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Cartas

CULPA E NEUROSE MATERNA

CULPA E NEUROSE MATERNA

----- Original Message -----
From: CULPA E NEUROSE MATERNA
To: contato@caiofabio.com
Sent: Thursday, March 30, 2006 1:36 PM
Subject: Confissões de uma Culpada

Pr. Caio,
 
Tenho tanta coisa para falar, perguntar... Venho lendo seu site há aproximadamente dois anos, e seguindo uma orientação sua no link de “Informativos” tentei ler o máximo que pude antes de lhe escrever, mas à medida que eu lia, transformações foram acontecendo em mim; e você foi se tornando um conselheiro sem que eu precisasse lhe escrever. Fui conversando com você através das “Reflexões”, das “Histórias”, dos “Artigos”, das suas respostas às “Cartas”... É por isto que hoje lhe percebo como um grande amigo ainda que nunca o tenha visto pessoalmente.
Vejo como providência de Deus que eu tenha descoberto o seu site, justamente num momento da minha vida de “retorno à casa do Pai”. Posso afirmar que os últimos 2 anos da minha vida valeram mais do que os 38 que eu já havia vivido. Sinto que estou sendo transformada, moldada pelo Oleiro, virada pelo avesso mesmo. Sinto que havia dentro de mim um universo de coisas encobertas que estão vindo à tona à medida que mergulho na Palavra. Palavra viva que penetra no meu íntimo como uma lança e divide juntas e medulas, expõe culpas e medos a respeito dos quais eu não tinha consciência, desvenda mistérios e descortina a verdade que meus olhos cegos não conseguiam enxergar. Palavra viva que me põe diante da Graça de Deus e me desafia a deixar de olhar para ela como quem olha para um espelho e passar a olhar como quem olha para uma janela e vê o que ela possibilita!
Sinto que o Pai está a cada dia me mostrando o Caminho para que eu me torne maior do que o meu passado. Lendo o seu livro “Confissões do Pastor”, uma frase me chamou atenção: “...ninguém é maior que seu passado, quando este define a conduta no presente...”. Reconheço que o meu passado tem definido muitas condutas minhas hoje e tenho sinceramente colocado este passado diante da Graça do Pai e suplicado a Ele que me ensine a descansar em sua Graça. Sinto que o meu passado durante todo este tempo, me separou do amor de Deus. Nem o presente, nem o porvir pode nos separar do amor de Deus, mas, como você chamou a atenção num de seus maravilhosos textos aqui no site, o passado não é citado por Paulo, e hoje percebo que o meu passado vinha me separando do amor de Deus.
 
Defino esta carta como “Confissões de uma Culpada” porque acredito que a culpa tem sido atualmente o meu maior inimigo. É contra ela que tenho lutado e é dela que preciso me libertar e me curar. Não posso mais, não agüento mais continuar carregando tantas culpas porque sei que carregá-las significa rejeitar a Graça e invalidar a cruz (na minha vida). Significa rejeitar o Deus-Amor e me submeter ao dês-amor. São muitas culpas que me atormentam. Culpas por coisas que fiz e por coisas que deixei de fazer. Culpas que durante muito tempo consegui encobrir, mas que agora, no caminho de volta à casa do Pai, foram uma a uma se mostrando.
Como você disse em algum lugar do site, o Pai, quando avista o filho “vindo ainda longe”, corre ao seu encontro ao invés de ficar esperando-o em casa. Fico visualizando a cena e vendo o filho pródigo aparecendo na curva do caminho, todo maltrapilho, sujo, carregando uma mochila, cabeça baixa e ombros encurvados, e o rosto banhado de lágrimas. Era assim que eu estava e na mochila carregava as minhas culpas. Vejo o Pai correndo ao encontro do filho e tomando-o nos braços. Quanto aconchego experimentei nesse abraço! Quanto descanso! Imagino também que o Pai imediatamente tira dos ombros do filho aquela mochila pesada e a lança longe, pois ele não mais precisará de nada que ela contem. Sinto que o Pai hoje quer fazer o mesmo comigo, pegar a minha mochila carregada de culpas e jogá-la longe, mas eu teimosamente insisto em segurá-la. Entrego nas mãos dÊle, na minha mente; mas continuo a segurá-la no meu coração.
Tenho consciência do perdão dÊle mas não consigo me perdoar. E estamos, eu e o Pai, nesse Caminho de volta e a cada dia que passa, Ele me pede a mochila. Esse caminho não tem sido fácil por causa da minha teimosia. Tenho passado por muitas tribulações e tenho plena consciência de que há um propósito em tudo isso. Vejo que o Pai me deixa dar topadas e pisar em pedregulhos que machucam os meus pés a fim de que eu perceba que preciso entregar-lhe a mochila.
Como já disse antes, sinto que estou passando pelo fogo, que estou sendo lapidada, moldada, e louvo a Deus por isso. Sinto que Ele esta tratando de mim. Como Deus tem sido paciente comigo! Já faz tempo que estamos nesse Caminho de Casa! Na verdade, acredito que só vou chegar em Casa no dia em que eu “passar o rio”! Até lá será sempre o Caminho de Volta... E nesse Caminho, agora com o rosto desvendado, sei que vou sendo transformada de glória em glória.

Sei que você é muito ocupado e tenho medo de importuná-lo com um texto tão longo quanto o que vai se seguir abaixo, mas espero que encontre algum tempo para lê-lo e vou ficar muito feliz se puder responder. Mas já lhe adianto que você tem sido um instrumento de Deus para abençoar muitas pessoas e ainda que não possa responder, já terá valido a pena lhe escrever porque exatamente neste momento, ao verbalizar tudo que estou verbalizando aqui, já estou sendo abençoada!
Na verdade, meu primeiro contato com você foi na minha adolescência através da leitura de alguns livros seus, tais como “Abrindo o Jogo sobre Namoro” e “Abrindo o Jogo sobre Aborto”. Meus pais são evangélicos e em função disso fui criada desde os tempos de berçário numa igreja batista. Fui batizada na Igreja Batista quando tinha 12 anos, mas somente aos 14, num acampamento da Igreja Presbiteriana, tomei consciência da minha necessidade de Deus. Naquele dia dei o meu primeiro passo no Caminho.
Durante os 4 anos seguintes, por uma questão de afinidade com as pessoas, congreguei na Igreja Presbiteriana, mas aos 18 anos comecei a namorar um rapaz recém-convertido (que veio a se tornar o meu marido 4 anos depois) da Igreja Batista; e por esta razão, acabei voltando para lá.
Durante estes 4 anos de namoro, muitos questionamentos povoaram a minha cabeça. Eu era na época líder da mocidade da igreja e buscava sinceramente cumprir os rituais que as “doutrinas” das igrejas evangélicas afirmam serem necessárias ao processo de “santificação”. Mas alguns desses rituais eu não conseguia entender. Especificamente, nunca conseguia entender porque a assinatura de um papel era o fator de legitimação do sexo. Li muitos livros, inclusive os seus (sei das ressalvas que você faz hoje ao que escreveu há tanto tempo atrás), mas nunca ninguém me deu uma explicação convincente sobre isto. Nem você, nem Jaime Kemp, nem Luis Palau, nem os professores da EBD, nem os palestrantes dos acampamentos que eu participava (Palavra da Vida, Jovens da Verdade, etc), nem meu pastor, nem ninguém conseguiu me fazer enxergar na Palavra de forma clara e objetiva que seria um papel assinado, e não o amor que havia entre eu e meu noivo, que nos daria liberdade para vivermos o nosso amor na sua plenitude.
Durante estes 4 anos de namoro, vivi este dilema. Eu já era uma mulher de 19... 20... 21 anos, com desejos e paralelamente a estes desejos, culpas e medos. Nosso namoro “esquentava” mas nunca íamos até o fim por medo de estar pecando. Ridículo isso!! Ora, se era pecado fazer sexo antes do casamento, então já estávamos pecando porque o sexo não se resume numa penetração (única coisa que não permitíamos acontecer). Já estávamos fazendo sexo!! Então...já estávamos pecando!! Isso me enchia de culpa e ao mesmo tempo, não!! Eu não me sentia culpada mas me sabia culpada, entende?
Algumas vezes tentei conversar com o meu noivo sobre isso e lhe falei que eu achava que não estávamos sendo promíscuos, nem sujos, nem irresponsáveis e cheguei a sugerir que deveríamos nos permitir... mas ele nunca concordou. Dizia que não teria como encarar os meus pais, os irmãos da igreja, o pastor... e assim fomos levando o namoro, entre desejos, frustrações e culpas... até o casamento, que hoje analisando com clareza, vejo que foi motivado exclusivamente pela nossa necessidade de sair daquele tormento.
Casamos apressadamente para resolver o problema da nossa necessidade sexual. Apressamos o casamento pois já não agüentávamos mas sustentar aquela situação. Um casamento precipitado, pois eu ainda fazia faculdade e ele não tinha uma estabilidade financeira que nos garantisse a nossa independência.
Me casei “virgem” (coloco entre aspas porque me refiro apenas a uma virgindade anatômica e hipócrita pois com exceção da penetração, tudo o mais já havia acontecido) e cheia de expectativas... ah! como será maravilhoso quando pudermos dar vazão ao que sentimos sem nenhuma culpa pairando em nossas cabeças... e foi pensado assim que apressei um casamento que nunca deveria ter acontecido porque foi justamente em função de sérios problemas na área sexual que viemos a nos separar 9 anos depois.
Ouço muitas pessoas falarem sobre a Benção de esperar pelo “sexo depois do casamento”. Existe inclusive um livro (não sei quem é o autor) cujo título é “Vale a Pena Esperar”. Ouço as pessoas falando que quem não espera, perde a Benção... que benção? Ao analisar a minha história, não consigo enxergar nenhuma benção por ter esperado... pelo contrário! Fico pensando que se naquela época tivéssemos decidido não esperar e tivéssemos vivido plenamente a nossa vida sexual, não teríamos tanta pressa para nos casar logo, teríamos esperado que eu me formasse e que ele tivesse um bom emprego e nesse ínterim teríamos descoberto as nossas incompatibilidades sexuais e provavelmente nem teríamos nos casado.
Sei que tudo isso são hipóteses e que não vale a pena ficar pensando nos “ses”, porque nunca saberei o que teria sido se...! Sei apenas o que foi de fato.
Falo de incompatibilidades sexuais porque logo nos primeiros meses de casados, meu marido me “procurava” muito pouco! Sei que o “muito pouco” é relativo e o que é muito para um casal pode ser pouco para outro, mas para mim era muito pouco mesmo!!
Havia uma frieza e uma falta de tesão que contrastava terrivelmente com o que eu havia projetado baseada no que rolava nos tempos de namoro. Já no primeiro mês de casados a nossa freqüência foi caindo ao ponto de termos 2 ou no máximo 3 relações por semana. Para mim era pouco para um casal recém casado!! E não era só com a quantidade de relações que eu estava frustrada mas também com a qualidade. Não havia nenhuma sensualidade na forma como ele me tocava, ou beijava, não havia tesão, ele inclusive evitava claramente carícias mais ousadas.
No terceiro mês já havia caído para 1 relação por semana e olhe lá!! O meu marido era um homem de 31 anos que antes de se converter (ele se converteu aos 26 anos), já tinha uma vida sexual bastante atuante (segundo ele mesmo me contou). Eu não consegui entender porque ele me rejeitava... e o questionei sobre isto. Ele saía sempre pela tangente dizendo que era porque estava trabalhando muito, acordando muito cedo, e que por isto ficava cansado... mas que logo as coisas iriam melhorar. Quando me casei eu tinha um corpo muito bonito, bem feito mesmo. E ficava imaginando porque ele não sentia atração por mim? Deveria haver algo de muito errado comigo que eu não enxergava. Eu gostava de me arrumar, de me manter em forma, cuidava da minha aparência e me achava uma mulher atraente. Não consegui entender porque, tendo uma mulher bonita e amorosa na cama, ele preferia se levantar e ir pra sala ver televisão, só vindo se deitar depois que eu já havia pegado no sono.
Com seis meses de casada, engravidei da minha filha (hoje ela tem 16 anos) e fiquei muito feliz em saber que estava grávida. Depois que minha filha nasceu, meu corpo sofreu as transformações naturais e a minha barriga ficou muito flácida. Isso não teria sido problema pra mim se eu sentisse que era desejada, mas eu não sentia isso, e a esta altura (1 ano e meio de casados) a nossa freqüência sexual já havia caído para 1 ou no máximo 2 vezes por mês.
Comecei a acreditar que realmente o problema estava em mim. Eu deveria ser muito “ruim de cama”, e pra completar, muito feia também, já que não tinha mais o corpinho sarado de antes da gravidez. E assim minha auto-estima foi pro fundo do poço. Parei de me cuidar, engordei, não me arrumava, não tinha a menor vontade de cuidar de mim. Desleixei-me completamente e, como diz um primo meu, “embagulhei”.
Não era feliz no meu casamento mas não podia contar isso pra ninguém. Sentia muita vergonha de admitir que o meu marido não sentia tesão por mim. Fingia para todos, inclusive para os meus pais, que o meu casamento era maravilhoso. Outros casais amigos nossos nos viam como exemplo de casal feliz e na igreja éramos o “Casal 20”.
Vale ressaltar que muitas vezes tentei conversar com o meu marido sobre o assunto mais ele sempre dizia que as coisas iam melhorar, ou alegava que estávamos precisando orar mais para que Deus nos abençoasse nessa área. Ele sempre espiritualizava o problema e sempre fazia referência ao fato de que talvez estivéssemos sendo castigados porque o nosso namoro não havia sido “santo” e que agora estávamos pagando por isso.
Certa vez, num raro momento de discussão nossa (fora esse problema na área sexual, não tínhamos outros conflitos e brigávamos muito pouco) eu me descontrolei e comecei a esbofetear o meu próprio rosto e bati com tanta força que fiquei com as maçãs do rosto completamente roxas. E eu fazia isso murmurando palavras contra mim mesma, pronunciando frases do tipo: “eu sou muito feia”, “eu sou uma droga de mulher”, “eu sou horrorosa”, “a culpa é minha”, etc... (como vê, eu já estava doente emocionalmente) Quando ele me viu naquele estado, me segurou pelos braços para que parasse de me agredir e me pediu para que o escutasse. Contou-me que o problema não estava em mim e sim nele. Disse-me que na época de namoro, quando tínhamos aqueles momentos de mais intimidade mas não terminávamos o ato, ao chegar em casa, ele ligava a televisão nos canais de filmes e programações mais “picantes” e se masturbava para aliviar a excitação. E isso se tornou um hábito até o ponto de ele, mesmo depois de casado, continuar praticando. Como ele achava que masturbação era um pecado terrível, ao praticá-lo sentia-se “sujo” e indigno de mim e, portanto, indigno de me tocar e de ter relações comigo. Isso fazia com que ele novamente se masturbasse e o ciclo se fechava. Essa revelação só piorou as coisas para mim porque eu percebi que ele tinha na cama uma mulher de carne e osso e preferia fazer sexo com a televisão! Falei pra ele que precisávamos de ajuda e sugeri que procurássemos o pastor, pois além de pastor, é também psicólogo. Mas ele foi irredutível dizendo que tinha muita vergonha e que não tinha coragem de contar aquilo pra mais ninguém.  Mais uma vez espiritualizou a situação dizendo que estávamos sofrendo as conseqüências no que aconteceu no nosso namoro e que a saída seria orar e pedir a Deus que o curasse daquele vício.
Logo depois que a minha filha nasceu, engravidei de novo do meu filho (que hoje tem 15 anos) e por isso precisei trancar a faculdade para cuidar dos dois. Fiquei durante 3 anos em casa cuidando deles e nesse período direcionei toda a minha realização como mulher para o exercício da maternidade. Já que não me realizava como fêmea, me realizaria como mãe. Apesar dos problemas na área sexual, éramos amigos e não tínhamos outros conflitos que não fossem ligados à questão sexual. Ele me tratava bem e aos nossos filhos. Era como se fôssemos dois irmãos morando juntos. Em função disso, quando surgia na minha cabeça a possibilidade de me separar dele, eu pensava: pra que? Por que vou desfazer o lar dos meus filhos (para eles estava tudo bem porque não havia discussões, brigas dentro de casa) se não tenho condições de ser feliz com mais ninguém?
Eu me achava tão sem atrativos que não imaginava a possibilidade de uma segunda chance de ser feliz num relacionamento. Diante disto, eu racionalizava, é melhor ficar aqui mesmo e tentar ser feliz nas outras áreas da minha vida e esquecer que existe sexo.
Quando meus filhos estavam com 2 e 3 anos, coloquei-os na escolinha e voltei a trabalhar. Paralelo a isso fiz um novo vestibular e voltei para a faculdade para terminar o meu curso. Esse retorno ao mercado de trabalho e à vida acadêmica me fez muito bem. Voltei a exercitar o meu intelecto e a me socializar, e isto me trouxe um certo alento e melhorou um pouco a minha auto-estima, mas me trouxe também um sentimento de culpa em relação aos meus filhos. Eu saía de casa de manhã quando eles ainda estavam dormindo. Não dava para vir almoçar em casa porque só tinha 1 hora de almoço e eu não tinha carro. À noite eu ia direto do trabalho para a faculdade e só chegava em casa lá pelas 23 horas quando eles já estavam dormindo. Ou seja, eu só os via acordados nos finais de semana. Este sentimento de culpa, na verdade, me acompanha até hoje, mas eu vou deixar para falar sobre isto depois.

Nesse período passei a me cuidar um pouco mais. E de repente, o que eu achava impossível começou a acontecer. Mudei para um novo setor dentro da empresa pois havia sido requisitada pelo chefe do setor para trabalhar lá. Não entendi muito bem porque ele havia me requisitado, pois eu mal o conhecia. Na verdade, eu conhecia a esposa dele, que trabalhava na mesma empresa e no mesmo setor que eu. Saí deste setor e fui trabalhar com ele; e para minha completa surpresa ele começou a me assediar. Eu achava isso tão impossível de acontecer, que demorou um pouco para minha ficha cair... ele só dando indiretas e eu achando que era tudo impressão minha. Até o dia em que ele ligou para minha casa num domingo a tarde e como eu não estava em casa, pediu ao meu marido o número do meu celular alegando que era meu chefe e que precisava falar comigo com urgência. Ligou pra mim e disse claramente que me desejava, que não conseguia parar de pensar em mim, que estava louco de tesão por mim, bla,bla,bla,bla,bla....
E o efeito daquelas palavras no meu ouvido foi devastador!!
Tantos anos tentando mortificar em mim os meus desejos e de repente, por causa de algumas palavras ditas no tom certo e na hora certa, tudo veio à tona com uma força avassaladora. Os pensamentos se embaralhavam na minha mente misturando palavras do tipo: “mulher”, “atraente”, “fêmea”, “desejo”, “prazer”, etc. Eu sabia o tempo todo que aquele homem era um galinha (eu havia sido colega da mulher dele e já conhecia a sua fama) e que ele, de alguma forma, havia percebido a minha carência sexual (com toda certeza eu dei sinais pra isso), mas isso não me importava. Não me importava saber que eu seria apenas um objeto do prazer dele, não me importava saber que eu seria usada e descartada logo depois, não me importava saber nada disso. A única coisa que me importava era saber que havia uma possibilidade para mim. Que alguém queria transar comigo!! Eu o usaria também. Ele seria a forma de me redescobrir como fêmea. Além do mais, lá no fundo eu sabia que todos aqueles anos amordaçando uma parte tão importante do meu ser havia feito nascer dentro de mim uma mágoa pelo meu marido, por ele ter me deixado naquele deserto, naquela secura em que eu estava, principalmente depois que descobri que além do sexo com a televisão, ele praticava o voyeurismo. Fiz diversas tentativas de convencê-lo a procurar ajuda enquanto ainda havia alguma chance de resgatar o nosso casamento; e sempre ouvir dele que não poderíamos contar isso a ninguém, e que deveríamos orar para que Deus mudasse a situação.
Por falar em Deus, meu caminho estava cada vez mais distante do Caminho. Eu continuava freqüentando aos cultos da manhã nos domingos, mas a sensação que eu tinha era de que eu estava prestes a pedir a minha parte da herança e cair no mundão.
Eu tive uma relação com aquele homem. Ainda no motel, ao entrar no carro dele eu lhe disse que o meu casamento havia terminado ali e que eu contaria tudo para o meu marido e me separaria. Ele deu risada e não acreditou. Mas foi exatamente isto que eu fiz. Um mês depois eu contei pro meu marido tudo o que tinha acontecido e depois de uma longa e dolorosa conversa decidimos pela separação.
Sei que ele sofreu muito quando soube de tudo, mas foi digno o suficiente para reconhecer a sua parcela de responsabilidade. Ele disse que me perdoava e que tinha consciência de que tinha se descuidado comigo me deixando vulnerável à situação que eu vivi. Não soube me explicar o que ocorria com ele... acho que ele realmente não sabia explicar o porquê! E por fim, me perguntou se eu ainda queria fazer uma tentativa de resgatar o nosso casamento. Eu não quis. Já não havia o que resgatar... eu já não estava disposta a resgatar mais nada. Toda a experiência me fez ver que já não amava mais o meu marido como homem e sim como se ama um irmão. Também passei a acreditar que talvez me fosse possível ser feliz com outro homem... que talvez eu não fosse tão feia e tão “ruim de cama” como eu imaginava... que talvez ainda fosse possível me realizar como mulher.
Nos separamos e eu fui com os meus filhos morar na casa dos meus pais. Voltei para a casa do meu pai e fui embora da casa do Pai. Nesta época, vivi um turbilhão muito grande sentimentos contraditórios. A minha separação gerou muito “falatório” na igreja, apesar de que, com exceção de alguns “amigos mais chegados que um irmão”, ninguém ficou sabendo dos motivos. Houve muita especulação... as pessoas não se conformavam que um casal tão bonito, tão harmonioso e tão feliz (era esta a imagem que passávamos para todos) pudesse se separar.
Apesar do meu marido ter me perdoado, ao mesmo tempo em que eu tentava me justificar para mim mesma de que eu fiz o que fiz porque estava carente e vulnerável, na verdade, lá no fundo, me sentia extremamente culpada, suja, indigna... adúltera... ADÚLTERA... esta palavra ecoava na minha alma... Não, eu não podia me esconder atrás da desculpa de que estava vulnerável... nada justificava uma traição. O certo teria sido me separar dele antes... teria sido jogar limpo... e eu joguei muito sujo... e o que é pior... consciente do que estava fazendo. Fiz uma análise da minha vida e passei a culpar também a igreja, com seus dogmas e mitos, pelo que tinha acontecido comigo, pois eu pensava, como já disse logo no início, que se não houvesse aquela bobagem de ter que casar “virgem”, eu não teria me precipitado, teria dado início à minha vida sexual plena, teria esperado para me casar quando estivéssemos numa situação financeira mais estável e provavelmente, nem teria me casado porque os problemas teriam aparecido antes do casamento...
E foi assim, com uma mochila cheia de culpas e cheia de desculpas que eu caí na estrada. Deixei completamente de ir a igreja, deixei de levar os meus filhos a igreja e de levá-los ao conhecimento do Pai (esta é uma das culpas que carrego até hoje na mochila), mas o pior de tudo foi deixar de andar com Deus.
Vivi um primeiro momento de muita depressão que oscilava com falsa euforia, muita culpa, muitas dúvidas e muitas expectativas. Isso me fez emagrecer e com isso recuperei em parte o corpo que tinha quando me casei. Comecei a sair com amigas do trabalho e a conhecer novas pessoas. Sentia necessidade de viver tudo que eu não tinha vivido no meu casamento e estava disposta a experimentar relações esporádicas sem compromissos mais sérios com homens que eu achasse interessantes. Queria experimentar o meu poder de atração, o meu poder como fêmea. Tive uma relação furtiva com um vizinho de uma amiga minha e logo depois acabei conhecendo um outro vizinho desta mesma amiga e começamos um namoro que no início foi maravilhoso para mim. De certa forma, este namoro me impediu de cair na promiscuidade de ficar passando de mão em mão como provavelmente eu teria feito se não tivesse começado a namorar este homem. Resolvi abafar toda aquela culpa que eu sentia por ter sido uma adúltera e viver a minha realização como mulher. Pela primeira vez na minha vida eu me sentia realizada como fêmea, e isso me fez recuperar a minha auto-estima.
Voltei a me cuidar, a me preocupar com a minha aparência e até perdi um pouco a vergonha e o complexo que eu tinha por causa da minha barriga que havia ficado flácida e enrugada com a gravidez. Por outro lado, lá no fundo eu achava que eu não merecia ser feliz... afinal de contas eu era uma adúltera!! Nessa época fui sutilmente convidada pela igreja a pedir o meu afastamento do rol de membros, já que eu estava tendo um relacionamento, sendo ainda casada no papel (o divórcio ainda não tinha sido efetivado). Esta atitude só reforçou o meu desejo de me afastar completamente da igreja.
Logo no início do namoro eu resolvi contar a ele como tinha sido a minha separação e o porquê. Achava que precisava jogar limpo com ele e que não poderia haver segredos entre nós. Com o tempo aquele homem “maravilhoso” que eu havia conhecido foi se transformando num homem extremamente ciumento e grosseiro. Fazia grosserias comigo e com meus filhos. Irritava-se com tudo, vivia mal-humorado, me criticava em tudo que eu fazia. E eu fui me decepcionando com ele e sofrendo muito com isso. Resolvi terminar o namoro e durante os dois meses seguintes ele tentou várias vezes que reatássemos. Depois desses dois meses (período suficiente para que eu tivesse um outro caso rápido com outro rapaz) acabei voltando com ele. Aí começou o meu inferno. Ele soube desse caso rápido que eu tive enquanto estávamos terminados e encarou isso como mais um adultério da minha parte. Entramos numa relação doentia e sadomasoquista. Eu precisava sofrer, eu precisava me expurgar das culpas que carregava dentro de mim. Ele, para se vingar da ex-mulher que o havia traído, precisava fazer sofrer... fui a parceria ideal.
Essa nova fase do relacionamento durou dois longos anos em que vivi um verdadeiro inferno aqui na terra. Me submeti a todas as humilhações que você possa imaginar. Ouvia-o me chamar de vagabunda, vadia, piranha, puta e me ajoelhava aos seus pés pedindo perdão pelo que eu era. Pedir perdão pelo que se é... isso é muito degradante! Certa vez, era véspera de Natal e eu tinha ido com ele fazer umas compras; na volta, começamos uma discussão no carro dele e ele gritava tanto e me insultava tanto que eu me desesperei, abri a porta do carro e saltei com o carro em movimento. Poderia ter morrido... e lamentei porque isso não aconteceu... depois me lembrei dos meus filhos e dos meus pais e irmãos e no quanto eles sofreriam se eu tivesse morrido, e me senti culpada por ter desejado morrer.
Foram diversos episódios de violência verbal e física. Por diversas vezes tentei sair desta relação mas quando ele me procurava eu acabava voltando. Eu estava desequilibrada e doente.
Resolvi procurar uma ajuda psicológica e comecei a fazer análise. Este tratamento me ajudou a perceber que eu estava na verdade me punindo porque nunca tinha conseguido me perdoar pela traição ao meu marido... era como se no fundo eu acreditasse que eu merecia sofrer tanto ou mais do que o meu ex-marido havia sofrido. Essa descoberta me ajudou muito a entender porque eu não conseguia sair daquela relação onde já não havia mais nenhum prazer, nenhuma alegria e nenhum amor. Eu estava viciada em sofrer!!

Quando as coisas começaram a ficar claras para mim e descobri que a raiz de todos os problemas era a minha incapacidade de me perdoar, entendi que somente pela Graça do Pai eu seria liberta. Procurei o pastor e lhe contei toda a minha história e ouvi dele algo que nunca vou me esquecer. Ele me disse que de tudo o que eu lhe havia contado, o meu maior pecado e gerador de todos os outros foi deixar de ser o que o Pai me projetou para ser. E depois, abrir mão da Graça e tentar, através da auto flagelação emocional e até mesmo física, alcançar a remissão dos meus pecados. Eu estava na “carnalidade” que, como você afirma em outro texto do site, nada mais é do que a “arrogância da auto-justificação, a doença de Caim, a Síndrome dos amigos de Jô”. Isso significava abrir mão do sacrifício de Jesus por mim, do seu imenso amor e da sua Graça. Eu estava entregue a mim mesma e necessitando urgentemente da Graça que “nos liberta de nós mesmos e nos põe no caminho desneurotizado de obediência que não se baseia no medo de Deus, mas na alegria amorosa de servi-Lo, buscando Nele aquilo que realiza o bem de Deus em nossas vidas” (trecho retirado do seu artigo “TODA GRAÇA, MAS NENHUMA GRACINHA!”).
No domingo seguinte a esta conversa resolvi ir a igreja no culto da noite e pastor pregou sobre a passagem da mulher adúltera que foi levada a Jesus para ser apedrejada. Nunca chorei tanto ao ouvir uma mensagem como naquela noite. Chorei como nunca havia chorado antes. Quando o culto terminou, descobri que havia sido seguida e que ele (o meu algoz) estava lá também. Ele me pegou pelo braço e me puxou para um canto me fazendo ameaças e dizendo para que eu parasse com a “ceninha” de lágrimas pois eu não enganava ninguém... naquele momento eu estava tão leve, tão leve... eu tinha a sensação de que nada do que ele me dissesse tiraria a paz que eu estava sentindo. Simplesmente olhei para ele com os olhos ainda embaçados pelas lágrimas, tirei a aliança (usávamos aliança) e coloquei dentro do bolso da camisa dele e sem dizer uma palavra, me afastei. Vi quando ele jogou a aliança longe e foi embora.
Depois disso, passei a resistir a todos os seus assédios, mas ele começou a me seguir, a faltar o trabalho para ficar de plantão em frente ao prédio onde eu trabalhava, passou a fazer escândalos em qualquer lugar onde me encontrasse, e ele sempre me encontrava porque deixava de trabalhar para me seguir o tempo todo. Acabou por perder o emprego e a gota d’água foi quando ele subiu na minha sala, no meu trabalho, cuspiu no meu rosto e me fez ameaças me culpando por ter perdido o emprego, e dizendo que estava indo embora para a cidade dele e que uns 5 anos depois, quando todos já tivessem esquecido dele, voltaria para me matar.
Assim que ele saiu da sala, telefonei para o meu pai resolvemos que o melhor a fazer era dar queixa dele na delegacia da mulher (parecia caso do “Linha Direta”). E foi assim que consegui me libertar dessa relação doentia. Dei queixa e na audiência de conciliação ele foi obrigado a assinar um termo de compromisso de que não mais me procuraria, nem a mim nem a ninguém da minha família, etc...
Eu acredito que, naquele domingo em que eu ouvi a mensagem sobre a mulher adúltera foi o momento em que eu me lembrei da casa do Pai e percebi o chiqueiro em que eu estava. Foi ali que eu vi que estava comendo comida de porcos. Mas ainda demorou um pouco para consegui sair daquela lama.
Consegui me libertar daquele relacionamento doentio mas continuei no mundão. Saía com “amigas” e tinha relacionamentos furtivos e inconseqüentes.
Um ano depois, fui apresentada ao meu atual marido por um amigo em comum. Costumamos dizer que nos casamos no dia em que demos o nosso primeiro beijo! Foi naquele momento que sentimos uma ligação de almas tão forte que tivemos certeza de que havíamos encontrado o que estávamos procurando a tantos e tantos anos.
Meus filhos já estavam com 11 e 12 anos e gostaram dele logo no primeiro contato. Meus pais, que tanto sofreram por me verem passar por tudo o que passei, também estavam felizes por perceberem que eu finalmente havia encontrado alguém que realmente me realizava, me valorizava, me respeitava, e principalmente, me amava. Seis meses depois resolvemos morar juntos. Nessa época eu ainda estava afastada da igreja, mas ia com ele na igreja dos meus pais de vez em quando.
Nessa época eu já havia terminado a faculdade e trabalhava viajando muito. Eu viajava 3 semanas por mês e só ficava uma semana em casa. Como morávamos juntos, ele é quem ficava com os meus filhos quando eu estava viajando e aí começaram a surgir os problemas.
Faço um hiato aqui para falar das culpas que carrego em relação aos meus filhos. Sinto culpa por tê-los deixado tão sozinhos na época em que eu fazia faculdade (como já falei mais em cima), sinto culpa por tê-los deixados sozinhos, quando me separei do pai deles e entrei naquele relacionamento doentio que me transformou num farrapo humano. Um relacionamento que sugou toda a minha energia e isso refletia neles porque eu estava sempre deprimida ou sempre ocupada com as crises que vivia com aquele homem. Sinto culpa por tê-los deixado sozinhos quando precisava viajar a trabalho. Ou seja, meus filhos viveram um abandono de pai e mãe (o pai também foi omisso e acomodado depois da separação). Quem fez as vezes de pai e mãe foram os meus pais. Por causa dos meus pais, os meus filhos não foram totalmente abandonados. Essa é a maior de todas as minhas culpas e a maior de tidas as minhas dores! Não consigo me perdoar por isso. Tenho muito medo que isso tenha deixado neles seqüelas irreversíveis. Tenho a impressão de fiz tudo errado!! Tenho a impressão de que sou um fracasso como mãe. Sim, fiz tudo errado porque, para compensá-los pelo fato de os ter deixado tão sozinhos, eu acabei sendo uma mãe permissiva demais. Surperprotegia eles em momentos em que não devia e deixava-os desprotegidos quando deveria protegê-los!! Estive longe da minha filha quando ela entrou na adolescência e começou a vivenciar a sua sexualidade. Nem mesmo saberia como orientá-la sobre isto em função das minhas próprias experiências inadequadas nessa área. Hoje vejo que por me sentir em dívida com eles, me sentia sem moral e sem direito de ser dura com eles, de estabelecer limites, de dizer “não” quando necessário. Hoje vejo minha filha se apegando a cada namorado que tem como se fossem a sua tábua de salvação. Ela tem 16 anos e já teve 4 namorados e com cada um deles ela estabeleceu uma relação de apego emocional que não me parece sadio. Até pouco tempo eu não compreendia porque ela agia assim, colocando os namorados como o centro de sua vida. Hoje imagino que ela se agarra com unhas e dentes a cada pessoa que lhe dá atenção e dedicação. Sou obrigada a fazer o “mea culpa” (não sei se é assim que se escreve essa expressão, desculpe se estiver errado) e admitir que se minha filha hoje é carente de atenção foi porque eu a deixei sozinha quando ela mais precisava de mim. Dói muito admitir isso, Caio! Dói porque amo a minha filha e não consigo me perdoar por ter feito isso a ela. Meu filho exterioriza menos as seqüelas mas eu sei que elas existem nele também. Ele tem dificuldades em assumir responsabilidades e parece que se recusa a crescer. Sei que isso é seqüela. Como pude fazer isso às duas pessoas que mais amo nessa vida? Como pude, meu Deus? Nossa como dói esse arrependimento!! Haverá tempo para me redimir com eles? Haverá tempo para sarar essas seqüelas? Haverá tempo para apresentá-los ao Pai? Haverá tempo para resgatar os meus filhos para dentro da minha maternidade? Haverá tempo para ser a mãe que deveria ter sido? Estou sendo atormentada por estas questões que hoje tenho consciência graças a muitas crises e muito sofrimento porque passei nos últimos 2 anos. Este é o meu passado que tanto me atormenta.
Por tudo isso que expliquei acima, meus filhos entraram na adolescência com uma educação completamente equivocada e isso começou a gerar problemas entre eu e meu marido que não suportava a minha forma de agir com os meus filhos. Ele exigia de mim que eu fosse mais severa, mais firme. Entendo a situação dele e reconheço o quanto falhei na educação dos meus filhos. Reconheço também que, ainda que tenha sido muito doloroso vivenciar tantos conflitos com esse homem que tanto amo e que sei que me ama também, Deus o usou para me fazer enxergar tudo isto que estou confessando aqui.
Chegamos a cogitar a possibilidade de nos separar e romper a relação ou de vivermos em casas separadas, mas continuarmos juntos; e quando estávamos nesse impasse ele recebeu uma proposta de trabalho em Brasília e decidiu vir (eu digo vir porque hoje estamos morando em Brasília) sem que soubéssemos o que seria de nós. Ele simplesmente fez as malas e veio.
Ele veio e eu fiquei em minha cidade sem saber se aquilo era uma separação, se ainda estávamos juntos ou não. Um mês depois eu fui a Brasília e conversamos sobre a nossa situação. Concluímos que o que tínhamos era algo muito valioso para ser descartado por causa de problemas que poderiam ser resolvidos se ambos tivéssemos boa vontade para resolvê-los. Eu sabia que precisava mudar o meu posicionamento diante dos meus filhos, sabia que precisava aprender a discipliná-los, a estabelecer limites e que isso sim seria a melhor forma de compensá-los e de resgatar a nossa relação. Por outro lado, o meu marido precisava entender que ao se casar comigo, tinha casado com o “pacote” completo e que meus filhos jamais poderiam ser excluídos desse “pacote”. Seria necessário um esforço da minha parte para ser mais firme, mais disciplinada e mais dura na educação dos meus filhos e seria necessário um esforço da parte dele para ser mais paciente, mais amoroso e mais compreensivo com eles. Concordamos com isso e resolvemos que eu deveria vir morar em Brasília.
Para isso seria necessário que eu tivesse um emprego aqui e começamos a procurar alternativas. Enquanto não surgia nada eu continuava em lá e ele em Brasília. Em 2006 tirei férias e vim para Brasília para tentar alguns contatos e fiquei sabendo de um processo seletivo para contratação temporária para um Ministério do Estado e resolvi me inscrever. As férias acabaram e eu precisava voltar para casa. A prova do concurso seria dali a um mês e precisávamos tomar uma decisão. Alugamos um apartamento em Brasília e eu deveria voltar até a minha cidade, pedir demissão, arrumar a mudança e voltar para Brasília. Na véspera de voltar para lá, para a minha cidade, e fazer tudo o que havíamos combinado, eu ainda não me sentia segura. Era uma decisão que iria mudar completamente a minha vida e a dos meus filhos. E se eu não conseguisse passar no concurso? E se os problemas com os meus filhos e com o meu marido continuassem e ele resolvesse se separar de mim? Como eu ficaria aqui em Brasília, longe dos meus pais, dos meus amigos e sem emprego? Essas dúvidas me angustiavam muito. Eu estava no Brasília Shopping “fazendo hora”, pois o meu marido viria me buscar no final do expediente (eu viajaria para casa no dia seguinte), e entrei numa livraria a fim de ler alguma coisa enquanto esperava por ele. Peguei alguns livretos daqueles de mensagens curtas, dentre eles um chamado “O Sentido da Vida” e subi para o mezanino da loja. Comecei a folhear aquele livro, mas na verdade meu pensamento estava longe. Não prestava muita atenção no que estava lendo porque estava muito angustiada com o que estava prestes a fazer quando chegasse em casa. E comecei a lançar sobre Ele a minha ansiedade. Comecei uma oração pedindo a Ele que me mostrasse a decisão certa a tomar e eu me lembro que eu falei assim: “Meu Pai, me ajuda a saber o que fazer porque sinto que estou prestes a dar um salto no escuro.” Nesse exato momento em que disse isso, virei a página do livro e na página seguinte havia a foto de um esquilo dando um salto no escuro!! E embaixo da foto havia uma frase que dizia mais ou menos assim: “Há momentos na vida em que precisamos dar um salto no escuro”! Continuei meu diálogo com Ele e disse: “Mas Pai, todos os meus amigos vão dizer pra mim que isso é loucura! Que eu não posso largar um emprego bom assim e partir para uma aventura dessa.” Novamente virei a página do livro e estava escrito: “Muitas pessoas vão tentar lhe fazer desistir e lhe dizer que é loucura”. Ainda continuei dizendo que eu achava que os meus pais, que eram as pessoas que mais me amavam na terra, também poderiam achar que eu não deveria vir. Virei a página e estava escrito: “Inclusive aquelas pessoas que mais amam você!” Diante dessa resposta tão clara, senti que meu coração descansou e que toda a minha ansiedade havia se dissipado. Voltei para casa tranqüila do que iría fazer e, surpreendentemente, meus pais não acharam que era loucura. Pelo contrário, me apoiaram na minha decisão. Vim para Brasília sozinha e deixei os meus filhos com os meus pais, a fim de que terminassem o ano letivo lá, enquanto eu arrumava a casa para a chegada deles no início do ano. Passei no concurso em dezembro e os meus filhos chegaram no final de janeiro. Costumo dizer que a minha vinda para Brasília representou ir para longe da casa do meu pai, mas foi aqui que voltei à casa do Pai.
Aquela resposta tão clara do Pai para mim, estando eu ainda tão distante dÊle foi como aquele abraço que eu imagino que o Pai dá no filho pródigo quando o avista “vindo ele ainda longe” e corre ao seu encontro! Estava eu ainda longe quando o Pai correu ao meu encontro e me acolheu. O Pai me atraiu para Ele e me direcionou para o Caminho de Volta pra Casa. Foi aquela experiência que me fez sentir necessidade de voltar a buscar uma comunhão com Ele. Falei ao meu marido dessa minha experiência e do meu desejo de voltar à comunhão com o Pai e lhe convidei a ir a uma igreja batista comigo. Apesar de ter sido batizado na igreja católica, ele se definia como alguém que acredita em Deus mas sem nenhuma religião específica e aceitou o meu convite.
Passamos a freqüentar a Igreja Batista e os meus filhos também iam conosco (meio a contragosto). Participamos do Encontro de Casais e meu marido foi muito tocado pelo que vivenciou nesse Encontro. E passamos a ser cada vez mais assíduos, mas apesar disso, não conseguíamos nos entrosar na igreja pois é uma igreja muito grande e a gente fica meio perdido na multidão. Eu toco piano, flauta, meu filho toca violão e meu marido toca sax e sentíamos necessidade de participar mais das atividades da igreja; mas não encontrávamos espaço diante de tantas equipes de louvor já formadas. Isso nos fez começar a pensar em procurar uma igreja menor onde pudéssemos participar mais e resolvemos visitar a Igreja Presbiteriana que fica atrás da quadra onde moramos. É uma igreja pequenininha e logo na primeira visita que fizemos nos sentimos muito bem acolhidos. Com um mês já estávamos tocando no culto, participando da equipe de louvor e isso nos fez muito bem.
Durante todo este tempo, vivemos algumas crises sempre por causa do relacionamento entre meu marido e meus filhos. Por culpa de todo mundo!! Por culpa minha que ainda não consegui mudar da água para o vinho como o meu marido gostaria que tivesse acontecido. Sinceramente, tenho pedido a Deus todos os dias que me ensine a educar meus filhos, que me sonde e me transforme no que eu preciso ser como mãe e sinto que aprendo um pouco a cada dia. Como já disse antes, sinto que estou passando pelo fogo! Mas ainda erro. Culpa de meu marido que parece exigir uma perfeição minha e dos meus filhos que nunca vamos atingir. Culpa dos meus filhos que já podiam ter aprendido algumas coisas que se recusam a aprender. Sinto também que o fato de ter me aproximado do Pai, de ter voltado a buscar a sua Palavra, de ter a cada dia buscado uma intimidade maior com Ele e também o fato de que entrei com força total na luta para ser instrumento de Deus afim de que os meus filhos e o meu marido também busquem essa mesma comunhão com Pai, tem despertado no Inimigo a fúria de ver que mais uma família esta sendo resgatada do abismo. Por isso estamos sendo constantemente assaltados. Sinto isso claramente e muitas vezes senti que só não sucumbimos pela misericórdia de Deus. No início do ano passado decidimos oficializar a nossa relação e marcamos a data do casamento, e até a véspera do casamento sofremos todo tipo de provação com o intuito de impedir que este casamento acontecesse. Foi um ano muito sofrido mas de muitas vitórias também! Graças, louvores e honra ao nosso Deus por isso porque Ele nos sustentou!
Lembro-me que, como já estava lendo seu site há mais de 1 ano (comecei a ler porque uma prima minha que mora aqui em Brasília me comentou sobre ele), por diversas vezes pensei em lhe escrever, mas, como disse antes, não queria fazê-lo antes de ler o que já estava escrito. Em maio do ano passado, em meio a uma dessas crises, era o dia das mães e o clima estava tão ruim em casa que nem um bom dia eu havia recebido do meu marido, quanto mais parabéns pelo dia das mães!! Eu estava muito deprimida e muito magoada e sem disposição para ir à minha igreja onde com certeza aconteceriam aquelas apresentações de praxe do Dia das Mães. Não estava feliz e não conseguiria disfarçar isso e então resolvi ir com os meus filhos visitar o Caminho da Graça aqui de Brasília lá no La Salle. Eu pensei comigo mesma: lá eles não me conhecem e ninguém vai ficar me perguntando: “O que é que você tem? Por que esta triste? Cadê o seu marido? O que ganhou hoje de presente?” Sou tímida e acredito que dificilmente teria coragem para procurá-lo em particular, mas fui na esperança de ouvi-lo e conhecê-lo pessoalmente; e fui também para conhecer o trabalho do Caminho da Graça em Brasília.
Infelizmente, naquele domingo você perdeu o vôo e não pode estar presente. Ouvimos apenas uma palavra sua por telefone através do link.
De lá pra cá, como já disse, tenho passado por muitas transformações. A leitura do seu site me desafia a cada dia a conhecer mais e mais da Palavra e peço a Deus que efetue em mim o querer e o realizar para que a vontade dÊle seja cumprida na minha vida. Quero sonhar os sonhos de Deus para a minha vida, quero realizar os projetos que Ele tem pra mim, quero aprender a orar a Sua vontade e não a minha.
Peço a Deus todos os dias que nos transforme numa família de verdade. Vejo que hoje os laços que unem o meu marido aos meus filhos são laços meramente burocráticos e peço a Deus que os transforme em laços de amor. Peço a Deus que os atraia para si como fez comigo. Peço a Deus que me capacite para ser um instrumento nas Suas mãos afim de que através de mim Ele se revele ao meu marido e aos meus filhos. Amo tanto esta família! Peço a Deus também que me ajude a me perdoar pelo que fiz aos meus filhos.
Tenho me identificado muito com o que você escreve e por diversas vezes cogitei a possibilidade de passar a fazer parte deste Caminho da Graça em Brasília, mas por outro lado, amo a igreja que me acolheu aqui em Brasília quando eu precisava tanto de um aconchego. Tenho os meus questionamentos com relação a alguns posicionamentos legalistas que observo, mas ainda não sinto que devo partir de lá. Principalmente porque para os meus filhos, por ser uma igreja pequena, tem sido mais fácil a aproximação. Como sei que o Vento sopra onde quer, peço a Deus que me mostre se devo e quando devo deixá-los.
 
Enfim, termino essa carta confissão pedindo que me perdoe o abuso de lhe escrever uma carta tão longa e dizendo que você tem sido usado por Deus para me falar tantas coisas e me ensinar tanto que só posso pedir a Ele que derrame sobre você e sobre sua família bênçãos sem medida.
 
Nele, que tomou as nossas culpas e cravou-as na cruz!
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Resposta:

Minha querida amiga: Graça e Paz!

Inicialmente desejo que você saiba que desde 1983 que parei de recomendar a leitura de meu livro “Abrindo o Jogo Sobre o Namoro”; pois logo depois de o haver escrito, no fim da década de 70, percebi que ele era “nocivo” no seu conteúdo simplista; e também vi que ele era o livro apressado de um jovem pastor que vinha de uma vida promíscua ao extremo, farta de tudo, traumatizado consigo mesmo em razão de ter sido sexualmente tão exagerado e variado, o que ainda gerava muita culpa; e, em razão disso, tirava do livro sua isenção e o tornava apenas projeção de meus próprios medos e culpas naquela área da vida.
Prova disso é que nunca deixei nenhum dos meus filhos lerem o livro, além de ter solicitado que se o tirasse de circulação, apesar de que ele vendia como água no deserto. Eu, porém, nunca escrevi livros para serem um sucesso, mas apenas para serem benção.
Creio que pela leitura do site você já entendeu o que penso do tema sexual e de suas muitas variáveis e aplicações. Portanto, nem falarei do assunto de casar pra poder transar, e da desgraça que essa moral sexual irresponsável produz em almas como a sua. 
Quem me lê sabe o que penso; e também que minha proposta é de consciência, eqüilíbrio e moderação em tudo; porém, com a liberdade responsável de decidir pelo que edifica e convém num ambiente onde tudo me é lícito.
Isto porque não é porque algo é lícito, que é certo. O lícito só é bom se convém e edifica. Há muita coisa lícita que faz muito mal, dependendo da pessoa ou das circunstâncias. Exemplo: Éra-lhe lícito casar, mas não edificaria e nem lhe conviria à época.
Eu e a mãe de meus filhos também casamos nesse esquemão. E hoje, depois de mais de duas décadas de casados, e depois de separados, ambos olhamos para trás com lucidez e entendemos o que nos aconteceu. Não é exatamente como a sua história, mas guarda algumas semelhanças.

De tudo o que você escreveu, há hoje apenas uma coisa de fato importante; e que é essa sua culpa neurótica!
Todas as suas culpas acerca dos filhos são pura bobagem neurótica. Veja: você se culpa por tudo, e pensa neles como um produto de causa e efeito em relação a você; ou seja: maternalmente você é uma Jó que foi convencida pelos amigos acerca de que qualquer coisa errada em sua casa foi originada pela seu pecado.
Ora, que relatividade! Leia a Bíblia. Veja as genealogias. E perceba como homens maus geram filhos bons; e como homens bons geram filhos maus; e como pais ruins são bem tratados pelos filhos (vide Saul e Jonatas); e também como pais bons podem gerar filhos que são a sua antítese, como acontece com a maioria dos bons reis de Israel, etc...
Isto pra gente não falar sobre os profetas; e entre eles no profeta Samuel, que levou a Eli a Palavra de Deus acerca dos perversos filhos deste; mas que, mesmo sendo ele o homem de Deus que era e foi, não conseguiu fazer com que seus próprios filhos andassem em seus passos de fé e integridade.

Assim, minha querida, há algo que os pais podem fazer pelos filhos, que é ensiná-los, admoestá-los, discipliná-los, divertí-los, advertí-los, ser amigos deles, etc... Porém, mesmo as melhores famílias e os melhores ambientes podem produzir filhos que contradigam todo o amor recebido. Por outro lado, há estudos que mostram que os “orfãos” são, proporcionalmente à população dos que têm pais, os seres mais criativos, produtivos e destacados da Terra; e isto numa desproporção tão grande que já fez alguém declarar que “os orfãos movem o mundo”.
Sua culpa pressupõe um poder que nenhum pai ou mãe possuem nesta vida. Sim, você trata tudo numa relação direta de causa e efeito, como se você fosse o ser com poder de determinar quem eles são ou poderiam ser. Portanto, na base de sua culpa há uma velada e neurótica sindrome de onipotência materna e que é completamente falaciosa.
É claro que ninguém educa filhos sem trabalho, dedicação, paciência e esperança. Porém, há um limite para tudo. Afinal, estamos falando que cada um, a começar de você, tem que achar seu próprio caminho no Caminho. E, como em tudo mais na existência, a experiência de cada um no processo é absolutamente singular.
Quanto mais culpada você for em relação aos seus filhos, mais mal você fará a eles. Filhos, mesmo os melhores, sentem quando os pais se culpam; e raramente não usam isto, ainda que inconscientemente, a fim de manipular o pai ou a mãe.
E como você acha que “aprontou muito”, então, como você mesma já enxergou, isto produz uma dívida eterna na relação com os filhos; dívida essa que jamais é paga; e que jamais satisfaz os filhos; ao contrário, em geral faz deles seres insaciáveis, insatisfeitos e sequestradores emocionais dos pais. Isto sem falar que filhos super-protegidos ou que são tratados por pais culpados de culpas como a sua, em geral se tornam fracos, dependentes, e profundamente manipuladores, cada um a seu próprio modo.
Uma das coisas mais difíceis que tive que aprender como pai foi amar meus filhos contra o instinto paterno de agradar.
Sim, porque durante anos eu queria agradá-los de todos os modos em razão de que viajava já por décadas como um canditado à Presidência da Republica viaja nos oito meses de campanha. Por essa razão, quando eu chegava desesperado de saudades deles, fazia tudo o que me pediam. Nos meus dois filhos mais velhos isso não causou nenhum mal. Mas nos dois mais novos não lhes fez bem.
Ora, foi apenas quando meu filho Lukas, que já está na Casa do Pai, chegou à adolescência que eu tive que enxergar que precisava ensinar a eles que amor não faz só o que é gostoso e agradável, mas também o que não é gostoso; e que, sobretudo, faz sempre apenas aquilo que faz bem, mesmo que os filhos não gostem.
Ainda dá tempo de ajudá-los. Quando se amou a vida toda sempre há tempo para ajudar e crer em transformações!
Entretanto, eles já não são crianças, e, portanto, todo o seu trabalho será conciliar a energia de quem manda — e enquanto estiverem com você as regras são suas, e se não gostarem, que cresçam e vivem suas próprias vidas e conforme suas próprias decisões — com a sabedoria de quem convence mais do que ordena.
Casar com um homem que não gerou os seus filhos, pode causar desgastes, dependendo de muitas coisas, mas não é algo inevitável. Isto porque havendo espírito de conciliação, tudo se resolve. Digo isto porque tinha 4 filhos e hoje tenho 7. Um deles está na Casa do Pai; mas filhos não se perdem nunca.
Lembra de Jó? Quando Deus o restaurou à sua sorte, deu-lhe tudo em dobro, menos os filhos, concedendo-lhe não 20 filhos para compensar os 10 que perdera, mas apenas outros 10. E por quê? Porque a gente perde casa, boi, carros, bens, etc... Porém filhos não são coisas, mas espíritos livres, eternos e singulares; e, portanto, não há clonagem a fazer deles nem mesmo quando Deus quer consolar Jó.
Assim, minha amiga, saiba: se eu fosse me julgar com seus critérios, eu nunca nem mesmo teria tido filhos, pois, o que você aprontou é sanduiche de queijo com presunto se compararmos às feijoadas de orelha de porco que constituíram o cardápio de minha juventude.

Voltando um pouco à questão de seus filhos e à sua neurose culposa e materna, quero dizer que tudo isto me lembra a questão de filhos adotivos. Quando um filho natural “apronta”, é porque é levado. Mas quando um filho “adotivo” faz a mesma coisa, em geral a explicação que se evoca é aquela de natureza genética. Afinal, de quem eram os genes?
Entretanto, estatisticamente falando, pode-se afirmar que proporcionalmente os filhos naturais “aprontam” muitos mais que os adotivos; porém, quando os adotivos fazem algo “reprovável”, as explicações quase sempre relacionam o problema desse filho ao fato de que ele não foi gerado na matrix genética familiar.
Na minha maneira de ver você está se