Português | English

Cartas

Aos Que Aguardam Uma Gripada Resposta!

Aos Que Aguardam Uma Gripada Resposta!

Meus queridos amigos e irmãos: Desde quinta-feira que estou em processo gripal. Gripe é um troço muito chato. Só não mata mais, porque já matou muito. Milhões morreram de gripe. Hoje a gente apenas diz: Tô gripado! O que um dia foi morte, hoje não é vida, mas já não é morte, é apenas abatimento. A gripe me lembra a experiência de minha própria vida. Houve coisas no passado que hoje em dia, de vez em quando, me acontecem outra vez. No passado me faziam muito mal, hoje apenas incomodam. Mas há 25 ou 30 anos teriam me feito um mal infinitamente maior. Por exemplo: em 1984 eu decidi deixar o pastorado da Igreja Presbiteriana Betânia, pelo fato de lá haver um amado irmão que me conhecia desde a infância, e que sentia demais as minhas faltas nos cultos—eu viajava muito, desde sempre—, e que, dizia ele, em razão de sua agressiva saudade, não me deixava voltar em paz para a igreja. Mal eu chegava de viagem e já me informavam de que ele passara o domingo fazendo o trabalho de falar com um e com outro que “aquilo” não estava certo. E se alguém disse que “aquilo” não era novidade, que todos já sabiam que seria assim; e que eu atendia até muito mais a igreja do que eu mesmo prometera—ainda assim, ele não parava. Se instado a parar, ele respondia: É que eu amo o Caio, conheço ele desde menino, quero o bem dele! Isso durou um ano. Tive algumas conversas com ele. Um dia ele chorou muito. Mas não parava de agir daquele jeito, que não era ostensivo e nem agressivo na expressão—era apenas constante, linear, chato e incansável! Bem, eu ficava com a alma toda misturada: aflito, culpado, preocupado em que aquilo não fosse interpretado como desatenção minha para com ele ou a igreja... Enfim, ficava entristecido e angustiado! Hoje, se aquela fosse a situação, eu a trataria do mesmo modo. Mas confesso que sem praticamente nenhum mal estar, se é que haveria algum. É como uma tuberculose, que virou gripe e depois apenas um resfriado. Já matou, mas não mata mais; não é vida, mas também não é morte; não se deve buscar, mas não se deve dar importância além das providencias rotineiras! E sabe o quê? Gripe não assusta mais ninguém, por mais desconfortável que seja, porque todo mundo já aprendeu como tratá-la...e todos sabem que ela tem um ciclo...depois...vai-se! Todas as vezes que eu me deparo com coisas que no passado já me fizeram tomar decisões apressadas em razão de me sentir em débito com consciência alheia; ou mesmo quando ouço as milhares de “interpretações” feitas a meu respeito; ou os sutis vazamentos de ressentimento ou predisposição de alguns dados à má interpretação—,sinceramente, eu passo abatido, mas passo batido. É gripe! Fiquei insensível? Não! Há coisas que sempre me afetam e que espero em Deus sempre me me afetem, mas essas tem a ver com aquilo que minha consciência chama de erro para mim mesmo, e não tem nada a ver com o possível julgamento dos demais em relação a qualquer que seja a questão. As questões dos outros até incomodam, mas não matam. Estou razoavelmente vacinado. Mas tem gente que não está, e morre ou quase morre com isso... O que hoje me mataria seria viver qualquer forma de acomodação contra a minha própria consciência. Para mim essa “gripe” seria letal. Mas, ao contrário de mim, tem muita gente que vive bem com essa doença; já até virou resfriado que tratam com Melhoral. Não suportam o julgamento que os outros fazem, mas convivem bem com o julgamento de suas próprias consciências. Essa gripe gera um estado mortal, chamado de "cauterização mental". Bem, comecei a escrever isto em razão de que nos últimos dois dias eu não pude praticamente trabalhar, e nem responder cartas, e, hoje cedo, vi que há mais de 500 esperando por mim. Não fui a nenhum compromisso de pregação--nem no Café--, mas também não fiquei respondendo e-mails e nem ocupado com o site. Meu site foi a cama, e meu programa de gripado foi esperar a febre baixar enquanto assistia minha netinha pular, cheia de vida e graça. A Hellena faz bem ao coração! Então, já que você sabe qual é a condição de fraqueza na qual eu me encontro, por favor, só um pouquinho de paciência...irei respondendo no compasso dos espirros. Um beijo para todos e um domingo muito abençoado. E lembra-se: tudo é processo...hoje conheço em parte...um dia conhecerei plenamente. O que um dia fez mal, pode se tornar algo muito menor, se você crescer, criar anticorpos, não se entregar e não deixar que as “gripes” mandem em você. Nele, Caio