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Cartas

CONFISSÕES DE UM EX-VANGÉLICO

CONFISSÕES DE UM EX-VANGÉLICO

 

CONFISSÕES DE UM EX-VANGÉLICO

 

 

  Sempre me perguntei se o sentido da religião é o sentido da vida. Este questionamento um tanto genérico nasceu de modo ingênuo em minha alma ainda adolescente que atendeu nestes breves anos a volúpia de minha consciência pouco vivida, mas sem deixar de ser perceptiva. Quando me converti tinha apenas 19 anos e foi em uma festa cheia de vícios e transgressões. Foi justamente em um ambiente constituído pelo profano que o SENHOR revelou a mim seu amor e a cegueira da turba que por alguns anos me rodeou. Depois desta experiência procurei uma igreja evangélica em cuja convivência, experimentei dissonâncias, absintos, projeções e divagações que não representavam de modo algum o perfume, a beleza e a majestade da visão com que o SENHOR me visitou. Tornei-me então um menino perdido entre o que eu senti e o que a igreja manifestava em seus discursos explícitos ou subliminares. Mas o que ela exprimia era para mim uma miragem de palavras apregoadas, mas não verdadeiras, que pretendiam ser humanas e que na mesma pretensão eram inumanas, misturadas em um caldeirão de reprimendas, medos e dissonâncias. Projeções de um deus tribal e castrador que nada parecia com o DEUS que experimentei. O DEUS que senti, falou comigo e ecoou em todas as minhas células, foi um DEUS seguro, reto, majestoso, bondoso e acima de tudo BELO, cuja BELEZA me cativou e alforriou-me de todos os meus erros, inseguranças e inconstâncias. NELE senti-me seguro, norteado, feliz, abundante e pronto para morrer! No mesmo instante confessei para ELE na minha fragilidade, futilidade e frivolidade que morreria por ELE, como Pedro falou em sua devoção ingênua, humana e imperfeita e logo em seguida constatou que ainda não poderia ir tão longe. Mesmo assim falei. Mas só tinha 19 anos. Do Sagrado de sua experiência, voltei para a rotina de uma igreja protestante ou evangélica, que historicamente aprendeu a protestar, mas que logo se tornou surda contra os protestos que ecoam de dentro e de fora dela. Aos meus olhos, esta mesma igreja que tanto me esforcei por me criar foi continuamente notada; decantada e debulhada em lágrimas confusas e incompreensões difusas. DEUS nasceu em mim, mas minha vivência na igreja fez tudo para matá-lo. Mas ELE não morreu, permaneceu, por que o que DEUS dá o homem não pode tirar, e o que Deus uniu o homem não é capaz de separar.

Mas e daí? Que moral, que enredo ou arremedo eu aprendi desta história?

Muitas coisas.

Em primeiro lugar, que no ajuntamento dos homens, por mais que se eles se ajuntem em nome de DEUS, nem sempre ou muitas vezes ELE lá não está.

Segundo, que toda a experiência de DEUS é intransferível e de certo modo secreta ao olhar humano que a macula.

Terceiro, que os homens falam de DEUS não porque o conhecem, mas porque o imaginam ou o representam de acordo com suas categorias e taras!

Quarto, porque transferiram para DEUS seus desejos e desassossegos e com isso desvirtuaram a poesia de sua PALAVRA em versos deformados e marcados pelas suas subjetivas e caricatas idiossincrasias. E com isso, a Bíblia tornou-se para muitos destes como uma imensa lâmina de Rorcharch.

Quinto, porque seus desejos não são para DEUS, mas para si mesmos e por isso tornaram-se como os estultos ao ministrarem os oráculos de sua SABEDORIA.

Sexto, porque os “pecadores” se tornaram para mim mais “consagrados” que os “crentes”; estes para mim progressivamente tornaram-se detestáveis em suas visões mesquinhas e herméticas de mundo, sem compreensão, sem criatividade ou inspiração, mas carregadas de formulações genéricas e tediosas, crivadas por distorções mitomaníacas, muito distantes da verdadeira misericórdia, graça e fé sincera.

Sétimo, porque muitos evangélicos tornaram-se “profetas” que não discernem o caminho que querem ou pretendem andar, e apenas vomitam o desejo que circula na garganta dos seus egos ainda dilatados e obscuros.

Oitavo, porque a multiforme sabedoria de DEUS revelada segundo Paulo na IGREJA, corpo santo de consciência ampla, de coração dilatado e emancipado de superstições, não pode caber nesta igrejinha prenhe de superlativas incompreensões.

Nono, porque o EVANGELHO DA VIDA E DA PAZ tornou-se mercadoria em almas mesquinhas que não amam DEUS, mas apenas a volúpia de suas mesmas pulsões.

 Diante de tantos sinais e dissonâncias tomei o caminho da solidão. Vi, não quis ficar e preferi andar nas minhas “errâncias” ou “acertâncias”. Andei só por muitos anos. Encontrei interlocução com amigos e pessoas nada evangélicas, mas com quem podia compartilhar os oráculos do meu DEUS, pelo menos o DEUS da minha experiência que reconheci em minhas constantes meditações da Bíblia. Na tentativa de encontrar pessoas com alma no interior da igreja somente encontrei falas prontas, ensaiadas, hermetizadas, sedimentas e fossilizadas. Grande foi esse deserto.

A Alma quando verticaliza e já não é insípida gosta da partilha. Mas a partilha para determinadas almas só é possível em terrenos amplos, em horizontes dilatados ou casas destelhadas; enfim, em ambientes e comunhões suficientemente abrangentes e imunes à claustrofobia dos insensatos e livres da agorofobia dos inseguros.

Após anos de solidão, a ponto de tomar gosto pela mesma, encontrei novamente peregrinos como eu no mesmo Caminho. Mas apesar do feliz reencontro com irmãos que andam como eu por este Caminho, tornei-me um ex-vangélico. Sou cristão, mas um cristão sem denominações, porque denominar o que deve permanecer inominável tem sido o pecado constante desta Igreja Evangélica eivada de denominações e por isso, de contradições. Prefiro ser do Caminho, como os primeiros cristãos que viviam o Evangelho extra murus, aberto a todos, trans-institucional, trans-denominacional, trans-ideológico, e por isso transcendente. 

Mas desta Igreja que já não me sinto pertencer em razão das ranhuras e brechas que foram se multiplicando em sua cultura, espero que nela mesma brote um profundo entendimento do Evangelho anunciado pela Verdade que diz: “O doutor bem instruído no tocante ao reino de Deus é semelhante ao pai de família que de seu depósito vai tirando coisas novas e velhas”. Espero em Deus que esta cultura evangélica pluralizada em solos americanos aprenda também a tirar do seu depósito não somente coisas velhas, fórmulas que se repetem e compreensões de mundo que envelhecem e cheiram a mofo devido ao seu desgaste e excesso de umidade (antes fosse humildade!), mas que também aprenda a andar em novidade de vida, tirando o novo do velho, aprendendo a avançar, a andar para frente, rompendo as constantes ciclotimias e visões de mundo claudicantes e viciosas. Uma Igreja que enfim, abra mão das receitas e superstições e siga o exemplo plenamente humano de seu Fundador e Senhor, que sempre esteve e sempre estará além de toda a ideologia, além de toda a política, além de toda a teologia, mas plenamente inserido no coração humano quando sincero e simples. Uma Igreja que enfim não insista em remendar pano novo em tecido velho e nem a despejar vinho novo em odres antigos. O que é antigo deve ficar para traz e o novo deve sucedê-lo. E tanto um como o outro foram dados pelo mesmo SENHOR. Que esta Igreja que aqui confessei não siga o exemplo dos religiosos fariseus, cegos aos sinais dos tempos e que acabaram não somente rejeitando como crucificando o Senhor da Glória, por ficarem demasiadamente apegados e estreitados em suas velhas fórmulas. Eles não entenderam o novo porque amaram e se apegaram ao velho. Coaram o mosquito e engoliram o camelo! Que o mesmo não ocorra com tantos cristãos espalhados por tantos guetos evangélicos, que ainda não sabem discernir a mão direita da esquerda, semelhante ao povo de Nínive para quem o profeta Jonas pregou. E que um dia eles mesmos saibam que o fato de estarem na Igreja não os imuniza dos escândalos, capazes de nascer em todas as consciências, não somente no mundo, mas também na Igreja, cujo escândalo é tanto maior quanto maior é sua distorção ou ignorância em relação à Verdade que nela se anunciou e que para ela preveniu: “E, assim como se ajunta o joio e o queima no fogo, assim sucederá no fim do mundo: o Filho do homem enviará seus anjos e arrancarão de seu reino todos os escândalos e quantos praticam a maldade. E os lançará ao lago de fogo, onde haverá choro e ranger de dentes... Quem tem ouvidos para ouvir que ouça”. 

 

Enfim, como disse o nosso SENHOR é inevitável que venha escândalos, mas ai daquele por meio de quem ele vem. A consciência evangélica capaz de tantos escândalos e tão inábil em lidar com as diferenças e alteridades tem tanto mais escandalizado quanto mais tem se estreitado. A impressão que tenho quando olho e contemplo o que vejo é que esta mesma igreja tem constantemente se escandalizado com as diferenças e por isso mesmo escandaliza porque não é capaz de lidar com as diferenças. Julga antes de entender e entende julgando. Que contradição! Será necessário que uma mula ou um jumento suba ao púlpito e pregue a este “corpo” que não suporta as diferenças que é justamente amando e suportando as diferenças que o Evangelho da Paz deita suas raízes no coração dos homens?

Muitas consciências sensatas e belas tem se manifestado no meio evangélico, mas apesar de suas labutas, as manchas perseveram, os vícios continuam e o pathos desta cultura não deixou de existir. Talvez um animal que representa a própria burrice, a exemplo da insensatez de Balaão, venha nos auxiliar com a mesma ironia que sobejou neste espírito profético. Se a consciência de homens sãos e profundos na Palavra não tem sido suficiente, talvez somente a ironia do discurso de um animal faça este povo escutar.

Que o SENHOR nos abençoe e nos perdoe! 

  

       Um Anônimo re-apaixonado pelo Evangelho; apenas pelo Evangelho.

 

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Resposta:

 

Mano amado, anônimo para todos, mas não para mim: Graça e Paz!

 

Graças a Deus hoje estamos juntos!...

 

Sim; juntos e crescendo no mesmo e amor e graça; vendo com olhos semelhantes a mesma vida; decindo em razão do Evangelho [...] do mesmo modo; e, sobretudo, não mais sozinhos; não mais no auto-claustro, mas na comunhão santa e livre...; que é aquela que abraça e não percegue; que é aquela que se importa, mas não se entromete sem solicitação...

 

Mano, você tem sido uma grande alegria para mim, pois, dia a dia, vejo a Graça de Deus se expandir em seu ser!

 

Amo você!

 

Continuemos juntos!

 

Nele, sempre,

 

Caio

10 de junho de 2010

Lago Norte

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