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Cartas

CASAMENTO MORTO... E AGORA UMA PAIXÃO... - I-II-II

CASAMENTO MORTO... E AGORA UMA PAIXÃO... - I-II-II



 

----- Original Message -----
From: ESTOU SEPULTADO HÁ 10 ANOS NUM CASAMENTO MORTO!
To: contato
Sent: Monday, December 19, 2005 11:56 AM
Subject: SÍNDROME DE JONAS

Olá Caio.

Tenho lido seu site diariamente. Sou abençoado por seu ministério há anos.

A partir de 95 minha vida virou de ponta cabeça, e já se vão 10 anos. Durante este período tive alguns bons momentos, mas nunca mais encontrei o eixo. Saí de SP há quase 4 anos, mas a única coisa que consegui mudar foi de endereço. Os amigos ficaram para trás. Sinto-me só. Envergonhado, quebrado, afetiva, espiritual e financeiramente. Aliás, estes são os 3 aspectos da minha vida que sonho conseguir restabelecer. Mas talvez esse seja o sonho de toda a humanidade. Mas se pudesse escolher um deles, a minha consciência cristã me forçaria a escolher a restauração (essa palavra é inadequada, não quero quase nada do que vivi espiritualmente sendo restaurado) da minha vida espiritual. Mas está tão difícil encontrar saúde e lucidez nesta babel religiosa, interna e externa, que acho que preferiria ter dinheiro para pelo menos comprar algum conforto para a vida, pois a eternidade com Deus me está reservada. Mas esta é a sinceridade da minha loucura. E ninguém precisa me convencer do equívoco, eu já estou convencido.

Gostaria de falar sobre muitas questões com você, principalmente as questões afetivas, já que reputo que o que desencadeou tudo foi a convicção de um casamento equivocado, um amor inexplicável por meus filhos e o peso esmagador da religião cristã sobre a minha vida, que encontraram na fragilidade da minha alma terreno fértil para tornar a possibilidade da separação uma experiência de morte coletiva.

Achei que não haveria vida para além divórcio, para mim e para os meus. Como posso ser feliz sabendo que ao buscá-la causei tanta infelicidade? Estas questões me atormentaram por anos a fio, mas quando a dor de permanecer ficou maior do que a dor de sair poderia causar, me vi quebrado financeiramente. Aí não pude sair para não dividir o pouco que entra. E ficou aquele sentimento de que a “sutil soberania de Deus”, como você descreveu uma situação outro dia, estava agindo para impossibilitar minha decisão. Mas tenho aprendido que esta é uma decisão minha, e Deus vai me ajudar na decisão que tomar, arcando eu, claro, com as conseqüências que resultarem.

Mas então por que tanto desencontro? Por que enquanto sofria calado o sacerdócio do casamento falido, acreditando que um dia Deus mudaria, e que se não mudasse, essa seria minha contribuição para o testemunho cristão e minha parte no sofrimento de Cristo (estou sendo raivoso)...

Assim, quando exercia o ministério institucional e filantrópico, vivia minha vida de cristão de coração sincero, mas de mente inquieta, as coisas eram muito mais equilibradas. Tinha uma ótima condição financeira, muitos e queridos amigos, e tinha esperança. Quase que eu digo: era feliz e não sabia. Quase, porque eu tinha uma infelicidade latente na minha alma. Não era feliz no meu casamento, e não era feliz no exercício do ministério. Não daquela forma. Não com aquele conteúdo. Mas fiquei com um problema muito grande para resolver. E não soube.

Hoje eu sofro da SÍNDROME DE JONAS. Você já ouviu falar dela? Pois sofro dela. Para mim, nada deu certo na minha vida depois de em 95 ter deixado o ministério, minha vida de crente engajado, porque fugi da proposta de Deus para mim. Não nego meus talentos. A minha maior angústia é ir para igreja e ouvir o que estão dizendo do púlpito e quando critico internamente, um megafone me diz: “Se você tem algo melhor para dizer, por que está fugindo?” Para não ouvir tanta asneira e não me sentir constrangido a dizer por que estou onde estou, não vou. Considerando outras respostas suas, poderia dizer que com a culpa que pesa sobre mim, com o sentimento que tenho de estar fugindo de um chamado, de que a bênção de Deus não está sobre mim, não fica difícil explicar o porquê de que tudo que tento fazer, profissionalmente, não dá certo. Aliás, fica difícil explicar como consigo viver com tanto sentimento de inadequação.

Mas Caio, como conciliar um sentimento de responsabilidade, a consciência de possuir ferramentas, e a total vontade de NÃO utilizá-las? Como posso ter certeza de que amo ao Senhor, de que não tenho outro Deus além dele, de ter certeza da minha salvação, e não sentir nenhum prazer na vida cristã, ou no exercício ministerial dela? Quando penso que posso ter um chamado especifico e que qualquer outra coisa que tente fazer vai fracassar, isso me dá uma enorme raiva. Mas é assim que vejo as coisas hoje.

Poderia dizer que tudo isso é uma grande besteira e utilizar o farto material do teu site para me convencer disso. Mas com Jonas isso não foi besteira. Parece que com Paulo também não. E já ouvi tantos testemunhos corroborando essa versão. Mas estou confuso Caio. Isso não me parece regra. Como saber se é o meu caso?

Parece que sou uma promessa que nunca vinga. Um botão que nunca se abre. Um sol que desponta, mas nunca cruza os céus. Que triste. Que dor.

Eu sou um Jonas que saiu do naufrágio e foi pra baixo da planta praguejar, sem ter pregado a palavra.

Fica com Deus.

Abraço,


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Resposta:

 

Meu querido amigo: Graça e Paz!


É claro que lembro de você e das ocasiões nas quais estivemos juntos, assim como me lembro dos “amigos” que eram... e, depois, foram arrebatados para o limbo do auto-esquecimento.

Se entendi bem o que você narrou, estando pronto para separar-se, você “quebrou” financeiramente, e, em razão disso, acabou ficando em casa todos esses 10 anos seguintes, sofrendo a raiva da estada, e, sobretudo, a culpa de não ter ido... mas de também não ter ficado.

Vamos por partes:


1. Filhos não devem ser nossa neurose, mas sim nosso prazer e responsabilidade. Eu, por exemplo, sou um pai do tipo marsupial, estilo canguru, e por tal razão acabei sendo muito “manipulado” no processo de minha separação, e as dores que senti vinculadas aos filhos foram de um volume quase insuportável, sobretudo pela culpa, visto que eu, por amor a eles, me sentia um ser “indivorciável”. No entanto, nem mesmo os filhos, depois de certa idade, querem ver os pais juntos apenas por causa deles. Se não houver amor, nada aproveitará para os filhos. Ao contrário: pode até fazer mal a eles, alterar-lhes o humor, o sentido de conjugalidade e até mesmo a sexualidade deles no futuro. Sem falar que, muitas vezes, filhos de casamentos perenizados na geladeira dos afetos doloridos acabam por escolher casamentos também infelizes, visto que a mente, inconscientemente, e também pela culpa, acaba por se solidarizar com os pais na infelicidade.

2. Eu vivi nesse estado por cerca de três anos. E, para mim, foi o inferno. Isto porque eu já estava separado, porém as dores alucinantes da separação não vêm antes, mas, em geral, depois. Sim, porque é depois da separação que a gente perde a face para quem nos conhecia e comia no nosso prato. Então, a arquitetura espiritual de nossa casa interior desaba, e, freqüentemente, a vida se transforma em algo semelhante à correria maluca de um cão que busca morder o próprio rabo sem conseguir. Eu fiquei tão “atarantado” que era capaz de sair de casa dirigindo, e, de súbito, ver que eu já havia errado o caminho 10 vezes, andando em círculos, literalmente, sem conseguir ir a lugar algum, de tão perdido em angústias e culpas eu me encontrava. E mais: coisas que antes eu fazia de olhos fechados, e que eram simples para mim, se me tornaram irrealizáveis, quase impossíveis; e o pior é que eu pensava que não conseguiria nunca mais realizá-las.

3. Diferentemente de você, pelo menos no que tange as declarações de sua carta, eu saí de meu primeiro casamento em razão de um relacionamento, o qual, para mim, deveria ser assumido em nome da verdade. Assim, eu tive um agente catalisador no meu divórcio, o que parece não ser o seu caso. Do contrário, se nada tivesse acontecido, provavelmente eu estaria no meu primeiro casamento até hoje. Afinal, o conjunto da alegria familiar era, para mim, muito mais precioso do que minha carência afetiva do ponto de vista de minhas necessidades interiores. No entanto, uma vez tomada a decisão, e, após ter passado o primeiro ano, as pressões, ao invés de diminuírem, apenas aumentaram. Ora, naquele momento da vida a neurose culposa cresceu tanto em mim que eu faria qualquer coisa para reparar e restaurar o bem do convívio familiar a qualquer preço, embora, dentro de mim, eu não soubesse como, e, caso conseguisse, pensava o que seria de mim, em meu coração.

4. Na realidade, no dia em que “aconteceu a primeira vez” — quando quebrei a Mesa de Pedra da Fidelidade —, o que senti era como se uma grande arquitetura, um sistema pronto e fechado, estivesse ruindo sobre a minha cabeça, algo que se assemelhava ao fim do mundo. E de fato era. Sim, era o fim daquele mundo de então. O que devemos saber é que quando um mundo acaba, reina aquilo que é sem forma e vazio, até que Deus diga outra vez: “Haja luz!”

5. Entretanto, sem querer dizer a você o que fazer, sugiro-lhe, todavia, que entre numa terapia, lugar no qual você vai poder falar e tentar reorganizar seus pensamentos, e, sobretudo, re-harmonizar sua energia espiritual, a qual está desfocada e dispersa, o que o impede e o impedirá de poder voltar a olhar a vida com um foco produtivo outra vez.

6. O que se deve sempre saber é que uma família é um sistema, e sempre que ele é alterado, algo muda. No seu caso, fica demonstrado que a harmonia que antes fazia tudo dar certo foi quebrada. E mais: nem precisou ser quebrada de modo objetivo e histórico, pois, sem nada disso, você experimenta a sua desconstrução interior como incapacidade de gerar sinergia entre as coisas, que é o que nos faz ver a vida como progresso.

7. Quanto à “Síndrome de Jonas”, fui eu quem cunhou a frase há mais de 15 anos, logo depois da “Síndrome de Lúcifer”. Portanto, eu sei do que se trata. E mais: leia meu livro “Jonas, o Sucesso do Fracasso”, que você não apenas verá as implicações de tal “síndrome”, como também verá que a questão era apenas e sobretudo “ideológica”; ou seja: Jonas odiava a quem Deus amava: os Ninivitas.

8. Ora, no seu caso, não há “Síndrome de Jonas”. O que há é um homem de saco cheio daquilo que qualquer um tem de estar de saco cheio: a maluquice eclesial reinante. Todavia, sua neurose missionária, adotiva e culposa faz com que você se sinta sem direito de não gostar até do que não gosta. E mais: faz você se sentir, materialisticamente, como um homem que tem “instrumentos” e não usa. Ora, isto ainda é a doença da culpa utilitária cristã, na qual só tem valor o que é feito para fora...

9. Para uma pessoa tão apaixonada por adoção, como você, e eu também — afinal, o projeto que você fazia foi começado por mim e motivado pela adoção de minha filha, lembra? —, imaginar a possibilidade de separação conjugal se torna algo mais doído ainda, e isto em razão de que as almas dos homens de natureza-canguru sofrem culpas de profunda angústia neurótica quando são postas diante de tais impasses.

10. Esqueça o “ministério” e qualquer outra “missão”. Sua grande missão é pacificar sua alma, ao invés de ficar se sentindo mal por não desejar estar fazendo “missões” nas quais você já não acredita, nem na forma, nem no modus operandi, e, como você disse, nem tampouco nos conteúdos. O reino de Deus, se não começar dentro de nós, não terá nenhum efeito fora de nós, não sendo nada além de ativismo humano em nome de Deus.

11. Dentro de poucos meses teremos uma Estação do Caminho aí perto de você — eu suponho que você voltou para Sampa — e, então, quem sabe, você encontrará um lugar de paz e de não afronta para seu espírito.

Quero, todavia, advertir você de que esse messianismo psicológico e raivoso de “sofrer os sofrimentos de Cristo” na forma das negações que você está fazendo haverá de se voltar contra você um dia. Isto porque Deus não tem nada a ver com isso, e atribuir a Ele essa “renuncia”, caso não venha de fé grata, não só faz mal como também acaba empurrando a pessoa para a “inimizade psicológica com Deus”.

Mesmo sabendo que você disse que nenhum material do site vai “ajudar” você, visto que você já o conhece todo, ainda assim, envio para você a seguinte meditação.
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Qual é a causa de Deus?

Pergunto isto porque vejo que há pessoas que parecem ter certeza sobre a “causa” de Deus, assim como um homem politicamente fanático parece saber qual é a causa pela qual sua ideologia existe.

Se Deus tivesse uma causa, Deus deixaria de ser Deus, pois qualquer coisa que fosse a Causa de Deus tornaria Deus seu próprio efeito.

Assim, Deus não tem causa-causal e nem causa-final.

Há muitos, todavia, que nos falam sobre a “causa de Deus” e nos dizem que vivem para servir a tal causa.

Houve um tempo em que eu achei que poderia mapear as causas de Deus na Terra. Hoje, entretanto, não tenho mais tal pretensão.

Para tais pessoas com as pretensões que um dia eu tive, Deus tem uma causa muito parecida com aquilo que a palavra “causa” significa para um ser humano que existe para um propósito.

Se assim fosse, teríamos que perguntar a Deus: “Senhor, para que existes?”

Quem assim entende, pensa que Deus advoga certas causas como um ser humano as advoga; e que Ele está disposto a se considerar vencedor se os resultados forem mensuráveis do mesmo modo como os homens medem suas conquistas.

Quem pensa assim acredita que Deus fará qualquer coisa para “ajudar” — digo, no sentido humano da palavra “ajuda” — aqueles que servem à causa divina.

Quando a gente pensa com tais categorias, Deus ganha um significado muito pequeno, pois, de fato, fica nas mãos dos homens, e tem Sua causa em total dependência de Seus agentes humanos.

Não! Deus não tem uma causa que seja mensurável, nem tem conquistas a serem ganhas por nós!

Deus não tem causa porque Deus não tem um igual. Para Ele tudo o que seja digno de uma causa é NADA, visto que para Ele, em um instante tudo pode virar coisa nenhuma.

O desejo de servir a Deus não é algo que possa ser visto como uma ajuda a Deus, mas a mim mesmo, ainda que isto me ponha na mais difícil e doce de todas as situações.

Desse modo, se alguém deseja servir à causa de Deus, deve saber que isto implicará, sobretudo, em Exame.

Quando eu me ofereço para servir à causa de Deus, de fato o que estou fazendo, mesmo sem saber, é me voluntariar para viver sob o exame divino. A causa de Deus é meu coração, não o de meu próximo nem as conquistas da igreja.

Desse modo, quanto mais me ofereço para a causa de Deus, mas me ofereço para ser escrutinado pelos Seus olhos. Isto porque Deus não tem causas temporais, e nem tem em Sua causa algo que se relacione ao que os homens chamam de causas.

Deus pode cuidar de qualquer que seja a Sua causa por conta própria. Eu é que me torno não uma causa, mas um Caso para Deus quando penso que sou o defensor da causa de Deus.

O simples fato de Deus permitir que o homem perverso tenha seu próprio caminho neste mundo já revela que Sua causa é revestida de outras Majestades, que não são as nossas.

Desse modo, tenho que saber que não sei qual é a causa de Deus, pois se a causa Dele fosse como a minha, certamente os meus inimigos já não andariam na terra.

O simples fato de Deus ser Deus e os homens serem como são já revela que a causa de Deus não está disponível aos sentidos, pois se fosse o caso, por amor à Sua causa Ele já teria acabado com todas as coisas.

A grande punição do perverso é que Deus não o vê; e passa por sobre ele, sem fazer dele e Sua causa.

Todavia, sem fazer esforços como os nossos, e andando sem causa, Deus acaba por realizar a Sua vontade, ainda que ninguém saiba como.

Jesus disse que a causa de Deus era que fosse feita a Sua vontade. Todavia, Ele não exacerba poderes a fim de realizar o que deseja. Sim, Ele não transforma pedras em pães, e nem faz a água do poço de Jacó subir contra a gravidade a fim de matar a sede do filho de Deus ao meio-dia (João 4).

Assim, a “passividade” de Deus ante aquilo que dizemos ser “Sua causa” é o que mais choca a nós e ao mundo.

O mundo não entende, nem a igreja, que Deus não age como age o homem, e nem chama de poder aquilo que nós chamamos de poder; além disso, Sua vitória nada tem a ver com as nossas conquistas.

Ora, Deus é espírito; daí Sua causa se focar na construção de um mundo invisível, por mais inseguros que fiquemos.

Quando Ele diz que o reino não vem com visível aparência, e que se instala em nós, Ele chama sua causa para dentro de mim, não como se eu fosse a causa para Deus, mas apenas como quem é o Caso de Deus.

Deus não tem causa senão aquela que faz de mim a razão de ser de minha própria missão, que é tornar-me eu mesmo, conforme a Sua imagem.

Pobre daquele que pensa que sua missão é em algum lugar que não seja o seu próprio coração.

Desse modo, os que entenderam a causa de Deus são aqueles que se ofereceram como chão para que a vontade de Deus seja plantada.

Todo aquele que pensa na causa de Deus como algo a ser construído fora perde o significado de si mesmo, ainda que diga que vive para a “causa de Deus”; visto que minha missão no mundo é a missão de quem se sabe como sendo o grande ser-lugar onde a missão acontece.

A causa de Deus é fazer em mim e de mim alguém que seja conforme a imagem de Seu filho.

No fim, temos que admitir, como fizemos no início, que a palavra “causa” é uma violência quando usada em relação a Deus; afinal, Deus não tem uma causa para ser defendida, mas apenas uma causa para ser vivida, e que não é a construção de uma torre, mas a transformação da consciência de um homem.

A causa de Deus — se assim eu puder agredi-lO com tão inapropriado termo — é a Consciência, pois todas as coisas existem por amor de nós, logo, todas elas existem para emular nossas consciências.

Quando todas as coisas couberem na consciência, então saberemos que Deus nunca teve causa, mas apenas a causa de nos fazer ver que não há causa. Nesse dia a verdade surge, e a gratidão passa ser o sentido da vida.
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Medite no que lhe disse e me escreva outra vez!

Receba meu beijo e meu carinho!

Que a Paz recaia sobre sua alma!


Nele, em Quem ninguém tem que amar sem amor,


Caio

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----- Original Message -----
From: SEPULTADO NO CASAMENTO
To: contato
Sent: Monday, December 26, 2005 12:07 PM
Subject: RESPONDENDO

Olá mano Caio.


Obrigado por sua pronta resposta. Para mim, que de uns tempos para cá tem lido seu site no anonimato do meu quarto, rindo, chorando e crescendo com tantas histórias de vida, ver minha carta publicada foi diferente. Ainda não sei bem o que senti. Mas tenho ruminado o que me escrevestes. É tocante ter acesso a você, receber sua resposta numa demonstração pura da sua vocação para ministrar a palavra a indivíduos, numa época em que o que conta é o público, e quanto maior, melhor. E isso sem ver o número da conta corrente no rodapé da carta para uma contribuição “voluntária”, ou uma oferta “imperdível” de livros de sua autoria.

Sim mano, os amigos se foram... E por aí vai.

Sobre minha carta e sua resposta, também vou por partes:


1 - Meu casamento foi um acerto de conveniências. De ambos. Eu nunca tinha amado. Mas desconfiava que amor não fosse aquilo que eu sentia por ela. Mas não tinha argumentos para dizer que poderia ser diferente. Tentei terminar uma vez. Mas não sou bom nisso. E, afinal, se parecia a coisa certa a fazer, ser um pastor casado, criar um canal legítimo de alívio sexual, e tantas outras receitas; por que não? Ela foi virgem para o altar (mérito dela) e voltou virgem da lua de mel. E eu convencido de que a coisa ia ficar feia. Não deu outra. Com 3 meses de casado tive um “affair”. E ela pouco tempo depois, sem saber do meu, teve o dela. Confessamos, perdoamos, choramos, mas nada mudou. Continuamos acreditando no milagre do cupido visitar nossos corações. Declarávamos (de vez em quando) amor mútuo, um pouco por confusão de sentimentos, por desejar que tal declaração parisse esse amor, ou simplesmente porque é o que um casal cristão tem que declarar.

2 - Mas o mais desconcertante desta história é que ela sempre sustentou que me ama. Mas hoje tenho certeza que ela fala de um amor funcional, fraterno, ou coisa que o valha. Eu poderia tecer uma série de razões práticas que me aborrecem no dia a dia. Eu sei que isso é recíproco. Mas seriam questões menores (talvez), se nos amássemos. Mas mesmo sem amor, dois amigos pelados dentro do quarto, mais cedo ou mais tarde, vão acabar na cama. Não com a gente. Depois de 7 anos vivendo essa angústia, aconselhando casais, pregando... e indo pra casa me masturbar no banheiro..., decidi romper com o ministério, que já não me animava. Eu não agüentava tanto farisaísmo, mas parecia que o errado era eu. Foi quando chutei o balde.

3 - Mas somos tão pacíficos, amamos tanto nossos filhos, gostamos tanto de família, babo tanto nas minhas crias (13 e 16 anos), que fui ficando... Sempre fomos bons pais. E percebo que ela se contenta com o cumprimento do meu papel pai/provedor/companheiro social. O mais eu posso resolver por “fora”... Com certa discrição. Isso nunca foi verbalizado. Mas é o que sinto. Se eu conseguisse aquietar meu coração passional e meu membro sexual que insiste em levantar, poderíamos ficar juntos até que a morte nos separasse. E como eu gostaria que fosse assim! Como eu amo família, reuniões, sair para passearmos juntos. Como eu gostaria de ser feliz com isso. Mas não dá. Não consigo. E o pior é que acredito que essa amabilidade vai pro brejo quando sair de casa.

4 - Hoje sinto que ela está considerando a possibilidade da separação, desde que o ônus fique comigo. Parece que ela quer ficar bem na foto. Com as crianças, com a família, igreja, amigos, etc. É meio injusto arcar com este ônus sozinho, principalmente diante dos meus filhos. Como se eu fosse o responsável por eles não terem papai e mamãe juntos. Mas...

5 - Nesse tempo... nos últimos 10 anos... Apaixonei-me 3 vezes. E ela outras, desconfio eu. Com certeza pelo menos uma eu sei. Cometi a indiscrição de ler um e-mail dela, recentemente, que estava minimizado por esquecimento no computador; por isto sei... Eu, de minha parte, apaixonei-me por uma médica. Foi louco, arrebatador. Mas sucumbiu a dificuldade óbvia do caso. Depois me apaixonei por uma cliente. Novamente loucura. Uma mulher espírita, gente boa, mas completamente perturbada. Achei que seria uma bênção na vida dela. Tortura pura! Agora estou há dois anos vivendo um romance com uma moça 20 anos mais jovem do que eu. Ela tem 25 anos. Os outros dois envolvimentos duraram respectivamente 8 meses e 1 ano. O que vivo hoje parece diferente por causa da duração, do sentimento, e do desejo de torná-lo definitivo.

6 - Estes envolvimentos foram separados por períodos de 2 anos aproximadamente, onde após o golpe da desilusão, vinha uma tentativa de contentamento com a realidade, sempre tendo como coluna o amor à família (instituição) e filhos (coração). Eu estava esperando encontrar alguém com quem valesse a pena ficar, para então sair. Pensava que para ficar só, era melhor ficar junto em razão dos filhos. Que idiotice. Na minha condição, um divorciado vivendo com a mulher, só consegue atrair gente com algum grau de carência acentuado. Sempre achei que um envolvimento com alguém casado acontece ou por se estar fragilizado, e a convivência obrigatória (trabalho por ex.) acaba aproximando os dois, ou porque há um grau muito grande de carência que acaba empurrando a mulher para o colo do cara ou vice-versa. E qualquer um com tanta carência é um prato indigesto. Eu comi nesse prato e também me ofereci nele.


7 - É claro que essa constatação põe em xeque esse romance que estou vivendo. De fato, não quero abrir mão desta relação. Mas quando penso nela em longo prazo, vejo dor. Acho que um dia ela vai acordar e dizer: “o que estou fazendo ao lado desse velho?”. Além da insegurança por estar quebrado, não me sentir inspiração para ninguém, e muito menos por ver em mim motivos para ser admirado por alguém. Mas nos apaixonamos mesmo assim. Ela recebe de mim carinho, atenção, apoio, e tesão, muito tesão. E eu recebo dela a mesa coisa, e ainda uma compreensão e paciência inexplicável a minha situação e condição. Mas, às vezes, me sinto inadequado ao lado dela. Penso também que meus filhos vão achar que sou um bobão encantado com uma garotinha. Ainda bem que não tenho dinheiro. Senão mandariam me interditar. Os pais dela são separados e sabem de tudo. Gostam de mim, e nunca deram um “xeque-mate”. Acho isso muito louco. Tenho uma filha.

8 - Mudei de cidade para tentar refazer a vida. Mas tenho vivido das migalhas que caem da mesa do Pai nestes últimos três anos. Isso tem sido um deserto para mim. Seu site tem sido meu alimento quase diário. Queria encontrar apenas alguns irmãos para orar e ler a palavra. Sem julgamentos e regras. Mas só encontrei gente querendo me arrastar para cultos especiais. Vou a igreja de vez em quando. Mas só consigo me envolver no louvor. E não em todos. A maioria é interrompida por ofertas de CDs, declarações e reivindicações, etc.

9 - Acho que minha história interior se assemelha à de Jonas, não tem a ver com a motivação, mas com certeza tem a ver com o resultado. Sinto como se tudo aquilo que tento fazer dá errado. E isto porque estou fora da vontade de Deus. Parece que meu coração generoso, minha personalidade gentil, meu desejo de ajudar, minha incapacidade de lesar o outro em benefício próprio, me inviabilizam no desenvolvimento de qualquer atividade lucrativa. Estou aparelhado somente para o ministério. Então ou faço isto ou vou viver no buraco.

Pronto. Nunca fui tão explícito. Já escrevi muito. Não vou revisar... senão não mando nada. Isso é o que restou de um cara idealista. Que tinha tantos sonhos. Queria mudar o mundo.


Um beijo mano!

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Resposta:


Meu mano amado: Graça e Paz!


Quando você contou a história de estar “só” há dez anos, num cárcere conjugal; e não somente você, mas sua esposa também; logo vi que teria de ter havido duas coisas: casamento sem amor conjugal; e, também, a “prova” de outros gostos, por você; apenas não imaginava que ela também estava tendo seus próprios “piqueniques”.

A verdade, meu mano, é que a “igreja” prefere ver vocês juntos e infelizes, desde que sejam um família estilo “Pleasantville”, existindo sem cor, em preto e branco, sem emoção, sem prazer, sem raiva, sem paixão, sem amor que ama com ternura, sem discussão, sem reconciliação, sem choro e sem gozo... — porém JUNTOS, ainda que completamente separados; e cada qual esperando o outro morrer; ou, quem sabe, dar a sorte do outro pular fora... e, assim, quem ficar, poder “posar” pras fotos do “álbum dos honrados seres abandonados”...

De fato, em tudo isto, e neste ponto da vida, as coisas que interessam são poucas; a saber: seus filhos e o cuidado honrado para com ela, conforme a justiça do Evangelho e da vida.

“Ficar bem na fita” ela vai querer, é claro. Especialmente porque ela é menos reflexiva que você e muito mais religiosa, ainda que ela mesma seja também mulher, e tenha seus sonhos e carências. Aliás, a melhor chance dela na “igreja” é ficar “bem na fita”, pois, certamente, ela conta com a realidade clubesca da “igreja” para manter alguma forma de confraria de apoio e solidariedade para com ela; ainda que você venha a ser demonizado, como geralmente acontece.

Sugiro que você passe o ano de 2006 se preparando. Tente estabilizar sua vida emocional e espiritual confiando no amor de Deus por vocês todos: você, ela, seus filhotes — e saiba: não foi culpa de ninguém. Vocês apenas casaram errado. E infelizmente demoraram demais a buscar solução verdadeira para o caso.

Também converse com ela. Diga o que sabe; ou seja: que sabe que ela é mulher e anda insatisfeita, prova disso é o e-mail minimizado que você achou; e, portanto, diga a ela que se ela desejar, à semelhança de José, você a deixa secretamente; pois, por respeito a vocês e aos filhos, diga que tudo o que você não quer é confusão. Ao contrário, diga que deseja manter a amizade, a família e o respeito.

Além disso, diga também que não vai faltar nada, mas que você não quer ser “demonizado” juntos aos filhos, pois, além disto não ser justo para com eles, seria um também atestado de desamor de vocês para com eles, por os usarem a fim de “transferir as culpas uns dos outros”, afetando horrivelmente a eles.

No caso de vocês não há culpa além da que vocês adquiriram, justamente em razão de tentarem manter vivo o que já nasceu morto.

Portanto, mais que culpa, o que há é o resultado da infelicidade mútua de vocês.

Sobretudo, conversem numa boa com as crianças; e façam isto juntos; com amor e respeito; e, no processo, não se deixe acusar e nem acuse. Além disso, nada de mencionar nenhuma das coisas que aqui você me contou; e, menos ainda, mencione a situação atual; tanto a sua quanto a dela.

Ora, o “ministério” e suas falsas cobranças de felizes-infelicidades não tem que ter qualquer valor nesta hora. “De que adianta salvar o mundo inteiro e perder a própria alma?”

Sei que na sua insegurança e carência você não quer sair do casamento sem ter “algo certo”. Mas é aí que mora o perigo. Especialmente por três razões:

1) Você não sabe se ama esta menina 20 anos mais nova. No seu estado qualquer coceira de tesão vira paixão. Cuidado!

2) Certamente o que hoje é uma delícia com a menina mais nova, ainda lhe será um grande peso e dor. Em mais ou menos 10 a 15 anos a menina vai querer um menino do tope dela. Será dor na certa. Isto sem falar que ela vai querer ser mãe. Você deseja complicar ainda mais a sua vida pondo mais um filho no mundo, sendo que você sabe que já não é um broto? Além disso, nada afasta mais os filhos do que a idéia de que “papai agora tem outros filhos”... “uma outra família...” Isto, mais do que qualquer coisa, tem o potencial de afastar você dos filhos; e, certamente, dificilmente sua “esposa” deixará de “usar” isto; e de até mesmo estimular o ciúme dos filhos em relação a você e sua “nova família”.

3) Fique só. Então se separe, caso este seja o seu desejo. E quando for se envolver com alguém, procure uma mulher, não uma menina; e, de preferência, alguém que já tenha tido sua própria vida e que esteja apenas querendo ser mulher, esposa e amante — não mãe.

Sei que tudo o que disse é duro!

Mas infelizmente, meu amigo, é a verdade; é fato; e o vejo em operação todos os dias!

Envie-me seu telefone e pedirei a um amigo, gente boa de Deus, para estar ao seu lado. Ele é amigo, homem, sensível, pastor e psicanalista.

No mais, pondere no que lhe disse e me escreva!

Um beijo mais que amigo!


Nele, em Quem cada um pode viver sem os carmas das infelicidades contratadas,

 

Caio

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----- Original Message -----
From:
To: contato
Sent: Thursday, December 29, 2005 2:52 PM
Subject: RESPONDENDO

Olá mano querido!

Suas palavras são recebidas por mim como as de um conselheiro, irmão, amigo e pastor experimentado pelo Senhor, e que ferem e curam ao mesmo tempo.

Não há nada mágico, não é? Às vezes tenho uma ponta de inveja das pessoas mais pragmáticas. Decidem e vão embora. Parecem zombar das angústias de crises como a minha.

Sua carta foi dura. E sei que você sabe onde. Parece que depois de um tempo, quando decidi retirar um tumor localizado, o médico me diz que estou com metástase. Passar a navalha na carne para extirpar uma grande parte da minha história e sonhos é muito doído, e passar de novo para extirpar meu conforto afetivo, desejo e planos, nem morfina ajuda. Sim, essa menina-mulher é a melhor parte do meu dia. Diariamente.

Dizer que a amo? Eu digo todo dia. Se tenho certeza disso? Tanto quanto tenho que as chances de um dia a “ficha cair” para um de nós é muito grande. Mas eu me apego nas exceções de relatos bem-sucedidos. Afinal, nas outras duas mulheres, a idade era compatível, o desejo de filhos estava arquivado (uma já tinha um garotinho), mas eram perseguidas por ex-maridos inconformados, medos e traumas, que tornaram a convivência um peso. A leveza de uma menina-mulher, suas des-complicações e forma esperançosa de ver a vida oxigenaram meu coração. Estou apaixonado pela paixão, ou pelo tesão? Ela está apaixonada pelo homem que a fez descobrir os prazeres do sexo, pelo pai que lhe faltou na época mais importante da sua vida? Isso tudo já me ocorreu, e muito mais.

Mas tem mais que isso: tem afinidades, companheirismo, cumplicidade, e sublimação das impossibilidades. Afinal, mano, depois de 10 ou 15 anos parece que toda relação não passa de um exercício de tolerância em memória dos bons tempos vividos. Ou seja, preferiria arriscar com alguém que amo hoje do que com alguém “compatível” que não inspire em mim paixão. E sei que nem de longe você está sugerindo isso. Mas se não sei se “salvarei meu cônjuge” como diz Paulo, como saberei se encontrarei o amor em outra?

Estou defendendo o indefensável? Acho que sim. Sinto-me como o advogado de Fernandinho Beira-Mar. Vou para o julgamento tentando reduzir a pena. A condenação já é certa. Perdoe a minha fraqueza. Tomar decisões para frustrar minhas emoções, ou de quem me ama, nunca foi meu forte.

Mas não posso e não quero reduzir minha vida a isso. Já viajei por este mundo afora, tem tantas coisas lindas para se ver, por fazer, tantas possibilidades que consigo vislumbrar, não dá para ficar assim. Às vezes me sinto como uma usina de idéias. Tudo bem que mais pra Chernobyl do que outra coisa, mas está difícil puxar a âncora e “deixar a vida me levar”.

Quero acreditar que este ano de 2006 pode ser diferente. Encontrar o equilíbrio espiritual, emocional, como você disse, e ter esperança.

Pensei muito se mandaria o que escrevi. Não diz o que eu gostaria de responder, tipo: “é isso aí, vou romper, fazer e acontecer, e neste ano novo, sai da frente...”. Mas estou precisando recarregar as pilhas, então talvez faça o que preciso.

Sinto-me meio como o jovem rico que falou com Jesus. Perguntou o que queria, ouviu o que não queria, e voltou pra casa triste. Mas não vou desprezar nada.

Ainda vou te escrever mais. Se Deus quiser, com boas novas. Tenho um carinho muito grande por você.

Agradeça sua família por permitir que compartilhemos do seu tempo com eles.

Um beijo no seu coração!
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Resposta:


Amigo amado: Graça e Paz!


Sei exatamente o que você está sentindo; e também sei que depois de anos de jejum afetivo, um encontro como o que aconteceu a você torna-se como um nascer de novo; uma espécie de primavera da vida que nunca conheceu nem a Prima nem a Vera; ou seja: de Vera-dade.

Sei ainda que qualquer coisa que se diga quando se está em tal estado de paixão enfatuada soa como blasfêmia para a alma e para todo o nosso sentir.

Creio de todo o coração que o que Deus uniu, que o homem não o tente separar. Mas também creio que o que Deus uniu, mesmo quando os homens separam, tal separação não separa; posto que o que foi feito ‘um em Deus’, jamais será ‘um’ com mais ninguém.

Também creio que 10 ou 15 anos depois, nem todo casamento vira uma sociedade feita de canseira e enfado. Na verdade eu creio que quem teve a benção de amar de verdade ainda jovem; e, com isso, também teve a chance de ser igualmente amado; vindo a casar-se; esse homem e sua mulher não se tornarão os sócios da desgraça comum, mas sim amantes, parceiros, solidários, e santamente bandidos em seu poder de se unirem contra tudo o que seja contra seu amor.

De fato, não posso dizer nem que não dará certo e nem também que dará. Só Deus sabe!

No entanto, para cada 10 casos assim, vejo um ou dois nos quais a satisfação original se manteve. A maioria das vezes as mulheres mais jovens me procuram para dizer que amam seus maridos mais velhos, que no inicio foi maravilhoso, que foram amadas e bem tratadas, que conheceram o prazer, o êxtase e o gozo com eles. Sim, que se sentiram seguras, que constituíram famílias lindas, com belos filhos...; mas que agora..., 20 anos depois, ela, que ainda está com 43, cheia de vida, com mais avidez sexual do que jamais pensara que naquela idade teria, anda cheia de libido renovada, só que o marido já está com quase 70, e anda cansado, e, não raramente, brocha ou só consegue com muito esforço.

Ora, isto quando tiveram filhos. Imagine quando não tiveram e ela quer...?

Conheço alguns amigos que se casaram com grande diferença de idade, mas eles tinham certeza de que suas companheiras sabiam o significado do que estavam fazendo, e, assim mesmo, aceitaram as possíveis implicações. E todos eles estão bem.

É certo que tudo o que Deus odeia é o repudio a mulher da nossa juventude, especialmente se o modo é perverso, o trato contínuo é de desprezo, e a pessoa é abandonada no esquecimento. Também é certo que não é vontade do Deus que é amor que duas pessoas fiquem juntas numa conjugalidade sem amor.

Deus não é Deus das aparências, mas das verdades do coração!

Ora, como sendo Ele assim, poderia gostar de ver seus filhos casados na obrigação?

Ele próprio não quis de nós amor que não fosse fruto da escolha livre, sendo essa a razão de nos haver dado a escolha da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal!

Assim, nada tenho a dizer sobre a sua já real separação, a qual apenas não foi oficializada.

“Fica proibido amar sem amor” — já decretava Thiago de Melo.

No entanto, tudo o que lhe disse tem apenas a ver com o fato de que não sei responder sem dizer o que creio.

Creio que pode dar certo. No entanto, também creio que há chances de dar errado. Se eu estivesse em seu lugar, não sendo mais possível pensar em salvar o casamento original, me separaria, ficaria solteiro, e namoraria essa menina-mulher um tempo, até que ela e você pudessem ver o que é verdade entre vocês.

Hoje é tudo delícia...

Papo na cama depois de uma transada do século é sempre bom, até quando não diz nada.

A questão, todavia, não acontece no motel, mas quando a vida também passa pela cozinha, pelas contas a pagar, pela falta de dinheiro para fazer sempre os programas de antes... Sim, passa pela necessidade de cuidar da casa, da comida, e de entender com maturidade a realidade de que você tem filhos, uma ex-esposa, e um passado a ser respeitado.

O problema aumenta mesmo é quando o amante-pai vai virando pai-amante, e, depois, apenas pai-marido... e, no final, somente pai.

E o horror é quando isto acontece na hora em que a menina-mulher está encontrando, anos depois, mulheres da idade dela, ainda namorando os garotões que poderiam ser os seus filhos...

Para mim, que me veria, me vejo, e já me vi totalmente incapacitado de namorar meninas bem mais novas — afinal, desde menino eu só gostava das mais velhas e experientes —, o mais assustador, é a questão do que conversar. Sim, porque de minha parte seria extenuante ter como companheira uma pessoa que não tivesse memória de nada de nossas existências comuns na Terra, como acontece quando 25 anos separaram os cônjuges.

Portanto, se no que você chamou de “fraqueza”, não dá pra não tentar; então, separe-se; e não vá logo para baixo do mesmo teto com a moça; antes, dê um tempo, a conheça bem, coma um quilo de sal com ela, e coisas do gênero...

Mas veja bem se o seu casamento realmente morreu, pois, caso não dê certo, pode ser que você não tenha para onde voltar. E, nesse caso, sem mágoa, a pessoa tem que aprender a viver com as conseqüências.

No mais, meu amigo, apenas peço a Deus que o guie, e que em qualquer que seja o processo você seja o melhor pai do mundo, e o melhor ex-marido que você conseguir; tendo também a chance de ser feliz para além do tesão; visto que o tesão pode acabar, mas o verdadeiro amor tem tesão pelo ser do outro mesmo aos 100 anos.


Nele, em Quem buscamos luz,


Caio