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Cartas

DERAM UM “SANTO CHUTE” NO TRASEIRO DE MEU VELHO PAI...

DERAM UM “SANTO CHUTE” NO TRASEIRO DE MEU VELHO PAI...

 

 

 

 


----- Original Message -----
From: DERAM UM “SANTO CHUTE” NO TRASEIRO DE MEU VELHO PAI...
To: contato@caiofabio.com
Sent: Friday, September 15, 2006 12:57 PM
Subject: É “DEMAS” DE-MAIS... 

 

 

Pastor Caio,

Sou filho de crentes. Nasci no evangelho... Brincadeirinha... ah ah ah ah ah.

Sei que o senhor já deve ter lido (e ouvido) estas frases milhares de vez em sua vida. Só que desta vez é diferente. A segunda frase é falsa. Eu não nasci no Evangelho. Na verdade nasci no hospital... ah ah ah ah ah.

Neste ponto o senhor iria perguntar: E daí?

Pois é... e daí??????

E daí nada porque minha origem é um fato superficial para o que pretendo escrever.

Pois bem. Estive domingo passado no La Salle (dia 10/09/2006) e mais uma vez fiquei impressionado com o que vi. Aliás, estou lá todos os domingos. Não vou dizer que sou “membro” porque esta palavra também lembra Igreja; mas digo: Sou um dos “Do Caminho”. Lá tenho aprendido a verdadeira mensagem do Evangelho.

Sem querer fazer média, porque nem o senhor e nem eu precisamos disso — mas o fato é que a reunião foi inesquecível. Mais uma vez Deus se mostrou para mim. A começar pelos saudosos cânticos (antigos, mas ainda cheios do poder de Deus); pois, na verdade, depende mais de nós que cantamos do que do canto.

Quero parabenizá-lo ainda pela mensagem, baseada na carta de Paulo a Timóteo (2o Tim. 4). Mais uma vez o Reverendo acertou. Mais uma vez a Graça de Deus foi colocada de uma maneira de fácil entendimento. Ocorre que desta vez, a mensagem mexeu comigo de uma maneira especial devido a um fato que estou presenciando e que tem me deixado preocupado.

Não quero tomar o seu tempo. Garanto que serei breve. Na verdade é um desabafo.

Meu pai é pastor evangélico. O mesmo está com 63 anos e encontra-se adoentado — aparentando ter uns vinte anos a mais. Ora, é lógico que ele não pode mais pular no púlpito, gritar, dar “porrada” com a Bíblia em supostos demônios que incorporam nas pessoas, falar “BA-LA-BA-XÉ-E-CLÃ-MAS”, exortar, dar chicotada com pulso de carrasco em crentes masoquistas. As pregações do meu pai agora são mais cadenciadas. Centradas na Graça de Deus e na sua vasta experiência.

Caro Pastor Caio. Adivinha o que aconteceu? É claro... Depois de mais de vinte anos naquela “igreja” meu pai foi “demitido”. Ele não era mais “economicamente viável”.

O chefe do meu pai, na hierarquia daquela “Empresa”, é uma pessoa Nota Dez. Não tenho nenhuma queixa com relação àquela pessoa, pois o mesmo também acredita na Graça de Deus, e não é um doente que gosta de falar línguas estranhas para impressionar; e não anda atrás de profecias para orientar-se. Ele parece conhecer o Deus vivo. Mas ele também tem superiores, que têm outros superiores, que têm outros superiores... A cadeia vai parar nos EUA.

O problema, como sempre, são os “irmãos”. Os membros daquela Igreja. Suas queixas foram tantas que os superiores do meu pai não tiveram alternativa a não ser “dar-lhe um educado chute no traseiro”. Sei que meu pai também tem culpa, pois, ele também ajudou aquele povo a ficar como está. Por outro lado, ele também achava que, por ser “homem de Deus", seria um ser inabalável e intocável horizontalmente e verticalmente. No seu entendimento anterior, “ninguém podia tocar num ungido de Deus.” Ledo engano. Mas, mesmo assim, o que fizeram é desumano.

Sei também que nenhum de nós deve vitimar-se pelas nossas próprias ignorâncias. Porém, o fato é que a quantidade de “Demas” (2ª Tim 4) naquela igreja nos surpreendeu.

Acrescento que meu pai, apesar de não demonstrar, está se sentindo traído. E não é para menos. Do meu ponto de vista não houve qualquer sentimento de gratidão. O sentimento dele deve ser o mesmo que passou por Jack Nicholson no filme “AS CONFISSÕES DE SCHMITH”. Aliás, o sentimento deve ser ainda pior; pois, este, como já falei, está com problemas físicos de saúde.

Estamos fazendo o possível para a doença física não se agravar em conseqüência da exoneração. Ele não sabe que estou escrevendo este e-mail. Estou escrevendo por mim. Acrescento que, felizmente ele não precisa de dinheiro daquela organização para sobreviver — mas sua tristeza reside no simples fato de que “aquilo” lá era a vida dele.

Queria “abrir um parêntesis” para dizer que o fato dele ter uma vida financeira independente da igreja é uma daquelas incoerências presentes em nossas vidas. Há mais ou menos 30 anos atrás o meu pai “desviou-se da igreja”. Foi para “o muuuundo....” Felizmente! Foi nesse exato período que o mesmo se formou e teve uma acentuada melhora nas finanças. Se não fosse isso, a situação seria pior. Não parece ilógico. Como afirma o título de uma de suas mensagens: “Às vezes o altar está no abismo”. Dessa forma, se prevalecesse a “teologia de causa e efeito dos amigos de Jó”, tão combatida pelo senhor no Livro “O enigma da Graça”, o fato acima seria inexplicável.

Dessa forma, pastor Caio, sua mensagem do domingo passado acertou “na mosca”. A mesma veio em um momento exato; pois, os fatos narrados acima ocorreram semana passada. Imagino que meu pai esteja experimentando todos aqueles sentimentos descritos em sua mensagem.

Por outro lado, Reverendo, os fatos narrados aqui demonstram que a coisa parece ser ainda pior do que o senhor prega. São poucos os crentes que se importam com a dignidade da pessoa humana. A obra de Deus é apenas o templo físico, denominado igreja. Lá cada um, num espírito de competição, acha que está comprando Deus com suas “negociatas” — mascaradas de diversas formas. Veja pastor que a maioria dos crentes entende que pode comprar Deus; pois, como a Igreja já o “patenteou”, fica fácil para seus membros o comprarem a um preço mais “em conta”.

Só para terminar esta cômica história, acrescento que já chegou um novo pastor para substituir meu pai. Este novo pastor chegou e nomeou nova diretoria e, como primeira decisão, afirmou que não haveria mais cultos em dia de sábado. Os cultos na igreja seriam apenas terça, quinta e domingo. Adivinha o que aconteceu? É claro, todo mundo se amarrou. É como se um chefe estivesse dando folga aos funcionários. Parece piada, mas não é. Faltou até originalidade, pois, as igrejas da chamada “visão” é que têm cultos nesses dias.

Fico imaginando que quando o novo pastor anunciou a dispensa dos sábados alguém deve ter dito: “Este pastor é de deus”. (d – assim mesmo – não em caixa alta). Quando este pastor começar a mandar o povo pisar na cabeça do diabo e esfregar o calcanhar no chão, todo mundo vai repetir: “Este sim. Nunca vi tanta autoridade.” Outros gritarão: “Aleluia”. Os mais psicologicamente doentes convocarão: “Vamos amar”; etc. E todos estarão “buscando a deus”. É cada macaco em seu galho.

Simplesmente, obrigado pela atenção.

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Resposta:

 

Meu amigo: Graça e Paz!

 

Graças a Deus isto aconteceu a ele; pois, do contrário, ele não teria a chance de viver fora desse circo de doentes de alma, de anões espirituais, e de palhaços da armação que eles chamam “igreja”.

Agora está doendo. Porém, pela Graça de Deus, logo ele se sentirá bem melhor, e até mesmo livre e salvo.

Você fez alusão à mensagem que preguei acerca do estado de abandono de Paulo, e aos Demas e aos Alexandres — “os quais”, diz Paulo, “tendo amado o presente século, me abandonaram” — ou: como no caso de Alexandre, o latoeiro, “causaram-me grandes males”.

Paulo, entretanto, não brincou com sua condição humana; e, preso, traído, abandonado, falsamente acusado, sem amigos, sofrendo o frio da prisão, tomado pelo nada, pelo tédio; e sem a solidariedade daqueles aos quais ajudara e pelos quais se dera — não fez solicitações mágicas; antes, pediu que Timóteo voltasse logo; que trouxesse livros para ele ler; e que não esquecesse de trazer uma capa de frio que ele, Paulo, esquecera em Trôade, na casa de Carpo.

Além disso, ele olhou à volta e viu que todos tinham ido, menos um. Por isto disse: “... somente Lucas está comigo”.

Assim, na prática, Paulo ensina que a Graça de Deus TAMBÉM tem cara de gente quando estamos sós; também tem em distrações (livros) o seu recursos; também tem em roupas a sua expressão contra o frio; e também tem em gente que não foge nunca, como Lucas, o seu agente de consolação.

Sim! Porque a Graça de Deus nos socorre em tudo; porém, não nos desnaturaliza!

Conheço a dor de seu pai, possivelmente elevada a muitas potências. E digo isto sem nenhuma auto-vitimização; pois, sei separar meu erro dos erros dos demais. E mais: sei o que é socorrer os que tropeçam; pois disso me ocupei a vida toda — e ainda me ocupo.

Assim, em 98, quando me divorciei e desgraças se abateram sobre minha alma — sabia a parte que me cabia (e ela tinha a ver com Deus e umas poucas pessoas); mas sabia que o que a “igreja” estava fazendo e fez, tanto era parte do espírito de Demas, como também do de Alexandre, o latoeiro; assim como também era o espírito dos frouxos que, sendo ajudados a vida toda, esquecem-se de você sob a alegação de que você os traiu porque traiu a si mesmo.

O que você está narrando é uma história que se repete todos os dias — seja em razão de doença, de velhice, de fraqueza, de experiência da humanidade ambígua, ou ilusórias certezas acerca de que os ajudados ajudarão quando houver necessidade.

A “igreja” se tornou tão má e perversa que é capaz de disciplinar a pessoa por velhice, doença e ou infelicidade!     
 
O importante é não sucumbir à amargura e não ficar cínico. Por isto Paulo diz que o Senhor o salvou de toda obra maligna. E, no caso dele, a “obra maligna” não era o estar preso e tomado de privações; mas sim era o potencial que nele, Paulo, havia (com todo o direito “humano”) de se encher de justiça-própria, e não ter mais a disposição interior de se dar à causa pela qual vivera até ali — posto que em tais horas a pessoa se pergunta: Trabalhei eu em vão?

Assim, convide seu paizinho pra aparecer com você lá na reunião “dos do Caminho” — pois, como você sabe, entre nós, pela Graça de Deus, não é assim; e também por sua Graça não será.

A “igreja” diz que cura, mas descarta os seus doentes; diz que ama, mas odeia os seus servos; diz que a velhice se renova como a da águia, desde que o sujeito ainda seja jovem; diz que é o povo do amor, mas apenas enquanto amor não é, na prática, necessário.

Ou seja — a “igreja” diz: Não precisando de nada, disponha!

Ora, a essa “igreja” utilitária e materialista, Jesus diz: “Até os pagãos são melhores!”

Aguardo você na reunião “dos do Caminho”. Venha e convide sua família!

Diga a seu pai que a velhice dele ainda pode ser muito útil; assim como vejo o esplendor da velhice de meu próprio pai — para quem não existe aposentadoria; posto que seu coração nunca envelhece; pois o amor o rejuvenesce todos os dias — a ele e a minha velha mãe!

Receba meu carinho.

 

Nele, que derrama o Espírito tanto sobre jovens, como também sobre velhos, escravos e livres — e os faz sonhar, ter visões e profetizar,

 

 

Caio