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Cartas

CHUVA DE VERÃO--ao pai, homem e pastor, a quem admiro desde

CHUVA DE VERÃO--ao pai, homem e pastor, a quem admiro desde

-----Original Message----- From: Viviane Lima Sent: terça-feira, 30 de março de 2004 03:06 To: contato@caiofabio.com; revcaiofabio@terra.com.br Subject: Chuva de verão - ao pai, homem e pastor Caio Fábio, a quem admiro desde pequena Chuva de verão! Pastor Caio, Ainda não completei 27 anos. Tenho pressa de todas as coisas, anseio por todas as coisas, e todas as coisas sempre demoram a chegar ou acontecer. Diante do tempo que sempre é curto, jamais pensei na possibilidade de morrer aos vinte e poucos anos. A morte, para nós, jovens, é uma lenda. Ela não é real. Eu não planejo o amanhã. Estou aqui respirando o oxigênio da criação, tentando entender um pouco mais de Deus e da vida que Ele nos oferece, sem ter, no entanto, o medo da morte - justamente por ser esta uma realidade distante, como aqueles navios que fazem trajetos intercontinentais, expedições para o descobrimento de novas terras, novos ares, novas possibilidades, novos amores, vida nova. Mas isso não é para hoje. Hoje, tenho vinte e poucos anos, e a morte me parece uma caravela atracada nos mares de Portugal, há alguns séculos, pronta para sair, mas certamente demorando uma eternidade para chegar ao seu destino. É por isso, pastor, que os jovens têm pressa. É por isso que confundimos os conceitos de certo e errado, que eu prefiro entender como escolhas que convêm e que não convêm; porque essa realidade é distante, e porque sempre pensamos que, enquanto jovens, estamos imunes à morte. A caravela está atracada, esperando uma ordem para se lançar ao seu destino. Mas, enquanto ela não chega, vamos festejar. Há muito que se festejar, pastor. A celebração do sopro de vida, a festa do compartilhar - compartilhar a nós mesmos, nos dividirmos com os amigos, irmãos, doando e recebendo vida, vida abundante, vida escandalosamente linda, forte, intensa, rápida, cheia de gente boa, cheia de gente que sabe se compartilhar, se doar, gente que sabe ou que ao menos tenta ser - no sentido literal da palavra, sim, gente que tenta SER. Eu ainda não sei nada sobre a vida, pastor, mas acredito que agora sei um pouco mais sobre a morte - e uma das coisas que tenho observado e aprendido, é que ela vem como uma chuva naqueles dias em que o céu está limpo, azulado, sem uma nuvem, com o sol tinindo na pele da gente - estamos saindo da faculdade, do trabalho, do shopping, quando chegamos à rua e nos deparamos com aquele dilúvio: "Nossa, o tempo estava ótimo quando eu saí de casa, agora, que temporal!". Mas eu não esperava por essa torrente de águas, o dia estava lindo, mil atividades, mil expectativas, mil frustrações também, mas é a vida. Somos a juventude, somos o fio de prata -e antes que o mesmo se rompa, quero viver e respirar todos os aromas e todas as alegrias que tenho por direito de estar aprendendo, tentando acertar, aqui e acolá, mas sempre ansiando por mais, mais, muito mais - o que eu entendo como a vida abundante de Deus. Diante da longe realidade da morte, hoje eu entendo que, de tudo isso, de todas as vivências, de toda a pressa, de todos os pensamentos, o que vale mesmo é viver a graça, e não esperar que ela venha se explicar para mim. Deus levou seu menino, e certamente isso veio como uma dessas chuvas de verão: forte, barulhenta, grossos pingos de água batendo na pele, encharcando o cabelo, as roupas, a alma; mas depois vai abrandando, calando, enfraquecendo, diminuindo, e refrescando a tarde com uma brisa suave e amena. Depois que a chuva passa, voltamos aos nossos afazeres e damos continuidade aos nossos projetos, sonhos e determinações. Nós nunca sabemos quando pode chover ou não. O serviço de metereologia costuma falhar. Antes que se rompa o fio de prata, vou celebrar a vida - e a vida nada mais que é do que Cristo vivendo em nós. A morte, a morte terrena, é uma chuva de verão. E eu posso apostar que o seu menino sabia disso. Um dia, também quero estar com o meu Senhor. E, antes que se rompa o fio de prata, quero viver, respirar, sentir, crer e dividir o Seu amor. Essa não foi também a busca do Lukas? Como você mesmo disse, ele venceu. Para a honra do nome de Jesus. Muitas flores e estrelas para você e sua família. Viviane