro conceito de dia nas culturas humanas; pois, o Dia do Gênesis começa à tarde e termina pela manhã. “E houve tarde e manhã o... Dia”.

Assim, tal Dia nasce no entardecer, nasce do ocaso, nasce do caos, e caminha para o alvorecer de um novo Dia. Tal conceito faz sentido com toda a dinâmica Universal, na qual, todas as novas Eras ou Aions, são precedidos por caos, por estados sem forma e vazios.

Ora, o próprio profeta Joel, ao falar do Aion do Espírito sobre toda carne, cria um cenário de caos: “fogo, sangue e vapor de fumo...” O Apocalipse, coerentemente com todas as falas de Jesus, também é claro quando trás o eterno Aion (A Nova Jerusalém) — após um estado de caos universal.

Se olharmos para a história arqueológica e paleontológica, veremos que todas as grandes mudanças na Terra, com a adaptação e prevalência de novas espécies, sempre aconteceu após grandes catástrofes. E isto faz sentido com a idéia bíblica do Dilúvio; e ou com a afirmação acerca do sepultamento do “mundo antigo”.

O Gênesis, portanto, mantém esse principio; pois tanto o mundo é criado do caos que o precedeu (“... a terra, porém, estava catastrófica e vazia...” — diz o texto hebraico), como também o “Dia” de cada nova criação, começa no “entardecer” e caminha para o novo, para o “alvorecer”. Assim, sem irmos mais além, fica insinuado que é assim.

Para quem crê em Deus, tanto faz. Deus é Deus. Tanto pode criar tudo em seis frames de segundos, como em seis segundos, como em seis horas, como em seis dias, como em seis aions de tempo desconhecido — ou seja: para além de nossas mensurabilidades. O que vale dizer é que foram seis “Dias”; e que foram Dias que começaram no entardecer de um aion e caminharam para o alvorecer de um outro.

Afinal, o que interessa ao ser humano e à sua esperança existencial, não é o tamanho do Dia do Gênesis, mas sim que Jesus ressuscitou ao terceiro dia depois da Cruz, em nossa cronologia histórica.

Sobre sua questão acerca de como diferenciar as linguagens — pois, se Gênesis de 1 a 3 é uma narrativa mítica, como saber quando as demais não o são; digo o seguinte: Não fora a briga besta pela literalidade da Bíblia em tudo, um tolo e mero conhecimento de linguagem literária já seria mais que suficiente para discernir quando a linguagem é mítica, mítico-histórica, histórica, poética, alegórica, simbólica, ou arquetípica.

Veja que Jesus não gastou nenhum tempo com tal coisa; pois, para Ele, apenas uma coisa tinha valor: o Pai criara todas as coisas.

Quando Jesus disse que “uma só coisa” é o suficiente, Ele anunciava e enunciava um principio Cósmico e Espiritual; pois, tanto no Cosmos, como no ambiente do espírito, tudo provém de um só elemento, e do qual vieram todas as demais coisas. Sim, porque em Deus, a semente é uma só, e dele procederam todas as demais coisas.

Se olharmos para a narrativa do Gênesis (1 a 3) — veremos que daquela maquete mítica procedem todas as coisas. E a linguagem tinha que ser mítica a fim de não se esgotar numa única geração; ou, indo mais além, num único aion.

Sim, porque cada geração leu e viu com seus próprios olhos o que se poderia então enxergar. Desse modo, hoje, ao invés do Gênesis ter sido reduzido, de fato, dado ao conhecimento adquirido, ele apenas aumentou em seu significado. Isto porque dele, digo: do Gênesis — se pode fazer qualquer viagem verdadeira, tanto cientifica, quanto psicológica, como também filosófica e geológica (especialmente nos Salmos); ou mesmo teológica. Ou seja: em Gênesis de 1 a 3 temos o Matrix de todas as coisas que interessam ao nosso saber sobre nós mesmos.

Se eu olhasse para o Gênesis com olhos bem básicos, e do ponto de vista da antropologia evolucionista, eu diria que a “fixação do olhar” de Adão na Árvore, nada mais seria do que a pulsão latente de um ser que desceu das arvores para andar em pé. Assim, a árvore seria sempre um ente mágico, e ao qual se teria sempre grande reverencia. Se, porém, eu olhar para o texto com olhos da ciência paleontológica, eu diria que a “fixação na árvore” é apenas o resultado de uma mente que evoluiu de um estado onde os humanos só se alimentavam de frutas, e, portanto, tendo no ente-árvore sua memória mais essencial. Se eu olhar para o mesmo texto a partir de uma visão psicológica, diria que a Árvore é um arquétipo presente no imaginário humano, e que passou a simbolizar o abandono da vida inofensiva (herbívora) para o estado predatório que passou a definir os humanos. Ou ainda, também olhando com um olhar psicológico mais intimista, eu diria que o ambiente inteiro do Jardim, nunca foi externo ao Homem, mais sim interno; portanto, tendo em cada um daqueles agentes presentes (homem-animus; mulher-ânima; serpente-consciência-antitética; fruto-curiosidade) — simbolizações do conjunto de coisas e forças que produzem o processo de formação da consciência.

Entretanto, em qualquer que seja a visão pela qual se olhe, uma coisa se repete: os humanos desenvolveram culpa em razão de tal ato. Pois, o que lhes foi “evolução” em um aspecto, gerou neles a consciência da culpa; pois, daí em diante, a consciência de si foi experimentada como dissociação em relação à harmonia original.

Assim, como o Gênesis não foi escrito apenas para as primeiras gerações, mas para todas, e para todos os homens e todas as mentes — ele foi escrito numa linguagem inesgotável; a qual, a religião reduziu a meras palavras; posto que palavras se esgotam e matam; símbolos, porém, são inesgotáveis.

O fato é que o Gênesis nos diz que houve algo, alguém dia, que tirou os humanos do estado de inocência instintual e os levou a um estado de pré-consciência culposa. Entretanto, pela mesma razão, tal estado não pode se desenvolver sem a presença do contraditório; ou seja: da culpa — pois, se ficasse aí fixado, jamais nasceria e cresceria a consciência.

Assim, eu digo: sem culpa não se tem a vereda da consciência no ser finito; pois, somente o infinito pode ser cônscio de si sem culpa; pois, no infinito a consciência é; mas no finito a consciência só se estabelece como processo experiencial, e no encontro com o contraditório.

Por outro lado, se apenas a culpa governa o sentir humano, a consciência não evolui para além da neurose. Assim, “o Senhor Deus os vestiu com a pele de um animal”.

Veja que a tentativa original foi a de buscar um retrocesso. Pois o homem e sua mulher voltaram às folhas, a arvore, como tentativa de auto-encobrimento: folhas de figueira. E mais: Caim também tentou apaziguar sua consciência a partir dos mesmos elementos quando ofereceu seu sacrifício a Deus. É Abel quem assume que não haveria mais retrocesso, e que a única maneira da consciência crescer seria sob a fé na Graça. Do contrário, seria o reino da neurose, como o é — posto que a maioria dos humanos ainda tece com folhas de figueira, na tentativa de se vestirem aos olhos Daquele que os veste; embora eles não creiam nisto.

Tudo isto, porém, não carrega qualquer significado essencial; exceto para aquele que luta em razão dos conflitos nele injetados pela insegurança da qual a religião das falsas certezas se alimenta.

O que importa, portanto, é uma só coisa: Fiel é a Palavra, e digna de toda aceitação — que Cristo Jesus veio ao mundo salvar os pecadores, dos quais, eu, Caio, sou o principal.

O resto é briga de lesmas!


Um beijão!

 


Nele, que de um só fez toda a raça humana,

 

Caio