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Cartas

CASEI DE NOVO E ESTOU COM MEDO DE ESTAR SENDO IGUAL AO QUE E

CASEI DE NOVO E ESTOU COM MEDO DE ESTAR SENDO IGUAL AO QUE E

-----Original Message----- From: CASEI DE NOVO E ESTOU COM MEDO DE ESTAR SENDO IGUAL AO QUE EU TINHA ANTES... Sent: terça-feira, 11 de maio de 2004 11:09 To: contato@caiofabio.com Subject: QUERO UM NOVO CASAMENTO MESMO Amado Pastor Caio Fabio: Mais uma vez gostaria de expressar meus profundos sentimentos pela morte de teu filho Lukas. Tenho lembrado sempre do senhor em oração e sei que nosso Pai Celestial tem cuidado de ti e lhe concedido bom ânimo. Não sei se o senhor teve oportunidade de ler 2 outras caras que te escrevi nestes últimos meses, entendo completamente se ainda não, porém irei tentar te dar um "update" dos últimos acontecimentos na minha vida e pedir a ti encarecidamente luz, discernimento e ajuda emocional. Casei com meu amor no último mês, tivemos uma cerimônia bem íntima com poucas pessoas, fomos abençoados por um Pastor, tivemos a cerimônia religiosa com efeito civil em um belo e romântico jardim botânico, em uma bela tarde de domingo na primavera. Tivemos uma recepção muito aconchegante e depois viajamos para nossa lua de mel nas Ilhas do Caribe; sonho realizado; muito amor; pela primeira vez sentimos o que é casar de verdade, corpo, alma e espírito, já que ambos viemos de outros casamentos pudemos perceber a diferença tão claramente. Nas ultimas duas semanas, algo inesperado aconteceu... Depois de um desentendimento que tivemos me senti como se meu mundo desabasse; eu pensei que depois que tivéssemos oficialmente casados, brigas, neuroses, desconfiança, inseguranças teriam que ter ficado no PASSADO, e não nos acompanhar no presente e futuro brilhante que estamos querendo construir. Me senti tão desiludida, meu marido se retratou comigo, e mesmo assim a ferida doía muito; e deste dia em diante o relacionamento tem sido minado por coisas pequenas; sensibilidade estridente de ambos... Tenho estado deprimida e oprimida ás vezes, pensamentos se que estou pagando agora pelo pecado que cometemos chega a pairar na minha mente. Já pedimos perdão a Deus e um ao outro pelos erros que cometemos no passado, e mesmo assim, eu, em particular, me sinto aprisionada emocionalmente; muitas vezes confusa em meus próprios pensamentos. Pastor, por favor precisamos muito de ti. Me ajude a permanecer firme e determinada a viver este grande amor, pois foi somente por isto que enfrentei a grande dura jornada para poder chegar neste ponto. Não quero desanimar. Não quero ter pensamentos me confundindo a mente. Quero muito sentir a alegria no meu coração e a certeza que estou no caminho certo. Não quero mais viver olhando para trás, isto tem me impedido muito de sentir firme na decisão que tomei. Me ajude pastor. Estou desorientada. Muito obrigada por ler a minha carta. ____________________________________________________________ Resposta: Minha amada amiga: Calma e Serenidade! Não existe o famoso “Felizes Para Sempre”. Felicidade se tece, é um crochê que se faz todos os dias; e não há dia em que “pontos” não precisem ser refeitos, e nem se acaba jamais de construir essa colcha, com a qual ambos se cobrirão durante toda vida. Meu filho Lukas, no dia dos 50 anos de casados dos meus pais, disse: “Eles provaram que podem se casar”. Ele estava certo. Casamento é como profecia: a gente vive na esperança de seu cumprimento, mas só sabe se ela era verdadeira quando ela se cumpre; e, nesse caso, ela não se cumpre quando há a festa no Começo, mas sim quando há a festa no Fim, muito mais distantes no tempo...bem lá...no futuro... onde ambos já saberão o que é felicidade. Por isso os “casados devem ser como se não fossem”, visto que é somente esse ser casado como se não fosse aquilo que dá ânimo para viver a vida a dois todos os dias. Gente que já foi muito infeliz num casamento ou dois, tende a pensar que o próximo não terá problemas; não diante de tudo o que já se sabe, já se sofreu e já se aprendeu. Mas não é assim. A maioria dos casais que se encontram na meia-idade, com fortes passados existentes, têm que saber que seu maior problema não é o Hoje e nem o Futuro, mas justamente o Passado. É aí, na nova relação, que aparecem os traumas das relações anteriores, as desconfianças, as inseguranças, os medos, e as transferências e projeções; então, a coisa fica como está aí agora. Nada novo, pois parece que está tudo velho. E mais: os problemas dessa nova fase—em havendo amor, como parece ser o caso de vocês—, são sempre relacionados à vícios adquiridos em relacionamentos anteriores. As pessoas podem até ter se separados dos cônjuges anteriores por não terem agüentando mais—como foi o seu caso, e eu me lembro bem de sua história—; todavia, ainda assim, não percebem o quão afetadas foram pelo “padrão relacional” que, muitas vezes, odiavam; e, em razão do qual deixaram o vínculo anterior. Viver muitos anos com alguém—mesmo que não se goste ou mesmo que seja com o inimigo, como é o caso de muitos cônjuges—, sempre deixa marcas. Ficam as referencias do bem e do mal; e é por elas que ambos—já profundamente desconfiados—se julgam e se interpretam; ou seja: os novos cônjuges tendem a se ver à partir de seus próprios temores; todos herdados dos vínculos anteriores. Ora, quando isto acontece os fantasmas do passado chegam como paranóia, e a obrigação de “dessa vez ser feliz” vira uma neurose. Então, acontece tudo aquilo que se temia; visto que ambas as coisas—neurose e paranóia—têm o poder de realizar justamente e apenas os nossos próprios temores. Além de tudo isto eu observo que quase todos os casais que um dia foram—por qualquer razão objetiva, subjetiva, ou meramente circunstancial—muito infelizes, tendem a “messianizar a nova relação”, para sua própria ruína. Nenhum casamento tem o poder de nos redimir do passado, à menos que o passado já esteja resolvido em nossa consciência e na Graça de Deus. Do contrário, o que acontece é a soma das inseguranças de ambos, criando no novo casamento um novo termo de existência, e que acaba por fazer a síntese de todas as infelicidades anteriores, reunindo-as como material virtual, e que arrebenta a nova realidade. É aí que surgem os ciúmes do passado de cada um, e que é filho da nova intimidade, e que gostaria ser única e especial; mas, todas as vezes que fica muito bom, um dos dois, ou mesmo ambos, se deixam remeter para trás, e se perguntam: “Será que com a outra (o) foi assim também?” Ora, essa comparação, na maioria das vezes equivocada, é justamente aquilo que mais bagunça toda nova relação conjugal. Acrescente-se à isso que o novo cônjuge também tende a olhar o parceiro (a), depois das primeiras desavenças, com aquela horrível pergunta: “Será que era o outro (a) parceiro de meu cônjuge que estava certo? E eu sou apenas o herdeiro do mesmo abacaxi?” O que você tem que fazer agora é ficar calma, deixar Hollywood de lado, e saber que casamentos dão certo não por causa da mágica da paixão, mas em razão da disposição amorosa, generosa, e perdoadora de ambos. Essa eterna “lua-de-mel” é a melhor receita para uma cotidiana “lua-de-fel”. E a razão é simples: o espírito de magia romântica eleva tanto o padrão existencial e psicológico da nova relação que ela simplesmente não consegue competir com a projeção idealizada e fantasiada de si mesma no cotidiano. Cansa ficar o tempo todo com a obrigação de viver “hiper”, mantendo o freqüência da nova relação no nível de sublimidade que gera suspensão da realidade. Casamento demanda não o preparo para vencer uma corrida de cem metros, mas sim uma maratona. Portanto, tem-se que economizar energia, e não esperar um coquitel de adrenalina todos os dias. Corredores de cem metros precisam de explosão. Maratonistas precisam de calma, serenidade, auto-controle, economia de energias, e perseverança. Vocês estão vivendo a fase mais crítica de um casamento na meia-idade, e depois de muitas lembranças de sofrimentos oriundos das relações anteriores. Portanto, o que vocês têm que ter agora é calma e serenidade, pois, se a questão não for de maus tratos, mas apenas de rusgas e pequeninas coisas, então, basta ficar quieto, conversar as coisas não “em cima delas mesmas”, mas em outra hora; e, sem ilusão, saber que mesmo amando não é fácil se adaptar a uma nova pessoa, e fazer toda a jornada de descobrimento, ajustes e conciliações; e, sobretudo, construir uma nova cultura conjugal, e que deve ser não a soma dos traumas de ambos, mas um projeto novo, e que só é possível se ambos concordarem que o passado não pode mais servir de referencia para nada, nem para o bem e nem para o mal. Dos fracassos anteriores deve ficar a sabedoria, não o medo. E mais: eu parafrasearia Paulo, dizendo: Os casados de novo sejam como se nunca antes tivessem sido casados! Se não for assim, vocês dois nunca serão um, mas muitos. “Legião é nosso nome, pois já sofremos muitos casamentos, ou relacionamentos”—vocês dirão um ao outro, porém sem resolverem nada em favor de vocês. Por tudo isto, minha querida, comece o crochê de seu casamento, e faça dele uma bela e nova tapeçaria, com motivos e cenários novos, mesmo sabendo que a linha, a agulha, e todos os aparatos são os mesmos; e sabendo também que a diferença é você quem faz; ou melhor, vocês farão juntos. Não conte com a ajuda da realidade. Ela nunca é companheira da felicidade. Sua companheira nessa jornada não é a realidade, mas a sabedoria, que ajudará você a mudar a realidade e subjugá-la à sua consciência. Mas isto só vale quando dois querem e se amam, visto que um só não realiza tal milagre num casamento. É isto que tenho a lhe dizer; e este é meu estimulo para que você corra a maratona...e, pela Graça de Deus, fique tanto tempo casada, que, como disse o Lukas acerca dos 50 anos de casamento do avós, “vocês mereçam se casar”, por já terem provado que isto é possível. Assim, os casados sejam como se não fossem... Nele, que nos chama para o Caminho, não para a Mágica, Caio