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Cartas

CAIO, EXISTE SIMBIOSE SEXUAL?

CAIO, EXISTE SIMBIOSE SEXUAL?

-----Original Message----- From: CAIO, EXISTE SIMBIOSE SEXUAL? Sent: sexta-feira, 4 de junho de 2004 19:22 To: contato@caiofabio.com Subject: ESTOU PRESO AO DESEJO Caio, Tenho tentado criar coragem pra ti perguntar uma coisa. Você acredita em simbiose sexual? Sou professor de Geografia e gosto muito de arte. Sou um homem que você poderia dizer que é "sensível". E sei que não sou viciado em sexo. Mas não entendo como eu desejo UMA mulher tão intensamente... Já faz mais de doze anos que faço amor com ela. Ninguém sabe. Tenho 55 anos e ela 52. Ela já tentou parar muitas vezes. Eu deixo ela tentar. Mas nunca dura muito tempo. E ela e eu sabemos que nunca mais na vida nada igual pode acontecer com a gente. Somos capazes de fazer amor o dia inteiro. A intensidade é alucinante e os prazeres... são impossíveis de falar. Agora ela não quer mais. Não é porque não quer não, é só porque ela acha que não tem futuro, e ela sofre muito...eu sou casado. E não tenho coragem de botar meus filhos no meio de nenhuma confusão. Ela não me perdoa por isso...e me cobra. Agora diz que é pra valer. Mas sei que ela deve estar com o útero duro de tanto desejo que tem por mim. Você acredita em coisa desse tipo? Será que tem cura? Me ajude por favor. Obrigado. Admiro muito você. Detalhe: não sou muito evangélico não, mas acho que sou cristão...sei lá...é possível ser cristão assim? ____________________________________________________________ Meu querido amigo: E serão os dois uma só carne! Sobre sua última questão, quero ser simples: ser cristão não é uma condição moral ou psicológica, mas algo muito mais profundo, e vem do espírito. Quem crê, é porque de Deus recebeu a fé. E nem por causa disso está livre de sua própria natureza humana...e nem dos sustos que ela pode nos dar. No meio cristão o “ser uma só carne” passou a ser sinônimo de sexo no casamento. No entanto, na Bíblia, em Gênesis, isso era o encontro de um homem com uma mulher, em qualquer situação. Paulo diz que até aquele que se une a uma prostituta se torna “um espírito com ela”. Ora, se há uma "união"até na relação sexual “comprada”, então, que dizer da fusão total, onde todos os sentidos participam com todo desejo e intimidade; onde a pele, os cheiros, os contornos, as formas, as proporções, a harmonia da dança, a alma, a liberdade de ser entregar por inteiro, e a insaciedade do desejo se manifestam juntos...fundindo um homem e uma mulher...senão afirmar que isto é simbiose? Sim, nem todos os que se tornam uma só carne e um só espírito, fazem uma “simbiose total.” A simbiose é a fusão total; é a convergência mais profunda dos sentidos e dos seres psíquicos também; e acontece de um tal modo que o outro é você, e você é o outro, em permanente estado de “encontro”. E isto explode no ato sexual apenas porque existe como uma precondição em ambos, numa identificação tão intensa que independende do ato sexual, pois é assim que tais indivíduos se sentem em relação um ao outro...assim como se aquilo fosse o que fosse apenas porque é o que é. Esse estado é tão sério na sua constituição, que esses pares às vezes se comunicam de modo semi-telepático, e são até capazes de visitar os sonhos um do outro. Sei do fenomeno. Já conheci algumas pessoas que afirmam ter tal experiência. Também já dei assistência a um casal ou, quem sabe, dois, que eram assim. Um dos casais eu conheci bem de perto. E o que lhes aconteceu deveria ser estudado, visto que em toda a minha vida nunca vi nada igual ao que aconteceu a eles. A simbiose era tanta que eles sentiam prazer e orgasmo até quando apenas se olhavam, mesmo que entre eles houvesse a mesa de um restaurante...e muito barulho e muita gente. Ambos me procuraram. Também não eram casados. Conversei com eles juntos e depois separadamente. Nunca vi nada igual, ou melhor, creio ter visto apenas um outro caso onde as intensidades eram semelhantes, mas não tive a chance de conhecer o fenômeno tão de perto neste outro casal; mas na situação anterior, eu mesmo fiz o acompanhamento do par. A melhor definição do fenômeno que já ouvi não me veio de um técnico na área de psicologia, mas de um leigo, um velho. Ele definiu esse fenômeno como “ligação pela natureza”. Achei interessante o conceito e a expressão. Por que? Ora, porque trata-se, de fato, de uma conjunção de vínculos e empatias sensoriais tão profundos, que é como se aquelas duas pessoas se tornassem, psico-sensorialmente, como aquelas duas irmãs gêmeas americanas que tinham duas cabeças e identidades psicológicas independentes, porém compartilhavam o mesmo corpo. Essa é a melhor imagem que me vem à cabeça a fim descrever o que acontece na alma dessas pessoas. Nesse caso, o que existe entre elas é muito mais que sexo, é uma comunhão de naturezas e de sensorialidades. E quando este nível de “síntese” acontece, se estabelece a simbiose. Ora, é verdade que há também elementos de ordem psicológica no processo—e aqui não quero falar acerca do fenômeno do ponto de vista psicológico, visto que é muito amplo—porém prefiro agora expressar apenas o fenômeno usando o imagem das “naturezas”. É como um tronco de árvore que do meio para cima vira quase-que-árvores independentes, porém compartilhando a mesma natureza e raízes. Ou é como duas árvores que se colam, e crescem juntas, e já não se pode perceber qualquer diferença ou separação entre ambas, pois, de fato, cresceram fundidas uma à outra. É como se tivessem se auto-enxertado uma na outro, só que se “auto” não foi decido por elas, pois foram coladas por algo que não era uma decisão, mas uma condição da natureza de ambas as árvores. É claro que esse é um fenômeno muito raro. Freqüentemente encontro pessoas com fixação em sexo, ou com um desejo muito forte por uma certa pessoa, mas é muito difícil encontrar pessoas que experimentaram essa “fusão”, a ponto de partilharem a mesma natureza, e se sentirem como continuidade e complementariedade sexual, física e psicológica uma da outra. Ora, não resta dúvida que se tais pessoas decidirem não mais se tocar, elas podem conseguir isto. O que nem sempre acontece—e talvez não aconteça—, é elas conseguirem parar de se desejar como quem busca ar para existir. Nesses casos, a simbiose faz com que o sexo seja uma banalidade, pois mais do que de sexo, o que essas pessoas desejam é se fundirem, visto que se sentem como se existissem em estado de permanente “fusão”. Também nesses casos, verifica-se, especialmente na mulher, uma total incapacidade de ter intimidade com qualquer outro homem; e para o homem, qualquer outra manifestação sexual que não seja com aquela mulher, se transforma em brincadeira de criança; isto quando há brincadeira; pois na maioria das vezes a comparação é tão grande, e a desproporção é tão acentuada, que o homem para conseguir alguma coisa em si mesmo, tem que evocar à memória a projeção da amada de seus desejos, e ainda assim não consegue nada além de um exercício físico que acaba em ejaculação precoce. Bem, tudo o que disse até aqui deve ter sido extremamente desestimulante para você. No entanto, não é. Primeiro desejei mostrar a você como se trata de um processo de “naturezas”, e que a separação desses gêmeos do desejo é profundamente penosa, e implica em intervenção “cirúrgica”; e ainda assim ambos continuarão a sentir o desejo, como quem sente a “existência” de uma perna que foi amputada...embora já não exista como presença física. No entanto, se ela está tentando, ajude-a; visto que se você dá por certo que não suportaria criar uma “confusão em sua família”, então é melhor deixar que a pessoa-objeto de seu "amor simbiótico" tenha a chance que deseja, que é poder não ser mais uma única entidade com você; visto que pelo que você me contou, ela deve se sentir muito só, enquanto deseja você de dia e de noite...e você não está lá... e nem acha que pode estar...dadas as circunstâncias de sua vida. Na minha opinião—e veja que aqui estou apenas respondendo a sua pergunta como homem, e não estou tentando convencer a você de nada acerca do que deve fazer—, você não deve interferir no destino dela. Se ela se sente mal, não a impeça. Pouca coisa na vida é tão séria quanto a gente não poder dar o que uma pessoa deseja, e, ainda assim, mantê-la presa à sua insatisfação; que no caso dela, é de pura tristeza, visto que deseja você alucinantemente, mas não pode contar com você no dia a dia dela. Assim, fique na sua, e não mexa com ela. Todavia, se ela voltar, e você a ela, pense seriamente em duas outras coisas: 1. Você não conseguirá nunca ter um dia de paz em sua vida enquanto vocês viveram assim, como hoje vivem: se possuindo como seria se uma fruta de incomparável sabor soubesse de seu próprio gosto, mas não pudesse comer a si mesma. Sem dúvida isso é um inferno para a alma, e rouba do dia a dia imensa energia e paz. Ora, o ideal para duas pessoas assim—e que são seres tão raros—, seria que se casassem, e pudessem viver juntos. Mas não sendo possível por qualquer razão, então ninguém deve ser “forçado” a sofrer dessa impossibilidade ad eternum, visto que é uma tarefa muito dolorida e penosa; essa de assim querer, sem poder dispor, e em paz. 2. Você, não podendo dar o que você mesmo quer, e que é tudo o que ela deseja, não deve impedi-la de buscar a própria paz dela, ainda que seja o direito a solidão, porém aquietada e pacificada. No mais, meu amigo, coloque nas mãos de Deus, e se ajude, e ajude-a—pois assim ambos se ajudarão. Todavia, se o que é, é; ninguém mudará o curso do futuro; se é que vocês um dia poderão se encontrar em circunstâncias que não signifiquem uma tortura para você—pela sua impotência quanto a não poder atendê-la por completo—, e nem mágoa na alma dela, e que tende a ser do tamanho do desejo e da necessidade que ela tem de ter você com ela. No mais, qualquer outro conselho, demandaria uma avaliação cautelosa dos vínculos de natureza psicológica que “jungiram” vocês de forma tão visceral e simbiótica. Estarei orando por você, sua família, e por ela. E se ela desejar me escrever, peça que o faça, pois terei prazer em tentar ajudá-la também. Além do mais, saiba: para mim esse é um fenômeno tão raro, que também gostaria de conhecê-lo melhor na história de vocês. Nele, Caio